domingo, 23 de junho de 2024

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

I. OS PRIMEIROS HABITANTES

II. OS ENGENHOS E OS SÍTIOS

III. OS MILITARES DO ITAIPU

IV. OS  EXTRATIVISTAS E AGRICULTORES

V. OS PRIMEIROS URBANIZADORES 

VI. OS AVIADORES

VII. OS EMANCIPACIONISTAS 

VIII. OS COMERCIANTES E OS NOVOS URBANIZADORES

IX. MEMÓRIAS

X. CRONOLOGIA



Jardim Mathilde, antiga rua Circe (atual Heitor Sanchez) nos anos 1950. Acervo: Museu da Cidade.  



*


INTRODUÇÃO

RAÍZES REMOTAS E RECENTES DE UMA NOVA CIDADE


 

Benedito Calixto e família em visita ao Sitio Itaipu durante as obras dos Forte Duque de Caxias. Acervo: Museu Paulista. 


A história de Praia Grande tem dois momentos distintos e teve como principal divisor de águas a sua emancipação política, iniciada no começo década de 1950, em Solemar, e efetivada quase duas décadas depois, em 1967. Antes disso, a cidade era um bairro vicentino, com vida cotidiana própria, remanescente da colonização e do período imperial. 

Até o final do século XIX a expressão "Praia Grande" não era comumente usada como identificação geográfica desse extenso território litorâneo. Nos documentos disponíveis sobre esse período, o lugar era genericamente denominado de "Praia da Conceição"  porque se estendia do Boqueirão (nome muito antigo que lembra a foz de um rio, possivelmente o Piaçabuçu)  até Conceição de Itanhaém. 

Além do Boqueirão, outras denominações mais usuais eram "Porto do Campo" e "Porto do Rei", local de acesso da Ilha de São Vicente ao continente e vice-versa, bem como os sítios desmembrados das sesmarias coloniais: Sítio do Campo, do Itaipu, Boguassu e muitos outros. 

A denominação Praia Grande parece, então, ter sido adotada gradualmente pelos primeiros veranistas, comerciantes e loteadores, como indicam os anúncios  comerciais de jornais da época, sobretudo nas publicações de São Paulo e Santos. 

Em Mongaguá, já na década de 1930, existia uma estação da E.F. Santos Juquiá denominada "Praia Grande",  indicando que o nome abrangia todas as pequenas localidades balneárias da extensa orla de mais de 30 quilômetros. Com a criação do município de Mongaguá,  Praia Grande fica delimitada entre o bairro Solemar e a Ponta do Itaipu, assim como as divisas do Mar Pequeno -Sítio do Campo, Xixová e Japui - e que foram mantidas com o advento da emancipação em 1967. 

Portanto, esse nome não surgiu instantaneamente e sim como processo gradual, estimulado por esses acontecimentos já citados.

Nos primeiros anos do século XX instala-se no canto do Itaipu a fortaleza que leva esse nome, estabelecimento que, por ser território federal, vai dar ao bairro um tom de cultura de pertencimento e espírito de localidade. 

A partir desse evento militar, concluído parcialmente em 1906, os primeiros moradores da encosta do Xixová e Itaipu já começam a se caracterizarem de forma diferente dos sitiantes do Porto do Rey e do Japui, mais próximos da ilha de São Vicente. 

O mesmo aconteceu gradualmente com os primeiros moradores do Boqueirão, cuja influência de costumes vai ganhando a marca dos veranistas da Grande São Paulo, somada aos forasteiros instalados em serviço militar na Fortaleza. 

A construção da Ponte Pênsil vai acentuar essa separação lenta e quase silenciosa. O núcleo continental do lado atlântico, em oposição ao lado serra, vai adquirindo uma identidade bairrista que décadas mais tarde ganharia força e perfil emancipacionista, semelhante ao que se manifestou pioneiramente em Solemar. 

Nessas primeiras seis décadas do século XX, Praia Grande tinha uma vida cotidiana que já não era mais vicentina, na qual já se manifestava o embrião de uma nova identidade local e regional. Não havia mais afinidade de crenças e raízes entre a ilha e o continente. Os laços eram apenas jurídicos, embora a municipalidade oficial se esforçasse para manter as relações de dependência formal. 

Nesse período a vida cotidiana, Praia Grande já tinha suas particularidades bem definidas, cujas bases políticas já eram os negócios imobiliários, seus novos habitantes veranistas, os comerciantes e os prestadores de serviços. 

Esse convívio discreto, porém intenso, de quase 60 anos, entre os habitantes da primeira hora é o que se pode definir e reconhecer historicamente como o  "volksgeist", espírito popular e autêntico de Praia Grande. Este surgiu nos limites geográficos extremos e também em núcleos de ocupação nos diversos pontos medianos da orla, cuja principal referência de direção era Estrada do Telégrafo, atual avenida presidente Kennedy. 

Foi desse movimento de ocupação e convívio que surgiu o ideário e o movimento emancipador, sempre sob o risco de ruptura e fragmentação e, ao mesmo tempo, de busca permanente de unificação. São eles que até hoje, por meio dos seus herdeiros e descendentes, marcam território de governança e vigiam a cidade contra possíveis ataques de predadores políticos que podem alterar  esse status quo dos pioneiros.


DOS SÍTIOS COLONIAIS AOS BAIRROS VERANISTAS E RESIDENCIAIS

 


Desmembramentos históricos dos municípios da Baixada Santista a partir da Capitania de São Vicente. Fonte: CIDE-Central Integrada de Dados e Estatísticas do Município de Praia Grande com base no IGC e IBGE.

 

A história de Praia Grande e de alguns municípios do litoral sul foi o último capítulo da sucessão de desmembramentos territoriais da antiga Capitania de São Vicente. Eles foram estimulados sobretudo pelos negócios imobiliários, com as ocupações do comércio e serviços ligados ao veranismo. 

As primeiras ocupações demográficas ocorreram, em pequena escala, no período colonial, em função dos desmembramentos das sesmarias, grandes latifúndios cuja heranças pulverizaram os sítios e as chácaras, em média escala no período imperial. Estes últimos, já no primeiro período republicano, foram desmembrados em ranchos e choupanas e também nos primeiros loteamentos nos quais surgem as casas construídas ainda  em ritmo lento pelos proprietários individuais de terrenos ou, com mais velocidade, pelos empreiteiros. Ranchos, vivendas e casas de alvenaria conviviam horizontalmente, muitas delas sem muros e cercas divisórias, espalhadas em grandes áreas ainda desocupadas.  

Na segunda república, nos anos 1930, esse convívio simples, monótono e informal, vai ser alterado na medida que os empreendimentos imobiliários e comerciais passam a ter conotação política, quando as exigências de infraestrutura colidem com os limites das administrações públicas vicentinas, tendo como consequência os primeiros movimentos de autonomia local. 

A partir dos anos 1950, esse movimento de apropriação e exploração fundiária, por sua vez, tendem a se acelerar  ampliar em alta escala  quando empreiteiros da construção civil e novos comerciantes vislumbram o crescimento dos seus negócios por meio da organização civil (clubes e associações) e também político-partidária. É um período que coincide com o aumento da demanda veranista e das unidades habitacionais verticalizadas nos edifícios acima de dez pavimentos. 

Em recente levantamento feito pelo CIDE-SEPLAN em  2016-2017, foram identificados em Praia Grande cerca de 222 loteamentos ,   241.513 mil imóveis cadastrados: 21.661 mil terrenos e  219.852 mil edificações.

Da Vila Afonsina oficializada em 1532 surgiu primeiramente a Vila de Santos, dividindo a área insular em duas partes e que resultaria nos séculos seguintes numa incrível paisagem de conurbação. O turista, veranista ou visitante comum que percorre as estradas regionais e as grandes avenidas locais não conseguem distinguir visualmente as cidades, a não ser quando é alertado por placas de trânsito. 

Todos os municípios da região que verteram da matriz vicentina eram pedras brutas e quase selvagens nas épocas em se emanciparam para seguir seus destinos políticos, com muita semelhança aos movimentos de ocupação do período colonial. Essas cidades, com exceção de Santos, em pouco mais de 50 anos, se transformaram de matagais, mangues e praias desertas em belíssimas cidades litorâneas, povoadas principalmente pelo veranismo e pelo terceiro setor local. 

Depois de emancipação de Santos, surgiram as vilas do Planalto, fundadas inicialmente por João Ramalho e pelos padres jesuítas; e depois pelos desmembramentos das mais antigas. Surgiram em seguida as dezenas de municípios no grande entorno da Capital e no interior. Em todas elas pesou a decisão coletiva de homens de negócios influenciando líderes que tinham prestígio local nos círculos das autoridades colonizadoras, na realeza imperial e na aristocracia republicana.

No litoral sul os desmembramentos ocorreram da mesma forma, com a separação de Itanhaém, Cananéia, Mongaguá e Peruíbe. Da Vila Santos, que conquistou o título de cidade somente 1839, em ressurgiu a própria Vila de São Vicente, submetida ao porto santista; desmembrou-se Cubatão (que pertencia a São Vicente até 1824), Guarujá e mais recentemente Bertioga. Ainda existem na região sonhos, projetos e tentativas de emancipação, porém sofrendo as regras impostas pela lei complementar de 1º de novembro de 1967, com suas atualizações, limitando a criação de novos municípios.

Mesmo considerando a veracidade dos fatores econômicos como causa principal desses desmembramentos territoriais, é necessário acentuar a importância da ideologia emancipacionista na construção e dinâmica desses eventos políticos, existentes desde o período colonial. Diferente dos movimentos nativistas, que contestavam parcialmente o poder central - exigindo mudanças em assuntos conflitivos, sem alteração do status quo colonial dominante - os emancipacionistas destoavam claramente dos anteriores, pois tinham forte  influência da economia industrial e do pensamento libertário republicano, ambos do século XVIII. A contestação política tinha agora um aspecto total e não mais parcial; e exigia uma ruptura integral do status quo de dependência. 

As emancipações e desmembramentos territoriais ocorridas nas cidades do litoral paulista, considerando as regras jurídicas e as dinâmicas sociais de cada época,  foram praticamente idênticas às que aconteceram no início da colonização.  Também às que ocorreram nas primeiras décadas do século XX na região da Grande São Paulo, especificamente as do ABCD, fruto da industrialização e politização, também libertária, predominantes naquelas comunidades urbanas. Essas características semelhantes abrem duas vertentes de análise nesses movimentos históricos: a questão da identidade dessas localidades emancipadas, cujo vazio é preenchido pelas nuances culturais dos emancipadores, incluindo suas antigas raízes; e também a diversidade de ideologias presentes nesses movimentos. Nesse último aspecto, o ideal de desmembramento teve o mesmo papel comum e agregador do nacionalismo, colocando a conquista da autonomia como prioridade diante das diferenças políticas dos emancipadores. 

A questão da identidade local dos territórios emancipados não tem outra solução senão o tempo, já que o vazio de raízes não pode ser preenchido senão por simbologias recentes e o próprio civismo que marcou as lutas de libertação. Ao contrário de São Vicente e Santos, cujas famílias mais antigas migraram com as entradas e bandeiras e também permaneceram na região, rural e urbana, as demais cidades da Baixada Santista foram praticamente povoadas poucos anos antes dos desmembramentos. Isso inclui a Itanhém contemporânea, ocupada por veranistas do planalto paulista e do interior, atraídos pela sedução turística dos novos criadores das cidades atlânticas. 

Em Praia Grande, como nas demais localidades, a diversidade social e pluralidade  dos emancipadores foi composta de forças populares e ao mesmo tempo aristocráticas, de interesses ideológicos e socialmente opostos, porém contemporizados pela prioridade da libertação do domínio vicentino.

A ocupação humana do litoral paulista teve três grandes momentos entre a longa passagem da pré-história e a colonização europeia, num intervalo de cerca de 8 mil anos: a construção dos sambaquis, num período de recuo do mar, nos canais e lagunas; a presença de tribos da etnia tupy, após retomada marítima nas encostas da serra;  e finalmente as sesmarias portuguesas, que , juntamente com o aumento do nível do mar foi responsável pelo desaparecimento dessas montanhas de conchas encontradas em diversos pontos, numa extensão de 400 quilômetros da paisagem litorânea paulista. Os sambaquis e os seus ocupantes contam a história mais remota da presença humana na mata atlântica e também as transformações ambientais ocorridas ao longo dos milênios.

O geógrafo Aziz Nacib Ab'Saber (Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas, 2003) afirma que as populações são herdeiras das paisagens vividas pelos seus antepassados, em todos os aspectos, como território de produção cultural. Para ele, as lagunas e os canais eram os cenários mais comuns dos sambaquis, sendo os espaços mais seguros e estáveis para a permanência do homem pré-histórico na região. Neles havia alimento em abundância e proteção contra as intempéries praianas. 

Assim, podemos compreender que os tupiniquins que povoavam o litoral quando da chegada dos europeus foram os herdeiros diretos da paisagem dos homens dos sambaquis que, por sua vez, a transmitiram, com algumas transformações, aos colonizadores portugueses. Sabe-se que as construções de edifícios civis e militares do período colonial tinham como matéria-prima o óleo de baleia e principalmente e em grande volume a massa de conchas, significando historicamente a desconstrução dos sambaquis acumulados durante o período quaternário. O mesmo fenômeno ocorreria séculos mais tarde com a presença ainda rústica dos caçadores e pescadores caiçaras; dos pequenos sitiantes agricultores durante o império; dos primeiros veranistas, já republicanos, adquirindo centenas de lotes para edificar moradias em extensas áreas horizontais; até chegar na imensa verticalização dos atuais edifícios de 30 andares erigidos na orla.


O Ídolo de Iguape, estatueta antropomorfa lítica encontrada em 1906 nos arredores do sambaqui do Morro Grande (Reserva Ecológica da Juréia),  pelo arqueólogo Richard Krone. A peça com forma humana é atribuída aos grupos primitivos de pescadores e coletores do litoral paulista. Acervo: MAE/USP. 

 

*

CAPÍTULO I

OS PRIMEIROS HABITANTES


"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo do mestiços neurastênicos do litoral". 

Euclides da Cunha. Os Sertões. 1902.  



Registro  de 1903, da M. Pontes-Bazar de Paris. Museu da Cidade


 

OS TUPINIQUINS, OS CARIJÓS E OS CAIÇARAS

Não era raro nas primeiras décadas do século XX encontrar nesse extenso território rural litorâneo alguns núcleos indígenas, habitando choupanas espalhadas e próximas aos rios e manguezais. Os remanescentes dessas etnias pré-coloniais, como em quase todas as regiões do Brasil, foram se deslocando para regiões fora do alcance da civilização e desaparecendo aos poucos, restando na região poucos núcleos localizados em Itanhaém e Peruíbe. As etnias predominantes nessa grande extensão de terras, orla marítima, rios e maciços costeiros e serranos foram os tupiniquins e os carijós.

Eles deram nome aos acidentes geográficos da região, muitos deles sendo modificados com o passar do tempo na fala e na grafia: Japui, Paranapuã, Itaquitanduba, Xixová, Engaguassu e todo o maciço Itaypu, Piaçabuçu,  Boguassu, Momboatuba, e muitos outros, são exemplos dessas denominações. Esses ocupante primitivos talvez tenham testemunhado o maremoto  (ou a grande ressaca) de 1540, que causou danos na Vila de São Vicente e que possivelmente  alterou a configuração do estuário ou desembocadura do rio Peaçabuçu e riachos próximos, junto à Ponta do Itaipu.  

O Boqueirão sempre foi atingido ciclicamente pela agressividade das marés, cujas águas em forte movimento repercutiam, penetrando pela várzea então existente, até  nas terras próximas ao Morro Xixová. Não é de se estranhar que esse fenômeno telúrico obrigou a mudança da vila vicentina para lugares mais seguros, incluindo a velha igreja que teve seu pesado sino lançado ao mar. A alteração provocada nos riachos pelas ressacas trazia para  interior dessas terras do Itaipu um volume abundante de peixes de grande porte e também frutos do mar, o que  atraia muitos pescadores e fixava muitos moradores de choupanas nessa parte da primitiva de Praia Grande.  

Como todas as demais etnias do litoral,  os tupiniquins e carijós foram  se dispersando e desaparecendo na medida em que o processo de ocupação europeia e colonizadora firmava suas bases no litoral. Seus herdeiros mais diretos são os caiçaras, caboclos mamelucos que sobreviveram porque se misturaram aos europeus e se adaptaram ao contato e costumes dos novos povoadores. Sobre os tupiniquins, segundo relato memorial de Circe Sanchez Toschi, há provas materiais encontradas durante as escavações de obras de infraestrutura nos primeiros loteamentos , realizadas no Jardim Mathilde e na Guilhermina, locais onde foram encontrados inúmeros objetos utilitários e também de ritos funerários. Quase todas essas peças foram doadas para  o Museu do Ipiranga e também para particulares  (a família Guinle, que era proprietária de grande faixa de terras junto à Estrada do Telegrafo) e do Rotary Clube, de onde desapareceram completamente. Há também registros fotográficos desses núcleos no início do século passado, sempre em número muito reduzido de povoamento. 

Os caiçaras são tipos caboclos caipiras - caçadores, pescadores, coletores e agricultores- que habitavam as terras mais próximas aos rios e da Mata Atlântica; ou então os praianos que formavam comunidades nômades de pescadores sazonais com suas embarcações rústicas e enormes redes estendidas sobre as areias. Essa figura tradicional do caiçara, morador de choupana sobre a vegetação do jundú, existiu praticamente em todo o litoral e, por não ter vínculos sólidos com a terra, foi desaparecendo na medida em que ocorriam as ocupações de forasteiros veranistas e dos loteadores.


   

Choupana indígena tupiniquim no Porto dos Reis no início do século XX. São Vicente de Outrora. 

 



Antônio Teleginsky, memorialista e jurista especializado em assuntos fundiários, explica como funcionava o sistema de servidão das sesmarias no litoral brasileiro e o impacto que ele teve na formação da cultura caiçara. O trecho foi extraído de um depoimento ao Museu da Pessoa, em 13 de maio de 2005:

"Cananéia é pré-cabralina, São Vicente é pré-cabralino, e o povo, então, começou a se instalar nessa área antes de Cabral descobrir o Brasil. Depois veio o Martim Afonso etc. E os sesmeiros não eram os que estavam trabalhando aqui, eram portugueses ricos que arrendavam, depois queriam renda das sesmarias que eles recebiam. E o povo daqui ficou centenas de anos trabalhando, misturando-se com os índios, por exemplo, os índios mais cordatos que nós temos aqui eram os Carijós, que ocupavam exatamente esta região, o litoral de São Paulo até Santa Catarina, começando de Iguape para o Sul, eram os índios mais cordatos. Então houve uma miscigenação rápida. E essas populações tradicionais das nossas unidades de conservação são as pessoas que guardaram a ciência indígena do manuseio da terra, têm técnicas próprias de construção. Vai lá na Ilha do Cardoso que você vai ver, vai lá na Juréia, você vai ver construções de especialistas, uma engenharia fantástica, de pé direito muito grande, muito extenso, feito em cima de troncos, então exige uma técnica especial. E uma cobertura com a palmeirinha que cresce pequena, mas de uma consistência e de uma vedação à chuva espetacular".

(https://acervo.museudapessoa.org/)

Apesar de nômade, a cultura caiçara, herdada dos tupiniquins e carijós, deixou influências marcantes na região: primeiramente no tipo humano e nos seus costumes simples como o linguajar, a vestimenta despojada, a culinária exótica, o temperamento servil e que resulta numa identidade comum na população litorânea. Alguns dos seus remanescentes, há alguns anos, ainda eram vistos no pequeno comércio de orla nos quiosques rústicos ou então como ambulantes vendendo bebidas e iguarias de peixe e camarão. Caiçara hoje é apenas memória de um tempo remoto, quando Praia Grande era um extenso deserto de areia, águas límpidas e ondas solitárias. Deu nome a uma pequena vila, na época muito distante e primitiva, e que se tornou o bairro populoso e base de desenvolvimento daquela parte da cidade. Quase todos os caiçaras foram sendo substituídos pelos migrantes rústicos interioranos, cujo estilo de vida sertanejo era muito parecido com os caboclos litorâneos. Aliás, Euclides da Cunha em "Os Sertões" identifica neles o sangue aventureiro e nômade dos bandeirantes, o que nos faz concluir que os retirantes que vieram para o litoral paulista nada mais fizeram do reencontrar a antiga terra dos seus ancestrais vicentinos. A diferença entre o sertanejo e o caiçara foi o ambiente onde foram forjados. Enquanto o primeiro, mesmo aparentando fraqueza e indolência, revela no ambiente hostil as energias adormecidas, transfiguradas em força e agilidade extraordinária. Já o segundo, plenamente adaptado à calmaria do clima, à abundância hídrica e à fartura alimentar oceânica e da mata atlântica, rendeu-se mais facilmente à neurastenia. Ao contrário dos seus antepassados que permaneceram no litoral, os retirantes sertanejos que migram para as costas marítimas também despertam energias dormentes e vencem suas antigas inclinações para a fraqueza e indolência.

Curioso e necessário lembrar que Praia Grande, como a maioria das cidades do litoral, incluindo Santos, dão a seus habitantes o apelido genérico de "caiçara", um gentílico de forte tradição popular. A única cidade que possui apelido diferenciado é São Vicente, que chama seus filhos de "calungas".

 Vestígio da remota cultura caiçara no nascente bairro Aviação. Anos 1950. Acervo : Mário Leitão. 

 

"Nos anos 50 ainda existiam alguns barracos de sapé como este que se situava defronte à antiga Avenida Jacy, atual Bartolomeu Dias , bairro Aviação. Eram habitados por caiçaras. Todos tiveram um fim trágico e foram incendiados não se sabendo se por descuido ou propositalmente dado que seus habitantes cozinhavam ali dentro e utilizavam velas como iluminação. Eram maltrapilhos e viviam embriagados. Nesta foto de minha autoria está minha prima Sidneya fazendo pose."

A troca de nome da Avenida Jacy para Bartolomeu Dias traduz bem esse "fim trágico" dos caiçaras e sua moradias.

 


Caiçaras em pesca de arrasto no Boqueirão em 1927. Acervo de Francisco Sá

  

CAMINHO DA PRAIA DE BANHOS EM ÁGUAS SALGADAS

 

                         


      Publicação da revista santista Flama, em janeiro de 1939. Acervo: Fundação Arquivo e Memória de Santos.



Esta antiga matéria de jornal do início do século XIX e reproduzida Flama em 1939 pela revista revela uma interessante parceria entre o estado e iniciativa privada em 1807. Ela marcou o início da exploração de terrenos no litoral sul por meio de uma estrada ligando Santos, São Vicente, Praia Grande e Itanhaém. A estrada teria como base de traçado um antigo caminho aberto pelo Sargento-mor Manoel José da Graça e que seria concluído por essa nova obra. A iniciativa partiu de cidadãos da região, na condição de contribuintes particulares, e teve o apoio do senador José da Costa Torres, sugerindo a contratação de mão de obra e equipamentos, bem como a indicação do Tenente Coronel Engenheiro João da Costa Ferreira para comandar as obras.

Certamente essa campanha tinha como meta a ocupação de lotes públicos na orla, com a finalidade futura de comercialização de chácaras e terrenos, marca empreendedora responsável pelas principais transformações urbanas em toda essa região e que perduram até hoje.

Era também o início da mudança de costumes, com a fuga da agitação e artificialidade da vida urbana com a busca de ar puro e outros confortos tranquilizadores proporcionados pela natureza. Essa nova modalidade de lazer, que antes se restringia ao refúgio em sítios e chácaras seria estendida nas décadas seguintes aos banhos "terapêuticos" e diversões esportivas das praias. O novo costume seria a base da expansão dos negócios imobiliários que, no século seguinte, seria também a causa do desmembramento de territórios políticos da Ilha de São Vicente.

A alteração dos limites e divisas territoriais geralmente eram estimuladas pelos negócios de obras públicas, transportes e principalmente de empreendimento imobiliários. A divisa da Ilha de São Vicente entre os municípios de Santos e São Vicente foi alterada diversas vezes, primeiramente pelas linhas e estações de bondes. Num segundo momento o principal fator de mudança foi a construção do Cemitério de Areia Branca, na zona noroeste, fazendo com os limites santista avançassem sobre o território vicentino. O processo acontecia inicialmente pela autonomia parcial de distritos, depois com formação de loteamentos e arruamentos e finalmente pela emancipação, como ocorreu com Itanhaém, Cubatão, Peruíbe, Mongaguá, Praia Grande e Bertioga.

O rápido crescimento populacional está na base dessas mudanças na paisagem e na dinâmica social ao longo das últimas seis décadas, estimulado pelo turismo, atraindo crescentes fluxos migratórios em busca de mão de obra. Todas as cidades da Baixada Santista (imitação da nomenclatura geográfica Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro) sofreram intensas alterações demográficas nas primeiras décadas do século XX em função desses dois fatores.

Segundo dados do IBGE, Praia Grande tinha em 1970, três anos após sua emancipação, cerca de 19.704 habitantes. Nas décadas seguintes saltou para 66.011 (1980), 123.494 (1990) e 193.582 mil habitantes (2.000). Esse crescimento exponencial teria continuidade na virada para o século XXI, com a superoferta de unidades imobiliárias do segmento turístico na orla, acompanhada de uma intensa ocupação de terrenos próximos às áreas de mangue seguindo em linha paralela à ocupação da orla causada principalmente pela crise habitacional e pressão demográfica ocorrida na ilha de São Vicente. O mesmo fenômeno aconteceu na área continental de São Vicente (lado serra) e em Vicente de Carvalho, na periferia do Guarujá. Em 2010, por meio de uma revisão censitária, a população praiagrandense já era de 262 051 habitantes e, também na projeção do IBGE, esse número atingiria em 2020 a quantia de 330 845 habitantes.


OS NORDESTINOS

 

A presença nordestina na região é mais recente, em função das históricas retiradas do sertão, provocadas pela estiagem e secas e principalmente pela estrutura latifundiária. É óbvio que muitos membros da elite artística e intelectual do norte-nordeste sempre presença marcante nas principais transformações da nossa região, exercendo funções à altura dos seus talentos naturais. Todavia, a presença massiva dos retirantes teve maior impacto cultural e econômico no litoral, como aconteceu em vários pontos do Sudeste. 

As migrações do Norte e de algumas regiões  de Minas Gerais também ocorreram para o nosso litoral, porém numericamente inferiores às da região Nordeste. Os grandes fatores de atração dos nordestinos ao litoral estavam ligados primeiramente à demanda de mão-de-obra no porto de Santos, nas obras das ferrovias e rodovias da Serra do Mar-Planalto Paulista, na época do café e na formação do polo industrial de Cubatão; posteriormente foi motivada pelo setor da construção civil, em função do crescimento da demanda turística e habitacional. 

Em Praia Grande a presença nordestina é predominante nos bairros do terceiro setor urbano. Pressões demográficas em Santos e São Vicente, a partir de 1980, também forçaram a busca dessa região como alternativa de moradias de baixo custo. O mesmo fenômeno regional ocorreu no Guarujá e nas cidades do litoral sul.

Como nos demais municípios, os nordestinos e seus descendentes, com exceção dos que se integraram no médio e alto sistema econômico dos setores urbanos 1 e 2, habitavam predominantemente uma extensa faixa de moradias horizontais - paralela à verticalização da orla- onde levam até hoje um modo de vida próprio e estável, trabalhando nas cidades próximas, porém, em sua maioria, atuando na informalidade do mercado veranista ou prestando serviços nos estabelecimentos comerciais diversos e nos condomínios residenciais da orla.

 

 DO  PORTO TUMIARU AO PORTO DO REY

 

Porto do Rey foi a antiga região do Mar Pequeno ocupada pelos portugueses e vicentinos, também conhecida como Piaçabuçu, caudaloso rio que funcionava como via fluvial entre a Ilha de São Vicente e a Serra do Mar.

A palavra "porto" era sinônimo de comércio, alfândega e recolhimento de impostos coloniais.
O Porto do Rey também foi o cenário do Caminho dos Jesuítas, entre São Vicente e São Paulo, via Mongaguá e Itanhaém. Neste local, ainda existem vestígios materiais dessa rota entre o litoral e o planalto.

Aqui também aconteceu estabelecimento dos famosos sítios das sesmarias de Praia Grande, nos séculos XVII e XVIII, entre eles, o Itaypu, o Guaramar, Campinas, Sítio do Campo, Momboatuba, Pai Felipe, Taperinha e muitos outros que se desmembraram do mais antigos. Alguns desses sítios se estendiam até a orla atlântica, onde hoje estão os bairros Jardim Guilhermina e Boqueirão.

Hoje grande parte do Porto do Rey é um parque municipal de lazer, há muitos anos  conhecido como "Portinho", e que pertenceu a São Vicente até 1967. O acesso ao local, antes da Ponte Pênsil, era feito por canoas ligando o Porto Tumiaru e os sítios do Japui. 

Duas travessias regulares funcionavam da ilha ao continente no início do século XX: entre o porto Tumiarú e o Porto do Rei que era explorada pelas embarcações de Antero de Moura, na época comerciante e sitiante em Praia Grande; e outra entre o Morro dos Barbosas e o Japui, que era de Antão de Moura, registrada na segunda foto por Benedito Calixto (Museu Paulista). Antão de Moura também residia em Praia Grande, na orla do Boqueirão, e era prefeito de São Vicente. Tinha também nessa linha regular de acesso ao continente e litoral sul o Yatch Etelvina, de propriedade de Luiz Pinto Amorim, embarcação maior, destinada às cargas mais pesadas. Fontes: Circe Sanchez Toschi e Edson Telles Azevedo.




Nota de A Tribuna em 1909. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.


DE YATCH PARA PRAIA GRANDE

 

Iate Etelvina - Em dia do mês de setembro de 1892, a pacata população de São Vicente era surpreendida com a entrada, barra a dentro, de avantajado iate, velas pandas pela brisa de leste, e que, sob a praticagem do pescador Manoel, atracou no ancoradouro do Paquetá, próximo de onde se vê a Ponte Pênsil. O fato despertou natural curiosidade, pois não havia notícia de que, até então, a não ser, possivelmente, as naus de Martim Afonso, outra qualquer embarcação de maior porte e calado houvesse transposto a nossa barra.


O veleiro calava 12 pés, medindo 31 metros de comprimento, por 5,50 de largura. Havia sido fretado no Sul do País e contratada a sua viagem, até nossas águas, por Luiz Pinto de Amorim, o vicentino de adoção, mas cordial amigo da nossa gente e das nossas coisas. A embarcação, de avantajado porte na classificação do tráfego costeiro, vinha com sua capacidade de carregamento completa, trazendo para São Vicente grande quantidade de dormentes para a linha de bondes, sacos de milho, de farinha de mandioca, animais para abate e outras utilidades.


Era seu comandante e dono do carregamento o próprio Luiz Pinto de Amorim, trazendo como tripulantes vários veteranos na navegação marítima, afora o cozinheiro. Depois do exame da documentação de bordo e desembaraço do carregamento pela Capitania dos Portos de Santos, mandou ele proceder à descarga de parte dela para uma balsa, sustentada por duas canoas grandes. O êxito dessa primeira viagem encorajou-o a empreender outras mais, em seu benefício e no do comércio e da população vicentinos, que assim viram ampliado o seu campo de atividades, bastante restrito nesse tempo.

O conhecimento deste fato, merecedor de registro, decorridos que são 75 anos, devemo-lo a subsídios colhidos junto ao seu filho José Santos Amorim, atualmente com a provecta idade de 89 anos, e do dileto amigo Juca Azevedo, com 83 anos. (Vultos Vicentinos).



                                                     


Luiz Pinto Amorim, proprietário do Yatch Etelvina. Bico de pena in Vultos Vicentinos. Edson Telles de Azevedo.

 

PRAIA DA CONCEIÇÃO



Um curioso guia turístico editado pela Prefeitura de São Vicente em 1952 constam informações interessantes sobre o então bairro de Praia Grande, incluindo denominações antigas de acidentes geográficos que hoje não são mais utilizados, a exemplo do nome cristão primitivo da região:  

 

"Praia Grande: Estação ferroviária e povoação, situada no quilômetro 223.617 m, na Estrada de Ferro Sorocabana - Linha Santos-Juquiá. Seu primitivo nome era Praia da Conceição; está situada no município de São Vicente e vai até Mongaguá - divisa com Itanhaém -, tendo como ponto de partida a Ponta de Itaipu. A sua extensão nesse trecho é de cerca de 24 quilômetros". 

O sítio e a praia de Itaquitanduba era pronunciado e grafado com "b" e não com o "v" atual "Itaquitanduva", revelando a perda do antigo sotaque português ainda bastante influente na época.

As origens mais recentes de Praia Grande, que dão melhor sentido e significado como sociedade histórica, entre meados do século XIX e as primeiras décadas do XX, revelam a presença de sitiantes de lazer, vicentinos e santistas, que ultrapassavam os limites do Japui e desfrutavam as belezas naturais da orla, do mangue e da mata continental para caça, pesca e banhos em águas salgadas.

A preocupação desses primeiros empreendedores era abrir uma estrada que pudesse facilitar o acesso e ao mesmo tempo ampliar os negócios de ocupação, geralmente compra e venda de terras. O transporte terrestre na região era feito por antigos caminhos abertos pelos próprios ocupantes ou então, na maior parte do ano, pela areia da praia, mesmo quando o trajeto passou a ser feito por automóveis e jardineiras que levavam passageiros de Santos a Itanhaém. No período colonial o transporte era feito à pé, à cavalo, carroças, carros de -boi e também por canoas, navegando pelos rios e pelo Mar Pequeno.


Os posseiros - alguns fixos e outros nômades, que se deslocavam para os locais mais distantes quando seus recursos de sobrevivência se tornavam escassos ou quando incomodados por outros ocupantes. A hidrografia vicentina, insular e continental era composta por dezenas rios, riachos e nascentes em perfeito estado natural e que depois foram canalizados e extintos pela urbanização. Nem é preciso imaginar a diversidade da fauna e da flora nessa imensa reserva atlântica.

Os sitiantes. Havia também, desde o período colonial, os sitiantes fixos, pequenos agricultores e criadores - proprietários negociantes que transportavam sua produção por meio de embarcações fluviais, tendo como pontos de ligação os portos fluviais e marítimos. Um censo realizado pelo governador da Capitania de São Paulo em 1675 - Morgado de Mateus - identificava ocupantes e moradores entre Praia Grande e Mongaguá, em diferentes condições sociais, seja como proprietários ou como arrendatários. Alguns desses núcleos são os mais lembrados por serem a origem mais remota de muitos bairros e vilas atuais, divididos geograficamente entre a orla (sítios de praia) e o mangue, que em alguns mapas aparecem com a denominação de "pântanos de águas salgadas", próximos ao Mar Pequeno.


Parte do sítio Itaypu em 1901, ainda com residências no sopé do maciço do Xixová.

 


CAPÍTULO II

OS ENGENHOS E OS SÍTIOS 


 

Benedito Calixto e família em visita ao Sitio Itaipu durante as obras dos Forte Duque de Caxias. Acervo: Museu Paulista.

 

A área continental vicentina, em toda a sua extensão continental de orla e serrana sempre foi a grande fonte de abastecimento para a parte insular urbanizada que no decorrer das ocupações urbanas foram se desfazendo das práticas agrícolas de consumo familiar e comercial, incluindo o fornecimento de lenha e minérios de construção civil. Também os sítios, que antes eram originalmente áreas produtoras de gêneros alimentícios, tornaram-se chácaras de lazer e mais tarde empreendimentos e loteamentos imobiliários. Durante os séculos XVII e XIX toda essa região continental permaneceu estruturada nos antigos moldes da colonização, com grandes extensões de terras, as sesmarias, mais tarde divididas sucessivamente em propriedades menores, em função do crescimento do número de habitantes em diversos núcleos formados geralmente por lavradores e pescadores. Motivados por essas mudanças demográficas comerciais, o bairro Pria Grande passa ser alvo de interesse crescente de novos empreendimentos. O prefeito de São Vicente , Antão Alves de Moura, foi o mais destacado  empreendedor, público e privado, a perceber o potencial de crescimento dos negócios do bairro. Além de adquirir propriedades e residir na praia do Boqueirão, Moura se empenhou politicamente na construção da Ponte Pênsil  e na melhoria da estrada para a Praia Grande argumentando junto ao governo do estado e também federal a questão do abastecimento agrícola e a logística de pessoal efetivos e equipamentos militares da Fortaleza de Itaipu, que continuava isolada da área insular (Santos e São Vicente). Outro exemplo de interesse empreendedor, diante do plano da construção da ponte, da instalação de linhas de bondes e também da ampliação da estrada rodoviária até Itanhaém, foi o financista Alexandre  Dickson, que anunciou a transformação numa parte do sítio Boguassu em  um complexo educacional e hoteleiro, em moldes britânicos, denominado "Villa Nova Escócia".

 

O SÍTIO ITAYPU. Da encosta do maciço próximo ao Morro do Xixová até a ponta de praia que, segundo alguns autores antigos, era o local onde desaguava o rio Piaçabuçu, área que pertenceu ao vicentino José Gonçalves Aguiar (1711-1843) - último capitão-mór de Portugal na região. No recenseamento de 1823, o Capitão-mór Aguiar aparece como proprietário de 200 alqueires e grande produtor de farinha de mandioca.

É provável que, antes do século XVIII, toda essa área de mais de 1,5 milhão de metros quadrados, depois desmembrada em sítios menores, tenha sido no período colonial uma sesmaria com estrutura de engenho, ou seja, extensas plantações de cana-de-açúcar, casa senhorial e senzala de escravizados, semelhante ao engenho de Jerônimo Leitão, no Porto das Naus; e o engenho do Governador (depois dos Erasmos) no sítio vicentino de São Jorge, hoje pertencente a Santos. Parte dessa propriedade do Itaypu - da ponta do maciço até o Sítio Itaquitanduba- posteriormente foi desapropriada da pela União e transformada nas fortalezas militares de proteção da Barra de São Vicente e do Porto de Santos.

Também faziam parte dos sítios dessa região, já na segunda metade do século XX, as propriedades do Japui, depois cortadas pela avenida Tupiniquins, ocupadas pelos bananais de Luiz Antônio Barreiros e depois pelo seu loteamento; pela Pedreira Itapoã, de Moacyr Lapetina; e pelo Curtume Cardamone, já próximos do porto de travessia e depois Ponte Pênsil (Saturnino de Brito).

No Porto do Rei e sítios mais distantes, a presença de vicentinos e santistas era muito comum no século XIX e primeiras décadas do século XX. O comerciante e capitalista Francisco Emílio de Sá, segundo biografia registrada em Vultos Vicentinos, residente na Vila Rica de São Vicente (rua visconde do Rio Branco), possuía chácara e diversos terrenos no Porto do Rei, local onde também escondia escravizados fugitivos, vindos do interior em busca de proteção nos territórios libertários e abolicionistas da região.

SÍTIO ITAQUITANDUBA- Propriedade de Manuel Venâncio da Costa, mais tarde transformada em Parque EStadual Japui-Xixová-Itaipu, incluindo a Sítio e praia Paranapuã.

SÍTIO SUÁ - Parte do sítio Itaypu, dividido após a morte de José Gonçalves Aguiar (1843) ficando para José Manoel Gonçalves Ribas

SÍTIO PARANAPUÃ - de fronte a ilha do Mudo (Porchat) até a divisa com Itaquitanduba, parte do Itaypu, posteriormente empossado por João Azevedo Cunha e João Pereira Machado e depois confiscado como área estadual de preservação.

SÍTIO PRAINHA - propriedade do Sargento-Mor José Theobaldo da Costa, transferida após sua morte para Antonio José da Silva Bastos. Hoje é área pública de São Vicente, com acesso pela praia e avenida Saturnino de Brito, até o portão de Paranapuã.

SÍTIO PAI FELIPE no antigo Caminho do Coquepoçú;

SÍTIO MOMBOATUBA, de Francisco Miranda Tavares;

SÍTIO GUARAMAR, de Francisco Antônio da Silva- com registro de 30 de maio de 1856, sendo somente a terça parte dessa extensa área, segundo o registro paroquial, e que fazia frente ao Rio Pequeno e ao Porto Pequeno. Depois pertenceu a João Antunes Santos, sucedido já século XX, por Manoel Alves e sua esposa Deolinda Alves Caneca.

SÍTIO SÃO SEBASTIÃO, parte do Sítio Guaramar e SÍTIO SÃO GONÇALO.

SÍTIO XIXOVÁ, já no período republicano, de José Pereira Soares, imigrante português, bananicultor e comerciante, que ergueu a Capela de Nossa Senhora da Guia, em 1963.  

SÍTIO TAPERINHA – Propriedade de João Azevedo Cunha.

SÍTIO BOPEVA - Isaias Cyrino da Silva adquiriu parte desse sítio, conforme edital de A Tribuna em 1913. O mesmo adquiriu na mesma data parte do SÍTIO TUBAYARU

SÍTIO MOMBAIUBA - Oswaldo Sampaio adquiriu a 3ª parte desse sítio , conforme o mesmo edital. 

 SÍTIO BOGUASSU (Jardim Guilhermina), adquiridos mais tarde pela famílias Sanchez e Guinle (homenageando Guilhermina Guinle), estes últimos então sócios proprietários do Porto Organizado de Santos e também proprietários do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro.

SÍTIO DO CAMPO – sesmaria pertencente originalmente a Agostina Rosa de Aguiar, depois subdividido em propriedades menores.

No período colonial e até há algumas décadas mais recentes, essa região, de forma mais ampla, também era chamada de PORTO DO REY. Segundo o escritor e jornalista Afonso Schmidt, então morador do Itaypu, toda essa área rural formava uma grande comunidade caiçara que residia em ranchos de sapé espalhados numa paisagem natural bem diferente até as primeiras década do século XX. Alguns deles estavam tão próximos uns dos outros, dando a impressão de formarem um vila, que não passava de um casario de pescadores, "com vendolas, gente descalça, de camisa-de-meia e chapéu praiano, aglomeradas pelas portas". O acesso de Santos e São Vicente era feito pela travessia de canoas entre a ilha e o continente. O restante do caminho era feito a cavalo ou carro-de-boi, dependendo do tipo tipo de carga e da distância a ser percorrida.

SITIOS CAMPINAS, CAMPININHAS, CAMPINAS DO PADRE, CAMPINAS LEGADO DAS ALMAS. Atribuído em 1817 ao Sargento-Mor José Teobaldo da Costa (reacoplado com uma parte no Sítio do Campo), tendo como sucessor seu genro Antônio José da Silva Bastos.

SÍTIO NOVA ESCÓCIA. Antigo  sítio Boguassu, exploradao durante muitos anos como produtor de abacaxi e melancia  por Ferreira Laje, empresa atacadista de Santos. Na posição oposta à orla, era cortado pela Estrada do Telégrafo e, posteriormente a ferrovia Santos-Juquiá, construção que se tornou possível pela doação terras dos Guinle - então sócios do novo porto de Santos e interessados no desenvolvimento do transporte regional. 

 

A VILLA NOVA ESCÓCIA 

 


  Edital  de A Tribuna, em 23 de maio de 1909. Hemeroteca digital BN.

 

Em 1913 a propriedade desmembrada do sítio Boguassu transforma-se Villa Nova Escócia, um arrojado projeto  dirigido por  Alexandre Dickson, gerente do Banco Belga, na praça de Santos. Tratava-se de um complexo e, bem ao estilo neocolonial europeu, leia-se imperialismo cultural britânico, aplicado em diversas regiões do planeta a partir da segunda metade do século XIX . Era o mais difundido projeto de ascensão social almejado pela classe média: formar os filhos na cultura industrial e comercial britânica, a mais poderosa do mundo contemporâneo e que proporcionava o ingresso nas maiores e mais influentes corporações empresariais. Milhares de jovens brasileiros estudavam e se formavam em internatos ingleses e que já se espalhavam nas regiões portuárias de influência inglesa. Essa era ideia de Dickson. Fazia parte do complexo uma grande estrutura educacional no formato de um colégio de internato, acoplado a uma estrutura de lazer e hotelaria, como descreve o anúncio publicado no jornal A Tribuna em várias edições.   

No ano seguinte,  o empreendimento já estava numa situação completamente oposta ao que havia sido descrito na propaganda anterior,  sendo agora anunciado num edital judicial de execução hipotecária de 9 de novembro de 1914, publicada seguidas vezes. 

O empreendimento planejado para funcionar em extensa área entre a orla marítima e os sítios rurais de Praia Grande pretendia atrair uma seleta clientela paulistana e interiorana potencialmente interessada numa educação aristocrática da Era Vitoriana, considerada modelar e preparatória para o acesso às melhores universidades e empresas da Inglaterra, EUA e Canadá.  Conforme foi descrito num edital de leilão, propriedade possuía 2 mil pés de cajueiros e muitas outras curiosas características exóticas. Aparentemente inexplicável , o projeto de Dickson sofreu um revés e rapidamente tornou-se uma massa falida exposta em leilão judicial. 

O que teria acontecido?

Provavelmente o revés tenha ocorrido após a eclosão da I Guerra Mundial, causando uma incerteza e insegurança e, consequentemente, uma diversidade de distúrbio na economia como os fracassos nos negócios e inadimplência nos pagamentos de dívidas  bancárias, que era a principal fonte  financiadora da maioria do empreendimentos. 

Não foi somente o negócio de Dickson que foi atingido. Um grande leilão em Santos anunciava em 1915, um ano após às declarações de guerra na Europa,  a oferta da massa falida de Antão de Moura, prefeito de São Vicente  e titular de inúmeras propriedades e negócios em Santos, São Vicente e no então bairro de Praia Grande:

No início de dezembro de 1914 o jornal  santista A  Tribuna publicava  na coluna da sucursal de São Vicente seguidas notas sobre o  jovem vicentino Paulo Horneaux de Moura, filho do capitão Antero de Moura, delegado de polícia e também negociante em Praia Grande. O moço teve que abandonar os estudos na Inglaterra e retornar às pressas da Europa quando a família foi surpreendida pela notícia da eclosão da Grande Guerra. O retorno do jovem estudante de engenharia em Manchester, que havia frequentado uma escola preparatória em Southport, finalmente aconteceu  no final do mês de dezembro, a bordo do paquete "Amazon".  

 

 

A PUBLICIDADE E O FIM  

DO EMPREENDIMENTO DE DICKSON EM PRAIA GRANDE

 

Villa Nova Escócia" – A construção de um grande estabelecimento de ensino.

 

Dentre os melhoramentos que se notam na Praia Grande, destaca-se a “Villa Nova Escócia" de propriedade do sr. Alexandre Dickinson, gerente do Banco Belga.

Na propriedade que vamos descrever vai ser construído um grande edifício para um estabelecimento de ensino, nas condições Anglo-Americano

A “Nova Escócia" é o antigo sítio Boguassu" transformado do em uma villa, com plantações, avenidas, bosques, caramanchões, lagos, mirantes, etc. Está situado na aprazível praia que se estende desde São Vicente até Itanhaém, junto do caminho de Porto do Rei, em frente para o mar,  tendo entrada pela praia e pela estrada.

A villa tem meio quilômetro de frente por um e meio de fundos. Entre tantas condições especiais que se encontram a importante propriedade, cujo futuro se pode avaliar, notam-se, a parte da beleza natural, rios que passam pelo terreno se prestam para passeios em pequenas embarcações. A “Nova Escócia” está organizada para ponte de recreio onde se pode fazer pic-nics de preferência qualquer arrebalde de Santos. Ventilada pela brisa marítima e servida pelo mar que na encantadora praia de se bate com intensidade, as famílias encontrarão na “Nova Escócia” o melhor ponto de recreio e uso de banhos.

Em uma área de 500 metros de frente e 200 de fundo será construído o grande edifício do Collégio.

O projeto do edifício terá dois andares com frente para o mar acomodando 600 pessoas. Pelo projeto que vimos, pelas condições especiais, o  Collégio será um dos melhores do nosso Estado. Basta ver que os alunos terão parques para suas diversões, campo de volley-ball e uma excellente praia para passeios, onde poderão multiplicar seus divertimentos. 

Para facilitar as visitas das famílias do alunos, será construído uma pavilhão junto ao Collégio, com hotel, restaurante e bar, com condições de comodidade, higiene e conforto.

Dessa forma, não só as famílias dos alunos, como qualquer veranista, poderão fazer estações de banhos (...)


EXECUÇÃO HIPOTECÀRIA


Parte do antigo Boguassu e depois propriedade do comerciante Alexandre Dickson, o sítio Nova Escócia foi alvo de uma ação judicial de execução hipotecária no fórum de Santos a pedido do credor José Ferreira Lopes. O Nova Escócia tinha  como vizinhos  os proprietários: Ubert Simon (Taperinha), Antônio da Silva Bastos (Sítio do Camargo) e Antônio Militão de Azevedo, conhecido leiloeiro vicentino que atuava na praça de Santos. 

 

A propriedade tinha os seguintes bens: 

" Uma casa de morada no alto sitio construída de taboas e coberta de telhas ardosias, avaliada por quinhentos mil réis. 

Uma casa de madeira, coberta de telhas ordinárias, avaliada por quatrocentos mil réis. 

Uma cocheira, avaliada por duzentos mil réis. 

Um gallinheiro, avaliado por cem mil réis. 

Um motor hydraulico, avaliado por quinhentos mil réis. 

Dois mil pés do cajueiros*, avaliados por um conto de réis. 

Diversas bananeiras, laranjeiras e outras arvores fructiferas. avaliados por.... quinhentos mil réis. 

Tudo, no total de 33:200$000 (trinta e tres contos e duzentos mil réis). E, para que chegue ao conhecimento de todos, mandei expedir o presente edi. tal, que será affixado nos logares publicos do costume e publicado pela imprensa local. Dado e passado nesta cidade de Santos, em 6 de novembro de 1914. 

Eu, Eliziario de Mello Cardoso... escrevente, o escrevi. E eu. Itto Macuco Borges. escrivào, subscrevi. Francisco de Paula e Silva".

 


A FAMÍLIA BASTOS

 

Entre os antigos sitiantes da área continental da então orla vicentina identificamos os Bastos, uma família de origem portuguesa que habitava a extensa área que ia do Japui ao atual Sítio do Campo, faixa de terras entre a praia da Guilhermina e o Mar Pequeno. Ali situava-se também o Porto do Rei, estabelecimento colonial e depois imperial cuja nomenclatura indicava a circulação de mercadorias e posto de arrecadação alfandegária. Entre os seus membros mais antigos aparecem nos documentos vicentinos figuras como António Teixeira de A. Bastos, produtor de água ardente; Cesário Bastos, advogado promotor de justiça, nascidos e moradores de sítios no Porto do Rei; Antônio José da Silva Bastos, pai de Maginos Bastos e avô de Tude Bastos.

Segundo o historiador militar Muniz Lima, na construção inicial da Fortaleza do Itaipu, em 1906, as obras foram conduzidas pelo 24º Batalhão de Infantaria, na época acampado no antigo sítio vicentino, sob o comando do capitão Tude Bastos Neiva Lima. Os Bastos provavelmente viviam da arrecadação de arrendatários e também eram conhecidos bacharéis formados em São Paulo muito atuantes em Santos e São Vicente. 

 

CESÁRIO BASTOS

 

Na mesma Praia Grande vicentina, o casal de antigos sitiantes José da Silva Bastos e Maria Plácida da Costa Bastos, que moravam num Sítio no Porto do Rei, tornaram-se em 14 de setembro de 1849 pais do menino José Cesário da Silva Bastos, que se tornaria importante figura da vida pública paulista:

"O dr. José Cesário da Silva Bastos foi dos maiores chefes políticos do Município ou o maior deles, segundo a opinião insuspeita de observadores de ontem e de hoje. Segundo comprova Costa e Silva Sobrinho, em 'Santos Noutros Tempos', nasceu ele em São Vicente em 16 de setembro de 1849 e [foi] batizado nesse município em 17 de novembro do mesmo ano, sendo seus padrinhos o padre Manoel de Ascensão Costa, que ministrou o batismo, e d. Mariana Benedita de Faria Albuquerque, sogra do Marquês de São Vicente". (Almanaque de Santos, 1971).

Antônio da Silva Bastos e José Cesário da Silva Bastos foram membros históricos do Partido Republicano Paulista e também da Comissão Commemoradora do IV Centenário do Descobrimento do Brasil, movimento formado por políticos vicentinos, santistas. Cesário Bastos foi nomeado orador oficial do grupo. Essa comissão serviu de base fomentadora da produção de monumentos e obras de arte de cunho histórico e memorial elaborados por Benedito Calixto, como o quadro "A Fundação de São Vicente", acervo do Museu Paulista.  

O fato foi noticiado por diversos jornais da época, como esta nota do "Lavoura e Commércio", em 9 de agosto de 1898:

"Conforme fora annunciado, realisou-se hontem em S. Vicente a importante reunião para o fim da leitura e discussão dos estatutos da Sociedade Commemoradora do 4º Centenário da descoberta do Brasil. Os estatutos foram aprovados e eleita a seguinte directoria: presidente, capitão Gregorio Innocencio de Freitas; vice-presidente, Antônio José da Silva Bastos; 1ºsecretario, cap. José Leite Sobrinho; 2º dito, Saturnino Argollo; tesoureiro,Coronel Antonio Carlos da Silva Telles; orador, dr. José Cezario da Silva Bastos, e mais 24 conselheiros". 

POLIDORI, Eduardo. Fundação de São Vicente, de Benedito Calixto: composição, musealização e apropriação (1900-1932). USP,  São Paulo, 2018.

 

O senador José Cesário da Silva Bastos. Site Novo Milênio. Santos. 

 

O Dr. José Cesário da Silva Bastos é nome de praça em São Vicente e da primeira escola pública de Santos. A Escola Estadual Barnabé, em Santos, também foi fruto da sua iniciativa de ampliação do ensino primário. Cesário talvez tenha sido o membro mais importante e influente dessa família praia-grandense. Depois de cursar a Faculdade de Direito de São Paulo tornou-se promotor público em Araraquara, ingressando posteriormente nas lides republicanas e cuja carreira repercutiu na intendência e câmara municipal de Santos. Posteriormente torna-se senador na Assembleia Legislativa de São Paulo:


"Em 1894, foi eleito senador do Estado na 3ª legislatura republicana, servindo à alta Câmara paulista de 1894 a 1897, para a qual foi reeleito por mais duas vezes, exercendo, portanto, o alto cargo de 1900 a 1910. Após a reforma constitucional, o dr. Cesário Bastos ainda voltou ao Senado estadual, na primeira legislatura, que se desdobrou de 1922 a 1925, figurando ao lado de Reinaldo Porchat, Galeão Carvalhal, Antônio Carlos da Silva Teles e outros. Jornalista, orador consagrado, chefe político de talento e inteligérrimo defensor das causas justas, o ilustre homem público foi coadjuvador de instituições assistenciais, culturais e sociais, com inestimáveis serviços prestados à Santa Casa e à Beneficência Portuguesa. Desta última, foi orador em várias solenidades e dedicado defensor de interesses econômicos junto aos governos da União e do Estado, sendo sócio honorário em 1906 e sócio benemérito em 1910" ( Almanaque de Santos, 1971)

Cesário Bastos também é nome de uma conhecida avenida em Santo André, cidade que escolheu para viver após a revolução de 1930 e onde faleceu em 8 de outubro de 1937.

 

Cesário Bastos na Galeria do Senado Paulista, em 1900, sob a presidência de Cerqueira César. Acervo da Assembleia Legislativa de São Paulo. 

 

MAGINO BASTOS

 

Magino Bastos, que tinha escritório de advocacia em Santos em sociedade com o Dr. José Monteiro, vereador em Santos e futuro prefeito de São Vicente, tornou-se um venerado político vicentino, como demonstra esse pequeno texto biográfico que justificava a denominação de uma rua no bairro Catiapoã (leis municipais de 1949 e de 1958): 

“São Vicente produziu, em era pretérita, um varão ilustre, dos mais dignos, dos mais conspícuos e altaneiros que um solo pode conceber. Chamou-se Dr. Magino Bastos, pai do Dr. Tude Bastos e filho de Antonio José da Silva Bastos. Magino Bastos foi o primeiro vicentino formado pela Faculdade de Direito de São Paulo. Em 1907 desempenhou as funções de vigilante do tradicional colégio de Direito. Indicado para vereança em 1911, foi o primeiro legislador eleito por grande esmagadora maioria de votos, apesar de pertencer à oposição, fato inédito naquela época em que o sufrágio não era secreto e que as consciências e os eleitores eram severamente vigiados pelos partidos a que pertenciam. Era casado com a Sra. Maria Emília Bastos, com quem teve o filho Tude Bastos,  um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente em 1959. Magino Bastos faleceu em 1937”. (Narciso Vital de Carvalho. São Vicente. Conheça as ruas de suas cidade, 1978).   

 


Diligência judicial ao sítio "Pitapitanduba" no forte Itaipus, conforme nota da sucursal vicentina do jornal A Tribuna em 1912. Um dos participantes é o advogado  Magino Bastos. 

 

 

TUDE E DAYSE BASTOS

 

Figura histórica e também folclórica de Praia Grande, Tude foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente e também vereador, eleito em 1959. Alguns meses depois renunciou. Era engenheiro civil formado de Escola Politécnica da USP em 1937. Seu pai, Dr. Magino Bastos, era advogado e também foi eleito vereador de São Vicente em 1911. Magino era filho do sitiante Antônio José da Silva Bastos. A mãe de Tude era Maria Emília Bastos. Seus pais eram proprietários da Mansão Caramuru, onde hoje é a Prefeitura de São Vicente, em frente ao shopping Brisamar. Tude casou-se com Dayse Bastos, com quem teve os filhos Lana e Tude Júnior.  Tude e Dayse foram proprietários ou posseiros de ampla faixa de terras em Praia Grande (sítio do Campo e parte do Guaramar) supostamente herdado do bisavô, motivo pelo qual tomavam parte em conflitos e acordos judiciais fundiários, geralmente resolvidos com a desapropriações ou doações compensatórias de terrenos para uso público e comunitário.

 


Fundadores do IHG de São Vicente em 1952. Tude Bastos é o segundo, em pé, da esquerda para direita. Fonte: Poliantéia Vicentina.

 

"TUDE BASTOS. São Vicente,SP,9 de abril de 1914. Tude Bastos foi admitido na Escola Politécnica em 1932 e diplomou-se engenheiro civil em 1937. No ano seguinte, voltou para a Politécnica e concluiu o curso de engenheiro-arquiteto em 1942. Segundo seus depoimento (1986), trabalhou sempre no funcionalismo estadual: em 1938 entrou para o Departamento de Águas e Esgotos, onde se especializou em saneamento. Fez o curso de arquitetura porque seu emprego facilitava tal atividade e por ser conveniente para a sua carreira. Em 1946, fez mestrado em saneamento na Universidade da Carolina do Norte; aposentou-se me 1967. Estava registrado no CREA 6ª Região (1949, página 271) em 1949".  Silvia Ficher. Os Arquitetos da Poli. Ensino e Profissão em São Paulo. Edusp.2005.

 

 *

VISITA PASTORAL DO ARCEBISPO D. DUARTE EM 1909

Em viagem oficial a São Vicente e Itanhaém, o arcebispo metropolitano de São Paulo visitou a Capella da Santo Antônio e lanchou na vivenda do prefeito Capitão Antão Moura.

 



Arcebispo metropolitano Dom Duarte Leopoldo e Silva.

Fonte: Carmelo Santa Terezinha. Aparecida. 2018,


Como noticiamos, seguiu hontem, de S. Vicente para Itanhaém, termo da visita pastoral, as sédes das parochias do litoral paulista, o exmo, st. d. Duarte Leopoldo e Silva, arcebispo metropolitano.

Ás 8 horas da manhã, depois de s. ex. - fazer pequena oração da egreja matriz da visinha cidade, seguido de sua illustre comitiva e de grande numero de famílias gradas, associadas do Sagrado Coração de Jesus e cavalheiros, dirigiu se para o porto de Tomyarú, onde tomou al barca especial que o conduziu ao Porto do Campo.

Durante o trajeto da matriz ao porto de embarque, s. ex. que ia acompanhado desse grande cortejo, foi muito festejado e seu nome acclamado com viva alegria.

Tomaram a barca, além de numerosas e gentis senhoritas, o nosso representante e os srs. Antão de Moura, prefeito municipal, Theotonio Gonçalves Corvello e Antônio Militão de Azevedo, respectiva - mente vice-presidente e inspector literário do município, Olegário Alves e Antero Bloem Martins, juizes de paz, Antero de Moura, delegado de polícia, Benedicto Calixto, Antônio Rios Carneiro, secretario da Câmara e muitos outros cujos nomes nos escaparam.

Do Porto do Campo, as associadas do Sagrado Coração de Jesus, senhoras e senhoritas despediram-se de s. ex., beijando-lhe o anel como prova de verdadeiro amor flial e tornaram para S. Vicente.

D Duarte, em troly, acompanhado pelo prefeito capitão Antão de Moura, pela sua comitiva e pelos representantes do vizinho município, seguiu até o porto do Rei, onde parou para um pequeno descanso

Visitando a confortável vivenda do capitão Antão de Moura, foi surprehendido com uma encantadora recepção por parte dos alumnos do colégio municipal regida pela distincta professora d. Maria Nobre, que atiraram sobre s. ex., grande quantidade de pétalas soltas.

Depois s. exe. Serviu-se de café, biscoutos, etc., que lhe foram gentilmente offerecidos e a sua comitiva, pela exma. sra. do capitão Antão de Moura, que a todos cercou de amabilidades.

O sr. arcebispo de S. Paulo, visitando a capella de Santo Antônio, ainda em construcção, ao desembarcar do porto do Rei, continuou a sua viagem, a despeito do impertinente aguaceiro da occasião.

Ao passar exa. pelo Piassabussu, foi a ali festejado, não só pelo povo do logar como pelos alumnos da Escola Estadual, regida pela provecta professora d. Christina Pia de Paula Martins. S. exa. abençoando a todos os que o festejavam proseguiu a sua viagem.

O Club de Regatas Tamyarú, com uma Tuy le Franch, tripulada por tres jovens, cortejou a barquinha que levou o arcebispo durante o seu trajecto entre os dois portos Tumyarú e Campo

Acompanhando o exmo. d. Duarte Leopoldo, seguiu incorporado à comitiva de S exa., o sr. Olegário Alves, juiz de paz, representando a câmara do visinho municipio.

A estadia de s. exa. o Sr. arcebispo em S Vicente, foi feita por conta da Irmandade do Santissimo Sacramento dali, pelo prefeito, presidente e vereadores da câmara da visinha cidade, que foram incasaveis em prodigalizar ao ilustre prelado todas as commodidades,

O sr d. Duarte Leopoldo deve regressar de Itanhaém segunda-feira á tarde, pernoitando nesta cidade.

Pretende a exa, dizer missa na egreja do Rosário, na terça-feira, ás 8 horas, seguindo em carro reservado par S. Paulo, pelo trem de 1 e 20 da tarde.

Nosso companheiro Francisco de Andrade segue hoje para Itanhaém, a fim de se juntar á comitiva de d. Duarte Leopoldo.

A Tribuna, 1 de outubro de 1909.


O PREFEITO ANTÃO ALVES DE MOURA

 

Antão de Moura. Histórias e Lendas de São Vicente. Novo Milênio.

 

 

A construção da Ponte Pênsil entre 1910 e 1914 estreitou a comunicação e os laços de ligação cultural e econômica entre o continente do litoral e a ilha de São Vicente. O desmembramento dos antigos sítios de Praia Grande em chácaras de produção agrícola e de lazer, bem como os jardins balneários em formato de loteamentos, atraíram muitas famílias paulistanas e também aristocratas de Santos e São Vicente. Eram propriedades que também tinham função residencial, como foi o caso de Antão Alves de Moura, prefeito-intendente de São Vicente, comerciante-investidor capitalista, que durante muitos anos atuou como comissário de café no porto de Santos. Antão Alves de Moura, segundo relato de Circe Sanchez Toschi, foi uma das primeiras famílias a estabelecer residência na orla de Praia Grande. Antão era português nascido na cidade de Penafiel, em 28 de dezembro de 1865. Imigrou para o Brasil com 17 anos, na companhia dos seus irmãos Antero e Adão. Adão faleceu precocemente, com 20 anos.  

Antero de Moura uniu-se em matrimônio com a professora Isabel Horneaux, remanescentes de refugiados franceses em São Vicente no final do século XVIII durante a Revolução Francesa. Antero exerceu o cargo de delegado de polícia em Praia Grande,  foi pai do jornalista e desportista Paulo Horneaux de Moura (diretor do Santos Football Club) e avô do famoso Padre Paulo Horneaux de Moura, líder clerical e comunitário em Santos e São Vicente. 

Quando exerceu o cargo de intendente, entre 1906 e 1913, Antão de Moura deu o primeiro passo para a criação da educação pública em Praia Grande criando "casas de ensino" em residências particulares: de Bárbara da Graça, no sítio Piaçabuçu, próximo a Mongaguá; e no sítio Itaypu, nas quais atuavam como docentes os educadores Durval Bruncken, Cristina Martins e Maria Pacheco Nobre.

 


ENSINO E DEVOÇÃO NO SÍTIO ITAIPU

Nascida no Sítio Itaipu, Maria Pacheco Nobre foi pioneira da educação na área continental.

 

EDSON TELLES DE AZEVEDO

 


Mariquinha Nobre, mestra em Praia Grande: personificação do altruísmo. Vultos Vicentinos.


(...) Maria Pacheco Nobre, que mais era chamada Mariquinha Nobre, dedicada e benquista mestra-escola do Boqueirão da Praia Grande (a quem tivemos ensejo de conhecer), era filha de Anselmo Pacheco Nobre e de Ambrosina de Azevedo Nobre.

Veio ao mundo num sítio do canto do Itaipu, em 27 de janeiro de 1876, e faleceu aos 49 anos, em 12 de junho de 1925, assistida, nos derradeiros momentos de sua profícua existência, por sua dileta amiga, a sra. Júlia Paranhos, na residência desta, à Rua João Ramalho, esquina da Rua Padre Anchieta, onde atualmente está instalado o Serviço de Profilaxia da Malária.

Seus irmãos: Cidália, casada com Reinor Bonilha; Rosemira, que foi casada com Nabor Gama, e Augusto e Arsênio, falecidos ainda solteiros. Foi sepultada no cemitério de São Vicente e, decorrido o tempo legal, transportados os seus despojos para jazigo que tem o n. 36, na mesma necrópole.
Lecionou 23 anos – Ensinou durante 23 anos, sem jamais se ter valido de qualquer pedido de licença, na Escola Mista de Praia Grande (Boqueirão), onde anteriormente havia lecionado seu pai, a quem substituiu. Seus primeiros vencimentos foram na ordem de 50 mil réis, tendo chegado a ganhar 150 mil réis.

Foi incontável o número de crianças que dela receberam os primeiros ensinamentos, no período de tempo em que esteve à frente daquela casa de ensino, à qual só deixava de comparecer quando as portas se cerravam para as únicas férias escolares de fim de ano.

Mas, nem por isso interrompia sua missão de ensinar, de educar os seus pupilos; àqueles que, durante o ano, pelas suas limitações, não tinham conseguido o aproveitamento desejado, franqueava ela a sua casa, convertida assim numa segunda escola.

E não era só em local do ensino que essa dedicada criatura transformava o próprio lar; era, também, em um pouco de ambulatório, de farmácia, de maternidade, de creche, e a todos servia com o mesmo espírito maternal e de boa samaritana.

Sua inata desambição e doçura no trato floresceram numa repentina riqueza, a que a idade foi emprestando amadurecimento. Daí sua grande força moral, que a transformou na sábia e prudente conselheira, a que tantos recorriam nos momentos de incerteza e aflição. Por isso, era amada, respeitada e obedecida. A todos se comprazia em servir com dedicação, sem se ater a cor, a credo político ou religioso.

Famílias de projeção desciam do Planalto, e em seu acolhedor recanto faziam ponto de reunião, onde sequer faltavam agradáveis passatempos, em que Mariquinha Nobre se revelava excelente animadora de jogos familiares - a diversão caseira da época - como emérita parceira que era. Possuía apreciáveis dotes vocais, e fazia-os acompanhar de concertina, que ela mesma dedilhava.

Exames escolares - No fim do ano, com o encerramento do período letivo, quando os alunos eram examinados por banca presidida pro Antônio Militão de Azevedo (nosso saudoso pai), em sua função de Inspetor Literário, a boa e sensível Mariquinha Nobre, ao mesmo tempo que dedicava, entre expressões de incentivo e ternura, prêmios aos alunos que mais se destacavam por aplicação e comportamento, proporcionava a todos os presentes copiosa e variada mesa de caprichados doces.

Imagem de Nossa Senhora da Conceição - Mariquinha Nobre custodiou em sua residência, por muitos anos, imagem de Nossa Senhora da Conceição, esculpida em mármore de rara qualidade, que havia pertencido, sucessivamente, ao capitão-mor José Gonçalves Neves, de Itanhaém, e a seu pai, Anselmo Pacheco Nobre, que também por largo tempo a havia mantido em veneração pública, em sala de sua residência, reservada para capela. Transferida, processionalmente, para a capela de Santo Antônio, no Boqueirão da Praia Grande, que, abandonada, teve de ser demolida, foi a preciosa imagem, que tem 166 anos, recolhida, na época, por d. Flora Dias Bexiga, neta daquele capitão-mor. Presentemente está essa imagem sob a guarda da viúva d. Cacilda Dias Freixo, em São Vicente.

Escola "Mariquinha Nobre" - O edil Jaime Hourneaux de Moura apresentou na Câmara, em 28 de abril de 1964, o projeto de lei n. 70-64, autorizando o prefeito municipal dar a uma das futuras escolas do município, preferivelmente no subdistrito de Praia Grande, o nome de "Professora Mariquinha Nobre". O ex-prefeito sr. Charles de Souza Dantas Forbes sancionou, com a lei n. 1022-64, o referido projeto em data de 10 de junho do mesmo ano. Ao que se sabe, dita homenagem, até hoje, não foi prestada, lamentável postergação que no entanto pode ser facilmente reparada, numa homenagem das mais merecidas a quem se destina, e também como fonte de inspiração e incentivo ao atual corpo de dignas professoras, na árdua, mas ao mesmo tempo honrosíssima profissão que escolheram. 25-12-1966.

Vultos Vicentinos - Subsídios para a História de São Vicente, impresso na Empresa Gráfica Revista dos Tribunais S.A. (S.Paulo/SP), e lançado em São Vicente/SP em 1972.



"Desfile de 7 de setembro - O clichê acima, que ilustra este despretensioso trabalho, mostra, ao lado da legendária Biquinha de Anchieta, componentes da escola de Mariquinha Nobre, os quais, em regozijo por data comemorativa da nossa independência, essa educadora fez participar do desfile cívico, em que os pequenos alunos se apresentaram irrepreensivelmente, destacando-se dos demais conjuntos escolares". Vultos Vicentinos.

Um interessante registro memorial feito em 2008 por Circe Sanchez Toschi (Praia Grande antes da emancipação) mostra uma lado bem diferente e pitoresco dessa imagem  sacerdotal, religiosa e sacralizada da professora Mariquinha Nobre. Moradores mais antigos que a conheceram nas atividades cotidianas, sobretudo nas festividades populares, sempre recordavam seu temperamento desafiador alegre como uma efusiva jogadora de truco.   


*

 CAPÍTULO III

OS MILITARES DO ITAIPU


Outros ocupantes antigos desse bairro vicentino foram os militares, quando da instalação das Fortalezas do Itaipu, formando ali uma vila de efetivos do Exército Brasileiro. O Forte construído na Barra de São Vicente (denominação geográfica usada oficialmente pelo Exército ) teve como função principal proteger o Porto de Santos, ação que se acentuou no período da II Guerra Mundial. A comunidade militar, mesmo tendo a maioria do seu efetivo em trânsito, tornou-se referência de autoridade federal na região, tendo a sua alta oficialidade exercido intervenções nos destinos políticos do município criado em 1967. Por esse motivo, muitos grupos e segmentos cultivam, de forma cultural e ideológica, a presença dos militares como um fator de segurança e proteção social. Muitos oficiais que serviram no Itaipu permaneceram residindo em Praia Grande e na região após darem baixa na vida militar, dedicando-se à diversas atividades civis.

A Fortaleza de Itaipu e a Vila Militar, desde a sua construção entre 1901 e 1906, tornam-se um patrimônio e fonte de orgulho local por ser o estabelecimento oficial mais antigo da cidade. Em quase todas as famílias que viveram na região nas últimas seis décadas encontramos algum membro que prestou serviço militar ou se aposentou na Fortaleza. 

 

PROJETO DE DEFESA DO PORTO DE SANTOS (1897). Em 1895, o Estado-Maior do Exército Brasileiro mandou executar um projeto de defesa do Porto de Santos, encargo que ficou nas mãos do capitão de arma de artilharia Erico Augusto de Oliveira. A tarefa começou a ser executada em 1896 e foi apresentada, concluída, ao Ministério da Guerra, em 1 de dezembro do ano seguinte. A Fortaleza de Itaipu aparece como um dos pontos vermelhos da primeira linha de defesa. Imagem: Memória Santista.



 PASSADO MILITAR VICENTINO NO ITAIPU

OS MAIS ANTIGOS PROPRIETÁRIOS DO SÍTIO ITAIPU


 

TENENTE JOÃO JOSÉ RIBAS

 

 FILHO DO CAPITÃO JOSÉ MANOEL GONÇALVES RIBAS, NETO DO CAPITÃO MÓR AGUIAR, VOLUNTÁRIO DA GUERRA DO PARAGUAI, CONDECORADO POR D. PEDRO II.

 

EDSON TELLES DE AZEVEDO



História do Brasil, a ação de suas Forças Armadas se notabilizou, não só por suas atividades em tempos de paz - sentinela alerta do nosso patrimônio moral e material, para o qual contribuem - mas também por seus feitos bélicos. O soldado brasileiro jamais deixou de honrar as tradições mais dignas de seus ancestrais, e é na defesa, em plagas distantes, de nosso amor próprio Por próprio e dignidade, sempre que feridos por inimigos traiçoeiros, e preservação da unidade territorial, em paragens as mais inóspitas, que vamos deparar com as páginas mais formosas de abnegação e heroísmo, numa gigantesca labuta pelo resguardo do imenso solo pátrio. Contrariamente ao que sucedeu aqui, no Novo Mundo (assim chamado o nosso continente à época das grandes descobertas marítimas), em que as conquistas dos bravos castelhanos não conseguiram, todavia, opor-se à forças da divisão territorial. O seu vastíssimo império colonial americano, do qual, a princípio, eram eles os senhores absolutos, acabou por se fragmentar - apesar de suas inegáveis qualidades de guerreiros colonizadores - em maiores e menores Estados independentes.

Sem embargo de outros memoráveis feitos bélicos mais recentes, foi na prolongada e cruenta guerra contra as hostes de Solano Lopez, ditador impelido pela desmedida ambição de representar papel proeminente na história de seu país, que as nossas Fôrças Armadas mais se cobriram de glórias, não só ao enfrentarem e, por fim, vencerem inimigo aguerrido, como ao arrostarem, ali, ao longo de cinco intermináveis anos, as mais adversas condições climáticas, de terreno, de locomoção, de abastecimento e de precário atendimento hospitalar, além de um número sem fim de outras pungentes e atrozes provações.

Aquela época, a nossa provinciana e bucólica São Vicente, mesmo assim, não deixou de ver-se inscrita nas páginas mais destacadas desse imorredouro feito das nossas forças militares, e fê-lo graças ao denodo, entre outros, de um de seus diletos filhos. De seu valor, como militar participante dessa penosíssima campanha, bem o atesta a condecoração de real mérito, com que foi galardoado, recebida como foi das próprias mãos do imperador D. Pedro II.


Assim, na galeria dos nossos homenageados, desejamos alinhar, desta feita, João José Ribas.

QUEM FOI O NOSSO HOMENAGEADO. Geralmente conhecido por "seu" Ribas, era calunga legítimo, e desde bem novo participou da vida cívica, recreativa e social da época. Filho um militar da ativa, o capitão José Manoel Gonçalves Ribas, que se esmerou em proporcionar-lhe um preparo e educação condizentes com numerosa família a que pertencia, de vários destacados ramos, que a seguir mencionaremos, os pendores de João José Ribas logo se manifestaram para a carreira das armas. Com 17 seguiu para a Guerra do Paraguai no posto de cadete, agregado ao 7.o Batalhão de Infantaria formado por destemidos voluntários, sendo, nessa classe, o único de São Vicente Pelejou com o destemor que lhe era próprio, em numerosos com inclusive no da Ilha da Redenção, inscrito na história dessa legende guerra como um dos mais sanguinolentos, e do qual saiu, como tantos outros combatentes, com sérios ferimentos.

CONDECORACOES. Em reconhecimento ao denodo com que sempre se bateu ao longo dessa memorável campanha, não poucas vezes em cruentos recontros. o governo imperial conferiu-lhe não só o título de "Cavaleiro da Ordem da Rosa", que ele, com razão, ostentava orgulhosamente, como também a "Cruz de Guerra", galardoando a destacada conduta com que assinalou sua prolongada passagem pela vida militar do País. Ainda em decorrência desses atributos, foi nomeado, em 20 de julho de 1868, alferes do Corpo Policial Permanente, em cujo posto foi reformado quando da proclamação da República, em 1889.



REVOLTA DO MARECHAL FLORIANO
Por ocasião desse levante, em 1894, João José Ribas foi novamente chamado a prestar o concurso de sua experiência e intrepidez no campo militar, tendo assumido o comando, no posto de tenente, das fortificações levantadas na Praia Grande, entre o Porto do Rei e o canto do Itaipu, constituídas de entricheiramentos e assestamento de peças de artilharia.


NO COMERCIO E NO FUNCIONALISMO PÚBLICO. Tempos depois, dedicou-se por vários anos à atividade de corretagem de café, em Santos, granjeando, por sua correção e lhaneza, confiança e estima de seus colegas e das firmas com as quais negociava. Como veterano da Guerra do Paraguai, foi-lhe adjudicado cargo na Recebedoria de Rendas, como guarda-fiscal. Também lá foi um mais prestimosos o seu concurso ao serviço público, graças à seriedade e apêgo com que se dedicava às suas tarefas.

FOLHA CORRIDA DA GUERRA DO PARAGUAI. Por determinação direta do general Henrique Teixeira ministro da Guerra, em 1957, foi lida folha corrida relativa ao seu destemeroso comportamento na campanha do Paraguai, de que fez parte durante todo o seu tempo, e no decorrer da qual angariou o respeito e admiração dos seus superiores e mais participantes dessa árdua luta, no meio dos quais era reconhecidamente tido como bravo combatente. Tais méritos valeram para que suas filhas viúvas continuem recebendo, até hoje, a pensão vitalícia a que fez jus.



CONSORCIO. Na antiga Matriz de Santos, a 28 de junho de 1874, o alferes João José Ribas, do Corpo Policial, filho do capitão José Manoel Gonçalves Ribas e de dona Rosa Maria Assunção Ribas, contraía núpcias com d. Elisa Paula Muniz Bruncken, filha de Henrique Geraldo Muniz Bruncken e de d. Jesuína Leopoldina Muniz Bruncken, servindo de testemunhas o cap. João Manoel Alfava Rodrigues e João Bernardino de Lima.

ASCENDÊNCIA DESTACADA. O nosso biografado era neto do capitão-mor José Gonçalves Aguiar, figura das mais representativas de seu tempo em São Vicente, e tais foram os méritos deste último que os poderes públicos o homenagearam indelevelmente, atribuindo o seu consagrado nome a uma das principais avenidas da cidade -a Capitão-Mor Aguiar. Mas a ascendência de João José Ribas não era importante só pelo lado de seu avô e pai, mas também pelo ramo materno dos Bruncken, tradicional família da melhor estirpe, oriunda do então reino da Prússia, berço das famosas e legendárias casas dos Hoenzollern e dos Brandeburgo.


DADOS BIOGRÁFICOS. João José Ribas nasceu em São Vicente, em 22 de maio de 1842, e de seu consórcio com d. Elisa Paula Muniz Bruncken deixou os filhos: Leôncio, que exerceu importantes cargos na Recebedoria de Rendas, inclusive o de tesoureiro, e foi casado com d. Maria Carvalhal Ribas; d. Orieta, viúva do cap. Antão Alves de Moura, ex-prefeito de São Vicente (nosso XXIII biografado); d. Valdomira, que foi casada com o sr. Haroldo Cross. Seus irmãos, Maria, nascida em 20-12-1832; Francisco de Paula foi batizado a 25-9-1838; Carolina nasceu a 7-1-1848; Antônio (9-3-1841); Maria José (19-3-1844); Bernardino (26-8-1848); Gertrudes, "Dona Tudinha (13-6-1850), a qual tivemos oportunidade de conhecer; Bento (20-9-1853). Seu neto, o dr. João Carvalhal Ribas, filho do saudoso Leôncio Ribas, é atualmente figura das mais representativas e respeitadas nos círculos médicos do País, pois, além de ser professor-catedrático é autor de obras, inclusive da Academia Pico da Universidade de S. Paulo, no ramo de psiquiatria e sobre a especialidade, laureadas com prêmios da Academia Paulista de Letras. (Vultos Vicentinos, 1972)

*



HISTÓRIA DA FORTALEZA 

GRAZZIELA DIAS STERQUE




Edição 32 (agosto de 1980) do Informativo Cultural, boletim publicado pela Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande (ACEAM).



O Exército vem sendo, desde os tempos mais longínquos da História Pátria, um instrumento de expansão e integração. Nas narrativas sobre a história da Fortaleza de Itaipu, que ora publicamos - pesquisadas em dados fornecidos pelo Aviso Régio (21/10/1817); registro paroquial de São Vicente (1/1/1956); Fortaleza de Itaipu (Costa e Silva Sobrinho); Jornal A Tribuna; História de Santos, de Francisco Martins dos Santos; Livro Histórico da Fortaleza de Itaipu, avisos, boletins alusivos, depoimentos de dona Maria Francisca dos Santos (Maria do Forte) e arquivo da Biblioteca Jarbas Passarinho (Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande) - são registrados vários acontecimentos que serviram para enriquecer a história do Município. Geralmente, as cidades brasileiras crescem à sombra de uma igreja ou de um monumento. Praia Grande cresceu sob a proteção de uma fortaleza.

01 - OS ÍNDIOS DERAM O NOME ITAIPU

Vinha do mar um vento forte. As ondas perseguiam-se e cresciam até se chocarem nas extensas rochas, onde violentamente se erguiam, transformadas em espumas. Outras vezes, elas se quebravam entre os penhascos, produzindo inumeráveis arrebentações. A isso nossos índios chamavam Itaipu. Antenor Nascente, no Dicionário de Nomes Próprios, volume II, página 153, assim registrou o termo: Itaipu - ponta e povoação do Estado do Rio. Também escrito Itapuya (Pizarro) e Itaipu. T. Sampaio, 231, tirou do tupi ia, e uipo, fonte das pedras, manancial saído das pedras ou do rochedo. Macedo Soares, EL 171, deriva ita, pedra, u, água e pug, roncar, dizendo que em Ponta Negra os pescadores prevêem temporal do mar quando Itaipu está roncando. Itapuig seria "Rio da Água Roncadora da Pedra". Taipu (ou taiug) espremia água que se ejacula, onda rebentada entra pelas fendas do rochedo e sai em cima espanando; circunstância que não passaria despercebida aos índios, tão fáceis de se impressionar com os fenômenos da natureza e trazidos em termos expressivos. Seu nome contemporâneo do primeiro sino, que ali houve, pode ser itai, pilar, esteio de sino, torre, campanário, que soa (Martins, 504, tirou de ita, pedra, tuapu, que soa, pedra metal sonante, sino). O festejado memorialista Daniel Bicudo fez-nos, ao ler este verbete, uma observação muito acertada, dizendo: "O autor não menciona a palavra na toponímia paulista, aplicado à "Fortaleza de Praia Grande". Adiantaremos enfim que a palavra Itaipu já existia em São Vicente no século XVII, no sentido indicado por Macedo Soares. Os topônimos de origem tupi, existentes em Santos, Guarujá, Bertioga, São Vicente e Itanhaém são todos de boa formação e muito expressivos, nenhum dicionário poderá menosprezá-los.

02 - SÍTIO DE ITAIPU

A Fortaleza de Itaipu, cujo nome provém do antigo sítio onde foi edificada, tem por isso uma história curiosa. Um dos proprietários mais importantes desse imóvel rural foi sem dúvida o capitão-mor José Gonçalves de Aguiar. Tem ele em São Vicente uma rua com a denominação Rua Capitão Mor Aguiar. No começo do século XIX, ele já possuía o mencionado sítio. Vem este descrito no Aviso Régio de 21 de outubro de 1817, que trata das propriedades rústicas de São Vicente. Ei-lo em seu precioso teor:
"Na mesma Vila de São Vicente, possui por herança, o capitão-mor José Gonçalves de Aguiar, um sítio de nome Itaipu, com 100 braças de testadas e de fundo trezentas, que partem pela parte Sul com dona Felícia Alves, e da parte do Leste confia com mar grosso, como consta do título, e cultivado pelo senhorio com doze escravos e uma agregada de nome Gertrudes Barbosa."

03 - O PROGRESSO AGRÍCOLA DO SÍTIO

Havia, no sítio, uma ampla casa de morada, ao lado de grandes árvores. Pouco além, estava a casa do engenho movido pela força de bois. Construídos de madeira de lei, os seus cilindros espremiam também a cana dos sitiantes vizinhos. As senzalas ficavam pouco distantes das vivendas do senhor, mas ele exercitava aí todas as obras de caridade. Fazia o capitão-mor por ano cerca de mil medidas de aguardente. Colhia em média duzentos alqueires de farinha, sessenta de arroz, vinte de milho e doze de feijão. Um carro com as suas grades inteiriças, puxado por quatro bois, conduzia rechinante a cana para o engenho.

04 - OS HERDEIROS DO SÍTIO

No inventário do capitão-mor Aguiar a maior parte do sítio Itaipu tocou aos herdeiros João de Azevedo Cunha e João Pereira Machado. Do mesmo sítio Itaipu recebeu também o herdeiro José Manoel Gonçalves Ribas uma sorte de terras que ele próprio assim descreveu, ao registrá-las:


"Declaração que fez José Manoel Gonçalves Ribas das terras pertencentes ao termo desta vila. O abaixo-assinado declara que possui no sítio de Itaipu um quinhão de terras que lhe coube por herança que teve da falecida sua mãe dona Vitoriana Gonçalves Ribas, e tem as ditas terras o nome de Suá, a qual parte do lado Norte com as terras do mesmo Itaipu da pedra que chamam dos Negos, que fica em meia praia entre o mar e o juju, e do direito até quebrada que fica à esquerda do morro mais alto, e das águas vertentes para o Leste, direito à Ponta Rasa do lugar denominado Mosteiro, cuja ponta fica inundada com a maré cheia, e para o Sul finaliza no mar. São Vicente, 29 de outubro de 1855, José Manoel Gonçalves Ribas."

05 - PRAINHA E ITAQUITANDUBA


Como que inteirando a ponta ou cabo de Itaipu, vamos encontrar ainda mais três sítios, que lhe ficam à esquerda e nos fundos. São eles Prainha e os outros dois com o mesmo nome de Itaquitanduba.
O sítio Prainha foi registrado em 6 de janeiro de 1856 em nome de Antônio José da Silva Bastos. Suas confrontações são bastante conhecidas. Dividindo com este imóvel e com o Itaipu temos agora o sítio Itaquitanduba, que tem por divisa o cume do monte, e fronteia o mar grosso, descendo pelo morro abaixo parte pelo lado direito com a Prainha, terras de Antônio José da Silva Bastos, e pelo esquerdo com Itaquitanduba, terras pertencentes a dona Maria Benedita Viana. O sítio Prainha fora desapropriado pela Fazenda Nacional por 15.000$000 (quinze contos de réis), conforme transcrição feita em 27 de fevereiro de 1912, no registro de imóveis da Primeira Circunscrição da Comarca. Foi esta a primeira aquisição feita pelo Governo Federal para a Fortaleza de Itaipu. Ficaram bem caracterizados os sítios que formam a área ocupada hoje em dia pela Fortaleza de Itaipu. A modelar unidade de guerra merece a nossa modesta contribuição para a sua história.

06 - SÍTIO SUÁ

Esse imóvel, como acabamos de ver, fazia parte do antigo sítio Itaipu, e recebeu o nome de Suá. Tratava-se de uma palavra da língua tupi, e é provavelmente a abreviatura de Suaçua.
Laudelino Freire, no seu Grande Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, consigna este vocábulo no sentido de "Planta da família das palmáceas, também chamado coco de veado". A grafia correta do topônimo Suá deve ser Çuá. Gonçalves Dias, que publicou um apreciável Dicionário da Língua Tupi, registra o termo Çuaçu significando veado. Isso demonstra que a certificação mais rigorosa a verdadeira grafia de Çuá. Vimos como se formou a área ocupada pela Fortaleza de Itaipu. Constituíram-se, reunidos num só todo, nada menos de quatro sítios. Há maiores dados, porém os citados já são suficientes para este histórico; se fossemos mencionar todas as referências das antigas terras, este capítulo ficaria demasiado longo.

07 - AS PREOCUPAÇÕES DE BERNARDINO DE CAMPOS

A defesa da baía de Santos foi durante vários anos uma das preocupações de Bernardino de Campos, quando governador do Estado e o doutor Campos Sales na presidência da República, cabendo a ambos, mas principalmente ao último, a iniciativa dessa obra magnífica que é a Fortaleza de Itaipu. Com efeito, na segunda metade do governo de Campos Sales, que durou de 1898 a 1902, foi entregue ao marechal João Nepomuceno de Medeiros Mallet, ministro da Guerra, o estudo e aviamento do caso.

08 - E ASSIM TUDO COMEÇOU...

Dizia o almanaque do Diário de Santos, de dezembro de 1902, o seguinte a seu respeito:
"De acordo com os planos do Governo Federal para fortificar o nosso porto, mandando construir vários fortes em pontos estratégicos, existe aqui uma Comissão Militar que prossegue nos trabalhos, para os quais também o Governo do Estado concorre neste exercício com 200 contos de réis. A comissão iniciou seus trabalhos pela construção do Forte de Itaipu (na ponta de igual nome a Sudeste da barra)".
No fim do ano de 1902, já se achavam prontos um porto de desembarque no lugar denominado Saco Escuro, e uma estrada de três quilômetros de extensão, até a Serra de Itaipu.

09 - DADOS HISTÓRICOS

Nossa história é narrada a partir do então terceiro Batalhão de Artilharia de Posição, com sede na cidade do Rio Grande, sendo posteriormente transferido para o Mato Grosso, passando então por várias denominações e transformações, tais como a formação do 2º Batalhão de Artilharia de Posição, que por sua vez desmembrou-se formando os 7º, 8º e 9º Batalhões de Artilharia de Posição, com sedes respectivamente em Santos, Florianópolis e Rio Grande. Posteriormente, o 1º Batalhão de Artilharia de Posição passou a denominar-se 3º Batalhão de Artilharia de Posição, com sede em Ipanema. Em 16 de janeiro de 1902, com Aviso nº 5, foi determinado o início da construção da Fortaleza de Itaipu, em Praia Grande. A 1ª Bateria, inaugurada no ano de 1903, compunha-se de canhões Schneider Canet, e de obuseiros 28". Realizou-se na segunda quinzena de junho, sem festa, mas estiveram presentes cerca de vinte convidados. No fim deste mesmo ano ainda foram inauguradas mais duas baterias. A Comissão ficou assim constituída: engenheiro chefe, major Augusto Ximeno de Villeroy. Engenheiros auxiliares: 2º tenente Alexandre Galvão Bueno, Feliciano Paes Ribeiro, José Ribeiro Gomes e alferes-aluno Luiz Sá de Affonseca. O contingente do 24º Batalhão de Infantaria, que se achava à disposição da Comissão, tinha um efetivo de 140 homens, estando acampado em Praia Grande, sob o comando do capitão Tude Bastos Neiva de Lima, e um tenente, dois alferes, cinco cabos de esquadra, dezessete peças, dois corneteiros e 107 soldados.

10 - O DESENVOLVIMENTO DAS OBRAS

Além das baterias, muitas outras obras ainda foram levadas a efeito, como a bateria Gomes Carneiro, tendo um paiol abobadado, situado no ponto de reversão da estrada da Fortaleza. Destinado à moradia do comandante, foi também construído no porto da Prainha um prédio de 10 metros de frente por 20 de fundo, de pedra e cimento. Os canhões Schneider Canet eram de tiro rápido de 150 mm; foram recebidos da França, tendo sido instalados sob a responsabilidade do capitão Mário Silveira Neto. No morro denominado Xixová-Guaçu estava otimamente colocado um posto de observação, por vigilância da barra e defesa do acesso à Fortaleza, pois descortinava-se dali uma parte da Praia Grande, São Vicente e toda a baía de Santos. Estas foram as construções existentes até 8 de maio de 1910, sendo que novas e importantes obras vieram depois.


Dia da inauguração da Estrada Militar, variante de acesso ao Forte (hoje Av. Marechal Mallet), em 27 de abril de 1924. Da esquerda para a direita vemos sentados (5º) o comandante tenente-coronel Aurélio Amorim, e à sua esquerda o presidente do Estado, dr. Washington Luiz e diversas autoridades que estiveram presentes à solenidade. Informativo Cultural. ACEAM.



11 - OCUPAÇÃO NO FORTE DUQUE

O primeiro grupo do quinto Distrito de Artilharia de Costa era extinto em 12 de julho de 1919. Criava-se em seguida o terceiro Grupo de Artilharia de Costa, entregue ao comando do capitão Alberto Eduardo Becker. A 5 de outubro de 1919 foi entregue, pelo chefe da Comissão de Defesa de Santos, o prédio da Ponta de Jurubatuba, destinado à 1ª Bateria, que ocupou-o a 18 de outubro de 1919. O comando do Grupo, que até então permanecera na Ponta da Praia, em Santos, transferiu-se também, a 18 de outubro, para a Fortaleza de Itaipu. Em 12 de junho de 1920, o comando do Grupo recebeu do chefe da Comissão de Defesa de Santos o forte construído na ponta de Jurubatuba, armado com dois Schneider, e dois dias depois foram feitos os tiros de prova com três disparos para comprovarem a sua perfeição.

12 - ATAQUE À FORTALEZA

Este Forte muitos serviços prestou ao governo revolucionário de São Paulo, por ocasião da Revolução Paulista de 32, guardando a barra santista vigilantemente, a ponto de atingir um dos vasos de guerra federais que se aproximava demasiadamente da Ponta Grossa. Em conseqüência desse fato, e como em retribuição, sofreu ele - segundo Francisco Martins dos Santos em seu livro História de Santos -, exatamente às 14,30 horas do dia 15 de setembro, um forte bombardeio aéreo, levado a efeito por cinco possantes hidroaviões da Marinha, do tipo Savoia-Marchetti, que evoluíram sobre a cidade, dirigindo-se para o Forte de Itaipu, despejando sobre ele cerca de 20 bombas, quase todas nas rochas e dentro d'água, destruindo apesar disso a rede elétrica da Fortaleza, que desta forma ficou sem ação, embora não fosse isso do conhecimento da população e muito menos talvez do adversário - que, consumado o ataque, desapareceu para o Leste, rumo à Base de São Sebastião. Conforme o depoimento de dona Maria Francisca dos Santos (Maria do Forte), o bombardeio ocorrido na revolução legalista fora de seis hidroaviões da Marinha de Guerra, que lançaram 48 bombas, destruindo parcialmente as dependências tomadas pela 1ª Bateria. Relatando ainda o fato, lembra que o ataque à Fortaleza fora planejado pelo major Correbe, que servia na época nesta Unidade. O major Correbe, no entanto, havia alegado ao seu comandante que teria de ir até o Rio de Janeiro para tratar de assuntos particulares, porém traiu seus companheiros, que quatro dias depois foram bombardeados. Dias antes do ataque, havia o major sobrevoado a área do quartel e despejado um pacote à sua esposa, que continha um aviso com os seguintes dizeres: "Afaste-se da Fortaleza de Itaipu que virei bombardeá-la às 11,30 horas do dia 5 de setembro". Com o destróier Rio Grande do Sul, veio até São Sebastião, e com uma lancha foi buscar sua esposa, filho e a empregada Olga Narci de Souza, irmã de dona Maria do Forte. Por ocasião da mesma revolução, os canhões de grosso calibre deste Forte foram desmontados e levados para as linhas de combate do Exército Paulista em operações, prestando aí, em mais de uma frente, relevantes serviços, tendo sido postos em seu lugar, na Fortaleza, falsos canhões de madeira do mesmo tamanho, visando iludir os federais. Comandava nessa ocasião o Forte de Itaipu o capitão André de Souza Braga.

13 - DE 3º GAC A 6º GMAC

Em obediência ao artigo 24.287, de 24 de maio de 1934, o 3º GAC tomou a designação de 5º Grupo de Artilharia de Costa e Fortaleza de Itaipu. O 6º GMAC foi criado pelo decreto-lei nº 4.715 de 18 de setembro de 1942, publicado no Diário Oficial de 21 de setembro do mesmo ano, com a denominação de 6º Grupo Móvel de Artilharia de Costa para a instalação, a partir de 1º de outubro de 1942, com sede na 2ª Região Militar.Por decreto de 25 de setembro de 1942, publicado no Diário Oficial de 21 de setembro (SIC), foi nomeado seu primeiro comandante o ten. cel. Antônio Diniz, assumindo o comando a 26 de novembro de 1942. Na mesma época, era designado para subcomandante do 6º GMAC o capitão Arthur da Cunha Menezes. Em Aviso nº 2.602, de 25 de setembro de 1942, publicado no Boletim do Exército nº 40, de 3 de outubro de 1942, o Ministro da Guerra concedeu ao 6º GMAC a importância de Cr$ 100.000,00 para custear despesas de sua instalação. Esta unidade, quando de sua criação, ficou instalada inicialmente no antigo Derbei Clube, na cantiga Capital da República, hoje Estado do Rio, onde acantonou. Em 6 de setembro de 1942, deslocou-se do Derbei Clube por determinação do excelentíssimo senhor diretor da Artilharia de Costa, para a cidade de São Paulo, acantonando no "Estabelecimento de Subsistência Militar", na Lapa. A 14 de janeiro de 1943, às 19,30 horas, deslocava-se de São Paulo por via férrea, da Estação Domingos de Morais com destino a Santos, onde chegou à 0,30 hora do dia seguinte, instalando-se à Rua Luiz de Camões nº 128/130, deslocamento esse feito por ordens do excelentíssimo senhor comandante da 2ª Região Militar. Em 12 de julho de 1944 era solenemente festejado o 25º aniversário dessa Fortaleza, constituindo parte das festividades a inauguração da placa com o nome da Avenida General Ximeno de Villeroy. Foi uma justa homenagem que deliberaram prestar nesse dia àquele renomado general engenheiro militar, construtor da Fortaleza de Itaipu. No ato foi proferida uma oração pelo tenente-coronel Paulo Rosa Pinto Pessoa, que era o comandante da época.

14 - VILLEROY E A FORTALEZA DE ITAIPU




Muitos militares, ilustres, têm passado pela Fortaleza de Itaipu. Entre os que comandavam encontraremos vultos de renome da milícia nacional. Se fossemos mencioná-los, este capítulo ficaria descompassadamente longo. Limitar-nos-emos, por isso, a traçar algumas linhas a respeito do construtor da monumental fortificação. Chamava-se ele, como sabemos, Augusto Ximeno Villeroy. Nasceu no Rio Grande do Sul. Era hábil engenheiro e, ao mesmo tempo, o artilheiro conhecedor das grandes e modernas obras de fortificações. Villeroy foi o primeiro governador do Estado do Amazonas, quando da proclamação da República: foi quem iniciou os estudos e a instalação das linhas telegráficas estratégicas, mais tarde transformada em Comissão Rondon. Quando do combate da Armação, pela primeira vez na história da Artilharia, foi empregado pelo general Villeroy o teodolito, para uso da pontaria nos tiros indiretos, até então desconhecidos. Este fato, de tal importância, nas artes militares, provocou a vinda ao nosso país de uma missão especial da Alemanha, para estudar os processos de emprego desse instrumento, com esse fim, pelo general, surgindo então a luneta de peça e de bateria, os atuais goniômetros, os quais foram usados, em primeiro lugar, pelo Brasil e Alemanha. A apaixonada questão dos limites entre São Paulo e Minas foi resolvida a contento pelo laudo que proferiu o general Villeroy, que se tornou, mais uma vez, conhecido em nossos dias. Há outros notáveis episódios, dignos de serem narrados, mas que neste trabalho não são de suma importância.


15 - COMANDOS DO 5º GACos

Ligados à notável fortificação ficaram ainda os nomes do seu primeiro comandante, o tenente-coronel José Pacheco de Assis, que comandou de 1919 a 1920, isto é, permaneceu durante 10 meses e 11 dias. Deixou-o por moléstia. Seguiram-se ainda os comandantes: ten. cel. Aurélio Amorim (1921-1922); ten. cel. José da Costa Barbosa (1922-1923); ten. cel. Daniel Neto Simões da Costa (1923-1924); ten. cel. Alberto Becker (7 de novembro de 1924 a 14 de fevereiro de 1929); ten. cel. Mário Velasco (5 de abril de 1929 a 15 de setembro de 1931); ten. cel. Mário Velasco (15 de setembro de 1931 a 5 de abril de 1932); ten. cel. Otto Gutierrez Simas (23 de abril de 1932 a 21 de julho de 1932); ten. cel. Eugênio Pereira de Almeida (25 de novembro de 1932 a 25 de maio de 1933); ten. cel. Fernando Lopes da Costa (13 de fevereiro de 1936 a 21 de junho de 1936); ten. cel. Ibanez Cardoso (19 de abril de 1938 a 15 de setembro de 1938); ten. cel. Felix Azambuja Brilhante (4 de novembro de 1938 a 15 de maio de 1939); ten. cel. Osvaldo Nunes dos Santos (23 de outubro de 1939 a 21 de novembro de 1940); ten. cel. Leonidas Rocha (26 de junho de 1941 a 14 de fevereiro de 1942); ten. cel. Alexandrino Pereira da Motta (31 de maio de 1942 a 12 de maio de 1943); ten. cel. Paulo Rosas Pinto Pessoa (23 de junho de 1943 a 12 de maio de 1949); ten. cel. Moacir Francisco de Melo (30 de abril de 1949 a 21 de novembro de 1952); ten. cel. Benedito Siqueira (17 de março de 1952 a 8 de março de 1957); ten. cel. Adston Pompeu Piza (9 de março de 1957 a 31 de março de 1960).
16 - O 6º GACosM

Esta Unidade, a partir de 28 de junho de 1946, de acordo com ofício reservado nº 34, de 22 de junho de 1946, do comando do 1º Grupamento de Artilharia de Costa, passou a denominar-se 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado. O 5º GACos, que até então ocupara as fortificações da Fortaleza de Itaipu, teve suas atividades encerradas em 31 de março de 1960. A 1º de abril de 1960, por determinação do excelentíssimo senhor general comandante do Comando de Artilharia de Costa e Anti-Aérea/2, publicado em Boletim Reservado nº 01 de 4 de fevereiro de 1960, o 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado passou a ocupar as instalações da Fortaleza de Itaipu, onde fixou seu aquartelamento, tendo em vista o encerramento das atividades do 5º GACos. O 6º GACosM teve os seguintes comandantes: ten. cel. Antônio Diniz (26 de novembro de 1942); major Djalma Pio dos Santos (interinamente - 16 de junho de 1943); ten. cel. Mário Mendes de Moraes (18 de novembro de 1943); major Moacyr de Faria (interinamente - 25 de janeiro de 1945); ten. cel. Milton de Souza Daemon (4 de abril de 1945); ten. cel. Carlos Syan Dantas (10 de fevereiro de 1947); major César Rômulo da Silveira Júnior (interinamente - 18 de dezembro de 1947); ten. cel. Raimundo dos Santos Frota (11 de fevereiro de 1948); ten. cel. Waldyr Manoel de Albuquerque (1º de agosto de 1949); ten. cel. Augusto Octávio Confúcio (28 de maio de 1951); ten. cel. Osman Ribeiro de Moura (27 de abril de 1945); ten. cel. Paulo Carneiro Thomaz Alves (30 de junho de 1961); ten. cel. Wilson de Oliveira Monnerat (14 de dezembro de 1961); ten. cel. Rubens Fleury Varela (2 de junho de 1964); ten. cel. José do Amaral Garboggini (22 de junho de 1966); ten. cel. Antônio Erasmo Dias (23 de julho de 1968); ten. cel. Osvaldo Muniz Oliva (29 de julho de 1970); ten. cel. Egon de Oliveira Bastos (6 de abril de 1973); cel. Estélio Telles Pinto Dantas (5 de agosto de 1974); cel. Dickens Ferraz (janeiro de 1979); coronel Amaury Pockrandt (atual). (N.E. em 1980).

17 - MISSÕES DA UNIDADE


a) Mediante operações combinadas com a Marinha e a Aeronáutica, realizar a todo custo a defesa do porto de Santos, se possível assegurando o tráfego marítimo de acesso àquele porto.
b) Instruir e construir moralmente os militares que se encontram prestando serviços nesta Unidade, adestrando-os para o cumprimento de missões de combate convencional e anti-guerrilha.
c) Manter a "mobilidade" da Unidade, a qualquer preço, tendo especial atenção para os aspectos de potência de fogo e comunicações.
d) Está em condições de cumprir missões externas, antevendo as seguintes hipóteses: como tropa de choque e como artilharia de campanha.
e) Planejar e estar em condições de executar a defesa do Forte de Itaipu.
f) Manter-se em condições de atuar como tropa de "segurança", sendo que atualmente o grupo tem sob sua responsabilidade 16 municípios, a saber: Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Itariri, Pedro de Toledo, Miracatu, Iguape, Pariquera-açu, Registro, Juquiá, Sete Barras, Eldorado, Jacupiranga, Cananéia e Barra do Turvo, localizados em sua maioria no Vale do Ribeira, com cerca de 250 mil habitantes. Ainda sob a responsabilidade do grupo tem-se, no Vale do Quilombo, a cidade de Cubatão, onde estão localizadas várias indústrias (Cosipa, Refinaria Presidente Bernardes etc.).

Em 1977, a recepção referente ao Dia da Artilharia teve como sede a Fortaleza de Itaipu, que realizou as comemorações dia 10 de junho e a mesma foi iniciada com a recepção ao general Dilermano Gomes Monteiro, comandante do II Exército, feita pelo cel. Dickens Ferraz, comandante em exercício. As solenidades foram assistidas ainda por outros cinco generais, pelo vice-governador Manoel Gonçalves Ferreira Filho, pelo secretário de Segurança do Estado (atual deputado Erasmo Dias) e ex-comandante da Fortaleza. Em seguida foi realizada a exaltação ao patrono da Artilharia, marechal Emílio Luiz Mallet. A exaltação foi iniciada com a introdução do busto de Mallet (colocado sobre um trator M-4 de 18 toneladas) no pátio da Fortaleza. Depois disso, foi feita a descrição do brasão de Mallet, que era barão de Itapevi, e ouvida a gravação do tema "O Fosso do Boi de Botas", narrada pelo falecido locutor Heron Domingues, recordando detalhes da sangrenta batalha de Tuiuti. Em seguida, houve uma salva de 17 tiros de canhão e o desfile dos militares de Artilharia pelo pátio, completando a cerimônia, que foi encerrada com uma demonstração de caratê por soldados da Fortaleza e por alunos do professor Shinzato, de Santos. Durante as solenidades, foi inaugurada também a Expo-Art-77 e uma mostra de material bélico. Além do general Dilermano, do vice-governador e do secretário da Segurança, estiveram presentes os generais Geraldo Alvarenga Navarro, Carlos Xavier de Miranda, Fernando Guimarães de Cerqueira Lima, Gustavo Moraes Rego Reis e Alvir Souto, este último comandante da AD/2; prefeitos de todos os municípios da Baixada e Litoral e diversas outras autoridades.

Em 1977 foi comemorado mais um aniversário da velha Fortaleza, ocasião em que lançamos o primeiro número do nosso Informativo Cultural e na edição seguinte de Panorama Jornal descrevíamos o que foi o acontecimento:

"Com solenidade na parte da manhã e um coquetel à noite, foi comemorada a passagem do 59º aniversário de instalação da Fortaleza de Itaipu, unidade militar sediada em Praia Grande e que abriga atualmente o 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado. As cerimônias foram dirigidas pelo coronel Dickens Ferraz, comandante do 6º GACosM, e contaram com a presença do comandante da AD/2, general Alvir Souto, e diversas outras autoridades.

"O programa foi iniciado às 8,10 horas, com a celebração de missa em ação de graças no anfiteatro da unidade militar, seguindo-se o desfile da tropa, sob o comando do major Roberto Gentil. Logo depois, foram inauguradas as obras de pavimentação e urbanização do pátio onde se localiza o serviço de intendência da Fortaleza, que recebeu o nome de Marechal Bittencourt. A via de acesso ao pátio, também pavimentada, recebeu a denominação de Alameda Tia Maria, em homenagem a D. Maria do Forte, que durante anos foi a cozinheira da unidade.

"A placa de inauguração do pátio foi descerrada pelo prefeito de Santos, Antônio Manoel de Carvalho (a pavimentação foi executada pela Prodesan), e a da Alameda Tia Maria pelo prefeito de Praia Grande, Dorivaldo Loria Júnior. Também foi introduzida na praça de esportes uma placa com o nome do general Paulo Rosa Pinto Pessoa, ex-comandante do 6º GACosM, que esteve presente às solenidades.
"O programa foi encerrado com uma competição esportiva que reuniu equipes da AD/2 e da Fortaleza."

18 - 6º GACosM, EXEMPLO DE CIVISMO E DEDICAÇÃO MILITAR EM PRAIA GRANDE

Seus homens do início do século (N.E.: século XX) levaram quase 20 anos para a construção do Forte; hoje, utilizando os mesmos métodos, por certo, igual período seria necessário para destruir a reforçada edificação. Os pontos onde se acham fixados os canhões, devido aos métodos eficientes de engenharia empregados e robustez da obra, obrigaram o uso de cargas potentes de dinamite para que fosse possível a construção dos patamares de tiro ou plataformas de abrigo às peças móveis. A Fortaleza, vencendo através de seus comandantes e paulatinamente executada; as obras de melhoramentos, de instalações do aquartelamento, no tocante à parte elétrica, ruas, pavimentações, saneamentos etc., enfim tornando a Unidade em aprazível local de recreação, treinamento e adestramento militar. No extremo da praia, emergindo da areia morena e avançando da agreste vegetação que em verde pintalgava o cimo de uma colina esguia, uma ponta de rocha altaneira que corria para o mar, sobre a qual se quebrava o ímpeto raivoso e constante das águas - era criada a Fortaleza de Itaipu, como sentinela avançada e vigilante da metrópole, que os indígenas denominaram Enga-guassú. Com o fim de quebrar os ímpetos de conquista que porventura invasores tentassem conseguir, como em épocas passadas, foi fortificado o trecho da praia, como elemento capaz de proteção e defesa auxiliar do porto de Santos. Foi, então, Itaipu guarnecida para que a voz dos seus canhões, se preciso, viesse a falar mais alto na defesa da integridade da Pátria.
E, para finalizar este capítulo, não podemos deixar de citar a poesia do vate Aristheu Bulhões, dedicada ao 57º aniversário da Fortaleza de Itaipu, que transcorreu em 30 de setembro de 1975:



Sobre este rochedo nu, nossos valentes soldados

levantaram a Itaipu contra invasores armados!

Erguendo esta Fortaleza que,

pelos morros, se expande sempre alerta, na defesa

Do Brasil, em Praia Grande

Nosso Exército altaneiro de Caxias e de Osório,

não permitiu que o estrangeiro tomasse esse território!

Hoje, a Pátria comovida, mostra sua gratidão à Fortaleza indormida

que à sombra do seu canhão dando provas de bravura,

de coragem sem igual, com seu civismo assegura

a unidade nacional!


FUNDAÇÃO DO GRÊMIO DOS RESERVISTAS DA FORTALEZA DE ITAIPU

Histórico - De um encontro casual de dois antigos reservistas, velhos amigos, que de há muito não se viam, João Augusto e Ovídio Teixeira Leite, resultou a ideia de se fundar em Santos um Grêmio que congregasse antigos companheiros de caserna; isto aconteceu em 1961. A chamada foi feita e a afinidade que ligava a todos, que era o Serviço da Pátria na querida Fortaleza, e que havia deixado marcas benéficas nos antigos soldados, foi um toque de chamada prontamente atendido. Já no dia 2 de junho, Ovídio Teixeira Leite continha, em sua pasta, uma lista de antigos companheiros para um almoço de encontro e confraternização de antigos reservistas. Dias depois, foi marcada a primeira reunião no Abrigo do Boqueirão, onde compareceram de Castro, João Grotone, Álvaro Atayde, Limeres, Calomino e outros, foi marcada a data de 29 de junho de 1961 (São Pedro) para a realização do primeiro almoço, no Clube Sírio Libanês. A festividade foi iniciada com grande emoção, com o toque de Nicola Gianjulio, Felix, Armando Pereira, José Ratto Taneredo Pineiro, João Augusto e Ovídio Teixeira, Nestor Anta, Nelson Ramos, Albano Monte Júnior, Alfredo Correa da Rocha, Eduardo Dias de Oliveira, Alvaro Clarim executado pelo cabo Bambu, dando o toque de reunir, o toque de silêncio, em homenagem aos reservistas falecidos e finalmente o Toque de Rancho.

O rancho, precedido pela comovente leitura da carta do reservista Moreira Sá, residente no Rio de Janeiro, feita pelo então tenente Mário Daige, presentes várias autoridades e reservistas residentes em outras cidades. Ao pronunciar brilhante discurso, o primeiro presidente João Augusto dava por fundado o Grêmio dos Reservistas da Fortaleza de Itaipu. Em 29/6/1962 foi realizada a primeira festa de aniversário do Grêmio, abrilhantada pela Banda do Educandário Anália Franco, sob a regência do maestro, também reservista, Venâncio Cunha; na ocasião estavam presentes várias autoridades e foram entregues medalhas de prata aos reservistas mais antigos e ao mais novo.

Em 29/6/1964, o almoço de aniversário teve uma conotação especial, pois contou com a presença do general Paulo Pinto Leite, que veio especialmente do Rio de Janeiro e recebeu um cartão de prata dos seus antigos comandados. A antiga diretoria, da qual faziam parte os reservistas João Augusto e João Grotone, passou em 1964 para o reservista Albano Montes Júnior, que, ao assumir a presidência, de comum acordo com sua equipe, resolveu ampliar as atividades do Grêmio, e assim, no Natal de 1964, 650 crianças pobres foram beneficiadas com a promoção "Faça Feliz o Natal de uma Criança", encetada pelo Grêmio no Clube de Regatas Santista. Em 1965, no Lar das Moças Cegas (Santos), o Grêmio promoveu o Natal, onde foram oferecidos presentes, doces e um show dedicado às internas. Foram realizadas excursões a Itanhaém, Jardim Zoológico e ao Estoril. Em 1966, além do tradicional almoço de aniversário, promoveu convescote e uma churrascada denominada Noite Gaúcha e outras promoções de cunho social. Em 1967, ofertou uma imagem de São Pedro à capela da Colônia de Férias do C.M.T.C. em Itanhaém. Foi realizada nova eleição e reeleito Albano Montes Júnior.

Colônia de Férias - Dia 25 de agosto de 1979, foi inaugurada a Colônia de Férias do Grêmio dos Reservistas da Fortaleza de Itaipu, localizada no Guaraú, na cidade de Peruíbe. A placa comemorativa foi descerrada pelo sr. João Augusto (um dos fundadores do Grêmio). Usaram da palavra o atual presidente sr. Albano Montes, sr. Salim Mansur, da Rádio Universal de Santos e representando o cel. Stelio Telles Pires Dantas, ex-comandante da Fortaleza de Itaipu e idealizador da Colônia; sr. Alcides Donadelli (representando o prefeito de Peruíbe); sr. Mansueto Pierotti (presidente do Conselho Deliberativo do Grêmio). A Colônia, que está localizada em local privilegiado, conta com diversos alojamentos, instalações sanitárias, quadras de esporte e local para pescaria. Realizando reuniões, almoços, jantares, promovendo reuniões, colaborando em campanhas - como a de 1976, quando o Grêmio arrecadou cerca de 8.000 frascos de remédios, que foram enviados à Funai, por intermédio da Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande, em comemoração do Dia do Índio (1977) -, passeio a Brasília, ou tomando parte em todas as festividades realizadas no recinto da Fortaleza, o Grêmio dos Reservistas da Fortaleza de Itaipu é antes de tudo um forte traço de união entre um passado saudoso e de gratas recordações e um presente vivo e cheio de esperanças.

Curiosidades - A velha Fortaleza de Itaipu é o único quartel do Exército que possui um Grêmio de Reservistas. Duas figuras que se incorporaram à História da velha Fortaleza e que merecem nosso respeito e admiração: o capitão Galileu Ramos e a sra. Maria Francisca dos Santos (Tia Maria do Forte).



ITAIPU E O MOVIMENTO CONSTITUCIONALISTA DE 32

 

O movimento de 32 tem a sua historicidade indiscutível enquanto movimento político de oposição e mobilização contra governo Vargas, após a revolução de 1930, que havia derrubado a politica do café com leite (supremacia de São Paulo e Minas durante a república velha).

 Em São Paulo o principal vetor do movimento foi a reação da velha oligarquia cafeeira falida com a redução brusca do volume de exportações - causada pelo crack da bolsa de Nova York - e a consequente crise de 1929.

 A mobilização dos setores de oposição, sobretudo das camadas populares, contou com diversos incidentes e lances de comoção social como o famoso MMDC, reuniu amplos recursos de armamentos e principalmente voluntários fardados, dando volume ao contingente militar. Entretanto, quase todas as notícias de combates e mortes são relatadas com um tom mítico e de exaltação romântico-heroica, escondendo as ligações de causa e efeito nos acontecimentos. Outro episódio ainda obscuro foi a presença da Legião Negra, cujo contingente ultrapassou 2 mil voluntários. Era comandada pelo líder negro e vicentino Joaquim Guaraná Santana e causou preocupação no comando militar, que certamente temia um desvio de afirmação anti-racista, que já existia naquele época, porém como pauta politica em organizações socialistas. A Legião passou então  a obedecer ordens diretas de um comando externo e presente, escalado provavelmente para vigiar de perto o movimento étnico que, aliás, permaneceu durantes muitas décadas ignorado pelos memorialistas leigos. Já os historiadores sempre questionaram o motivo desse silêncio, se por racismo velado ou se era exatamente para evitar algum tipo de abordagem que pudesse ser ofensiva ao grupo. A Legião Negra, por ter sido um grupo abertamente étnico, deveria ter sido tratado nos registros e homenagens cívicas de forma diferenciada, no sentido de afirmação cultural, porém não assim que ocorreu. Não era uma legião comum: era negra. Isso significa que qualquer pessoa negra poderia participar do movimento constitucionalista sem nenhuma discriminação, porém a mobilização do Dr. Joaquim Guaraná Santana foi além dessa caracterização do negro como cidadão comum e que teve em várias regiões do estado. A Legião era um segmento de afirmação de política racial e orgulho próprio, sem radicalismo, pois muitos membros e líderes eram conservadores e preferiam estar ali somente como paulistas.

Mas voltando ao cerne politico do movimento constitucionalista, surge a pergunta incômoda: 

houveram realmente combates militares e mortes em confrontos? Há provas testemunhais imparciais e elementos materiais que atestam os efeitos dos embates bélicos? Os incidentes foram unilaterais ou recíprocos? Ao que tudo indica, por falta de documentação convincente, os mortos de todos os tipos, incluindo de causas naturais pela longa permanência em prontidão, foram considerados combatentes e tratados como heróis lutando numa guerra que provavelmente nunca aconteceu de fato. Todo o esforço de arregimentação não teve a implicação prática e as características autênticas de uma guerra, civil ou militar, nos quais o número de mortos são geralmente muito superiores quando comparado ao número de alistados. A propaganda dos eventos foi muito mais intensa do que a notícia.    

Outro equívoco muito comum e cansativamente criticado pelos pesquisadores acadêmicos é a  nomenclatura e a caracterização revolucionária do movimento. É consenso entre os historiadores acadêmicos que no Brasil nunca ocorreu de fato uma revolução, na concepção sociológica do termo, que significa ruptura estrutural de um processo histórico. Os movimentos que pretenderam fazer rupturas estruturais  não passaram de grandes reformas na organização e gestão do Estado. 1932 não foi revolução porque não teve ruptura do processo histórico. Quem fez a reforma consequente foi o Estado implantado em 1930 e que havia derrubado a república velha. No caso de 32 , a  estrutura de poder e de divisão social continuou a mesma, ocorrendo apenas uma reforma e acomodação dos setores insatisfeitos com a centralização crescente do governo provisório de Vargas. 

 A oligarquia cafeeira paulista, inconformada com a perda de prestígio, não conseguiu recuperar mais seu antigo status quo, sendo substituída pela burguesia industrial crescente, que se originou da própria elite financeira e industrial nascente. Os conflitos ideológicos polarizados entre 1935 e 1937 enterraram definitivamente o sonho dos constitucionalistas que achavam que a Carta de 1934 concedida por Vargas tinha sido uma vitória do movimento. Vargas continuou no poder, as forças de oposição se diluíram nos polos ideológicos do fascismo e social-liberalismo. E finalmente veio o golpe do Estado Novo, implantando uma ditadura nacionalista que mandou queimar as bandeiras dos estados e silenciar as reações e também as pretensões separatistas regionais. 

Diante de um novo cenário geopolítico, agora de verdadeiras batalhas bélicas, Vargas vai conduzir o Brasil para a II Guerra Mundial. Os líderes militares e civis, antes divididos como oponentes internos, tiveram que se alinhar ao novo contexto e seguir o comando da Força Expedicionária Brasileira que iria lutar na Itália.  

Assim, o movimento paulista foi enterrado para sempre como pretensão revolucionária, assim como as revoltas tenentistas, tornando-se apenas um culto regional de memória idealista. 

A participação do Brasil na II Guerra também foi recheada de lances políticos e míticos, da escolha do bloco no qual o país iria aderir e depois, após a derrota do Eixo, a um novo realinhamento diante do choque ideológico entre EUA e URRS durante a Guerra Fria.


Acima uma "reportagem" de um jornal do Rio sobre o bombardeio do Itaipu durante movimento constitucionalista  de 32. O relato não é jornalístico, tem uma linguagem de propaganda e não dá informações específicas do incidente. O conteúdo da matéria procura exaltar mais a qualidade do equipamento militar do que propriamente esclarecer o fato. Os historiadores mais críticos entendem que esses incidentes eram manipulados pelas próprias forças armadas para valorizar a corporação, os investimentos bélicos e esvaziar as reivindicações dos setores civis evolvidos. No caso de Itaipu existe uma dúvida: por que somente um local isolado  foi escolhido para ser bombardeado, sendo que, pela lógica militar, os alvos prioritários seriam locais de maior valor estratégico como o porto de Santos, as usinas de eletricidade em Cubatão e a própria cidades de Santos, já bem desenvolvida e valioso ponto para esses ataques? 

 

*

O BATALHÃO DE CAÇADORES E O FORTE  

NO AUGE DA GUERRA FRIA

 

 

Circe Sanchez Toschi (Praia Grande antes da emancipação): 

“Em setembro de 1952, o Exército fez seus exercícios de base, de total realismo, aqui em Praia Grande, mais ou menos em frente a Vila Tupy e Campo da Aviação. Toda a praia ficou proibida à população por causa dos perigos inerentes às manobras. 

Havia bombardeios, desembarques de tropas, transportada por vias marítimas, tudo enfim com todas as características modernas da época; técnicas de ataque e defesa. O 2º Esquadrão Mecanizado era parte integrante das manobras. A 2ª Região Militar proibiu todo e qualquer tipo de trânsito de veículos e pessoas. 

No aeroclube houve tiros antiaéreos, metralhamento e bombardeio pela Aviação, também tiros de campanha e de morteiros de infantaria. 

O professor Lucas Nogueira Garcez era o governador de São Paulo e visitou a linha de frente. Ao término das manobras, houve confraternização entre os militares e os civis, promovido pela prefeitura com um almoço no restaurante Lagosta. Na ocasião, esteve presente o general Henrique Teixeira Lott, o mais alto posto militar de São Paulo...O general Lott foi candidato à presidente na eleição vencida por Jânio Quadros”

 


O FORTE  E O REGIME MILITAR


 

Cidade de Santos. Domingo, 10 de novembro de 1968. Notícias sobre a prisão dos líderes estudantis na Fortaleza e também a contenda política sobre a candidatura de Nicolau Paal na chapa do MDB. Hemeroteca Digital da BN 


PRISÃO DE ESTUDANTES 


Nove líderes estudantis que foram presos dia 12 de outubro passado quando tentavam realizar o congresso da ex-UNE em Ibiúna e que desde o dia 16 estavam na fortaleza do Itaipu foram transferidos ontem para as delegacias Sul e Oeste da capital, onde aguardarão para serem ouvidos no inquérito da 2ª Auditoria Militar.
Vladimir Palmeira, Luís Travassos, José Dirceu de Oliveira, Marco Aurélio Ribeiro, Luís Raul da Mata Machado, Franklin Martins, Antônio Guilherme Ribas, Walter Covar e Omar Laino saíram da fortaleza às 16 horas num carro-cárcere da Força Pública.
O pedido de transferência dos estudantes, segundo informou o ten. cel. Antônio Erasmo Dias, comandante do Forte do Itaipu, foi feito pelo secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Hely Lopes Meirelles. Desde as 13 horas, a escolta que deveria levar os estudantes para São Paulo era esperada pelo comandante, que por causa disso teve que impedir a visita de alguns familiares que foram ao forte ontem para vê-los, inclusive de Ana Maria Palmeira, esposa de Wladimir.
Não gostaram - O tte.-cel. Antônio Erasmo Dias disse ontem que os estudantes não gostaram quando foram informados que seriam transferidos para São Paulo. "Desde anteontem que eu já sabia da transferência dos moços. Por isso, hoje de manhã providenciei um exame médico e dentário para eles". Depois da ginástica habitual, os estudantes tomaram banho, almoçaram e foram arrumar suas coisas. Às 16 horas o caminhão da Força Pública chegou e os estudantes embarcaram. O comandante informou que durante os 23 dias e meio que os estudantes passaram naquela unidade militar, foram submetidos a interrogatórios informais, que não serão juntados ao processo a que terão de responder, na Justiça Militar.

O COMANDANTE OLIVA 


Uma figura militar de destaque que residiu no Forte de Praia Grande foi o general Osvaldo Muniz Oliva, nascido em Santos em 1925 e ingressante na Academia das Agulhas Negras em 1945. Na sua biografia do CEPDOC da Fundação Getúlio Vargas, consta a sua rápida trajetória de promoções e serviços em importantes unidades técnicas do Exército: "Cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais entre fevereiro e novembro de 1955, quando foi para o Grupo de Artilharia da Costa, em São Vicente (SP)". Foi oficial de gabinete do então ministro do Exército general Artur da Costa e Silva e depois assessor-chefe da Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional, onde ficou até 1970. Nesse mesmo ano tornou-se comandante do 6º Grupo de Artilharia Motorizado, em Praia Grande. Do seu casamento com Iara Mercadante Oliva, teve seis filhos, "Um deles, Aluísio Mercadante, deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), de São Paulo, na legislatura 1991-1995 e a partir de 1999, candidato derrotado à vice-presidência da República na chapa encabeçada por Luís Inácio Lula da Silva, nas eleições de outubro de 1994 e a vice-prefeito na chapa encabeçada por Luísa Erundina à prefeitura de São Paulo, em outubro de 1996, e senador eleito em 2002". O General Oliva declarou em entrevista que, mesmo sendo conservador, era apartidário e que sempre votou no filho. Encerrou suas carreira em 1990 como um dos mais influentes diretores da ESG, Escola Superior de Guerra. Na reserva atuou como consultor e tornou-se comentarista de jornalismo da Rádio Trianon, em São Paulo.


 Notícia da investidura então tenente-coronel Osvaldo Muniz Oliva. Cidade de Santos. 30 de Julho de 1970.


DESCRIÇÃO DA VILA MILITAR NA FESTA DOS 25 ANOS



 

GUERRA URBANA E GUERRILHA RURAL


Comandos do BC e Itaipu vasculhando a região e bloqueando estradas em busca de armas dos grupo guerrilheiros que contestavam o regime militar. Cidade de Santos, 1969.


 

  No final da década 1960 e início dos anos 70, o regime militar sofreu fortes críticas e oposição de parte da sociedade civil e de diversos setores discordantes dos rumos que o movimento militar de 64 havia tomado. O jornal o Estado de São Paulo discordava da censura e mandava telegramas para o governo criticando e denunciando abuso de autoridade. Nessa época surge a radicalização dos grupos marxistas-maoístas, que não viam senão na luta armada a retomada da legalidade e legitimidade politica interrompida em 31 de março de 1964. O caso do capitão Carlos Lamarca e seus companheiros de farda tornou-se emblemático e mostrou que a luta de classes também  nos quartéis, onde militares de talento e potencial, mas sem influência corporativa, tinham suas carreiras frustradas pelo sistema histórico de promoções, impedindo que fossem alçados por mérito à patentes superiores. Lamarca, como o capitão Luiz Carlos Prestes nos anos 1930, já tinha optado pela ruptura com o Exército e adotado o cultivo do marxismo como rota de contestação. O primeiro e mais influente núcleo paulista de guerrilha desse período seria implantado no  Vale do Ribeira, região subdesenvolvida e alvo social estratégico e propício para esse tipo de ação política, seguindo o modelo trotskysta e maoísta de aliciamento do campesinato. Na primeira imagem o Capitão  Lamarca aparece treinando uma funcionária do Bradesco contra possíveis ações de assaltos e sequestros em agências bancárias. A "notícia" já era uma propaganda contra as ações terroristas dirigidas ao regime, mas ninguém desconfiava que Lamarca já estivesse engajado na luta armada de oposição. Iara Ivalberg, uma das suas alunas de treinamento, se tornaria guerrilheira e fiel companheira do capitão que desertou e fugiu do Quartel de Quitaúna (região de Osasco), levando um veículo e armas para iniciar as famosas ações de confronto. Acuada pelas forças governistas, Iara cometeu suicídio atirando no próprio peito num apartamento em Salvador em 20 de agosto de 1971. Em 17 de setembro, Lamarca e o também guerrilheiro Zequinha foram metralhados por um grupo de 60 homens numa emboscada em Pintada, no sertão da Bahia.

***

As imagens são do jornal Cidade de Santos, entre maio e abril de 1969. Acervo do IHGS-Biblioteca Nacional.

 

Exército na direção do Vale do Ribeira em 1969, foco da guerrilha maoista. Estratégia de invasão cultural com aparência de guerra armada para neutralizar a influência ideológica dos guerrilheiros na região mais pobre do estado. O MOBRAL era uma das armas mais importantes desse movimento.



ITAIPU CONTRA O TERROR URBANO E  A GUERRILHA NO VALE DO RIBEIRA

 

Essa notícia sobre a presença da ACISO no litoral Sul foi publicada três  semanas depois da morte do guerrilheiro Carlos Marighela, em 4 de novembro de 1969. 





 

CAPÍTULO IV

OS EXTRATIVISTAS, AGRICULTORES
MINERADORES, LENHADORES E PLANTADORES


Olaria no canto do Forte nos anos 1940. Museu da Cidade. A primeira olaria que se tem notícia na região foi instalada em no início do século XX entre o Xixová e Taipu, onde hoje está o Litoral Plaza Shopping. Segundo Circe Sanchez Toschi -Praia Grande antes da emancipação (2008)- a mesma instalação foi vendida em 1921 para a família Ribas, remanescente do antigo núcleo afonsino.


Lenhadores nos sítios do Itaipu nos ano 1930. Museu da Cidade. 


O PARQUE PIAÇABUÇU

Além das atividades de ocupação legais e ilegais, assim como nos processos de extração mineral, ocorreu no litoral vicentino, durante décadas, o desmatamento intenso e sistemático por meio da extração predatória de madeira, principalmente como fonte de combustão (lenha e carvão) utilizada em diversos segmentos da indústria e serviços de hotelaria, restaurantes e residências particulares. Como também informa a pesquisa citada a seguir, a extração dessa vegetação de mata atlântica facilitou a expansão, ocupação e transformação dessas áreas e novos loteamentos próximos aos manguezais e aos rios:

“Terrenos originalmente recobertos por vegetação de restinga, a partir da década de 1960, foram tomados por construções. Conforme a Prefeitura da Estância Balneária de Praia Grande (2002) e Souza (2010), os primeiros bairros localizavam-se próximos à orla. Entre 1972 e 1996, a urbanização consolidou-se nos bairros mais antigos e estendeu-se para o interior do continente. Entre 1996 e 2005, a urbanização ocupou áreas adjacentes àquelas urbanizadas anteriormente e preencheu vazios existentes entre os loteamentos (Hidroconsult, 2006). Verifica-se também que a urbanização seguiu em direção às Áreas de Preservação Permanente (APP) dos rios Boturoca e Piaçabuçu. A área ocupada por manguezais também sofre com o crescimento da urbanização. Com o objetivo de proteger esses ambientes, foi criado o Parque do Piaçabuçu, através da Lei Complementar n.152, de 26/12/1996 (Luz, 2006). Além da retirada de parte da vegetação de restinga para a implantação do setor urbano, a ocupação da Planície Costeira também resultou no aparecimento de áreas com solo exposto e manchas de vegetação rasteira. Destaca-se ainda a existência de antigas minerações que alteraram significativamente as características originais da área. “Baixada Santista uma contribuição à análise geoambiental”. Cenira Maria Lupinacci da Cunha Regina Célia de Oliveira(orgs.). Editora Unesp, 2015.


BANANICULTURA E O PORTO DAS BANANAS 


Troley de de carregamento de bananas da fazendas produtoras até a linha principal da E.F. Santos Juquiá. 

 

O cultivo de banana encontrou farto espaço e solo fértil no litoral paulista devido ao clima e às condições favoráveis do relevo e do solo, com temperaturas altas e umidade do ar, bem a gosto dessa fruta tipicamente tropical e suas múltiplas espécies. Sua força mercadológica exportadora aproximou as plantações dos portos marítimos, como foram os casos de Santos e São Sebastião, cujos bananais se multiplicaram rapidamente com a crescente demanda desse produto nos países do hemisfério norte e também nas regiões temperadas da América do Sul. Apesar da forte concorrência dos produtores da Ásia e América Central, a banana paulista conseguiu atingir boas praças no exterior, sobretudo na Europa, Argentina e Uruguai. 

A exportação pelo porto de Santos, que apareceu e começou a crescer no início do século XX, era abastecida pelos bananais plantados nas encostas do morros Cotupê, Caneleira, Nova Cintra, Saboó; e também na Alemoa e outras áreas planas secas na direção da atual  da zona noroeste da Ilha de São Vicente. 

Na área continental os bananais mais conhecidos ficavam nos sítios serranos próximos aos rios de Cubatão, cujo transporte fluvial dava acesso direto ao porto santista; e principalmente no Guarujá, nas extensas propriedades de Áurea Gonzalez Conde (1889-19660, empresária espanhola casada com Luciano Castro - com quem empreendeu o patrimônio agrícola e, viúva deste, casou-se com  Severo Conde Y Conde. Radicada em Santos, residia numa mansão da Praça Independência, já demolida. Conhecida popularmente como "Rainha da Banana",  Áurea foi considerada a grande bananicultora de toda a região, dona de 60% das exportações desse produto. Também possuía plantações no litoral sul, em Itanhaém e Agenor de Campos. Ela foi fundadora da Cooperativa Central dos Bananicultores do Estado de São Paulo e seu patrimônio agrícola chegou a ser avaliado numericamente na casa dos três milhões de pés de bananas. Chegou a ter dois navios próprios para transportar sua produção.
Em São Vicente, a bananicultura era explorada no então bairro rural e continental do Japuí, cujas plantações se estendiam até o Morro do Xixová e pertenciam à família do imigrante português Luiz Antônio Barreiros. A produção do Japuí era destina à Alemanha e Uruguai e conduzida ao porto pelos caminhões do Curtume Cardamone. Com o declínio das exportações, a família Barreiros transformou a área num loteamento residencial voltado para o potencial turístico do Mar Pequeno. 

Lançamento do Belvedere Mar Pequeno no Japui, nos anos 1960. O loteamento foi realizado na propriedade de Luiz Antônio Barreiros (o primeiro à esquerda na foto), bananicultor e ex-presidente da Associação Comercial, Agrícola e Industrial de São Vicente. Atrás da placa de lançamento vê-se ainda parte do bananal cuja produção era exportada para o Uruguai e Argentina. Empreendimento , segundo familiares, não teve o resultado esperado por ter sido lançado no início de 1964, período de grande instabilidade politica e econômica no Brasil. Acervo familiar: Lilian de Santana Botelho.


Os principais sítios de Praia Grande estavam próximos à Mongaguá, também destacada área bananicultora da região. O motivo era também a proximidade com a ferrovia. A produção de Praia Grande, realizada próxima à Serra e vizinha ao Balneário Flórida, era escoada pelos famosos troleys, pequenas locomotivas motorizadas que deslocavam em longos trilhos de bitola estreita. Eles foram introduzidos e tiveram suas linhas de tráfego foram projetadas na região por Agenor de Campos, antigo funcionário da Estrada de Ferro Sorocabana. Eram utilizados em toda a região agrícola do litoral sul, ligando os sítios e fazendas produtoras com as estações da Ferrovia Santos-Juquiá. Os Em Praia Grande a principal  receptora era a Estação do Balneário Flórida. Alguns moradores antigos afirmam que a produção dos sítios próximos do maciço do Itaipu-Xixová-Japuí também era conduzida por meio dos troleys até a ferrovia da  E.F. Sorocabana-FEPASA. No sítio do Campo(Tude Bastos) ainda existem trechos desses pequenos trilhos.

Os principais, produtores  dessa área rural ainda vicentina eram:

Antônio Dias dos Santos, comerciante português, cuja produção era destinada basicamente ao mercado consumidor do Planalto Paulista e comerciantes das cidades da Baixada Santista; 

José Pereira Soares, também comerciante português e sitiante. Segundo Sonia Maria de Bem, neta de Soares, seu avô exportava banana para a Argentina e de lá importava a famosa maçã muito conhecida dos consumidores brasileiros, embaladas em caixas especiais e protegidas por papel macio roxo. José Pereira Soares  era dono do Mercadinho Gonzaga, em Santos, localizado num dos terrenos onde posteriormente a família Mendes construiu o Shopping Miramar. Manoel Soares lembra que o sítio Xixová também pertencia ao seu bisavô José Pereira Soares e que foi ele quem ergueu a Capela de Nossa Senhora da Guia. Segundo Circe Sanchez Toschi (Praia Grande antes da Emancipação, 2008), José Pereira Soares também explorou o Sítio Campininhas, cuja produção do bananal ali existente em 1962 era transportada de caminhão (pelo motorista Claudio Sampaio) até Santos. 

No canto do Forte também havia um bananal explorado por Antônio Maria Gomes, segundo informações de sua filha Zélia Gomes de Oliveira (funcionária do antigo Ginásio Estadual). O sítio tinha como zelador o Sr. Carmelindo, negro e descendente direto de antigos escravizados na região durante o período imperial. Carmelindo ficou conhecido também por ter sido o primeiro ornamentador da estrada do Forte, na qual plantou as famosas árvores de eucaliptos e que seria a avenida Marechal Malet. 

Manoel Alberto de Jesus também recorda um dado importante dessa época: "Tinha um português, vizinho da família Mendes em Portugal, que deu muitas cartas de chamadas para os conterrâneos virem para o Brasil (+-1940) colher bananas,(trabalhavam se desejassem ). Este Senhor chamava-se Adriano Dias dos Santos. Essa colheita era na Praia Grande". 

Com as mudanças ocorridas no mercado internacional – cujo comércio e abastecimento concentrou-se mais na Ásia e América Central, em função da proximidade dos mercados dos EUA, Canadá e Europa - a produção paulista perdeu boa parte das exportações e passou a abastecer mais o mercado interno. Por outro lado, a demanda de negócios aduaneiros em Santos exigiu a expansão da infra-estrutura portuária, deslocando e aumentando a demanda dos bananais da Baixada Santista para o litoral sul. Essa produção passou a ser escoada pelas rodovias, de transporte e abastecimento mais rápido e lucrativo, na região, na Grande São Paulo e no interior.

Transporte fluvial de banana de Cubatão para o porto de Santos no final do século XIX. O embarque era feito diretamente das barcaças no canal junto aos navios atracados. Fonte : Biblioteca do IBGE.




CONFLITOS DE TERRAS

As terras de Praia Grande, desde a década de 1930, sofriam o desmatamento e também de conflitos agrários entre antigos sitiantes e exploradores de recursos naturais e loteadores. Esse período de ocupação marcou época em São Vicente, sobretudo na área continental, e era muito comum encontrar estampados nos jornais de grande circulação os editais do poder judiciário convocando publicamente as partes envolvidas para prestação de contas e atos.

INVASÃO DE TERRAS FOI DENUNCIADA NA JUSTIÇA EM SANTOS

A denúncia e defesa dos proprietários do antigo Sítio Guaramar contra os invasores foi feita pelo célebre advogado José de Freitas Guimarães dirigida a "Tude Bastos e seus camaradas", se referindo à invasão, cercamento, desmatamento e comercialização ilegal de lenha de propriedades particulares. José de Freitas Guimarães foi "provecto advogado, literato, escritor de renome e antigo promotor público da Capital, tendo exercido também o cargo de subprocurador geral do Estado. Em 1915 abandonou a procuradoria em São Paulo e voltou a Santos para dedicar-se somente à advocacia, profissão que exerceu até a sua morte, em 1944. Freitas Guimarães é nome de rua no bairro Boa Vista, em São Vicente.
            
O advogado José de Freitas Guimarães e o edital sobre as terras do Sítio Guaramar.  
Pesquisa documental: Waldiney La Petina. 

O edital publicado pela Vara de Santos no jornal GAZETA POPULAR em 31 de dezembro de 1935 descreve por meio de uma petição judicial um conflito agrário; e também a organização primitiva de Praia Grande através do sítios desde o século XIX e que seriam transformados e bairros e vilas após a emancipação da cidade.
.....

EDITAL de citação de ausentes com o prazo de sessenta dias
COMARCA DE SANTOS - CARTÓRIO DO 8º OFICIO
Escrivão: - Michel Alca

Eu, o dr. Euclydes de Campos, Juiz de Direito da 2.a Vara Cível e Commercial desta comarca de Santos, do Estado de S. Paulo, na forma da lei.
FAÇO SABER aos que o presente edital virem, dele conhecimento tiverem e interessar possa que por parte de Manoel Alves e sua mulher dona Deolinda Alves Caneca, me foi dirigida a petição do teor seguinte:
- Ex mo. Sr. Dr. Juiz de Direito de Vara: Por seu advogado e procurador infra assinado, em procuração inclusa, dizem Manoel Alves e sua mulher D. Deolinda Alves Caneca aqui residentes, que é esta para expor e requerer a V. Excia, o seguinte:
1º - Os suplicantes adquiriram dos herdeiros do João Antunes dos Santos, pela inclusa escritura (doc. n.o 1), as partes componentes do Sítio Guaramar, da Praia Grande. Município de S. Vicente, desta Comarca, isto em 21 de Outubro de 1931, tendo sido a respectiva transcrição feita, quinze após sob o n. 4.264, no L. 3-3 do Transcrição de Imóveis, a fls. 293, no Cartório do Registro Geral e de Hypothecas da 1ª Circunscrição, documento junto,nº 2.
2º - As divisas de tal imóvel como se vê na aludida escritura, as seguintes: "A Oeste, confronta com terra do Sitio Momoatuba, por uma linha reta que parte do marco de pedra existente junto uma Árvore de murta, (marco remotamente conhecido como marco da murta) e vai até o rio Porto Pequeno, atravessando um morrinho um pouco à direita do seu cume do Marco da Murta. Por outra linha reta, do rumo a encontrar outro marco antigo na margem do velho Caminho do Coquepocu, em terras do Sítio Pai Fellipe, reta essa que termina na linha do Telegrapho, Nacional. Nos fundos, com a linha do dito telegrapho, que divide o Sitio Guaramar com as terras dos sítios que fazem frente pana Praia Grande, como sejam o dos sucessores de João de Azevedo Cunha, o Sítio Taperinha, parte do antigo sitio Boguassu, hoje Jardim Guilhermina, e outros. A leste, por una linha parallela a do lado do Sítio Momboatuba, a qual, partindo da linha do Telegrapho Nacional, vai até encontrar a divisa entre o Boguassú e o Porto do Campo, e daí por outra linha reta, paralela à do lado do Momboatuba, dividindo o Sitio Guaramar das terras do sítio do Porto do Campo até chegar à margem do Rio Porto Pequeno
3) - Essas divisas concordam plenamente com as da certidão do registro parochial do Sítio Guaramar (doc, no. 3), registro que feito em 30 de Maio de 1856, por Francisco Antonio da Silva, declarando este, ali, "que possuía uma terça parte nas terras do Sítio Guaramar, as quais fazem frente no mar pequeno em um rio de embarque chamado Porto Pequeno, e pelo lado esquerdo dividem com D. Agostinha Rosa de Aguiar (Sítio Porto do Campo) e seus herdeiros, e pelo direito com terras denominadas Momboatuba, então pertencentes aos herdeiros de Francisco de Miranda Tavares, hoje dos suplicantes em sua quase totalidade), e, pelo centro (fundos), com terras de João de Azevedo Cunha, tal como ficaram figuradas na planta inclusa (doc, no. 4), levantada em obediência aos registros paroquiais dos diversos atlas então existentes na região, tanto os fronteiriços à Praia Grande como os que se achavam atrás deles, com frente para o mangue ou mar pequeno.
4) - Tais divisas nunca foram assinaladas judicialmente em demarcação regular, e isto tem dado lugar a contínuas desinteligências entre os vizinhos conflitantes, que por mais de uma vez as têm violado, estabelecendo-te dentro delas, como ainda recentemente o fez Tude Bastos que a invadiu com grande aparato de força, e ali se acha derrubando matas que lhe não pertencem, pois são do sítio dos suplicantes: - e por que querem estes fixar definitivamente as linhas verdadeiras do Guaramar, que compraram pelo doe. 230. 1.
5) A planta que oferecem (doc, no. 5) traça perfeitamente as confrontações daquele sitio, na escritura juntada (doc. no. 1), figurando as linhas divisórias como haverão ser demarcadas judicialmente, sem prejuízo do nenhum dos conflitantes, as quais são o referido Tude Bastos e os diversos proprietários estabelecidos em terras dos sítios antigos da Praia denominados São Gonçalo, Tapérinha, Pai Fellipe e Boguassu, cujos nomes o oficial de Justiça facilmente colherá no local.
6) - Devido à falta de sinalização das divisas do sitio demarcando, Tude Bastos, e outros com ele e a seu mandado, invadiram o Guaramar, e ali continuam derrubando as matas do imóvel, como se estivesse em sua própria casa, produzindo e vendendo a lenha que lhe não pertence a fazendo ouvidos moucos às constantes reclamações dos Suplicantes,
7) - Por todos estes motivos, querem os suplicantes demarcar o referido Sítio Guaramar e haver a restituição dos terrenos invadidos, onde se acham o dito Tude Bastos e seus camaradas, pelo que é esta para requererem a V. Excia, se digne mandar citar aquele e os demais invasores que se acham, bem assim todos os outros confrontantes do imóvel conhecidos, com suas respectivas mulheres, se casados, cujos nomes o oficial de Justiça poderá colher com facilidade no local, e por editais, com o prazo de sessenta dias os desconhecidos, nos termos do art. 681, I "b". do Código do Processo Civil e Comercial do Estado, todos eles para virem em primeira audiência em que a última citação for acusada falar aos termos de uma cerca demarcatória de assinalação de limites, cumulada com a de reivindicação, afim de que as divisas verdadeiras do sítio mencionado sejam devidamente assinaladas, condenados os réus invasores restituir aos suplicantes os terrenos usurpados e os respectivos rendimentos, desde a contestação da lide, tudo de conformidade com a leis, as penas nela estabelecidas.
 
Sendo certo que Tude Bastos não possui bens imóveis que garantam o pagamento do valor equivalente ao das matas que está derrubando, requerem, outros, nos termos do disposto no art. 386, IV, do citado código, se faça o sequestro da lenha que for sendo cortada e seja a mesma vendida, depositando-se em juízo o preço da venda para os fins de direito. Para os fins fiscais, dão a esta o valor de 10.000$000.

Nestes termos, pedem D. esta e A. esperam receber deferimento.
Santos, 21 de Novembro de 1935.
José de Freitas Guimarães


AGRICULTORES NIPÔNICOS


Uma segunda leva de imigrantes japoneses viria para o litoral nas décadas seguintes, no pós-II Guerra, proveniente de Okinawa. Trabalhavam  sob o regime de arrendamento, no Sítio do Campo, em Praia Grande, de propriedade do engenheiro Tude Bastos. As mesmas terras que durante décadas foram alvo de disputas judiciais e também pedido de desapropriação da família Bastos junto ao INCRA, por falta de pagamento de impostos municipais. Na década de 1980 os agricultores da colônia Okinawa foram considerados os maiores produtores de chuchu no Brasil. As gerações que sucederam os primeiros trabalhadores nipônicos , em sua maioria, romperam esse ciclo servil tornando-se produtores independentes, proprietários, comerciantes e bacharéis de destaque em inúmeros segmentos profissionais.

Entre as décadas de 1920 em 1950 os agricultores de origem nipônica se dedicavam  basicamente à produção em larga escala de legumes, frutas e hortaliças, para consumo em feiras e supermercados nas cidades do litoral e da Grande São Paulo. Durante a Segunda Guerra Mundial, por causa do posicionamento aliado do Brasil contra o Eixo, muitos pais de famílias foram recolhidas em campos de concentração no interior de São Paulo. Após a guerra muitos voltaram para o litoral para retomar suas atividades. Algumas dessas propriedades agrícolas eram especializadas, reconhecidas e premiadas pelo volume e qualidade de seus produtos.

Na década de 1980 algumas famílias japonesas radicadas em Praia Grande receberam certificados do Governo do Estado de São Paulo reconhecendo-os como "O Maiores plantadores de chuchu do Brasil". Entre os 45 famílias produtoras de chuchu que se fixaram no Sítio do Campo entre 1940- 1950, entramos agricultores pioneiros as famílias ainda residentes na cidade como os Nakazato, Tamashiro e Oshiro. Elas aparecem na lista de premiados elaborada pela Secretaria de Agricultura no governo de Paulo Salim Maluf. Kozen Nakazato (o segundo da esquerda para direita na foto) com 100 anos de idade em 2021.

ANEXO

CULTIVO DO CHUCHU FEZ HISTÓRIA EM PRAIA GRANDE
Praia Grande resgata participação de japoneses em seu desenvolvimento

18/6/2008 | Paola Vieira. 


Foto publicada com a matéria do site oficial da PMPG (acesso em 14 de maio de 2022). 
Acervo: Museu da Cidade.


Por aproximadamente 30 anos Praia Grande foi grande produtor de chuchu e chegou a ganhar o Prêmio de Produtividade da Secretaria de Agricultura do Estado. Isso graças aos imigrantes japoneses de Okinawa, que na década de 50 vieram para o Município em busca de seus sonhos, após a 2ª Guerra Mundial. Cerca de 30 famílias, todas de Okinawa, se instalaram no Bairro Sítio do Campo e começaram ali uma história de lutas e conquistas. Segundo a historiadora da Secretaria de Cultura (Secult), Mônica Solange Rodrigues e Silva, a corrente migratória dos japoneses para o Brasil se divide em três fases: 1908-1925 é definida como a fase de tentativa e experiência, em que os imigrantes foram subsidiados, principalmente pelo governo do Estado que precisava de mão-de-obra para a lavoura cafeeira; 1926-1941, período considerado o auge do movimento, foi subsidiado e estimulado pelo governo japonês (nessa fase o Brasil reduziu a entrada de imigrantes japoneses); e 1942-1953, no período pós-guerra, o movimento foi retomado com o restabelecimento das relações diplomáticas entre o Brasil e o Japão. É nesta última fase que ocorre a imigração dos japoneses que se estabelecem em Praia Grande, na época ainda um distrito de São Vicente. “Okinawa foi uma base militar americana e por viverem em estado de miséria, esses japoneses optaram em migrar. Eles desceram do navio e vieram direto para Praia Grande. Depois de algum tempo chegaram outras famílias de outros lugares”.

Foi então que os imigrantes começaram o cultivo de chuchu. “Tanto na questão de qualidade quanto em quantidade, fomos a primeira cidade no Estado de São Paulo”, destaca Mônica. O chuchu contava com grande aceitação no mercado e longo período de colheita, de maio a novembro. Colhia-se cerca de 80 a 100 caixas duas vezes por semana, num total de 6 mil caixas (cada uma com 25 quilos) por ano. “Essa produção seguia direto para o Mercado Municipal da Capital”, conta a historiadora. Porém, com o passar do tempo, o cultivo de chuchu começou a se extinguir. Na década de 1980 a produção cessou. “Começou o “boom” imobiliário e os proprietários das terras não mais queriam arrendá-las. Ao mesmo tempo, os filhos dos imigrantes já estavam fazendo faculdade, se direcionando para outras profissões. Foi a junção de fatores que contribuiu para o término do cultivo do chuchu.”



Caminhão carregado com caixas de chuchu circulado pela cidade nos anos 1960.  Foto publicada com a matéria do site oficial da PMPG (acesso em 14 de maio de 2022). Acervo: Museu da Cidade.


Segundo Mônica, atualmente a colônia japonesa de Okinawa se concentra no Bairro Boqueirão. No Bairro Sítio do Campo existe a Associação Okinawa, que já não é tão atuante como foi um dia. “Não temos o número exato de pessoas que integram a colônia japonesa de Praia Grande, mas pretendemos realizar um censo”, disse Mônica.

História - O pai da administradora Maria Keiko Shinzato Nakana, Yoshio Shinzato, foi um dos imigrantes japoneses de Okinawa a desembarcar, em 1954, no Porto de Santos e seguir direto para Praia Grande. “Meu pai tinha um parente aqui e veio já com destino certo: Praia Grande”

De acordo com Keiko, seu pai trabalhava como taxista em Okinawa, mas com os maus tratos dos soldados americanos, decidiu se mudar para o Brasil, aos 23 anos. Em Praia Grande, o jovem começou a trabalhar no cultivo de chuchu. Quatro anos depois se casou e teve seis filhos “Meus pais trabalhavam na lavoura; 12 horas de trabalho pesado todos os dias da semana. Com o dinheiro do chuchu, ele comprou uma casa. Era um trabalho árduo, mas financeiramente, muito lucrativo.”

Keiko conta que cuidava de seus irmãos enquanto os pais cultivavam a terra. “Mas meus pais sempre priorizaram a educação. Eu e meus irmãos temos curso superior. Eles queriam que tivéssemos uma boa profissão e sempre investiram para que não precisássemos trabalhar na lavoura.”

PMPG -Fonte: Livro "Longe do seu país". Furusato Hanarete. 


ANEXO 2

AULAS DE KARATÊ NO SÍTIO DO CAMPO


Praia Grande, 1965. Mestre Carlos Suzuki e Mestre Yoshihide Shinzato treinam karatê com seus alunos. Imagem de Suzuki Dojô. São Vicente de Outrora.


Radicados como lavradores no Sítio do Campo, os imigrantes de Okinawa dedicavam-se à produção de legumes e frutas comercializadas nas feira da região, principalmente em Santos. A migrar para o Brasil, Yoshihide Shinzato, sem recursos recursos financeiros, foi residir provisoriamente num sítio  de amigos até se estabelecer em Santos com sua prestigiada academia. 



*

CAPÍTULO V

OS PRIMEIROS URBANIZADORES




Varanda do Hotel dos Alemães no Jardim Guilhermina Guilhermina em 1928. Acervo Museu da Cidade.


E finalmente, entre os primeiro habitantes, os pioneiros paulistanos e interioranos paulistas, turistas frequentes que foram permanecendo por longas temporadas e depois se estabelecendo como moradores fixos. Estes foram atraindo de forma crescente e sucessiva levas amigos, parentes e conhecidos adquirindo sítios, chácaras e principalmente lotes residenciais para construção de casas de temporada.
Essas famílias de classe média, de origem no planalto e na interlândia paulista, geralmente descendentes de europeus e também membros da tradicional pequena burguesia proprietária - formada por funcionários públicos, pequenos comerciantes, profissionais liberais- foram os primeiros habitantes empreendedores dos núcleos de negócios imobiliários, comércio e de hotelaria turística na futura estância balneária de Praia de Grande.

Enquanto as massas operárias desciam a serra e retornavam aos seus afazeres diários após os fins de semana, eles permaneciam em períodos mais longos desfrutando do seus pequenos patrimônios de lazer que aos poucos se tornavam residências fixas após a aposentadoria. Até hoje estão presentes e exercem importante influência social na cidade. Seguiram a tradição veranista dos avós e dos pais e já vislumbram seus netos e bisnetos perpetuando a tradição das famílias descendo a serra para usufruir de instalações e uma infra-estrutura completamente diferente de quando Praia Grande era um imenso estacionamento de milhares de automóveis populares e centenas ônibus de excursões dos fins semana.
A cidade do Netuno, de Iemanjá e dos tão conhecidos "farofeiros" (porque manteve por longos anos o turismo de permanência rápida e de baixo custo) sempre teve um grupo mais aristocrático, de melhor formação e poder aquisitivo e que se instalava nos recantos mais valorizados dos bairros. Ao contrário dos paulistanos e planaltistas de classe média alta que frequentavam Santos, São Vicente e Guarujá - e que depois migraram para as praias do litoral norte - os de Praia Grande permaneceram fiéis aos seus antepassados, substituindo - com orgulho de pertencimento e conquista - seus imóveis simples e até rústicos dos anos 60 e 70 pelos luxuosos apartamentos nas grandes torres que hoje se multiplicam nas proximidades da orla.

Esta foi uma transformação rápida e surpreendente para quem viu há apenas algumas décadas uma cidade de aparência caótica e informal tornar-se um dos metros quadrados mais valiosos da Baixada Santista.

O nascimento da Guilhermina em 1930. A direita na orla o primeiro hotel de Praia Grande, o Hotel dos Alemães. Acervo : Museu da Cidade.




HEITOR SANCHEZ


O CRIADOR DA PRAIA GRANDE URBANA


“A Praia Grande tem a história de meu pai, que em 1920 viu que aqui seria bairro à beira - mar de São Paulo... Vivi quase tudo o que escrevi, muito pouco me foi contado”.

Circe Sanchez Toschi, filha de Heitor Sanchez e esposa de Oswaldo Toschi


O jovem Heitor Sanchez no Parque da Luz quando residia em São Paulo. Museu da Cidade.


UM VISIONÁRIO

ROSANA ALMEIDA LAFRANCA



Imagens: Acervo de Circe Sanchez Toschi -Museu da Cidade. Texto adaptado a partir do original  cedido por Suely Sanchez Toschi.


Arrojado em suas ideias, empreendedor de sucesso, Heitor Sanchez foi um dos pioneiros no processo de loteamento da cidade de Praia Grande (ainda quando esta era bairro da cidade de São Vicente). Esta biografia vem apenas tentar demonstrar um pouco da vida desse homem e quanto ele contribuiu para esta cidade, que há muito tempo conheceu o desenvolvimento urbano e também para a filatelia. As balizas cronológicas desse trabalho são a década de 1920 (época do loteamento), até 1985, ano de sua morte. 

Um Homem Sem Medo de Ousar

Na história de Praia Grande, percebemos o nome de vários pioneiros. Mas dentre todos, um me chamou mais a atenção: Heitor Sanchez. Comerciante e apaixonado pela filatelia, ao ver o mar de Praia Grande, tão deslumbrante, com suas límpidas areias, encantou-se pelo local. Essa visão paradisíaca, com seus sítios e seus pescadores, com suas características imanentes do espírito da beleza natural, despertaram em Heitor Sanchez um sonho: adequar tal local para que outros mortais pudessem ter uma visão do que é realmente fantástico.

Muitos pensam que a história de Praia Grande começa no início do século XX, com o loteamento de terras e a construção de balneários, jardins e outros núcleos urbanísticos. Porém, o que os documentos atestam é que por volta da segunda metade do século XVI já começavam a se estabelecer aqui, pequenos colonos portugueses. A prova está no fato de já, em meados no séc. XVI existia um caminho para Itanhaém, dado que a 16 de agosto de 1555 se resolveu na Câmara de S. Vicente fazer e limpar o caminho para Itanhaém. Aliás, a frente litorânea correspondente à praia de Peruíbe, assim como a Praia Grande, conheceu um povoamento tão antigo quanto ao da zona insular vicentina. Tais sítios são relatados pelo padre José de Anchieta, em uma carta datada de 1561, que aqui passava se dirigindo à Conceição de Itanhaém, observando que por toda aquela praia estão fazendas dos portugueses e sempre se acham nelas alguns escravos.

Em 1765, o então governador da Capitania de São Paulo, D. Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão ordenou o processamento de um recenseamento, para verificar as populações que estavam estabelecidas em toda região de São Vicente a Mongaguá. Na denominada praia de Taypus, o primeiro da lista é Gaspar Gonçalves de Aguiar, de 37 anos, casado com Beatriz Cardoso da Silva, possuindo estes, três agregados forros (escravos libertos) e dezenove escravos.

Em 1903, é construído o forte de Itaipu, representando uma nova etapa para Praia Grande, utilizada como ponto estratégico de defesa da enseada santista.
Praia Grande sempre foi considerado um local para aventurar-se, até que em 1914, com a construção da Ponte Pênsil, projeto do sanitarista Saturnino de Brito, os processos de loteamento começaram a ganhar forma, chegando então os primeiros loteadores, entre eles, Júlio Secco de Carvalho, Heitor Sanchez e Nagib Saeg. Tais homens compraram terras e as lotearam, desenvolvendo uma infraestrutura urbanística, mesmo sem o auxílio das autoridades vicentinas, que nunca reverteram uma parte do orçamento da cidade para estruturar o então bairro.

Com isso, começam as vendas de lotes e a construção de casas, igrejas e escolas. Por volta de 1926, já existia luz elétrica em determinado ponto de Praia Grande e o transporte urbano começa a estabelecer itinerários para levar a população local para outras cidades.

Em 1950, novo impulso, com a construção da "Cidade Ocian”, projeto de Roberto Andraus, que definitivamente ativou o desenvolvimento urbanístico da cidade. Com todo o progresso, e com o descaso da Prefeitura de São Vicente, iniciam-se os movimentos emancipatórios, realizados nos anos de 1953, 1958 e 1963, sendo aprovada a emancipação pela Assembléia Legislativa no dia 28 de janeiro de 1963. Porém, tal ato só foi considerado legítimo pelo Supremo Tribunal Federal em 1966, sendo Praia Grande reconhecida município em 1967.

Segundo consta em uma obra genealógica', o familiar mais antigo de Heitor Sanchez trata-se de Sànchez, o qual se radicou na Vila de Cangas de Onís, nas Astúrias (Centro Espanhol de Investigacion) Heitor Sanchez nasceu no Uruguai, na cidade de Montevidéu no dia 21 de março de 1898 na rua Mercedes e naturalizou-se brasileiro. Seus pais, Francisco Tecino Sanchez, nascido no dia 7 de outubro de 1870 e Mathilde Boj Sanchez, nascida no dia 12 de fevereiro de 1870 vieram da Espanha e se estabeleceram durante um tempo no Uruguai. Francisco Tecino Sanchez era farmacêutico, já sua esposa, D. Matilde, praticava bordados e tocava piano. Ao chegarem ao Brasil por volta do ano de 1899, a família de lleitor Sanchez vai se residir na rua Barão de Itapetininga, n°69 em São Paulo, aonde seu avô José Dolz, pai de sua mãe Matilde, e sua esposa Josepha Dolz", vai estabelecer em 1905, após a sua vinda para o Brasil, uma loja de filatelia denominada Casa Filatélica José Dolz Sanchez, que além de outros, se encontravam os selos mais caros do Brasil, os chamados “Olho de Boi”, sendo estes lançados em 1843, foram os primeiro selos postais lançados no país tendo seus valores estimados em 30, 60 e 90 mil contos de réis (valor da época). Porém, antes de sua chegada, no dia 9 de maio de 1903, o pai de Heitor, Francisco T. Sanchez, morre aos 33 anos de idade, cabendo ao avô José Dolz a tutela da família. Heitor Sanchez, interessado nas atividades do avô filatelista, inicia-se na área por volta de 1906.

Folder do arrruamento e lotes do do Jardim Mathilde. Museu da Cidade. 


Em 1914, no dia 9 de outubro, quando Heitor Sanchez possuía 16 anos de idade, seu avô morre dormindo dentro de um cinema, cabendo a seu irmão mais velho, Francisco Sanchez (Paco), nascido em Buenos Aires em 1894, a administração da família. Já a educação do irmão mais novo Cristóvão fica a cargo de Heitor. Com a morte do avô, a firma recebe o nome de Casa Filatélica José Dolz, Francisco T. Sanchez, sucessor, sendo dirigida por Paco. Em 1913, Paco lança uma revista mensal “O São Paulo Filatélico".

Porém, no dia 23 de maio de 1917, Paco morre aos 23 anos de idade, cabendo agora a Heitor os cuidados da família. Além disso, Heitor e seu irmão Cristóvão assumem os negócios filatélicos da família, mudando novamente o nome da firma para Casa Filatélica José Dolz, Sanchez e Cia. Sucessores.

Heitor Sanchez estudou até o 4o. ano primário no Grupo Escolar do Largo do Arouche, em São Paulo, posteriormente, termina o 1 ano ginasial no Ginásio do Estado. Já adulto estudou no Liceu de Artes e Oficios, junto com Victor Brecheret. Mas com a morte de seu irmão, é obrigado a abandonar os estudos.
Em 1922, em virtude da demolição do prédio da rua Barão, Heitor Sanchez muda-se para a rua Libero Badaró, onde reside por dois anos, deslocando-se novamente para o Parque do Anhagabaú.
Heitor Sanchez era sócio do Clube Atlético, em São Paulo, onde praticava remo no rio Tietê (que se localizava em frente ao Clube) além de ter introduzido no Clube o basquete (Bola ao Cesto). Vencedor de muitos torneios de remo possuía muitas medalhas, as quais doou em1932 para a Revolução Constitucionalista


Heitor Sanchez e Otília Ribeiro no início da década de 1920.


Casou-se no dia 2 de abril de 1921, na Igreja Santa Efigênia, localizado na rua Barão de Itapetininga com uma moça chamada Othilia Ribeiro, formada professora na Escola Caetano de Campos, a qual conheceu quando esta seguia em direção ao Colégio onde lecionava e passava em frente a loja de Heitor. Como casamento, Heitor muda-se para uma casa na Travessa Almeida com a rua São João, em São Paulo, onde em 1922 nasce sua primeira filha, Circe. Posteriormente, Heitor constrói duas casas na rua Capitão Messias, no bairro das Perdizes em São Paulo, onde vai morar com a família e deixa a outra para o estabelecimento de seu irmão Cristóvão e sua mãe Matilde. Além de Circe, Heitor teve mais dois filhos: Diva e Paulo e Myrthes (falecida aos 9 meses de idade).

Em 1921, adquire uma gleba de terra de 50 metros de frente para o mar, que se estendia até o morro do Xixová, a qual comprou por dez mil contos de réis da firma Jonhson & Jonhson, de Santos, por intermédio do corretor Francisco Ditt. Posteriormente, ele adquire outras glebas, pertencentes às famílias Alves, Gonçalves e do senhor Nagib Saeg, totalizando uma gleba de 250 metros de frente para o mar. Esta área dará origem ao Jardim Matilde.

Em 1925, Heitor entra em contato com os irmãos Guinle para juntos adquirirem uma gleba de terra ao lado da que Heitor já havia adquirido, e que era denominada "Nova Escócia", aonde até então produziam-se melancias e abacaxis, e que estavam sob tutela da firma atacadista Ferreira Laje. Juntos, adquirem por 250 mil réis, uma área de 500 metros de frente para o mar, com 1.500 metros de comprimento e 700 metros de fundo.

Heitor Sanchez foi também um dos fundadores do Rotary Club de São Vicente e Praia Grande além de receber o título de Cidadão Honorário de Praia Grande.

Fundou a Companhia Territorial Praia Grande; foi secretário membro da Associação Amigos de Praia Grande; Em 1965 participou da comissão estadual de filatelia; foi diretor da Companhia territorial Jardim Guilhermina; presidente dos Sanatórios Populares de Campos do Jordão; foi juiz preparador eleitoral em Campos do Jordão e em 1925, fundou a Associação dos Proprietários de Praia Grande.
Heitor Sanchez morre na cidade de Praia Grande, no dia 6 de novembro de 1985, sendo seu corpo enterrado no Cemitério da Consolação em São Paulo.

A Filatelia: uma Paixão

Em 1905, por ocasião do aniversário do irmão mais velho de Heitor Sanchez, chamado Francisco, recebeu este como presente de sua mãe, uma pequena coleção de selos, tendo Heitor somente cinco anos. Naquela ocasião, em 1905, o avô de Heitor, José Dolz, vivia com ele e substituiu o pai que falecera em 1903. Veio ele da Espanha, trazendo uma soma bem importante, que foi utilizada em diversos empreendimentos que, fracassaram, sendo os principais uma fábrica de tecidos e outra de fósforos. Conhecia ele alguma coisa de selos, e quando o irmão de Heitor ganhou a coleção, se interessou pela mesma e ajudou a Francisco no seu desenvolvimento dando-lhe uma orientação.
Moravam na rua Barão de Itapetininga, em São Paulo, onde atualmente se encontra a Galeria Califórnia, perto da Praça da República. Estabelecida como oficina de bordados, ocupava duas ou três portas da loja, e o seu interior foi a moradia da família.

Jardim Mathilde: os sonhos colocados em prática


Casas do Jardim Mathilde em 1947. Acervo da família Sanchez-Toschi. Museu da Cidade.


Por volta de 1920, Heitor Sanchez chega à Praia Grande, acompanhado por um amigo filatelista e corretor de imóveis da companhia comissária de café Johnston e Cia. Ltda. de Santos, chamado Francisco Ditt. Ambos estavam a passeio. Porém, ao observar uma gleba de terra, que até então pertencia à firma Jonhson & Jonhson de Santos, Heitor Sanchez interessou-se em adquiri-la, solicitando a ajuda de seu amigo Ditt, para que este liderasse as negociações. Com tudo acertado, ficou estabelecida a compra de uma gleba com 50 metros de frente para o mar, por mil metros de fundo indo até a base do morro do Xixová, pela quantia de 10 mil contos de réis, com mil contos de réis de sinal e o restante dividido em parcelas mensais.

Em 1921, a escritura definitiva é lavrada no cartório do 6 o tabelião em Santos. Meses mais tarde, Heitor Sanchez adquire de Jorge Barbour mais 45 metros de frente para o mar, anexando-os ao da sua gleba. Negocia também com Jamil Mastabi, onde adquire mais 2,8 mil metros de frente para o mar. Somando as duas negociações, Heitor Sanchez gastou mais 8 mil contos de réis (conforme escritura de 17 de dezembro de 1924). Além dessas, Heitor Sanchez anexou terras das famílias Gonçalves, Alves e de um senhor denominado Nagib, totalizando ao final, uma gleba de 250 metros de frente para o mar. Forma-se assim o local onde se estabelecerá o Jardim Matilde (nome em homenagem à sua mãe).
Ainda quando preparava o loteamento do Jardim Mathilde, Heitor Sanchez se interessou por outra área, a qual adquire com a ajuda dos irmãos Guinle (sócios da Companhia Doca de Santos). É nessa área que posteriormente surgirá o bairro Guilhermina.

Heitor Sanchez então volta suas atenções para o novo empreendimento, no qual em 1927, com o processo de instalação de um poço artesiano para o abastecimento de água no bairro, adquire malária, que abala a sua saúde, fazendo-o contrair tuberculose.

Com isso, Heitor Sanchez se retira para Campos do Jordão, onde permanece por dez anos. Porém, mesmo longe e debilitado, Heitor Sanchez consegue a regulamentação do Jardim Matilde, através do decreto lei n° 58, de 10 de dezembro de 1937 e decreto n°3079, de 15 de setembro de 1938. Por fim, em 1940, Heitor Sanchez retorna à Praia Grande e volta as suas atenções ao Jardim Matilde, a primeira gleba que havia adquirido, mas que havia deixado um pouco abandonado, por ter investido os seus esforços ao Jardim Guilhermina.

Por volta de 1941, com o trabalho de 30 carroças puxadas por burros, inicia-se o loteamento do Jardim Matilde. E no dia 25 de janeiro de 1947, é publicado no Diário Oficial o decreto lei n° 58 que habilitava a Companhia Territorial Praia Grande a entregar os contratos de compromisso.

Em 1948 a gleba estava dividida em lotes de 12 por 30 metros e seu arruamento já havia sido iniciado.
Durante o loteamento do Jardim Mathilde, Heitor Sanchez reservou um local para a construção de uma capela, a qual se inicia no dia 11 de dezembro de 1949, com o lançamento de sua pedra fundamental, após uma missa campal celebrada pelo reverendo Teófilo Fraille. Por fim, no dia 27 de agosto de 1950, a capela Santa Matilde foi inaugurada, contando com a presença de várias personalidades, entre eles o bispo diocesano de Santos Dom Idílio José Soares. Neste dia, Heitor Sanchez coloca na capela uma imagem antiga de Cristo, que após uma análise detalhada, provou-se ser uma peça histórica. Sabendo disso, Heitor resolve doar a imagem ao museu de Arte Sacra de São Paulo. Além da capela, Heitor Sanchez doa para o Governo do Estado dois lotes, com 750m quadrados para a construção de um colégio. E no dia 27 de agosto de 1950 era lançada a pedra fundamental da Escola Mista Jardim Mathilde.


CAPELA DE SANTA MATHILDE. Capítulo importante da história cultural de Praia Grande, na época ainda um bairro vicentino. A Capela Santa Mathilde, situada no loteamento Jardim Mathilde, foi inaugurada em 27 de agosto de 1950 com missa celebrada pelo Bispo de Santos, Dom Idílio José Soares. Segundo Suely Toschi, neta do pioneiro praiagrandense, a capela foi idealizada por seu avô Heitor Sanchez em homenagem a sra. sua bisavó Mathilde e devota dessa santa caridosa. Em ato solene realizado em meados de 1980 a capela foi doada à Cúria Metropolitana de Santos. Suely lembra também que todos os descendentes de Heitor Sanchez foram batizados na capela, netos, bisnetos e tataranetos, bem como casamentos de neta e bisneta. Após oito meses, foi registrada pelo tribunal de Contas do Estado, no dia 7 de junho de 1951, sob o número 16.007, a verba de Cr$ 376.143,00 para a construção do colégio. Finalmente, no dia 27 de agosto de 1953 foi inaugurada a Escola Jardim Mathilde.

Jardim Guilhermina: o início urbanístico de Praia Grande



Em 1925, após a compra do Jardim Mathilde, e do início do loteamento do mesmo, Heitor Sanchez interessou-se por uma outra gleba, próxima das terras que acabara de adquirir. Tratava-se de um sítio semi-abandonado denominado “Nova Escócia", pertencentes à firma atacadista Ferreira Laje onde se cultivavam melancias e abacaxis.

Como acabara de adquirir um terreno, Heitor busca uma associação, a fim de reunir capital e adquirir aquele outro espaço. Então, Heitor Sanchez entra em contato com os irmãos Guinle (acionistas da Companhia Doca de Santos), os quais Heitor havia conhecido em uma de suas viagens filatélicas. Aceitando a proposta de Heitor Sanchez, os irmãos Guinle associam-se com este e adquirem juntos o terreno, com 500m de frente para o mar, com 1500m de comprimento e 700m de fundo pelo preço de 250 mil contos de réis.

Com a posse da terra, iniciam-se os processos para o loteamento, sendo a gleba dividida em 1.100 lotes, com preços e condições de pagamentos acessíveis. Ainda no processo de loteamento, Heitor resolve atribuir ao local o nome de Jardim Guilhermina, homenageando a mãe dos irmãos Guinle.

Para administrar a venda de lotes, cria-se a Companhia Territorial Jardim Guilhermina, dirigida por Heitor Sanchez, Luiz Monteiro de Carvalho e Guilherme Guinle, estabelecendo sua sede em São Paulo, na rua Boa Vista no 3.


Mapa de arruamento de lotes do Jardim Guilhermina. Museu da Cidade. 


Com o processo de ocupação, e o estabelecimento de famílias no local, era necessária a construção de um colégio que viesse atender as necessidades da população. Por volta de 1930, improvisou-se um recinto educacional na casa do feitor da Companhia Guilhermina, Cláudio de Souza, onde eram atendidas por volta de 50 alunos.

Mesmo assim, os loteadores já haviam destinado dois terrenos, um para o estabelecimento de um colégio inaugurado em 1954, com o nome de Beatriz Galvão Forbes e atualmente denominado República de Portugal) e o outro para a fixação de uma igreja (onde se estabelece a igreja de São Judas Tadeu).

A iluminação, até 1926, era feita através de candeeiros. Porém, no dia 2 de maio desse mesmo ano, instala-se o fornecimento de energia elétrica.

Para o abastecimento de água, em 1927 foi perfurado um poço artesiano, que durante o processo de sua construção, causou a morte de vários operários, vítimas da malária. . É durante esse processo que Heitor Sanchez contrai malária, ficando com a saúde frágil, adquirindo por final tuberculose que o fez afastar-se dos negócios e partir para Campos do Jordão em 1931. Posteriormente esse poço foi desativado, sendo utilizado canos de 3 polegadas para a captação de água da nascente do morro Xixová destinado exclusivamente para o abastecimento do Jardim Guilhermina.

Veranistas comemorado a chegada de energia elétrica na Guilhermina em 1920. Museu da Cidade. 


Além da procura para estabelecerem-se, várias outras pessoas procuravam vir à Praia Grande com fins veranistas. Verificando a necessidade de um hotel ou uma pousada para o abrigo desses veranistas, os loteadores do Jardim Guilhermina, entre eles Heitor Sanchez, fixam um convênio com a Companhia de Bebidas Antártica, para a construção de um hotel. Com o acordo fechado, negocia-se o terreno, pertencente a Francisco Scarpa e iniciam-se as obras que ao todo custaram cinco mil contos de réis. Com o final das obras, no dia 14 de julho de 1928, é inaugurado o hotel, em uma festividade que contou com várias pessoas ilustres.

Após um processo judicial movido por Heitor Sanchez contra os irmãos Guinle, a Companhia Territorial do Jardim Guilhermina faz em 1938 a sua liquidação

Em 1944, no dia 16 de janeiro, foi lançada a pedra fundamental do primeiro edifício do Jardim Guilhermina, denominado Edifício Shangri-lá.



LAGOSTA, O SÍMBOLO DE UMA ÉPOCA


Restaurante Lagosta: Centro Político e Social

Após o desenvolvimento do Jardim Guilhermina e do Jardim Mathilde, Heitor Sanchez resolve construir um restaurante que atendesse a padrões nunca antes vistos em Praia Grande. Inicia-se então o projeto do restaurante Lagosta, um empreendimento luxuoso com 540 mil metros quadrados de área construída, projetado pelos engenheiros Tinoco e Pivatelli.

Para suprir a falta de canalização da água, foi construída uma torre em forma de vela de barco, que revestia uma caixa d'água de 20 mil litros. Além dessa, havia no subsolo outro reservatório de água, que captava e armazenava as águas das chuvas.

Finalmente, no dia primeiro de julho de 1952, Heitor Sanchez inaugura o seu projeto, que marca definitivamente o desenvolvimento urbano do então bairro de Praia Grande (apesar da falta de estruturas básicas). O restaurante Lagosta tornou-se o principal local de solenidades sociais, cívicas e políticas da região. Várias foram as personalidades que ali se estabeleceram para alimentarem-se e discutirem assuntos diversos, estando entre estas o ator Mazzaropi, que vinha desfrutar das iguarias marítimas ao lado de sua mãe.

Ali foi realizado o jantar beneficente para a construção da antiga escola do Jardim Guilhermina, além de outras festividades e homenagens.

 
 
Abril de 1960 - Almoço no Restaurante Lagosta, comemorando a abertura do primeiro posto de puericultura da cidade, na Rua Campinas. Na foto ao centro de óculos o farmacêutico Cândido Fontoura, criador e proprietário do Biotônico Fontoura, que doou todos os equipamentos.
A sua direita o advogado Charles Forbes, 2 vezes prefeito de São Vicente e acima o vereador Oswaldo Toschi que os recebeu nesse dia. Anos depois o Posto Médico Municipal mudou-se para a esquina da Rua Pernambuco com a Av.Brasil no Boqueirão. Museu da Cidade


Heitor Sanchez: Emancipação de Praia Grande


Durante o desenvolvimento de Praia Grande, que até então era apenas um bairro de São Vicente, muito se conseguiu com o auxílio dos primeiros loteadores. Júlio Secco de Carvalho, Heitor Sanchez e outros batalhavam junto às autoridades públicas vicentinas um maior incentivo fiscal para a urbanização de Praia Grande. Apresentando uma insatisfação geral da população, iniciaram-se os movimentos que visavam a emancipação política de Praia Grande.

Foi no loteamento de Júlio Secco de Carvalho, denominado Solemar, que iniciou em 1953, o primeiro movimento político, liderado por Júlio Secco de Carvalho, Nestor Ferreira da Rocha, Heitor Sanchez e Israel Grimaldi Milani, que pleitearam através da divisão administrativa e judiciária do Estado emancipar Praia Grande. Tal tentativa foi improdutiva, sendo negada a petição dos idealizadores.
Revoltados com o descaso das autoridades de São Vicente, Nestor Ferreira Rocha e Heitor Sanchez, enviaram ao Dr. Charles A. Souza Dantas Forbes (então prefeito de São Vicente), no dia 31 de janeiro de 1956, uma carta, que demonstra o descaso das autoridades vicentinas e a insatisfação dos loteadores que, após muitas solicitações, resolvem por fim, desmembrar Praia Grande de São Vicente, recorrendo às autoridades federais.

Em 1958, uma comissão presidida por Osvaldo Toschi, voltou a direcionar seus esforços para a emancipação. Porém, a Assembleia Legislativa do Estado, alegando que o processo estava falho e que não constavam alguns documentos exigidos por lei, negou a nova empreitada.
Quatro anos depois da segunda tentativa, exatamente no dia 28 de dezembro de 1962, foi efetivada uma reunião no Restaurante Hotel Maracanã, presidida pelo então deputado Hilário Torloni, com a finalidade de organizar documentos para a definitiva emancipação. Logo depois, no dia 20 de janeiro de 1963, foi realizada uma nova reunião preparatória, que contou com a presença do deputado Osvaldo Massei.

Várias reuniões seguiram daí, sendo realizadas em vários locais como a sede da Sociedade Amigos do Jardim Guilhermina, na casa de alguns membros da comissão e em um dos blocos do cinema na Cidade Ocian. Por fim, no dia 5 de novembro de 1963, a Comissão de Divisão Administrativa e Judiciária da Assembleia Legislativa do Estado, aprova o pedido de desmembramento, sendo o processo encaminhado para o plenário. Por fim, a Assembleia aprova a emancipação do distrito de Solemar e do sub-distrito do Boqueirão.

Porém, em 1963 ainda, o então prefeito de São Vicente, Jonas Rodrigues, resolve impetrar um mandato de segurança contra a decisão da Assembleia Legislativa e a realização do plebiscito determinando a emancipação de Praia Grande.

A lei encaminha para a aprovação do então governador Ademar de Barros foi vetada, sendo apenas aprovada a criação do município de Praia Grande (mas ainda dependente politicamente de São Vicente). É então criada uma comissão de emergência, que após novos estudos e requerimentos, em 30 de julho de 1965, volta a constituir uma comissão emancipatória.

Por fim, no dia 26 de outubro de 1966, o Supremo Tribunal Federal considera legítima a emancipação de Praia Grande e aprova o processo.
Nesses processos, Heitor Sanchez sempre acompanhou os movimentos, apesar de sua idade, que o impedia de tomar uma postura mais ativa nas manifestações emancipatórias.

***
Após uma breve relação dos principais feitos desse grande homem, foi possível dimensionar a importância que Heitor Sanchez tem para o município de Praia Grande. Heitor foi um homem batalhador, que superou a morte de seu pai e avô, conseguindo se estabelecer na filatelia e projetar-se como o “Príncipe Filatelista”.

No decorrer de sua vida, com a doença que acaba contraindo, Heitor se afasta dos empreendimentos filatelistas, o que não o impossibilitou de cultivar sua paixão no seu acervo particular.

Ligado com as questões político-administrativas de Praia Grande, Heitor sempre embrenhou-se nos movimentos emancipatórios, que culminaram na independência política de Praia Grande em 1967.
A construção do Jardim Mathilde, Jardim Guilhermina e outros empreendimentos que lhe valeram o nome na história da cidade,

Nos projetos urbanísticos, mostrou ser um modernista, que vislumbrava um planejamento digno das principais cidades europeias. Com seus ideais arquitetônicos e sua concepção de conforto e beleza, Heitor Sanchez faz arrojadas construções como o restaurante Lagosta, com sua caixa d'água em forma de vela de barco.

Enfim, Heitor Sanchez mostrou-se acima de tudo ser um homem digno, capaz de conciliar a família, a paixão filatélica e os empreendimentos imobiliários, preocupando-se acima de tudo, apesar do fator econômico, em desenvolver aquela praia que tanto lhe encantou.

NOTA -Texto adaptado do Trabalho de Conclusão do Curso de História da Universidade Católica de Santos, em 2003, sob a orientação da Professora Doutora Maria Aparecida Franco Pereira. Cópia do TCC e imagens cedidas por Suely Sanchez Toschi  e pelo Museu da Cidade de Praia Grande.





*

O VERANISMO ROMÂNTICO
VIDA DE CAIÇARA E PESCADOR DE ARRASTO




Durante muitos anos a imagem que melhor identificava Praia Grande era sua extensa orla cuja paisagem deserta era quebrada pelas cenas de pescadores puxando redes. Esses pescadores não eram habitantes da orla, que era climaticamente muito instável, com chuvas e ventanias fortes, cujas choupanas não resistiriam por muito tempo a essas intempéries. 

Os primeiros registros foram  dos pintores paisagistas, como Benedito Calixto e seu filho Sizenando Calixto (caiçaras nascidos na antiquíssima Itanhaém); Antônio Parreiras (amigo de Calixto). Estes não registraram o movimento de bois na praia. A modernista Anita Malfatti registrou a pesca de arrasto, mas somente com redes puxadas pelos pescadores.

Depois vieram os fotógrafos que passaram a explorar as cenas praianas caiçaras como matéria-prima visual de cartões postais fabricados em série e distribuídos por editoras especializadas. A barca Caldbeck, naufragada no Boqueirão foi talvez a cena que mais vezes foi registrada e divulgada, com a denominação “arredores de Santos”.

Na década de 1940 Praia Grande recebeu a visita turística e o olhar diferenciado do antropólogo francês Claude Levis-Strauss, que  residia em São Paulo juntamente com o grupo de catedráticos e pesquisadores da recém fundada Universidade de São Paulo. O antropólogo fotografou em preto e branco sua descida pela serra, alguns pontos do Porto de Santos, talvez Cubatão e a Vila de São Vicente (que não aparecem com as fotos divulgadas) e focou seu olhar na Praia do Boqueirão, especificamente na pesca de arrasto. Além do gado, Levi-Strauss observou atentamente o trabalho, as ferramentas e comportamento humano nessa atividade coletiva ou comunitária. Era um modo de vida exótico e curioso, extinto na maioria dos países industrializados e que ainda existia em algumas regiões do planeta, como preciosidade folclórica. Ele fez registros idênticos nos bairros periféricos de São Paulo onde se vê o gado espalhado nas ruas trafegando em meio aos bondes elétricos. Era um laboratório perfeito para observar o contraste e os choques entre tradição e modernidade. O que mais impressionava esses pesquisadores e docentes europeus de ciências humanas era a velocidade das transformações que ocorriam em São Paulo, que abandonava o aspecto rural e provinciano para se tornar  rapidamente uma metrópole industrial. O mesmo acontecia nas centenas de cidades que estavam sendo fundadas no interior a partir dos trilhos, linhas, ramais e estações ferroviárias.  Fazia parte desse grupo de franceses intelectuais como Roger Bastide, Paul Arbousse-Bastide, Fernand Braudel e Pierre Monbeig. Este último, geógrafo e professor de filosofia, é autor de "Pioneiros e fazendeiros de São Paulo", uma celebrada obra da geografia histórica paulista. Esse contraste urbano e rural registrado por Lévi Strauss e posteriormente publicado no livro “Saudades do Brasil” ainda não existia em Praia Grande.

O gado registrado no Boqueirão nas primeiras décadas do século XX , não era nativo da vida caiçara, embora fosse remanescente dos primeiros animais introduzidos em São Vicente logo após a partida de Martim Afonso para às Índias. A autorização oficial para a importação bovina na Capitania foi feita por procuração dada à esposa do donatário, Dona Ana Pimentel. As espécies foram introduzidas em São Vicente entre 1534 e 1536 foram trazidas das ilhas atlânticas – Açores, Cabo Verde e Madeira- locais de abastecimento de rotas de navios. Foram as mesmas introduzidas no litoral de Santa Catarina e também nas regiões norte e nordeste, espalhando-se pelas centenas de fazendas no interior e no sertão. Há registros de que navegadores espanhóis embarcaram gado de São Vicente  com destino aos povoados do Rio da Prata. Em 1555, segundo Aurélio Porto, citando outros autores,  os irmãos Cipião e Vicente de Góis, de São Vicente, filhos de Luiz de Góis, venderam gado do Brasil para o Paraguai. As sete vacas e um touro foram adquiridos no Engenho da Madre de Deus, no Engaguassu, lado norte da ilha de São Vicente e conduzidos por um boiadeiro profissional conhecido como Gaeta. Essa dispendiosa compra e comitiva até Assunção rendeu um dito popular sobre carestia: "Mais caro que as Vacas do Gaeta".   Pesquisadores veterinários europeus identificaram recentemente na origem  do gado do trazido ao Brasil os elementos genéticos tanto do conhecido "criolo ibérico" quanto de espécies africanas presentes no Mediterrâneo e na costa do Atlântico. No litoral colonizado o gado de corte e de carga era essencial nos engenhos e sobreviveram como prática rural de transporte nos sítios desmembrados das sesmarias, que eram terras particulares ou arrendadas para os lavradores agregados nessas propriedades.

A pesca de arrasto, que era uma atividade complementar muito comum em várias regiões do Brasil e registradas por pinturas e fotografias entre os anos 30 e 50, foi desaparecendo do litoral na mesma proporção histórica em que os sítios e a população caiçara foram se urbanizando; ou então se deslocando para as regiões mais distantes das cidades.

Essa cultura rústica da pesca  foi realmente  o modo de vida mais primitivo e original da Praia Grande, que foi também o universo das sesmarias coloniais vicentinas e dos sítios desmembrados durante o Império. Em todos eles o gado de tiro ou transporte teve presença marcante nos hábitos e costumes rurais do litoral. A farra do boi na região sul e o boi-bumbá do norte-nordeste também revelam o encanto vivido anualmente nos festejos folclóricos dessas populações. Até pouco tempo, em Santos e São Vicente, já urbanizadas, a população da periferia da ilha podia relembrar os antigos festejos do boi de suas regiões de procedência quando surgiam os incidentes de estouros de boiadas, que espalhavam rezes assustadas nas ruas do Catiapoã e Vila São Jorge; e que virava entre os populares as conhecidas festas de correrias e perseguições. É comum nos relatos de moradores antigos  relembrar que a  alegria da molecada era abrir as porteiras dos mangueiros e provocar essas fugas, cujas capturas demoravam até uma semana. Os bois que despareciam viravam churrasco. O Mangueirão da Sorocabana em São Vicente era o mais famoso deles. Porém, esse gado já era da pecuária industrial, parte do rebanho destinado aos matadouros da ilha. Eram trazidos do interior, transportados nos vagões ferroviários, e que ficava confinado nos pastos, em quarentena, numa grande área federal no Sítio Samaritá. Essa área à espera de um novo embarque era  denominada Quarentenário. Em Santos a pesca de arrasto, também com bois criados em terrenos baldios próximos da orla foram registrados na praia do José Menino. Em São Vicente, na orla da ilha e também nas praias próximas ao morro do Japuí são conhecidíssimas as cenas da presença do gado leiteiro. 


Praia do Boqueirão nos anos 1940. O gado usado na pesca de arrasto deu um tom de rusticidade, porém foi fruto de uma inovação veranista. Acervo Museu da Cidade.


É importante frisar que o gado de Praia Grande , usado na pesca de arrasto, conhecido e registrado em fotografias  e pinturas, não faz parte da tradição rural dos sitiantes coloniais e imperiais e sim uma novidade contemporânea introduzida no início dos anos 1940 pelo dentista e veranista  José Carlos de Oliveira, conhecido como Zé da Rede. Circe Sanchez Toschi (Praia Grande antes da emancipação, 2008) conheceu essa mudança no método de pesca e cita os pescadores mais atuantes na época de sua chegada para residir no Jardim Mathilde. Zé da Rede, segundo ela, tinha como sócio Antônio Diogo e tinha como auxiliares principais os pescadores Antero, Fausto e Jarbas. Seu empreendimento, negócio que tinha a colaboração diária da sua esposa Wanda, era bem estruturado, com várias embarcações com trabalho de pescadores experientes que garantia o sustento de muita gente. Não existe mais, porém ficou gravado na memória popular, nas pinturas a óleo e sobretudo nas modernas fotografias feitas pelos turistas e comerciantes de paisagens em cartões postais. Em depoimento a Claudio Sterque,  Wanda Aparecida Dione de Oliveira, esposa de Zé da Rede, relatou que sua família chegou a possuir  mais de 40 bois para puxar as redes de pesca em Praia Grande nos anos de 1950. Muitos desses bois, segundo ela, atolaram no charco que havia do lado esquerdo da atual avenida Presidente Costa e Silva: "Perdemos umas dez cabeças naquela área. Não havia como retirá-los depois que atolavam ", disse. 

O dentista José Carlos de Oliveira era dono do maior rebanho do bairro, com dezenas cabeças. As famílias veranistas de Vicente Molinari e Varoli (Henrique e Paulo), estes últimos donos do conhecido Hotel Varoli, de 1945,  também se tornaram grandes pescadores, sempre coadjuvados por caiçaras da região e também outros veranistas como eles: Sebastião, André, Vilela, Manequinho e Amorim (todos lembrados por Circe Sanchez Toschi).  A memorialista revelou também  em sua obra um fato curioso: os ossos de baleia encontrados em frente ao Restaurante Lagosta, e que foram alvo de muitas especulações arqueológicas (na verdade uma estratégia de marketing turístico da prefeitura e da associação comercial), segundo informação do pescador Amorim, foi efeito dos  tiros de canhões  durante as manobras militares na orla. A baleia que apareceu morta na praia foi, na verdade, levada por ele e outros pescadores, que a enterraram no local. 


A  OCUPAÇÃO GRANDE-PAULISTANA


Arquivo Público do Estado de São Paulo está em São Vicente.

  · 

#MUNICÍPIOSPAULISTAS

São Vicente é a cidade mais antiga brasileira. Considerada a primeira Vila oficial do Brasil, foi fundada em 22 de janeiro de 1532 com a instalação de elementos colonizadores como Igreja, Câmara e Pelourinho.

A localização e o recorte geográfico do território fizeram do local um lugar muito cobiçado, sendo ponto estratégico de abastecimento das embarcações e defesa do território até então de domínio português. 

Suas terras e riquezas também levaram o #município ao seu declínio, devido uma série de ataques cometidos por piratas e corsários, além de povos rivais dos portugueses, acarretando, por exemplo, no incêndio da construção original da Igreja Matriz. 

Algumas catástrofes naturais também estão marcadas no passado da cidade. Depois de passar por tempos muito difíceis e de abandono à cidade ressurgiu com o ciclo do café no Brasil e por consequência a expansão do Porto de Santos. 

Atualmente o território da Ilha de São Vicente abrange parte das cidades de São Vicente e Santos, e diversas obras e monumentos guardam a história da cidade e naturalmente do Brasil, alguns deles: Biquinha de Anchieta, local onde os jesuítas catequizavam os índios; Porto das Naus, primeiro trapiche alfandegário e engenho do Brasil; Marco Padrão, monumento símbolo da colonização portuguesa; Monumento IV Centenário do Descobrimento, monumento projetado por Benedito Calixto e Monumento 500 anos do Descobrimento, mirante projetado por Oscar Niemeyer para homenagear 500 anos do descobrimento do Brasil. (Fonte: Prefeitura de São Vicente)

SEI Cidades – São Vicente é a primeira cidade a receber a visita do Arquivo Público do Estado e da PRODESP para tratar da implantação do SEI-Cidades, projeto da Secretaria de Gestão e Governo Digital do Estado de SP que pretende levar o Sistema Eletrônico de Informações (SEI-SP) para os 645 municípios paulistas. Como material de apoio aos municípios, o APESP disponibiliza a cartilha ‘Implantação da Gestão Documental nos Municípios’ e o curso EAD ‘Como implantar Arquivos e Gestão Documental em municípios’. Fique de olho!

📷Acervo Cartográfico/APESP. Título: São Vicente

Código de Ref: BR_APESP_IGC_IGG_CAR_I_S_0355_001_001

Localidade: São Vicente. Ano: 1932

#municipiospaulistas #pedidodosseguidores #saovicente #saovicentesp #litorabrasileiro #litoralsul


Praia Grande no Mapa Turístico de São Vicente, 1932. Arquivo Público do Estado- Memória Pública.


Este mapa turístico de 1932   talvez seja um dos mais antigos registros conhecidos da configuração histórico-geográfica da Praia Grande pré-emancipada. Nele aparecem nomenclaturas dos bairros e vilas bem diferentes das que constam nas descrições e denominações atuais. 

São nomes desconhecidos pela maioria dos novos moradores fixos e turistas que frequentam a cidade: 

Jardim Matilde, Pico do Itaipu, Parque Paris, Vila Sarita, Hangar Latecoere, Villa Tupy, Vila Oceânica, Vila Amabile, Villa Santa Tereza, Vila Beira-Mar, Parque Copacabana, Vila Ostende, Vila Balneária, Vila Bopeva, Itinga. 

E também os acidentes geográficos: 

Porto Piaçabuçu, Porto do Rei, Boturoca, Cururú, Imburi e Imbuguaçu. 

São localidades que foram esquecidas por causa do desaparecimento dos seus ocupantes primitivos: os pescadores e caçadores caiçaras, caboclos herdeiros das antigas e poucas aldeias indígenas da região.

O mapa também revela as raízes políticas da formação de Praia Grande como município independente. Fragmentado em diversos núcleos de povoamento veranista, composto sobretudo por paulistanos e paulistas do interior, a imensa faixa de terras entre a ponta do Itaipu e Itanhaém permaneceu longos anos sem unidade política e à espera de uma conjuntura favorável para reivindicar sua emancipação.


ALERTA DO LATIFUNDIÁRIO



Certidão de propriedade de Manuel Paulino Gomes - de 26 de fevereiro de 1961 - publicada no jornal Cidade de Santos em 25 de julho de 1967. Arquivo Digital da Biblioteca Nacional.



*

CAPÍTULO VI 

OS AVIADORES


Com o objetivo de implantar uma linha de mala postal na América do Sul, a Latécoère, em janeiro de1925, destinou à América do Sul uma aeronave tripulada por Roig e Paul Vachet que, após uma escala no Rio de Janeiro, seguiram para São Paulo, onde foram recepcionados pelo aviador brasileiro Edu Chaves. Na foto , Edu Chaves recebe de Roig, a primeira mala postal da empresa francesa.

Aviação Comercial Brasileira e seus Protagonistas-Das Origens até 1975. 



Praia Grande, 1931. Família faz pose para fotografia tendo ao fundo um avião francês Latecoère da Aeropostale. Acervo de Carlos Hornstein. Memoria da Aviação no Brasil. 



  




O  AEROCLUBE DE SANTOS ERA AQUI


Um descampado marca, no início do século XXI, o local onde funcionou o Aeroclube de Santos e um aeroporto, e que deu nome ao bairro Aviação. Um dos tradicionais bairros de Praia Grande tem o nome de Aviação, em razão de ali ter funcionado o campo de pouso da empresa francesa Latecoère (que daria origem à Air France), em área que seria depois usada como escola de pilotagem e clube aéreo. Novo Milênio.

***

Fundado a 1 de novembro de 1936, o Aero-Clube de Santos orienta desde 20 de outubro de 1940 a Escola de Pilotagem, que tem a finalidade de formar pilotos para a aviação civil, comercial e reserva da Aeronáutica, operando na Praia Grande, desde 1947. 
O Aero-Clube de Santos deu hábeis pilotos à aviação comercial e militar. Registra mais de 30.000 horas de voo. 
Seus principais fundadores: João Carlos de Azevedo, Cássio Muniz de Souza, Carlos Agnese, Athos Votta, Benedito de Castro Simões, Ismael Coelho de Souza, Hugo Pacheco Chagas, Athié Jorge Coury, João Pacheco Fernandes, Caio de Barros Penteado, Eduardo Vitor De Lamare, Estevam José de Almeida Prado, Luiz Soares de Andrade, Rubens Ferreira Martins, Antônio Moura Andrade, Gervásio Bonavides, Esculápio César de Paiva, Antônio Iguatemi Martins, Bernardo Browne, Homero Leonel Vieira, Hugo Pacheco Chagas, Otávio Moura de Andrade e Pedro Peressin. Foi seu primeiro presidente o eng. Ismael Coelho de Souza.

A TRIBUNA EM SÃO VICENTE
Matéria publicada no jornal santista A Tribuna, coluna A Tribuna em São Vicente, na edição de 1º de maio de 1956, página 8 (ortografia atualizada nesta transcrição):


           
Nossa reportagem, num voo no Rio Piracicaba, a convite do piloto vicentino José Maximino – Em estado lastimável, o campo de pouso, na Praia Grande – O prejuízo causado ao município – O estado das aeronaves – Brevetados 196 pilotos – Por que as autoridades vicentinas e estaduais não subvencionam o Clube dos Aviadores Civis? – Ainda o Mangueirão no Boqueirão de Praia Grande – Centro Cultural dos Homens de Cor – Câmara Municipal – Caixa Escolar do Grupo Municipal – Mateo Bei – Sociais

Nossa reportagem foi honrada com o convite do piloto aviador, José Maximino, diretor de material do Aero Clube de Santos, para um vôo na Paia Grande. Residindo em São Vicente, esse piloto, há 29 anos, aceitamos, desde logo, o agradável convite.

Subimos no Rio Piracicaba, prefixo PP-GIR, tipo PA-18, mais possante que o Paulistinha, e sobrevoamos a nossa encantadora cidade, depois de admirar Praia Grande, com o seu imenso mar. Satisfeitos com o passeio, retornamos ao campo de pouso.

O estado precário da pista – Durante a rolagem sobre a pista do campo da Praia grande, tanto na decolagem, como na aterrissagem, notamos o seu péssimo estado. Com as últimas chuvas, existem vários buracos que podem causar não só acidentes pessoais, como aos próprios aparelhos. O campo já esteve em piores condições. Lembramo-nos que o mesmo não permitia aterrissagens e que a Real lá deixou de operar. Justo, entretanto, salientar o interesse dos pilotos Nelson Carvalho e Antonio de Barros, que conseguiram com as companhias de café, que têm aviões baseados na Praia Grande, auxílios para a melhoria, pondo o campo em condições de uso. Essas iniciativas foram particulares, numa demonstração do patriotismo de dedicados pilotos civis.

O prejuízo causado ao município – O nosso município deixou de receber e embarcar passageiros, diariamente, pela Real, em vista das condições precárias do campo na Praia Grande, o que, como é evidente, causou grande prejuízo. Com a falta daquela via aérea de comunicação, ficaram prejudicados o turismo e o comércio.

Melhoremos o campo de pouso – Com os requisitos que está a reclamar, poderá ser um campo de emergências para as companhias que estão operando nas linhas Sul: Paranaguá, Curitiba, Santa Catarina e Florianópolis. O desejo dos que ali vão aprender a arte de voar, para a maior grandeza do Brasil (pois os pilotos civis são considerados reservas da FAB), seria a construção de uma pista de concreto ou asfalto, com o balizamento para pousos noturnos. Com este importante e necessário melhoramento, acreditamos, voltariam o Consórcio Real-Aerovias e outras empresas aéreas a operar em nosso campo. Além disso, o local é ponto estratégico-militar, por estar próximo à Fortaleza de Itaipu (5º G. A. C.).
O estado das aeronaves – Constatamos que, no hangar, ultimamente remodelado e com uma oficina mecânica ao lado, estavam 9 aviões, que fazem parte do patrimônio do Aero Clube, porém, somente dois em condições de uso, e isso com grande sacrifício. Um avião é para a praticagem e outro para os pilotos brevetados. Isso veio dificultar, por demais, a Escola de Pilotagem, funcionando na Praia Grande.

Não podemos deixar de destacar o estímulo que vêm dando aos alunos e pilotos, o presidente do A.C.S., cap. Capelão Edmundo Cortez e o major Salema, comandante da Base Aérea de Santos, grande entusiasta da aviação civil. Outro abnegado que merece encômios, pela sua perseverança, é o sr. Ricardo Stringer, sócio-fundador do A.C.S., trabalhando como mecânico-chefe, há mais de vinte anos, ex-piloto reformado da R.A.F.

O nosso apelo – A situação, como está, não pode perdurar. Devemos cuidar com melhor atenção, de início, da melhoria do campo de pouso, o que seria de grande vantagem, não só para a pilotagem civil, como para a nossa gloriosas FAB e companhias comerciais. As autoridades municipais e estaduais poderiam cooperar nesse sentido, em vista do Aero Clube não estar em condições financeiras de arcar com as despesas desse imprescindível e urgente melhoramento. Na Câmara local, deve a nossa edilidade ventilar o palpitante assunto, e, oxalá, surja um projeto de lei, subvencionando a Escola de Pilotagem do A.C.S., para melhoria do material aéreo e da pista.

Auxílios valiosos prestados pelo A.C.S. – Os pilotos do A.C.S. prestam relevantes serviços, tais como a localização de afogados e o transporte de enfermos no litoral paulista.

196 pilotos brevetados – a diretoria – O Aero Clube de Santos, fundado em 1 de novembro de 1936, iniciou a brevetagem de pilotos em 1938. Desde esta época até o ano passado, receberam seus brevetes 196 pilotos aviadores, e se esse número não foi aumentado, deve-se ao desinteresse dos poderes competentes.

A diretoria da A.C.S. está assim constituída: presidente, cap. Capelão Edmundo Cortez; vice-presidente, Mazilon Freitas Passos; 1º secretário, Ciro Campos Melo Filho; 2º secretário, Francisco Teófilo de Almeida; 1º tesoureiro, Afonso da Cruz Ferreira; 2º tesoureiro, Odenir Porto; 1º diretor técnico, Antonio de Barros; 2º diretor técnico, Anibal Teófilo de Almeida; diretor do material, José Maximino; diretor de campo, Eugênio Blagal. […]


Vista do histórico hangar que pertenceu à Latecoere, mais tarde Air France, foi usado pela Vasp, Real e pelo Aero Clube". Foto (e legenda) enviada a Novo Milênio por Mario de Aguiar Leitão


DEPOIMENTO

Mario de Aguiar Leitão - 19/10/2012 – Site Novo Milênio

Como é do conhecimento de todos, a cidade de Santos nunca teve oficialmente um Aeroporto civil, nem tampouco outras cidades do litoral paulista, onde as companhias aéreas pudessem manter uma frequência de voos regulares.

Não obstante, na década de 50, o Aero-Clube de Santos recebia duas vezes por semana e duas vezes ao dia a visita dos pequenos aviões da BOA (Brasil Organização Aérea) sediada em Londrina, Paraná e que voavam até Praia Grande (Santos), procedentes de Curitiba, Paranaguá, Florianópolis e demais cidades dessa região.

Era uma frota de monomotores "Cessna 170" para até 3 passageiros e era fácil identificá-los visto que seus prefixos começavam com PP-BOA e iam até PP-BOH, mudando tão somente a 3ª letra. Transportavam também pequenas cargas, principalmente amostras de café, embaladas em sacos de 3 a 5 quilos, além de correspondências. Portanto, deduzimos que o destino dessas amostras e desses passageiros eram a "Bolsa Official de Café", situada no centro da cidade de Santos.

Para transporte dos passageiros do Aero-Clube até o centro de Santos e vice-versa havia um taxista contratado, cujo apelido era Bolão, visto ser uma pessoa obesa. Por ser uma pessoa muito engraçada, eu e meus primos ajudávamos a carregar ou descarregar os aviões só para estar próximo a ele e nos divertirmos com suas brincadeiras.

Na mesma época em que a BOA ainda estava em atividades em Londrina e região, a TAM (Transportes Aéreos Marilia) adquiria um "Cessna 170" para início de suas atividades. Isto ocorreu em 1961.
O tempo passou, me afastei dos aviões e de Praia Grande e somente voltei a me interessar pelos aviões por volta de 2004, quando fiquei conhecendo as futuras instalações do Museu da TAM em São Carlos, SP.

Em 2011 foi publicada uma foto no site do Museu, mostrando um "Cessna 170", como sendo a mais nova doação ao acervo. Imediatamente reconheci seu prefixo: PP-BOE. Nada mais nada menos que um dos integrantes da frota da BOA dos tempos de antanho, embora descaracterizado, pois estava pintado de forma diferente da original. Telefonei ao Museu e fui informado de que o avião seria restaurado mais uma vez e repintado com suas cores originais e seria exposto como o 1º Cessna 170 da TAM. E assim foi feito.

Estive recentemente no Museu. Imaginem minha emoção em poder tocar e fotografar este avião mais de 50 anos depois. Ainda vou querer voar nele algum dia, pois está em plenas condições de voo e com seus registros atualizados.


EU E OS AVIÕES

Quando menino tive a felicidade de poder passar minhas férias escolares do mês de Julho, em nosso rancho em Praia Grande, S. Paulo. Era década de 50, pouco a pouco os loteamentos e suas ruas iam surgindo. Assim, as casas e os ranchos eram construídos um aqui outro acolá. O nosso foi o terceiro de nossa rua. 

Passatempos eram  praia, mar, comer, beber e dormir. Tudo no mais natural possível. Entretanto uma coisa logo me chamou a atenção. Eram os “teco-tecos” que subiam e desciam em um determinado ponto daquela imensidão de praia. Então, fui lá bisbilhotar. Era o “Aero Clube de Santos”. Daí, até fazer amizade com o pessoal foi “vapt-vupt”. Sr. String, o mecânico chefe, Bento, Felipe, Geraldo, os mecânicos, Nelson, Barros, Pacheco, Jorge os pilotos e Rodolfo o instrutor. 

Assim , o que para os outros continuou sendo “teço-teco”, para mim passou a ser : Paulistinha CAP-4, Piper PA-18, Piper J-3, Stinson, Fairchild, Luscombe, Bonanza, Navion e os Cessnas 120,140,170,190, 195 etc.

Com um amigo consegui os livros de instrução do DAC (Diretoria de Aviação Civil) e passei a aprender toda a linguagem de pilotagem. Os comandos, os instrumentos, as manobras etc. Infelizmente não cheguei a me brevetar, mesmo porque eu era apenas um menino.

Meu primeiro vôo foi em um raríssimo Paulistinha CAP-5, pilotado pelo instrutor do clube, Rodolfo Vilar. Depois vieram outros, incluindo os vôos nos Cessnas 190 e 195 particulares, que eram os mais potentes daquela época e ficavam guardados no hangar do Clube.

Quando voltava para São Paulo após o período das férias, observava com atenção todos os  aviões que cruzavam o céu da cidade, desde os Paulistinhas aos DC-3 , Constellation e os militares, T-6 e B-25. Aprendi a identificá-los somente pelo ruído do motor.

Infelizmente na década de 60 , mais precisamente em 1964, meu pai veio a falecer e já no ano seguinte nosso rancho foi vendido. Adeus Praia Grande. Adeus aviões.
Quarenta anos se passaram, cresci, me formei, constituí minha família e nunca mais me envolvi com os aviões.

Ocorre que guardei comigo, dois álbuns de fotografias de aviões que montei naquela época, com fotos cedidas pelo jornal “ A Gazeta “ e outras que eu mesmo tirei com minhas maquininhas. Como nenhum dos meus filhos se interessaram por aviões, fiquei sem saber o que fazer com estes álbuns. Foi quando me surgiu a ideia de doá-los ao Museu TAM. 

E assim foi feito, e o que ocorreu foi que acabei por fazer amizade não só com o pessoal da TAM, mas também com o pessoal da “ABAAC” (Associação Brasileira de Aeronaves Antigas e Clássicas), cujo presidente na ocasião era o Sr. Ian Comber. Por intermédio dele fui convidado a participar de um churrasco em Itanhaém,(SP) nas dependências do hangar do Cmte. Pietro Loporchio que restaurava quatro aviões North American T-6. Não resta a menor dúvida que a velha chama de gostar das máquinas de voar, que esteve quase apagada por esses longos anos, voltou a reacender plenamente.

Dois fatos ocorreram em Itanhaém.  O primeiro foi rever o local onde nos bons tempos pousamos em uma pista de grama e areia com um Cessna 195 pilotado pelo Cmte. Jorge. Lá existia um único hangar com portas de madeira e um único avião. O “Stinson “ do Dr. Nogueira, médico sanitarista que lá residia. O hangar ainda existe e traz a inscrição Aero Clube de Itanhaém.

O segundo fato foi a surpresa de deparar com a infraestrutura das instalações. O local transformou-se no “AEROPORTO DR. ANTONIO CARLOS RIBEIRO NOGUEIRA”, com direito à salas de embarque e desembarque etc e pista de pouso asfaltada e balizada , permitindo até pouso de jatos de médio porte. Creio não haver em todo litoral paulista outro local que possa ser chamado de Aeroporto. Nem Santos com toda sua pujança o tem.

E antes de retornar à São Paulo resolvi rever os locais onde outrora foram nosso rancho e o Aeroclube de Santos. Uma cidade está erguida, prédios e mais prédios, casas e mais casas. Se não conhecesse bem a região não encontraria mais o local onde fora nosso rancho. Tudo cercado por grandes portões e trancados a sete chaves. Poucas pessoas circulando, automóveis estacionados e trancados, um boteco aqui outro acolá. Perdeu-se o encanto. Nem mesmo a grande avenida margeando a orla traz a magia selvagem daquela época.

Quando cheguei ao local do Aero Clube senti uma tristeza que me invadiu a alma. Como um ninho de pássaros abandonado nada mais restou. O terreno ainda está lá e a pista de pouso ainda não foi invadida, a não ser pelo mato. Do velho e glorioso hangar que serviu à Latecoere, à Air France, à VASP e ao Aero Clube de Santos nada mais existe. Ali jaz todo um passado de glorias cheio de histórias e epopeias. Sepultado para sempre. Semi-destruído resta em pé o pórtico da entrada, voltado para o mar, como que dando adeus ao ultimo avião que dali decolou .Na minha época além do brasão do clube estava escrito: “Aero Clube de Santos “ Escola de Pilotagem .

Alguém o transformou em Aeroclube de Praia Grande. Não decolou.


*

ARQUEOLOGIA DO AEROCLUBE


QieQapodcast 

Nesse encontro intimista, conversamos com os historiadores e participantes do Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande, Dalmo Duque dos Santos e Elson Dias Sterque na busca por desvendar a história e as pessoas que participaram dela no Aeroclube de Praia Grande. 

Em 15 de out. de 2024 Washington Souza, Especialista em Comportamento Humano entrevista Dalmo Duque dos Santos, Escritor e Historiador e Elson Dias Sterque, Diretor do IHGPG.

***

Aqui é o Tom em mais um episódio do Treinando Humanidades e hoje é um dia especialíssimo. Nós temos aqui duas pessoas incríveis que eu quero apresentar para vocês. Em primeiro lugar o professor Dalmo Duque dos Santos, escritor historiador, biógrafo do CVV, entre outras atividades de extrema relevância não só para nossa região, mas para o Brasil dado a sua área de conhecimento e tanto que esse rapaz produz, Dalmo Duque dos Santos. 

Tom - Eu gostaria de pedir a você, Dalmo que apresentasse aqui o nosso visitante Elson e falasse um pouquinho dele e depois a gente passa a bola para ele falar um pouquinho da história dele.

Dalmo - Legal. Obrigado pelo convite estou muito honrado e muito alegre porque o Elson é uma pessoa muito especial. A família Sterque na Praia Grande é uma família muito simbólica, muito presente na Cultura, na história da cidade. Eu conheci o Elson recentemente. Depois descobri que além dessa paixão que ele tem pela história, pela cultura. Ele é aviador da carreira Militar depois civil e é dono de um acervo de livros, de documentos. Ele é um colecionador importantíssimo e quando ele voltou pra Praia Grande que é a terra onde ele e a família dele se radicaram. Eles são do Pará. Eu achei muito interessante essa migração deles do Norte para cá se fixando na Praia Grande. Ele e a família viram tudo isso acontecer.  Acompanharam o desenvolvimento da cidade desde quando pertencia a São Vicente. Eram os anos 50. Acompanharam ativamente o movimento de emancipação.

Foi para São Paulo construiu sua carreira. E aí quando voltou ele fundou o Instituto Histórico e Geográfico da Praia Grande, foi convidando. Ele, o Cláudio, as irmãs dele, os amigos montaram esse grupo maravilhoso para resgatar a história da Praia Grande e da região. Eu tive a honra de ser convidado para participar desse grupo. Fiquei muito feliz. E então o Elson tem muita coisa para falar pra gente. E um assunto especial dele que é a questão da aviação, aviação técnica e aviação histórica.

Tom – Isso é bem legal, a gente vai explorar isso. E agora o Elson pelo Elson. Quem é esse Elson que está aqui conosco?

Elson – Olha, a minha vida se dividiu praticamente em três fases. A primeira fase foi uma vida militar. Eu era mecânico de vôo e me formei pela Força Aérea Brasileira. Fiz a escola de especialista de aeronáutica e fui servir nas várias unidades da Força Aérea Brasileira. Em Salvador fazendo a patrulha das 200 milhas. Depois fui para Amazônia onde servi por 13 anos e enfim terminei minha carreira militar em Santos onde servi por 8 anos aqui na Base Aérea de Santos. Depois fui servir no DAC onde terminei minha carreira. Esta foi a primeira fase da minha vida. 

A segunda fase foi trabalhando como convidado para montar um grande empreendimento em São Paulo onde eu era o diretor geral. E lá eu fiquei durante 20 anos e há 3 anos eu parei de trabalhar efetivamente na Aviação depois de 50 anos de atividade. Agora voltei para a Praia Grande para descansar, só que esse descanso foi entre aspas. Vieram me procurar querendo montar um Instituto Histórico e Geográfico e eu aceitei o desafio.

Montamos o Instituto Histórico e Geográfico que foi assim é uma surpresa muito grande com a com tudo que tava acontecendo. A Praia Grande é um dos poucos municípios do Brasil que tem uma chamada Tríade Cultural. São três instituições sem nenhum tipo de participação governamental que é a Casa do Poeta Brasileiro, a casa do poeta mais antiga do Brasil com 48 anos de fundação, fundada pela minha mãe por acaso. Temos a Academia de Letras e Artes de Praia Grande e agora Instituto Histórico e Geográfico. São três entidades culturais muito importantes e eu estou me dedicando a isso agora, pertenço também à Casa do Poeta e vamos trabalhar em função da cultura.

Tom - Mas você é um poeta de cabeça nas nuvens ou um aviador de cabeça nas nuvens?

Elson - Um poeta de cabeça nas nuvens. Eu gosto de poesia, sempre eu fui um leitor voraz, li muito na minha vida inteira. Então eu gosto das letras, da arte, da poesia, da crônica principalmente. Eu tenho uma coetânea muito boa de livros de contos, tem mais de 150 livros que eu coleciono. Então eu gosto muito de literatura. 

Tom - Isso é uma herança de família? Fala um pouquinho da sua mãe, assim brevemente pra gente.

Elson - Minha mãe nasceu em Belém do Pará. Eu fui o único filho que nasceu em Belém. Minha mãe teve seis filhos. Meu pai era carioca e conheceu minha mãe lá. Meu pai também era Militar, foi transferido para lá onde conheceu a minha mãe. Casaram e vieram para cá. A minha mãe era uma pessoa muito culta e ela era assim. Fazia de tudo o tempo todo.

Ela fundou a casa do poeta, criou uma série de atividades culturais na Praia Grande na área cultural. Foi diretora da Casa da Cultura durante 18 anos e foi homenageada pelo prefeito Mourão no Palácio das Artes. Ela sempre foi ligada à cultura, dava muitas palestras, deu aula na Santa Cecília dos Bandeirantes durante 12 anos. A atividade dela sempre foi muito voltada à cultura nacional e principalmente da Baixada Santista. 

Tom - Então como homenagem a gente precisa falar o nome dela. 

Elson – Professora Graziela Dias Sterque.

Tom - A professora Graziela Dias Sterque extremamente conhecida, mas é importante a gente falar o nome dela. 

Agora eu tenho uma curiosidade que eu quero perguntar pro Dalmo. 

Dalmo, você é participante também do Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande assim como o Elson. Vocês estão aí com esse movimento fazendo com que realmente isso deixe de ser um projeto. Aliás ele deixou de ser um projeto já é uma realidade. Aí eu pergunto assim como cidadão comum. Vendo tudo que está acontecendo no mundo, na modernidade, como ex-professor diante de um cenário tão opaco. Vamos dizer assim, em relação à cultura. Qual a importância de um Instituto Histórico e Geográfico para uma cidade em primeiro lugar e para a região? No mundo de alta teologia como é que pode ser importante um instituto com essa natureza? O que você pode dizer sobre isso?

Dalmo – Então. Eu vejo como uma referência. Todos nós quando vamos dar alguns passos importantes na vida, Tomar decisões, nós consultamos as nossas referências. Quem sou eu, de onde eu vim, para onde eu quero ir. Então a gente fala assim e história Regional, história de São Vicente, história da Praia Grande? Hoje no mundo global parece que as pessoas não têm identidade, mas tem. 

Quando você funda uma entidade, divulga na Internet uma pessoa que mora no Canadá e já viveu em Praia Grande ou está na Suécia e já morou em Santos. Está na China e já morou em São Vicente. Essas pessoas têm essa referência. E sempre que ela vai tomar uma decisão ela se volta pro passado. 

Quando vê alguma coisa do passado dele, da raiz, ele se identifica e ele revive. Então isto dá sentido à vida dele. A história hoje é um material muito consumido no mundo inteiro, as memórias. Exatamente por causa disso porque isso reascende o que restou de humano nas pessoas, de coisa autêntica e não essa coisa muito pasteurizada muito padronizada que deixa todo mundo igual, e sem identidade, sem aquele perfil particular, então a história valoriza.

Como na arte, a história não deixa de ser uma veia artística de se escrever, de preservar a memória, de lembrar como era a música, a literatura, os escritores, os pintores, os cientistas e os seus vizinhos que eram importantes, que te ensinaram coisas legais e que te ajudaram a Tomar decisões importantes na vida. Então tudo isso é coisa da humanidade. Então mesmo que seja uma instituição pequena, local, regional, ela tem essa dimensão humana que é muito maior do que a gente imagina e religa as pessoas. 

Então, quando sai uma notícia de um instituto que vai ser estudado a TV Tribuna já foi lá fez uma reportagem. Que é isso, faz tempo que eu não via falar disso. e começa a reascender estimula essas recriações. Nosso companheiro do Instituto que trabalhou na Cosipa, o Edson Santana do Carmo, é extremamente participativo,  uma pessoa que acredita muito nisso. Quando ele reacende essa ideia, de reviver e fundar novos institutos, ele está querendo fomentar a cultura.

Elson – Ele é muito participativo e na pratica é isto o que eu pretendo ser também.  E o que o professor Dalmo está explicando claramente é o seguinte:  a história é um organismo vivo, ela muda a todo instante, ela é feita de vários fatos. Por exemplo, nós vemos hoje na mídia, em sites, até em sites da Prefeitura que o Antoine de Saint-Exupéry pousou na Praia Grande com avião dele. Mas isso não está escrito em lugar nenhum que ele pousou aqui. Portanto cadê o fato? Cadê a evidência clara, concreta de que ele esteve na Praia Grande? Existem escritos, mas não comprovação. Cadê a caderneta de vôo dele? Essa caderneta de vôo é a única coisa que provaria que ele esteve na Praia Grande. Porque todo aviador sempre registra os seus vôos. Ela diz onde pousou, o campo da aviação, o horário que ele pousou e a data que ele pousou e decolou. Isso tudo está documentado. 

Isso é documentado oficialmente, precisa. É uma praxe, é um fato, todo aviador tem isso. Muito bem, onde estão as cadernetas de vôo do Antoine?  Estão no Museu da Air France em Paris. Então para você saber se isso é fato verdadeiro você teria que ir a Paris pegar a caderneta de vôo dele do período que dizem que ele esteve passando por aqui, 1930, 31 e 32 e verificar isso se isso é fato. Se ele esteve aqui lá vai dizer quantas vezes ele esteve aqui. 

Outro assunto também que é bastante polêmico é aquela igrejinha Nossa Senhora da Guia. Todo mundo diz que a igrejinha de 1898 e tudo mais só que nós temos reportagem do Jornal A Tribuna dando conta da inauguração da igrejinha pela família que a construiu em 1958. Então espera aí. Tem alguma coisa errada. Você tem um fato, uma evidência clara que é a reportagem do Jornal A Tribuna e pior isso está espalhado em todo local que é de 1890 e não é. 

Tom – Entendi, agora eu acho interessante a fala que o Dalmo observou que em qualquer lugar do mundo de repente você pode voltar ás suas raízes e fazer, refazer aquela conexão com um lugar, uma região, uma história. É o que eu digo, se você quer conhecer a você mesmo mergulhe para dentro de você. S quer se reconhecer enquanto ser social mergulhe na sua história, conheça a sua história. 

Então um instituto Histórico e Geográfico de uma dada cidade, de um dado local, é um instrumento interessante até para fazer com que você se reconheça como um cidadão conectado com o mundo, mas de uma determinada origem, com uma determinada história, com coisas que foram acontecendo ao longo da sua existência. Que um organismo como um instituto possa trazer elementos para você realmente fazer essa conexão histórica e social. 

Então é um instrumento incrível e necessário. Mas eu digo assim, atualmente com toda a tecnologia, com todo o acesso à informação, com todo o mecanismo tecnológico de comunicação atual. Esse Instituto que vocês têm é um instituto que acontece fisicamente. Então tem ali as reuniões e tal, mas tem um material no mundo digital pra gente acessar. Esses conteúdos do Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande estão disponíveis? É possível acessar, é possível conhecer inclusive essas distorções de informações como você mencionou da igreja, como você mencionou do Aviador? A gente consegue acessar esse material? Como é que está isso hoje?

Elson - Hoje o Instituto tem site, Instagram e Facebook. Tem um livro da história da Praia Grande. Esse livro está sendo organizado pelo professor Dalmo que compilou todos os assuntos. Agora esses assuntos precisam ser retrabalhados. É mais ou menos o seguinte: tem assuntos lá em dois locais diferentes que precisam ser reunidos, tem um assunto muito grande que precisa ser resumido e assim formatar o livro da história da Praia Grande. 

Ele foi colocado no site por um motivo, para que as pessoas acessem e critiquem ressaltando os pontos positivos e os pontos negativos. Digam isso aqui está muito bom, isso aqui está muito ruim. Isso aqui deve ser assim ou de outra forma. A idéia toda é essa receber sugestões. 

O AEROCLUBE

O livro está no nosso site exatamente para isso, para ser refinado porque há muitos assuntos na Praia Grande e na história da cidade que tem que ser levantado. A história real do Aeroclube, a história real da emancipação, a história real de os acontecimentos que ocorreram lá atrás. Pessoas têm que ser mencionadas, pessoas importantes na história da cidade, enfim está lá. Nós queremos participação da população da Praia Grande ou mesmo de outros locais, ou até do exterior, se for o caso.

Tom -  Agora eu pergunto para você, o Aeroclube é histórico, foi uma parte muito importante da história de Praia Grande porque ele era sediado nela muito embora tivesse o nome de Aeroclube de Santos a pista estava em Praia Grande. 

Como ele veio a terminar? Tem muito conteúdo do Aeroclube que ficou perdido na memória, perdido na História. Então um dos objetivos que vocês têm hoje é trazer à tona e rever essa História do Aeroclube facilitando o acesso à visualização desse material. Como é que isso está acontecendo e o que está faltando para as pessoas terem mais conhecimento dessas informações? 

Elson – A história do Aeroclube é bastante ampla. Então vamos lá, ela não começa com a criação do Aeroclube de Santos, ela começa lá atrás quando a área que pertencia à família Cirilo foi comprada pela Latécoère.



É a imagem de uma planta dessa primeira pista. Ela era solitária lá naquele local. Ela é bem antiga, é de 1941. Essa área foi comprada da família Cirilo e foram feitas várias instalações até 1928 e começaram a usar essa pista pela Latécoère e outros.  Empresa aérea francesa que fazia o correio aéreo pela América do Sul inteira. Acontece que tem algumas curiosidades aí. Então esquece o Aeroclube de Santos por enquanto. O Campo da Aviação da Praia Grande era o Campo de Santos chamado assim pela Latécoère. 

Era onde fazia as escalas aqui. Tinha instalações para piloto, tinha Hangar para manutenção, tinha uma torre de controle deles de estação rádio para comunicação com as aeronaves. Era um local com toda infra-estrutura para abastecimento de combustível. Inclusive em 1929 o Comandante João Ribeiro de Barros que fez a travessia do Atlântico com o avião Jaú. Depois que ele pousou em São Paulo 1927 ele fez algumas apresentações e daí nunca mais voou. O avião nunca mais voou, ele ficou no museu de Ipiranga guardado lá no canto lateral.

Dalmo - Aliás, foi o Elson quem restaurou esse avião.

Elson - Então o Jaú ficou jogado lá do lado do Museu do Ipiranga e depois foi para a Oca no Parque de Ibirapuera onde ficou 40 e poucos anos. Isso é outra história que eu vou contar daqui a pouco. 

Então vamos lá, o que acontece em 1929 é que o João Ribeiro de Barros resolveu adquirir um avião o Breguet 19. Ele comprou O Breguet 19 desmontado, veio de navio da França e levou para o hangar da Latécoère na Praia Grande montou o avião lá e fez um vôo. Infelizmente teve a Revolução de 30 e o avião foi arrestado pelas autoridades federais. Ele perdeu o avião. Depois foi um acidente e o governo “dane-se, né”? 

Então lá tem algumas histórias incríveis desse aeródromo. Até 1936 o aeroclube de Santos não existia, no livro ata consta a criação do Aeroclube de Santos em 1936. Até a criação do aeroclube de Santos voou na base aeronaval de Guarujá. Ele só foi para Paria Grande em 1945.

O aeroclube já existia, ele era baseado no Guarujá só depois de 45 é que ele foi ocupar a pista que foi abandonada depois da Segunda Guerra mundial porque a Latécoère foi vendida para Air France e a Air France não tinha interesse em operar o campo. Assim o governo retomou de volta aquela Conceção.

Ela foi usada por várias companhias aéreas durante esse tempo todo, então a história do Aeroclube é muito bonita, mas a história do Campo da Aviação é mais bonita ainda. A partir de 1945 o Aeroclube de Santos tomou conta e melhorou o Aeroclube, conseguiu, digamos assim, trabalhar mais. Formou muitos pilotos. Acredito que atingiu mais de 1 milhar. 

E um detalhe importante, o Aeroclube de Santos foi o terceiro Aeroclube fundado no Brasil, o mais antigo é o aeroclube do Brasil que foi fundado no Rio de Janeiro em 1911 e depois de 1931 foi aeroclube de São Paulo e o aeroclube da Praia Grande foi o terceiro do Brasil. Lamentavelmente terminou, formou milhares de pilotos, muitos ainda voando até hoje na Aviação comercial. É uma história muito rica essa, e a partir de 1995 o Aeroclube de Santos passou a ser chamado de Aeroclube da Praia Grande e funcionou até 2002 quando foi extinto.

O último Presidente então pegou todo o material que ele tinha, que ninguém se interessou, e colocou em caixas e levou para sua casa em São José dos Campos. 

Quando eu assumi o Instituto Histórico e Geográfico eu liguei pro Paulo Estela e falei: Paulo, pelo amor de Deus, Paulo. Eu estou aqui agora com o Instituto e eu gostaria se você pudesse doar esse material. E ele prontamente doou dizendo: Eu não vou fazer mais nada com esse material, está jogado aqui no fundo de casa há 20 anos, Eu não faço nada com esse material, eu só quero que divulgue. Que é a missão do Instituto Histórico e Geográfico da Praia Grande divulgar o material que nós temos, temos mais de 150 fotografias, o livro ata original com todas as atas da década de 30 e 40. É uma história muito rica. Então o que acontece é que é muita informação que precisa ser organizada, um trabalho com relação à história do Campo da Aviação da Praia Grande.

Tom - Então vocês têm um grande desafio aí, um bom desafio.

Dalmo - É um tipo de material que é raro, você não tem acesso, mas você precisa ter alguém que tenha conhecimento para fazer a leitura desse material. Ligar coisa com coisa porque senão fica muito solto, contextualizar. O Elson já tem essa visão técnica, histórica. Isso facilita muito. Se cair na mão de um Historiador que não tem essa formação, essa visão, esse conhecimento de Aviação não atinge o objetivo. Então a gente soma forças, cada um com a sua área de conhecimento e agrega forças.

Tom – Interessante, agora a gente vai fazer o seguinte. Vamos mostrar algumas imagens e aí você vai comentando. Assim quem estiver assistindo o programa também já vai poder ter acesso visual a algumas imagens do conteúdo que existe lá no Instituto Histórico em relação ao que a gente está falando aqui. 



Elson - Essa imagem é bem interessante, ela não é de Praia Grande. É de Santos. 

Tom - Você tem o ano dessa imagem?

Elson – Não, essa imagem provavelmente é da década de 30. A legenda tá dizendo que aterrissagem ela aconteceu em Santos Ele veio da Praia Grande aterrissou provavelmente na região do Gonzaga, pela distância que a gente está vendo até o outro lado no Embaré. 

Tom - O tempo estava ruim. Aviador é sempre um aventureiro. 

Elson - Esses aviões eram da Latécoère. 

Tom - Agora esse aí é o mito, todo mundo conhece a história por causa do livro do Pequeno Príncipe. Agora você já imaginou que legal se a gente pudesse dizer comprovadamente que ele esteve aqui.

Elson - Isso é uma missão que nós temos missão de comprovar se ele esteve de fato aqui. 

Dalmo - Localizar o diário de bordo dele.

Elson – Se localizar alguém que for a França pelo amor de deus. Eu vou escrever uma carta para lá. Se alguém for a França fazer contato com o Museu, pede para dar uma olhada no documento e tentar verificar.

Tom - Você tem certeza que essa caderneta de controle do piloto, esse documento está lá no museu? Gente, se alguém estiver indo à França e queira se colocar à disposição de fazer essa diligência? Olha que maravilha! Gente vai ser maravilhoso! Entre em contato com a gente e aí o nome dessa pessoa vai ficar na história também. 

Elson - Vai que conseguiu comprovar.

Dalmo - Também tem um lado obscuro aí porque, por exemplo, essa caderneta era de porte pessoal do Aviador então se ele morreu num acidente aéreo a última caderneta dele desapareceu se ela não foi achada.

Elson - Mas essa caderneta era uma caderneta antiga dele que é da década de 30, ele morreu só em 40 e pouco. 

Tom – Não existem aí algumas falas de que ele esteve aqui durante a o período da Segunda Guerra?

Elson – Não, na Segunda Guerra nunca esteve aqui, só na década de 30, início da década de 30.

Dalmo - Ele nem era escritor.

Elson - Outra coisa importante vocês vão apresentar uma foto aí que foi tirada na Praia Grande com o Gago Coutinho. Esta é uma foto extremamente interessante. Essa é uma foto bem antiga, da década de 30. Lá está o hangar. Os pilotos ficavam nesses quartinhos aqui.

Tom - Pelo que eu estou vendo ali era do correio, era do transporte do Aeropostale.

Elson – Correio, exatamente. Sim correio francês.

Tom - Olha que interessante hein! Vamos seguindo aí.



Elson - Essa aqui era a linha que eles faziam. Eles iam até Argentina. Está vendo lá? Saíam da Europa, da França, faziam a travessia do Atlântico em vôo direto.


Tom - Pelo que eu estou vendo acho que a travessia nessa posição ainda era mais longa do que a travessia que faziam naquela direção lá para Pernambuco, né?

Elson – Não, mas ele vai sair aqui próximo de Natal.

Dalmo - Por isso que no livro aparece a famosa árvore que dizem que foi inspirada numa na presença dele lá no Rio Grande do Norte.

Elson - Agora tem uma coisa bastante interessante.

Elson - Essa aí é uma foto de um Cesna 190 na Praia Grande. Não era do Aeroclube, era de outro proprietário.


Tom - E essas pessoas você sabe quem são?

Elson - Não sei quem são essas pessoas. Como eu tenho mais de 150 fotos nós precisamos garimpar, mostrar para a comunidade e ver se as pessoas se reconhecem. Esse era meu avô, é meu tio.

 Olha só gente precisamos apresentar isso ao público exatamente para isso. 

Tom - Interessante. Então vamos fazer esse garimpo aí. Precisamos expor isso aí.

Dalmo – Porque alguém que aparece numa exposição identifica e relata. Então fica o convite,

Tom - Deem uma olhada, se a família frequentava o aeroclube e provavelmente muitas dessas famílias ainda vive em Santos. Entra em contato com o Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande para fazer essas narrativas, gente. Vamos lá.

Elson - Essa é a ata da fundação, original. Aqui dia primeiro de novembro de 1936. O livro está conosco. Foi doado pelo Paulo Estela para o Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande. É o Aeroclube. Porque já existia a história anterior tem um site chamado AMAB que é uma história anterior.


Ata de fundação do Aeroclube - 01 nov 1936 - livro doado ao IHGPG por Paulo Estela


São fotos da época quando o Mermoz pousou pela primeira vez na Praia Grande. Isso foi em 1930. Foi objeto de uma reportagem do Jornal A Tribuna. Então aqui está toda a comunidade Santista aqui na Praia Grande. Está vendo um avião atrás? Era um Breguet de fabricação francesa. Esse avião atravessou o Atlântico num vôo sem escala.

Na época dava em torno de 13, 14 horas de voo direto trazendo as cartas.

Tom – Caramba, ele tinha autonomia para tudo isso?

Dalmo - Teve um cara que fez uma travessia da Inglaterra pra América. Aí quando ele retornou volta o rei da Inglaterra foi lá receber ele. As pessoas colocaram o cara nos ombros.  Pensaram que o rei ia falar alguma coisa muito interessante e ele falou assim: Como é que você fez para mijar? Ele respondeu: olha não sei viu. Agüentei. Mas nesse festeje aí eu  fui me desfazendo da minha urina.

Tom - Mas rapaz, você sabe que é legal quando tem uma pergunta assim porque é autêntica, uma curiosidade humana. 

Elson – Ele fez uma pergunta interessante. Eu como viajei muito de avião militar na Amazônia posso dizer que tem um aparelho para isso dentro do avião. Tem um coletor redondo que suga a urina, entendeu? 

Dalmo - Quem vai imaginar isso, né?

Tom - Mas nessa época já existia isto? 

Elson – Já, com certeza absoluta, já pensavam nisso já na época.

Elson - Essa foto é icônica. Quem está do lado direito é o piloto Jean Mermoz, do lado dele está Gago Coutinho. Esse personagem! E essa foto foi tirada onde? Em frente ao Hangar da Latécoère na Praia Grande. Está lá o avião deles de manutenção. E essa foto é icônica, aqueles outros dois o Dabry e o Gimlé também eram pilotos franceses. Mas essa foto é icônica porque o Gago Coutinho é um herói Nacional de Portugal. Ele fez a travessia do Atlântico. Sacadura Cabral e Gago Coutinho. Gago Coutinho era um Almirante da Marinha que inventou o sextante que permitiu que a navegação aérea acontecesse, ele sabia onde estava. 

Só que infelizmente o vôo dele não foi um voo direto, foi um voo com escalas. Ele voava num avião anfíbio que pousava na água abastecia, fazia tudo e depois decolava de novo porque ele não tinha autonomia para fazer esse voo Transatlântico. 

Mas Jean Mermoz ele que abriu a frente primeira tanto aí Minas tá na tribo, na imagem anterior. Ele que fez a primeira travessia no voo sem escalas da Latécoère, e ele chegou a fazer 23 ou 24 travessias. Ele era considerado um herói francês. Isso em 1930, entendeu? Exupery era um desconhecido, era um piloto qualquer. Ele se tornou conhecido depois que ele começou a escrever seus livros. Mas esse era o verdadeiro herói. Tanto é verdade que na França tem ruas e bairros, escolas com o nome dele. No Brasil também tem. Jean Mermoz é um desconhecido no Brasil.

Dalmo - Em Praia Grande tem uma escola e também tem Gago Coutinho.

Elson - Então esses dois personagens estiveram na Praia Grande conforme a foto prova.

Tom - É inquestionável, está provado e documentado. Beleza! Diogo segue aí pra gente ver mais algumas. 



Elson - Este aqui é o Aeroclube, olha o portal do Aeurocube, olha ali do lado direito. Infelizmente foi abandonado, não existe mais aquele portal original. As ruas eram de areia ainda. Ali ainda estava o prédio da administração do aeródromo. Isso aí foi uma foto tirada na década de 50.

Dalmo - Será que aquele armazém de esquina ali não é o do Franklin Moura?

Elson - Eu conheci o neto do dono daquele Armazem. Eu conhecia esse pessoal todo, conhecia o Leitão, ele morava aí perto.

Dalmo - Ele tem umas fotos de umas Torres que eram militares.

Tom – Diogo avança aí vamos ver o que nós temos mais para mostrar. 

Elson – Ah! Olha a Ada Rogata. Esse avião está no Museu da TAM. É um Cesna, é um Cesninha. Ela fez uma volta ao mundo com esse avião.


 Tom - A gente está num momento em que a gente tem que dar esse olhar pra história das mulheres que fizeram diferença no mundo.

Elson - Sim, olha só. O seu programa é um programa bastante assistido. Tem uma Santista que eu estou buscando. Eu não consigo trabalhar com ela, não encontro ela em lugar nenhum.


Tom – Mas esta viva?

Elson - Não sei se ela está viva.

Tom - Qual é o nome?  De repente ela tem parentes. Algum parente que sabe dela.

Elson - Porque eu estou em busca dela já faz um bocado de tempo. Ela é Aviadora Santista. Estou a procura dela e não consigo nada.

Tom - Você tem alguma imagem dela aí? Vou mostrar a foto. É Teresa Sodré Lopes. Ela é nascida em 13 de março de 1924. Ela é considerada Pioneira da Aviação Santista, realizou um sonho arrojado para a época e foi uma das primeiras mulheres a pilotar um avião.

Olha que legal, eu vou deixar aqui. Vou deixar pras pessoas darem uma olhada. Mas eu vou colocar aqui na edição do vídeo. Vou colocar essa imagem para as pessoas terem um detalhe a mais. Olha só e aqui tem a carteira dela, era associada 356 do Aeroclube de Santos.

Elson - Olha aqui uma curiosidade Atiê Jorge Curi que foi famoso aqui na Baixada. Ele era o associado número 01 do Aeroclube de Santos.

Tom - Ele foi o primeiro e ela é a 356. Olha quanta gente passou pelo Aeroclube. Olha que interessante a carteirinha dela é de 1947.

Elson – Sim, mas ela é uma mulher que eu já fiz pesquisa em tudo quanto é lugar na internet não achei nada. Agora com seu podcast vamos movimentar.

Elson - Ela deve ter filhos e netos que saibam dela. Ela é uma heroína na minha opinião.

Tom - Claro uma Pioneira deve ter a merecida homenagem.

Esse é o acervo físico?

Elson – Exato é parte do acervo que foi doado pelo Paulo Estela, último Presidente do Aeroclube. Ele doou para instituto e esse material eu preciso, eu necessito realmente expor ao público para que saibam a importância disso.

Tom - Muito bem, vamos, segue aí, Diogo, vamos mudando a imagem aí. 

Elson - Isto é um jogo de medalhas com as quais o Instituto de História Militar presenteou, homenageou o Aeroclube de Santos.

Tom - Essas medalhas então fazem parte do Acervo como homenagem que o Aeroclube recebeu.

Elson - Exatamente isso. Olha isso aí no caso o presidente Petena, na época. É a praia do Gonzaga. Pousava lá. Atrás, na imagem é o Hotel Atlântico.


Dalmo , Elson e Tom.


Olha só gente, eu trouxe um quadro que mostra um jantar de Batizado dos Aviões, muito interessante. Se você quiser tomar conhecimento. Tem uma história muito interessante. Tenho foto deles sendo batizado na Praia do Gonzaga. A foto foi doada pelos Diários Associados e o Assis Chateaubriand veio doar pessoalmente em nome dos Diários Associados.

Tom - Engenheiro Cley, aqui deve ser o Presgrave do Amaral

Elson - Você chamou a atenção para uma coisa interessante: Olha lá isso é nome de rua aqui em Santos.

Dalmo - Nome de uma Avenida em São Vicente, que desapareceu.

Elson - Então isso é nome de Rua em Santos, até hoje. Fica aqui no Gonzaga. Falando em Clay Presgrave do Amaral tem uma curiosidade. Ele era filho do Miguel Presgrave do Amaral que foi um dos construtores da Ponte Pensil. Olha isso, o Presgrave do Amaral era Engenheiro e comerciante de peças de aeronaves e viajava muito para os Estados Unidos. Foi homenageado com esse avião.

Deu nome ao avião quando foi doado porque ele faleceu prematuramente. Ele faleceu de um acidente Ferroviário. Olha o absurdo! Vivia nas nuvens e morreu de um acidente Ferroviário nos Estados Unidos.

Esse avião tem um detalhe importante, parece que esse avião foi doado pelo Vittor Civita, fundador da Editora Abril. Porque antigamente teve a campanha “doe um avião para o bem do Brasil”, foi nas décadas de 30, 40. Então começaram a doar. Várias pessoas como o Assis Chateaubriand, Os Diários Associados, a Editora Abril. Eles vinham doar pessoalmente esses aviões aqui na praia de Santos. Eu tenho aqui um almoço onde inclusive está o Assis Chateaubriand aqui na foto. Interessante. 

Tom - A gente vai colocar isso aqui na edição, mas nós temos outras imagens aí na tela que dá para aparecer.

Elson - Olha só esse avião não era do Aeroclube não viu, provavelmente era do Aeroclube de São Paulo. Aqui era muito frequentado porque tinha muitos cursos, era muito frequentado pelo pessoal para de fim de semana. Vinham de cidades do interior para passar fim de semana com o aviãozinho dele. Era comum isso aqui e o Aeroclube de Santos formou muita gente. Então eu tenho fotos de muitos alunos que foram formados.

Tom - Que legal! Nós vamos colocar essas fotos.

Elson - Cadê essas pessoas? Onde estão?  É importante encontrar, com certeza absoluta. Vamos achar esse povo. Eu tenho vários outros.

 Tom - Tem uns nomes aqui: Afonso, La Fraia, Barros, Maurício, década de 40

São São ex-alunos formados lá no Aeroclube, o presidente Odenir Porto, Broch, Coelho, Thomas ou Tomás, Tabajara. Se você escutar alguns desses nomes e sabe dessa história e dessa ligação de alguém da sua família com o Aeroclube entra em contato com o Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande pra gente identificar e dar a devida homenagem a essas pessoas.

Dalmo - Essa aviadora que tem o sobrenome Sodré. Sodré é um sobrenome muito conhecido aqui em Santos, Azevedo Sodré. Quer dizer ela deve ter alguma ligação com essa família.

Elson - Você vê quanta lacuna tem? A gente precisaria de mais dados destas pessoas. Por exemplo, teve um mecânico O Steven que era mecânico do Aeroclube. Ele era um americano, inglês, aliás. Eu tenho a ficha do trabalho dele, está guardada lá. Então você vê. Um mecânico americano que trabalhou aqui no Aeroclube de Santos durante mais de 15 anos. Eu preciso de informações, Cadê essa pessoa, sumiu? Eu não sei onde está, qual é a história verdadeira dela, onde ele foi parar. É uma história que tem muitas lacunas. Não adianta escrever um assunto que você não tenha todos os elementos para escrever. Ela vai ficar falha. 

Então a ideia toda é a gente pegar essas fotos, expor e fazer um trabalho de historiador. É trabalho de pesquisa.  Vai somando as informações, os contatos e as coisas vão florescendo porque a história do Aeroclube e do Campo da Aviação da Praia Grande tem começo, meio e fim. Esse é o problema. 

Ela tem uma fase toda, ela começou e acabou então nós precisamos fazer o resgatar dessa história realmente para Baixada porque não é uma história só da Praia Grande. É uma história daqui de Santos também, sim a conexão com tudo. 

Dalmo - E uma coisa que estimula muito são as Universidades com suas teses. Por exemplo, essa aviadora, alguém já deve ter feito um TCC sobre ela.

Elson - Se não fez está na hora de fazer.

Tom - Como aquela outra aviadora que a gente mostrou a foto.

Dalmo - Como fizeram do Santos Dumont, de outros. Então vai aparecendo as teses, as pesquisas e vai juntando os documentos, as versões diferentes. Por isso que é importante divulgar.

Tom - Na realidade eu vejo isso como uma arqueologia social. Exatamente isso que é necessário fazer, resgatar, identificar documentar.

Elson - Você sabe o que me chamou muito atenção? Eu vou ser sincero em falar, o que me motivou a auxiliar na criação do Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande. Eu sempre fui uma pessoa muito curiosa e quando saiu a  Internet o primeiro computador que eu tive foi em 97. Então eu comecei a pesquisar, mas não tinha quase nada na Internet. Com o tempo fui pesquisando, pesquisando. E fui pesquisar minha família. Aí eu descobri que o nome Sterque está errado, da família (Sterken). Você vai descobrindo que a  maioria dos nossos nomes estão errados. 

Então descobriu o nome certo e fui pesquisar a família. O meu bisavô, veio da cidade de Lonigo em 1891, veio com a minha bisavó, eram os dois italianos. Então eu sabia que tinha algum italiano na família. Agora eu comecei a pesquisar e fui pro lado da minha mãe, fui pro lado do meu pai. Descobri que tinha suíço pro lado da minha mãe, tinha espanhol, tinha índio brasileiro. 

De repente eu descobri um bisavô, meu tataravô que era o Capitão Manoel Nicolau de Melo, que era mulato. Opa! tem preto, negro na família. Pô eu tenho negro na família, eu tenho índio na família, espanhol na família, eu tenho Diabo na família. Uma tradicional família brasileira. Exatamente, então falar em racismo no Brasil é uma coisa, para mim, meio absurda. Porque se você analisar todos os seres humanos..., por exemplo, uma curiosidade que eu descobri um dia desses.

Tibiriçá todo mundo sabe quem foi. A rainha Silvia da Suécia é descendente do Tibiriçá. João Ramalho foi casado com Bartira que era filha do Tibiriçá. Então você vai olhando assim ué rainha Silva da Suécia tem sangue indígena? Tem, você entendeu? Então você tem os nossos genealogistas.

Tom - Na verdade a gente já está junto e misturado há milhões de anos. Mas é um problema mesmo que a gente sabe que existe, a questão de discriminação não só por questão de raça, mais gênero, a questão idade, questão financeira então isso acontece em toda de qualquer sociedade. 

Tom - Maravilha, gente obrigado pelo carinho de vocês. Eu agradeço a você. Olha, a gente fica encantado porque tem tanta coisa, tem muita coisa, muito enigma para decifrar. Muita coisa para escrever. A gente se vê no nosso próximo episódio do Treinando Humanidades com grandes novidades. Aguardem.

*** 

Transcrição feita por Rosa da Rocha Simão- Membro do  IHGPG





Notificação de embarque emitida pela empresa Nioac&C Ltda com caixa postal em Santos



 

CAPÍTULO VII

OS EMANCIPADORES


Cerimônia pública no Jardim Solemar na década de 1950 tendo como protagonistas políticos o pioneiro Júlio Secco de Carvalho, um de seus filhos e o genro; Oswaldo Toschi (de óculos escuro); o subdelegado distrital Carlos José Borstenez (o popular Açúcar); o prefeito de São Vicente, Charles Dantas Forbes, os vereadores Antônio Bueno Capoluto e Edmar Dias Bexiga; e o pároco da cidade. Acervo de Lucy de Carvalho.


O EMBRIÃO EMANCIPACIONISTA

É muito provável que a maior influência ideológica do movimento emancipacionista de Praia Grande, além obviamente dos interesses locais e regionais, tenha sua raiz nos moradores da região do ABC , cujos municípios atingidos pelo desenvolvimento da industrial da Grande São Paulo foram , num efeito dominó, sucessivamente se desmembrando das suas matrizes urbanas. As mesmas lideranças políticas na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional que atuaram no processo emancipador de cidades da Grande São Paulo também atuaram em Praia Grande. 

Apesar da antiguidade colonial de Santo André (fundada no século XVI por João Ramalho), foi São Bernardo do Campo que deu início a um contagioso processo emancipatório que acabaria atingindo os povoados e distritos litoral. Desligando-se de São Paulo em 1889, a Borda Campo passou a governar um grande território formado por distritos e que também foram sucessivamente se desligando das suas cidades-mães: Santo André (1944), São Caetano do Sul ( 1948 ), Diadema (1953), Mauá (1953), Ribeirão Pires (1953) e finalmente Rio Grande da Serra (1963), emancipada da própria Ribeirão Pires.

Toda essa massa populacional da Capital e do Grande ABCD era e ainda e frequentadora assídua das temporadas veranistas e de férias sazonais no litoral sul; e não foi mera coincidência que as primeiras manifestações emancipacionistas de Praia Grande tenham surgido na década 1950, quando ocorreu uma febre de plebiscitos, seguida da criação de municípios em toda região industrializada do Planalto Paulista.

Não foi somente Praia Grande que se emancipou como perspectiva de desenvolvimento, em função da economia turística e industrial, como ocorreu no Grande ABC: Cubatão (1949), Guarujá (1947) e Bertioga (1991, após tentativas em 1958 e 1979, libertaram-se de Santos, sendo que esta última havia sido o primeiro povoado a ganhar o status de vila ao separar-se de São Vicente em 1540. 

Movimento semelhante ocorreu também, a partir de Itanhaém e Mongaguá, na direção de Peruíbe e Vale do Ribeira.

Atualmente, com o crescimento demográfico e desenvolvimento de uma grande faixa territorial entre a Via Expressa Sul a rodovia Padre Manoel da Nóbrega, Praia Grande tornou-se mais próxima da área continental de São Vicente, onde vivem cerca de 150 mil habitantes. Muitos desses bairros têm mais vínculos sociais de trabalho e consumo com Praia Grande e Cubatão do que propriamente com São Vicente, para eles muito distante das suas necessidades básicas e também de lazer. 

Na área continental de São Vicente o assunto emancipação política é recorrente e já vem sendo ventilado desde quando o Distrito de Samaritá era isolado da área insular e ligada apenas por meio de uma linha ferroviária inconstante. Com o declínio desse sistema de transporte nos anos 1970-80, acentua-se o isolamento continental, que coincide com o início das intensas ocupações a partir das áreas próximas do Rio Branco, Rio Negro e Rio Mariana. Mesmo com a construção da ponte rodoviária, ao lado da ponte ferroviária, o isolamento persistiu ao longo das três últimas décadas. 

Recentemente, com a notícia da instalação de um aeroporto de cargas próximo da linha divisória entre os dois munícipios, o assunto emancipação vêm novamente à tona. As duas áreas municipais estão numa localização estratégica do complexo Anchieta-Imigrantes e devem entrar definitivamente no mapa logístico do transporte rodoviário no eixo São Paulo-Porto de Santos-Curitiba. Outro lance empreendedor ainda mais recente foi o anúncio da construção de um terminal marítimo de cruzeiros na ponta do Itaipu, concorrendo com o porto de Santos, sempre congestionado e insalubre.


Oswaldo Toschi (de braços cruzados, Nestor Ferreira da Rocha (de terno escuro) e Heitor Sanchez (segurando uma pasta) durante a inauguração do Centro Comercial Flórida no início dos anos 1970. Museus da Cidade. 


INSATISFAÇÃO COM O DESCASO VICENTINO ERA ANTIGA E CONSTANTE

Em 31 de janeiro de 1956, revoltados com diversos acontecimentos que retardavam o progresso do Município, dois conhecidos pioneiros, Nestor Ferreira da Rocha e Heitor Sanches, enviaram ao dr. Charles A. Souza Dantas Forbes (então prefeito de São Vicente) uma carta, da qual transcrevemos fielmente o teor:

São Paulo, 31 de janeiro de 1956.

Ilmo. Sr.

Dr. Charles A. Souza Dantas Forbes,

São Vicente

Prezado Senhor:


Precisando V. S. dar uma resposta ao nosso ofício de 28 de dezembro último, para que no arquivo municipal ficasse uma defesa contra os fatos por nós apontados, formulou V. S. o ofício de 30 de dezembro, de uma infelicidade gritante, inconseqüente e até leviana.

Analisemos por partes: diz V. S. que esquecemos todas as atenções recebidas e que nosso ofício foi datado de dois dias apenas do final de seu governo, quando nada mais poderíamos obter da sua administração. V. S. em sã consciência poderia apontar uma só das atenções (no sentido de favor) por nós recebida, quer particularmente ou organizados em Empresa Imobiliária?

Será atenção dispensada à Companhia Territorial Praia Grande, da qual somos diretores, guardar, durante meses, nosso pedido para dar alinhamento da Avenida Tupiniquins (ou Siqueira Campos), alinhamento esse que ora era dado com um ponto de referência, ora modificado a pedido de outros interessados? E o alinhamento na Avenida Beira Mar, esquina da Avenida Siqueira Campos, que após 11 meses de espera ainda continua sem solução! Como resultado dessas "atenções" está aquela grande área no Boqueirão, a mais importante daquela região, sem possibilidade de receber construções e outras benfeitorias.

Apresentamos a V. S. um plano consistente na colocação de meio-fio na Siqueira Campos, feitura de calçadas, arborização, colocação de postes de luz, decorativos, que seria feito por nossa conta exclusiva, mas que deixou de ser efetivado pela falta dos alinhamentos pedidos e cujos cartões de protocolos têm os números 803 em 9 de fevereiro de 1955 e de 2.452 de 26/8/1955.

De fato, fomos à presença de V.S., inúmeras vezes, para pedir a solução desses alinhamentos, fomos gentilmente recebidos (V.S. é indiscutivelmente um gentleman) mas estamos até hoje sem a solução, embora na opinião de V. S. ficássemos devendo "atenções". Resolveu nossa Companhia (reunião da diretoria) aguardar a mudança do Prefeito, não para receber atenções, mas apenas justiça, que nada além disso lhe pedimos.

Quanto à Associação dos Amigos de Praia Grande, infelizmente somos forçados, não só a contestar veementemente suas declarações, como a contar a verdade, triste verdade, que indica até que ponto a irresponsabilidade administrativa golpeia esta grande terra, digna de melhor sorte.

Nossa Associação vem há anos procurando cooperar com o Município na construção do início da Avenida Beira Mar, desde o Forte do Itaipu até o Jardim Guilhermina, como 1ª etapa. Mandou executar o projeto por urbanista (eng. José Carlos Berrini), porque a Prefeitura alegou não ter eng. para isso e nem verba para esse gasto.

Queria o então prefeito José Monteiro que nossa Associação depositasse na Tesouraria da Prefeitura o milhão de cruzeiros que a Associação levantou entre vários proprietários do Boqueirão para aquele fim. Evidentemente isso não seria possível, quando sabíamos que a Prefeitura estava em grandes dificuldades financeiras, com dívidas de vários anos sem solução e seu crédito sensivelmente comprometido. Foi lembrado entregar o serviço a uma firma construtora, por concorrência. Longos meses decorreram-se até que fossem publicados os editais. Como resultado, nem uma só das firmas que habitualmente concorrem se interessaram pelo assunto: a Prefeitura não merecia confiança alguma para negócios dessa natureza.

Quando assumiu V.S. o governo municipal, foi imediatamente procurado por nós, em janeiro de 1952, para essa importante obra. O que de prático V. S. fez nesse sentido, a não ser protelar e nos esgotar? Primeiro, resolveu modificar o projeto Berrini e isso se eternizou. Depois V. S. alegou as obras da adutora de Itu. Iria terminar as obras e depois voltaria suas vistas para a Praia Grande. No penúltimo ano de seu governo, devido à nossa insistência. V.S. concordou em fazer a obra em conjunto. Nossa Associação pagaria as folhas do pessoal ocupado na obra, assim como o material. O asfaltamento seria feito pelo DER por força do convênio existente, oriundo da venda da Usina de Asfalto àquela autarquia. A Prefeitura entraria com as máquinas (moto-niveladora, trator e caminhões).

Agora, vamos avivar a memória de V.S., para lembrá-lo porque não foi iniciada a Avenida Beira Mar, cuja inicial V. S. colocou em cerimônia conjunta com os primeiros canos de água. As máquinas acima estavam sem os pneus, cujo calçamento implicava, só para a moto-niveladora, em quase 50 mil cruzeiros e a Prefeitura não tinha verbas. Tal era o nosso empenho em efetivar aquela obra que não pusemos dúvida em comprar, COM O NOSSO DINHEIRO (não da Associação, que continua depositado no Banco Riachuelo e que não teria essa despesa, pela combinação feita) e dois dias depois esse material estava no depósito da Prefeitura, para que aquela máquina pudesse trabalhar.

Como vários dias depois continuasse tudo como antes, voltamos novamente à Prefeitura. Soubemos que as máquinas estavam trabalhando em São Vicente. V.S. pouco parava na Prefeitura e os outros funcionários nada podiam adiantar.

Novas promessas e naturalmente novas desilusões. Jamais uma máquina apareceu na Praia Grande para iniciar a Avenida Beira Mar. Sabíamos que não adiantava insistir. O empenho de nossa Associação em ver realizada alguma obra na Praia Grande irritava V.S.

Pretendemos então, ao menos, receber o dinheiro dos pneus da moto-niveladora, quase um ano depois. A promessa de descontar em impostos aquele adiantamento não se cumpriu. Insistimos, como é óbvio. V.S. despachou em 4/4/1955 no processo 1.518/55 o seguinte: A Cia. (Territorial Praia Grande) financiou a compra dos pneus: deve, portanto, ser reembolsada. Meses depois, com a intervenção do vereador Oswaldo Toschi, recebemos 30 mil cruzeiros em pagamentos dos quase 50 mil que nos custaram os pneus. Em São Vicente foi comentado o fato como "conto" dos pneus.

Diz V. S. no final de seu ofício de 30 de dezembro que nossa Associação deixou de cumprir a promessa de ajudar melhoramentos e se assim não fosse a Praia Grande não se encontraria reduzida a um lugar em que os proprietários de arruamentos enriquecem rápida e astronomicamente e os compradores de lotes continuam privados de todo o conforto. Resposta infantil! Já provamos acima que colaboração era coisa impossível no governo de V.S.

Sabíamos que V.S. desconhecia a Praia Grande, mas não a tal ponto de ignorar o que têm feito os loteadores de terrenos. V.S. já ouviu falar em Jardim Mathilde, Jardim Miramar, Vila Caiçara, Cidade Ocian, Balneário Flórida, para citar apenas alguns. Sabe que nesses loteamentos existem praças ajardinadas, decoradas, água canalizada, esgotos, luz elétrica, telefone, guias, hotéis, restaurantes etc.?

Não sabia? Não é de admirar. Podemos informá-lo que existem muitos melhoramentos, NENHUM feito pela Prefeitura. Se existem empresas que nada realizaram ainda, é a Prefeitura a culpada, pela fiscalização quase nula, que não exige um mínimo que a lei obriga. Quanto aos lucros das empresas, não têm eles que dar satisfações a V.S. Se eles fossem administrar seus negócios como V.S. administrou a Prefeitura, é claro que estariam todos eles falidos.

Diz V.S. (por incrível que pareça) que só nestes dois ou três últimos anos a Prefeitura vem cobrando tributos na Praia Grande, não lhe cabendo culpas pela ausência de obras municipais. Quando V. S. quiser ver recibos de impostos de 10 ou 15 anos atrás, nós lhes mostraremos.

Íamos silenciar sobre todos esses desatinos, mas quando soubemos que V.S. estava arrancando os canos de água que iriam beneficiar o Boqueirão e que os impostos municipais, sem que nada justificasse, nem mesmo atualização de valores, estavam sendo lançados com aumentos de 60% para o predial e 100% para o territorial, resolvemos reagir, para mostrar que a Praia Grande não é terra sem dono e que os desatinos do poder público precisam ter o corretivo necessário.

Na Câmara Municipal, inúmeras vezes protestaram contra a farsa da adutora de água para a Praia Grande e os aumentos de impostos foram sustados também pelo bom senso do atual prefeito e dos vereadores, que ouviram as queixas e protestos dos lesados, entre os quais os de nossa Associação.

Atenciosamente

Nestor Ferreira da Rocha - Presidente

Heitor Sanches - Secretário


Fonte: Boletim Informativo Cultural, da Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande (Aceam), no boletim nº 25, de janeiro de 1980.



Empresários paulistanos em 1945 em almoço de confraternização com o prefeito Polydoro Bittencourt.  Acervo: Museu de cidade.


O PLEBISCITO DE 1963 REGISTROU 680 EMANCIPADORES


A festa na Avenida Tupiniquins, hoje Presidente Costa e Silva. Os praiagrandenses saem as ruas para comemorar o plebiscito que decidiu pela autonomia do bairro de São Vicente. 

"Passeatas, comícios, fogos de artifícios e carnaval. Assim foi o dia 9 de Dezembro de 1963 em Praia Grande. 

Um dia antes, em um plebiscito realizado no então bairro de São Vicente, a grande maioria da população votou pela emancipação de Praia Grande. 

Foram 680 votos favoráveis, contra 10 que queriam a permanência. 

Também foram registrados 2 votos em brancos e 15 nulos, de um total de 707 eleitores. 

São Vicente recorreu com mandatos de segurança e Praia Grande só seria emancipada 4 anos depois em 1967.

 Quatro anos depois, Praia Grande se desmembrou definitivamente da sede que só investia aqui 5% do que arrecadava em toda essa grande extensão de praias". Fonte: Circe Sanchez Toschi.

Questionada constantemente sobre  quem foram os emancipadores, Circe Sanchez Toschi afirmava categoricamente que foram todos os que foram às urnas no histórico Plebiscito de 1963, incluindo os que votaram contra, pois estes, ao registrarem seu voto, derem prova de que o pleito estava na legalidade e legitimidade constitucional, respeitando os vencedores e opositores. 


OS CONFLITOS E TENTATIVAS DE ANEXAÇÃO TERRITORIAL

É preciso lembrar que a história regional é repleta de episódios de conflitos e acordos político-territoriais que mudaram a configuração de limites e divisas dentro e fora das cidades.

Nos anos 1920-30, com a expansão das linhas de bondes urbanos, Santos alterou os limites divisórios da Ilha a seu favor e tentou anexar todo o território insular vicentino.

Nos anos 1950, em meio à emancipação de Mongaguá, o processo tentou atingir áreas vicentina que faziam divisa com Itanhaém. 

Nos anos 1970 e 1980 foi registrada uma tentativa de anexação do território continental vicentino por parte de alguns políticos e investidores de Praia Grande e também de Cubatão. O vereador de Cubatão, João Faustino Alvarenga empreendeu campanha pública para anexar ao seu município "...20 quilômetros quadrados de São Vicente, dentro do Distrito de Samaritá, abrangendo os núcleos do Jardim Rio Branco e Parque das Bandeiras". 

O movimento sofreu resistência através de uma campanha encabeçada pelo Lions Clube de São Vicente. Segundo o memorialista Jaime Caldas (A Tribuna, 18 de janeiro de 1981), assessor da prefeitura de São Vicente, logo após à emancipação de Praia Grande “...surgiram por diversas vezes naquele município veladas tentativas de anexação também dos bairros vicentinos do Japuí e Jardim Bechara”. Caldas foi um dos participantes da comissão intermunicipal que estabeleceu os 14 marcos divisórios com os municípios vizinhos. Ele também lembrava que as divisas estavam protegidas por uma lei estadual específica sobre limites territoriais e que qualquer mudança territorial só seria possível com a alteração da mesma. Na época das declarações do assessor ainda não havia sido decidido o atual traçado da rodovia dos Imigrantes na direção da Ilha de São Vicente, surgindo nesse contexto uma nova tentativa anexação territorial na área continental, como revela esse trecho da matéria reproduzida no site Novo Milênio:

"Além da pretensão de Cubatão, sabe-se que existe também um velado interesse de Praia Grande por áreas do distrito, o que ficou patente, por exemplo, com o exacerbado empenho daquele município em conseguir, dentro do Programa Aglurb, a construção de uma ponte ligando aquela região ao bairro praiagrandense de Vila Sônia - estabelecendo, a curto prazo, uma integração entre as duas áreas".

Hoje, considerando a lei estadual de 1964, existem três considerações para que seja possível um processo emancipatório dos territórios em questão, levando-se em conta também a lei federal de limita a criação de novos municípios: a autonomia somente da área continental vicentina, cujo crescimento demográfico é acelerado e com alto índice de déficit habitacional; a emancipação da área continental vicentina, mais os territórios serranos e fluviais de Praia Grande; e a anexação de uma faixa da área continental vicentina ao município de Praia Grande mediante acordo com o governo estadual, governo federal e grupos empresariais interessados em uma nova configuração político-administrativa da região".


A INFLUÊNCIA DOS MILITARES NA EMANCIPAÇÃO, DIVISAS E LIMITES.


Além da presença histórica da Fortaleza de Itaipu, sob o comando do Exército, a maior parte do território de Praia Grande estava sob a jurisdição do Ministério da Marinha,  por causa da sua faixa litorânea de quase 26 quilômetros de extensão,  bem como a não menos extensa área continental que margeia o Mar Pequeno, os rios, territórios da União sob a responsabilidade da autoridade naval e portuária. 

Na Baixada Santista o órgão responsável pela fiscalização e emissão de documentos legais que tratam do uso pela apropriação e posse do solo de marinha era o Distrito Naval. Isso significa que praticamente toda a documentação cartorial dos loteamentos e obras públicas de Praia Grande e das cidades litorâneas passava pelo crivo da legislação marítima, lacustre e fluvial.  

Segundo Circe Sanches Toschi, no livro "Praia Grande antes da Emancipação" (2008), o projeto e todo o processo de elaboração dos mapas de dimensões e dos marcos divisórios de Praia Grande foram elaborados sob a coordenação do Tenente Coronel Adston Pompeu Pizza, paulistano morador do Boqueirão e emancipador histórico. Adston foi comandante da Fortaleza do Itaipu  entre 9 de março de 1957 a 31 de março de 1960. Os trâmites legais do processo de divisas e limites foram realizados na sede do Quartel General de Santos e da Capitania dos Portos em Santos.  

Entretanto, ainda são desconhecidas a razões e os critérios norteadores desse processo técnico e político. A lei estadual de 28 de fevereiro de 1964, contendo o memorial descritivo dos limites,  restringe sua narrativa pontual aos acidentes geográficos.

Existe, portanto, uma lacuna histórica na separação territorial e definição das divisas ocorrida por ocasião da emancipação de Praia Grande. Os documentos oficiais silenciam as causas políticas dessa tomadas de decisão. A cidade nasceu politicamente no apogeu do regime militar, numa fase crítica na qual as intervenções locais e regionais eram constantes e funcionavam como regra de controle e direcionamento da nova organização social e política imposta pelos atos institucionais. Apesar da decisão jurídica favorável do STF à autonomia, o município foi considerado de interesse para a segurança nacional e rapidamente teve a nomeação de um interventor civil sob ordem militar. O mesmo aconteceu em São Vicente. O Estado Maior das Forças Armadas deu um outro direcionamento à decisão do Supremo. O governo federal temia que o movimento tomasse rumos libertários que contestassem a ditadura, como aconteceu em diversas regiões onde grupos políticos já cobravam o retorno da normalidade e o fim do regime de exceção. Entre os militares já havia também uma cisão entre o grupo castelista, que defendia a  redemocratização; e a chamada "linha dura", que defendia a continuidade da exceção diante das manifestações contestatórias crescentes. Em Santos, a eleição popular da chapa Esmeraldo Tarquinino-Oswaldo Justo teve efeito político bombástico, sendo logo em seguida interrompida por uma ação militar interventora, alegando-se que o porto e o polo industrial de Cubatão eram considerados também área de interesse de segurança nacional. Esmeraldo Tarquínio, eleito em 1968 e cassado pelo novo regime regime, tinha sido também um forte opositor à emancipação de Praia Grande. Santos, na época já apelidada de "Moscou Brasileira" tinha tradição e fama de oposição politizada de esquerda, por meios dos sindicatos dos trabalhadores portuários, setor que tinha grande influência eleitoral na cidade e na região. 


 Foto histórica. No sentido horário, o empresário e ex-prefeito Roberto Andraus (construtor da Cidade Ocian em Praia Grande); o deputado Esmerado Tarquínio (baiano criado na Vila Margarida), eleito prefeito de Santos e cassado em 1968. O terceiro da foto é o ex-prefeito e também construtor Luiz Beneditino; e o quarto, o advogado e vereador Jaime Pinheiro Guimarães. 

Tarquínio foi um dos que mais combateu a forma como a empresa OCIAN vinha conduzindo seus negócios no então bairro vicentino de Praia Grande. Andraus renunciou seis meses após ter sido eleito prefeito de São Vicente. Seu sócio Nicolau Paal seria nomeado o primeiro interventor de Praia Grande (1967) pelo presidente Mal. Castelo Branco. Caiu após denúncias de corrupção, sendo substituído por um interventor estadual.

Acervo: Museu da Cidade de PG. A identificação dos mesmos foi feita pela museóloga Suely Sanchez Toschi, que nos lembrou ter conhecido pessoalmente todos eles


Ao contrário das cidades mais antigas do litoral, Praia Grande nasceu sob o signo reacionário e conservador, aproximando-se do novo regime como garantia de sobrevivência e continuidade do movimento de emancipação.  As principais avenidas da cidade tiveram suas denominações originais trocadas pelos nomes dos dois primeiros presidentes do regime militar: Castelo Branco e Costa e Silva. A terceira via pública, a antiga Estrada do Telégrafo, recebeu o nome de Presidente Kennedy, que havia havia apoiado o golpe contra o presidente João Goulart.  

Mesmo assim, os emancipacionistas e apoiadores do regime militar não eram unânimes em suas concepções, interesses e  ideologias. 

Este também foi um período de intrigas, perseguições e conspirações contra os elementos que destoavam dos objetivos de alguns segmentos que, por sua vez, também destoavam da originalidade emancipacionista para ampliar novos investimentos e negócios particulares. Nessa época o Forte Itaipu, precisamente em 1968, recebeu como prisioneiros políticos os líderes estudantis que haviam organizado um congresso com a presença de mais de 2 mil jovens num sítio em Ibiúna. O comandante da Fortaleza nesse período era o Cel. Erasmo Dias, santista, e que  se tornaria entre 1971e 1978 secretário de segurança pública dos governadores Laudo Natel e Paulo Egidio Martins, ambos nomeados pelo regime militar. Erasmo Dias foi quem ordenou, em 1977, a invasão violenta do campus da PUC no bairro da Perdizes. 

Sabe-se, por meio da imprensa da época e por diversos interesses indicativos influentes naquele período e também posteriormente, que alguns grupos de paulistanos radicados em  Praia Grande almejavam tomar posse de toda a extensão continental de São Vicente.  O interesse abrangia tanto no lado orla a partir do Japui, tendo como marco divisório a própria Ponte Pênsil; e também do lado serra, tendo como marco a Ponte dos Barreiros, o que incluiria o Samaritá e Rio Branco até a divisa com Mongaguá. 

Em 7 de fevereiro de 1980 o jornal santista A Tribuna publicou uma denúncia da tentativa de anexação territorial do bairro Samaritá, encabeçada pelo então prefeito Dorivaldo Loria Junior. A denúncia do vereador vicentino Raimundo dos Santos Oliveira, que alertava para o risco da manobra política entre a prefeitura de Praia Grande e o governo do estado. O vereador enfatizava porém ressaltava que o prefeito de Praia Grande  tinha legitimidade na sua ação e que a sua indignação era na verdade com a passividade do legislativo de São Vicente diante desse risco. 

A tentativa de anexação do lado orla ocorreu durante a primeira fase do processo de emancipação nos anos 1950 e foi adiada porque os interessados na unificação enxergaram na época um risco de fragmentação de Praia Grande, que enfraqueceria o projeto unificado de emancipação.

O primeiro foco de risco era o movimento político do distrito de Solemar, que poderia seguir uma trajetória independente reivindicado por Júlio Secco de Carvalho, iniciada bem antes desse novo grupo separatista. O segundo foco de risco era representado pelo empreendimento Cidade Ocian, do engenheiro Roberto Andrauss, que também seguia por uma linha independente e que poderia gerar um movimento separatista desse antigo sítio, surgindo ali uma outra nova cidade. Andraus optou inclusive pela intervenção direta, candidatando-se e assumindo o governo municipal de São Vicente, permanecendo no cargo por alguns meses. Nesse período, mesmo antes de 1964, era muito comum, como estratégia mercadológica e política,  ter militares da ativa e da reserva como apoiadores dos negócios privados. O alinhamento empresarial e do alto funcionalismo público com os grupos militares em ascensão já era uma tendência e garantia de concretização de interesses empresariais e de carreira pessoal. O centro político dessa tendência eram os eventos doutrinários promovidos pela ESG-Escola Superior de Guerra, que admitia civis como alunos e parceiros.  Outra via bastante comum era o uso das organizações filantrópicas como Rotary, Lions e as lojas maçônicas, como ponto de negócios comerciais e de articulação entre políticos.

A tentativa de anexação do lado serra ocorreria somente nos anos 1980, quando os bairros continentais isolados pela ponte ferroviária dos Barreiros iniciaram sucessivas ondas de protestos reclamando do abandono pelo governo do estado e também da prefeitura de São Vicente. Membros do Lions Clube vicentino, que tinha ex-prefeitos e vereadores nos seu quadro de sócios, identificaram antigos elementos separatistas de Praia Grande nesse movimento e reagiram imediatamente pressionando autoridades estaduais para atender as reivindicações dos moradores isolados. 

Durante a segunda fase da emancipação os moradores e empresários do Japui, mais ligados à São Vicente, conseguiram neutralizar o interesse de posse por parte de Praia Grande naquela faixa de terras. Dessa forma, o marco divisório com Praia Grande foi definido na metade da avenida Tupiniquins, que na época se estendia até o Boqueirão. As praias da Fortalezinha, Paranapoã, Itaquitanduba e o próprio maciço Xivová-Itaipu não entraram nas negociações daquele contexto, seja pela evidente colisão de interesses privados, seja pelo fato de que grande parte desse território era área da União e considerado área militar de segurança nacional. Essas áreas, todas alvo de intensa especulação imobiliária, algumas com projetos em fase de licenciamento, foram bloqueadas e impedidas de ocupação privativa. 

Mesmo se aproximando e tentando angariar prestígio e força política com os militares da Fortaleza de Itaipu durante o regime militar, os emancipadores de Praia Grande mantiveram a separação, porém não conseguiram ampliar os limites divisórios pretendidos, que era todo o lado continental da Ponte Pênsil. A luta teve um alto preço político. Nessa briga de poder, por exemplo, aconteceu a cassação prefeito vicentino Charles Dantas Forbes e também do vereador emancipacionista Oswaldo Toschi, que parece terem sido sacrificados para conter a insatisfação dos interesses obscuros das forças opositoras. Forbes nunca escondeu que pessoalmente não se opunha à emancipação da nova cidade. Era amigo da família Sanchez-Toschi, moradores do bairro desde a década 1920. O vereador Toschi representava algum tipo de ameaça aos novos interesses que pretendiam conduzir o município. Ambos desapareceram do cenário político. Heitor Sanchez, pioneiro e sogro de Toschi, permaneceu firme como comerciante e empreendedor.

Para garantir que não houvesse novas tentativas de anexação, o território vicentino seria blindado por ações do governo estadual – que se opunha agora ao regime militar- com a instalação de uma unidade da FEBEM no sítio e Praia de Paranapoã, na década de 1970; e posteriormente com a criação do Parque Estadual do Xixová, decreto que desapropriou grande parte daquela área, incluindo as antigas lotes da Pedreira Itapoã e do Curtume Cardamone. Tanto os vicentinos como os praiagrandenses, diante das recentes transformações e dinâmica dos negócios regionais, ainda mantêm seus respectivos propósitos de expansão e manutenção desses territórios.


O  MOVIMENTO DE  EMANCIPAÇÃO 

"Praia Grande é livre, desde quinta-feira, e nenhum meio legal existe mais para tentar o contrário. Este jornal, que sempre se colocou em posição contrária à tese separatista, sente-se muito à vontade para desejar um futuro promissor ao novo município".

São Vicente Jornal, 19, de janeiro de 1967.

 

1953 - Instante histórico em que o pioneiro Nestor Ferreira da Rocha, liderando o movimento, entrega ao deputado Pinheiro Júnior os documentos exigidos por lei, pedindo a emancipação. Na foto: Raul Pavão, com. Joaquim Monteiro, Júlio Secco de Carvalho, deputado Pinheiro Júnior, Nestor Ferreira da Rocha, Manoel Amazonas B. Silva, Otavio Banzatto, Orival Lima Cardoso e o tabelião José da Cunha

Foto: Informativo Cultural 25 (janeiro/1980)


Em 1963 a vontade popular pela emancipação já havia sido registrada em um histórico plebiscito no Distrito de Solemar. Entretanto, Praia Grande só deu o seu grito de independência em 1967, após uma longa batalha judicial de quase 30 anos e que atendia interesses não somente dos munícipes, que se sentiam abandonados pelas administrações vicentinas das primeiras décadas do século XX, mas também pelos empreendedores imobiliários, que viam seus negócios de loteamentos ameaçados pelos mesmos motivos. Foram principalmente estes que, usando do poder financeiro e da influência política, conseguiram mobilizar os grupos insatisfeitos e os idealistas emancipadores, já que as forças de resistência tinham o mesmo perfil de interesses.

A eleição de Roberto Andraus e sua rápida passagem pela prefeitura vicentina foi o forte sinal da resistência contra a emancipação. Pesou muito no decreto federal de autonomia de Praia Grande o apoio de oficiais de alta patente do Fonte Itaipu, cuja influência durante o regime militar conseguiu inibir as tentativas de retomada territorial por parte dos poderes de São Vicente.

A cassação de mandato do prefeito Charles Dantas Forbes, em abril de 1966, enfraqueceu a resistência vicentina, abrindo caminho para os dois primeiros governos municipais sob a tutela do regime militar. O descaso e o sentimentalismo vicentino foram derrotados. 

Comissão emancipacionista em viajem política a São Paulo em 1966. Na foto aparecem, entre outros, Israel Grimaldi Milani , Luiz dos Santos Reis, Adolfo Lopes Henriquez , Dorivaldo Loria Júnior e Paulo Fefin. Acervo: Roberto L. Franco e PDA.


Os deputados que destacaram nessa contenda foram Olavo Horneaux de Moura, de antiga e tradicional família vicentina, grande oponente na Assembleia paulista; Athiê Jorge Coury, ex-goleiro do Santos F.C., deputado federal, inicialmente opositor, por fidelidade aos seus eleitores vicentinos, depois mediador e apaziguador; Pinheiro Junior, com várias legislaturas, advogando por Praia Grande na Assembleia Legislativa; Ítalo Fittipaldi, advogando por Praia Grande no Congresso; e Esmeraldo Tarquínio, advogado e jornalista, forte opositor, advogando por São Vicente na AL-SP desde as primeiras tentativas de emancipação. Esmeraldo foi eleito prefeito de Santos em 1968, tendo seus direitos políticos cassados e impedido de exercer o mandato. O pioneiro Josias Nunes da Silva assim se referiu à atuação do deputado vicentino (baiano criado na Vila Margarida): "Recordo-me perfeitamente quando Esmeraldo Tarquinio, de Santos, fez uma promessa, que se Praia Grande fosse emancipada ele viria de Santos a Praia Grande a pé: nós ganhamos e ele não cumpriu a promessa, veio tempos depois, mas de carro".

Abertura da primeira urna eleitoral nas eleições de 1968.

 

O primeiro prefeito de Praia Grande foi o interventor federal Nicolau Paal, em 9 de janeiro de 1967. No ano seguinte, no início de fevereiro, assume o segundo interventor, Paulo de Souza Sandoval. Esse arranjo político intervencionista, que prevenia uma possível reação vicentina ou qualquer outro tipo de retomada territorial, garantiu que a nova cidade tivesse um executivo municipal eleito por voto direto com forte teor ideológico emancipacionista. A chapa escolhida foi encabeçada por Dorivaldo Loria Junior (prefeito) e Leopoldo Estásio Vanderlinde (vice), vencedores do pleito de 15 de novembro de 1968. 


1968: Primeira campanha eleitoral da chapa Dozinho e Leopoldo Estásio Vanderlinde, após emancipação e dos dois mandatos de interventores. 

"Aqui todos ligados a emancipação e também parte do grupo de apoio ao Dozinho na campanha para prefeito. Ele sentado de camisa branca, atrás de pé sua mãe dona Zilda. De lado com Dozinho, de camisa branca o famoso Paulo Fefin, conhecido como Paulo pintor. Ao lado do Fefin, o Leopoldo Vanderlinde e a seu lado de paletó preto aberto o seu Francisco, que era chamado por todos de Chico Preto. Do outro lado do Dozinho sentado o meu avô Paes Pinto. Ao lado do vovô é o Luiz Zavatini e a seu lado de perna cruzada o Genaro. Acima do seu Francisco, de pé é o Alberto Diegues e a seu lado também de pé é o Ézio que foi vereador. Ao fundo, de pé entre o Dozinho e vovô é o Antônio Figuerôa que também foi vereador". Foto e descrição do evento: João Paes Pinto.


Nesta eleição também formou-se o primeiro corpo com mandato legislativo, sendo constituída a Câmara Municipal com os seguintes vereadores: Cesário Reis Lima, Oswaldo Toschi -foi vereador vicentino, representando Praia Grande desde 1952 - "(...) lutador incansável, e um dos mais operosos representantes do povo calunga, em todos os instantes que ocupava a tribuna do Legislativo, cumprindo o dever sagrado de falar pelos munícipes de Praia Grande", texto da Gazeta do Litoral -, Aristeu Luz, Pablo Trevisan Perutich, Waldemar Murano, Luiz dos Santos Reis, Arnaldo Perticarati, Osmar Martinatti e Osvaldo Antônio Aranha. O primeiro presidente da Casa de Leis foi Cesário Reis Lima, o vereador mais votado nas eleições municipais. Oswaldo Toschi destacou-se nessa sessão histórica como autor do primeiro requerimento solicitando do novo prefeito a iluminação dos pontos de ônibus da avenida Tupiniquins (atual Ayrton Senna) e também uma contestação ao ato do executivo que autorizava a instalação de um parque de diversões na orla sem o devido licenciamento legal. Esse destaque de Toschi não causou nenhuma estranheza local, pois sua liderança e representação do bairro agora desmembrado era histórica, porém causou uma inquietação em alguns grupos que tinham planos bem diferentes para a cidade.

NO DEPOIMENTO DOS IDEALISTAS, A VERDADE HISTÓRICA

O nosso trabalho em busca da revalidação dos pioneiros do movimento de Emancipação continua alienado, sem paixões e sem facções políticas, pois o pesquisador e o crítico enfronhados na realidade e na sinceridade devem-se manter a par da verdade, sem interesse determinado, conscientizando-se de que a história de Praia Grande precisa ser descoberta em sua autenticidade. Os próprios homens sedimentaram e acompanharam o movimento, enfatizaram as controvérsias que giram em torno deste comentado e aguçado assunto.

As controvérsias aparecem e é natural que para lá se assentem as baterias dos críticos. Somos a cada semana interrogados por homens que participaram do movimento, pois estão maravilhados com o nosso trabalho, que visa exclusivamente descobrir os valores esquecidos. Esses valores que o tempo a cada dia consome, esses valores que foram tombados com a bandeira da Emancipação.

13 ANOS DEPOIS... - Paulo Fefim, Eládio Eloy Pessoa de Barros e Josias Nunes da Silva, três grandes nomes do movimento pró-Emancipação. Foto: Deoclécio José da Silva, especial para o Informativo Cultural 25 (janeiro/1980)


ATUALIDADE

Eles opinam sobre a emancipação. Depoimentos exclusivos para este Informativo

ATHIÉ JORGE COURY (deputado federal) - "A cidade de São Vicente, com estrutura formada, não poderia perder Praia Grande; por outro lado, pensava que a mesma não suportaria uma autonomia. Seria uma luta difícil! Passados 13 anos, os meus cumprimentos ao povo desta cidade, e, principalmente àqueles que lutaram pela sua liberdade".

LEOPOLDO ESTÁSIO VANDERLINDE (ex-prefeito de Praia Grande) - "Na época do movimento eu trabalhava na O.C.I.A.N., não participei diretamente do movimento, mas acompanhava analisando todos os fatos. Sempre acreditei na iniciativa destes corajosos homens, a prova disto está no que a Praia Grande é hoje".

LAYDE RODRIGUES REIS (diretora administrativa da Prefeitura Municipal de Praia Grande - PMPG) - "Houve momentos em que o movimento periclitou, mas a nossa fé, o entusiasmo e a vontade férrea de vencer, a cada derrota que sofríamos, acrescentava uma parcela de ânimo a mais. A tocha estava acesa e precisávamos mantê-la viva a qualquer preço, empregando todo nosso esforço físico e mental, que renascia na esperança da vitória. Como em todo movimento e toda causa, houve mudanças de pessoas, de local, até de posições; daí não preferir citar nomes, pois, pelo que realizamos, nossa vitória foi a bandeira de um povo idealista, que soube se unir e lutar na hora exata em que precisávamos de apoio. Praia Grande tem uma história e o capítulo da emancipação é o mais importante, pois exigiu de seu povo uma grande dose de disciplina e patriotismo".

CESÁRIO REIS LIMA (vereador - atual presidente da Câmara) - Na opinião de Cesário Reis Lima, o falecido deputado Osvaldo Massei ocupa posição proeminente. Gosta sempre de afirmar: "Praia Grande deve muito a este homem. Este homem deve ser respeitado por todos aqueles que citarem o assunto Emancipação".

Cesário lembra daquele tempo em que andavam quilômetros e quilômetros a pé, onde após a longa caminhada cansativa e dura, e ainda o desconforto efêmero, partiam para a Assembléia Legislativa, para São Vicente, para Solemar, para os ínvios lugares onde pudéssemos alicerçar a Emancipação de Praia Grande.

Cesário lembra aquele tempo em que o velho Josias, homem forte do movimento, mal dormia para participar do programa do Edson Fernandes, na Rádio Clube, apresentação radiofônica que se estendia pela madrugada nos ares da Baixada. E afirma: "O pessoal tinha alguns minutos para falar da Emancipação e este programa nos deu uma grande força, no que concerne à divulgação". Lembra também o sr. José Santos, de Oswaldo de Oliveira, segundo ele "um dos autores intelectuais do movimento e companheiro respeitado por todos".

Nome de rua do bairro do Boqueirão, homem de confiança do movimento, qualidades inconfundíveis, Osvaldo de Oliveira foi, para Cesário Reis Lima, o gigante forte da árdua luta que consolidou a campanha; e diz: "Ele morreu muito cedo, inclusive era o homem mais capaz e credenciado para ser o prefeito naquela época. Morreu, mas ficou marcado na história com muita justiça e honra".

Cesário Reis Lima lembra daqueles tempos em que a "fraqueza de bolso" e "as noites intermináveis" caracterizavam as reuniões. Certa ocasião, afirmou o entrevistado: "Eu vim de carona de São Paulo até Cubatão, pois tinha ido à Assembléia Legislativa e não tinha dinheiro para voltar. Eu vim de Cubatão a Praia Grande a pé". E adiantou: "por causa da Emancipação vendi relógio, colar e quase tudo o que tinha de valor. E Paulo Pintor perdeu quase tudo".

E continua o Jornal Praia Grande News de 12 de janeiro de 1975: "Eis o perfil de Paulo Pintor: Paulo Fefim, homem que continua fiel ao movimento de emancipação de Praia Grande. Paulo Pintor é um dos principais pioneiros do desmembramento que, na sua opinião, contou com o apoio maciço do povo. Abordado como nasceu o ideal de Emancipação, Paulo assim falou: "naquele tempo minha esposa ficou doente, precisou fazer cesariana e a cidade não tinha pronto-socorro. Então achei que Praia Grande devia ser desmembrada e ter a sua vida própria"".

Na solenidade de primeiro aniversário de emancipação de Praia Grande, o deputado Hilário Torloni assim afirmou, na presença de funcionários da Prefeitura e autoridades: "Amigos funcionários desta Prefeitura, se vocês são funcionários hoje, vocês devem a Paulo Pintor".

Paulo Pintor foi tesoureiro do movimento de emancipação, e sua esposa, dona Genoveva, também foi uma grande incentivadora da campanha.

A ARMA DESLEAL - Os políticos vicentinos, não aceitando a idéia da Emancipação, tiraram várias fotos e as levaram a Brasília. A paisagem das mesmas era uma grande área verde, o que se traduz por mato. Graças ao apoio financeiro da Organização Ocian, foram tiradas algumas fotos aéreas e, em Brasília, puderam notar que Praia Grande lutava por uma causa justa

Foto: Informativo Cultural 25 (janeiro/1980)

JOÃO DE CASTRO LANCHA (um dos pioneiros do movimento) - "A Emancipação nasceu por falta de recurso, por necessidade, pois São Vicente não empregava nem cinco por cento de sua renda em Praia Grande". Com tal alusão, Lancha lembra que a cidade não tinha água e chegavam até a cortar o único cano que servia para abastecer precariamente o pessoal que morava na antiga Avenida Tupiniquins.

Lancha gosta sempre de atinar os fatos nos mínimos detalhes e diz que Osvaldo de Oliveira foi o estopim da idéia, o autor intelectual da emancipação. Frisa: "Embora Osvaldo de Oliveira já seja nome de rua, jamais poderemos esquecer o que ele fez por Praia Grande. Ele foi valoroso e honesto".

Perguntado o motivo da forte reação vicentina, inclusive apresentando, em Brasília, fotos que não condiziam com a realidade, Lancha afirmou: "quando a briga parou em Brasília, São Vicente usou uma arma desleal. Apresentou uma foto antiga onde mostrava Praia Grande vazia, a cidade sem residências. Era um mato. E aí falou-se que nossa cidade estava ligada por interesses de 'grileiros e pinguços'. Graças ao apoio financeiro da organização Ocian, de Roberto Andraus, foram tiradas algumas fotos aéreas e, em Brasília, puderam notar que Praia Grande lutava por uma causa justa".

Muita lembrança surge na trajetória vitoriosa da Emancipação e Lancha, empolgado sempre em suas declarações, recorda o tempo em que ganharam a causa no Supremo Tribunal: "Muita gente chorou" - afirmou. Apontando sempre Torloni, Massei e Osvaldo de Oliveira como os baluartes do movimento, Lancha afirma que a comissão presidida por Luiz dos Santos Reis é que fez voltar a afirmativa da consecução de honra da Emancipação.

Para os que ainda se lembram, Lancha tinha uma imobiliária chamada "28 de Dezembro", uma homenagem que prestou ao dia em que a Assembléia Legislativa do Estado deu ganho de causa à nossa Praia Grande.

Um fato se deve destacar, que no dia que a cidade comemorava o seu desmembramento, houve um grave acidente na Vila Tupi, quando um caminhão, carregando várias pessoas, tombou e seis pessoas ficaram feridas, sendo a mais grave a senhora Zenaide Brajon (Dona Maria).

JOSIAS NUNES DA SILVA (pioneiro) - "Fiz parte do primeiro movimento de desmembramento de Praia Grande e minha grande função era ir de casa em casa fazendo fichas, reunindo o povo para o grande plebiscito. Como membro do movimento, fiz mais de dez programas na Rádio Clube de Santos, no programa do Edson Fernandes, que ia ao ar das 21 às 22 horas. Essa audição era paga por Roberto Andraus para divulgar o movimento da Emancipação. E eu ia quase sempre com Paulo Fefim, um pé forte do movimento.

"Lembro que o Milani presidiu a comissão no início, para depois até o final ser presidida por Luiz dos Santos Reis. Naquele tempo, o que mais nos revoltava era que São Vicente não fazia nada por Praia Grande. Lembro que uma vez a Prefeitura de São Vicente arrancou todos os canos de água que serviam a rede e o pessoal de Praia Grande.

"Considero Osvaldo de Oliveira, Dorivaldo Loria Júnior, Osvaldo Massei e Hilário Torloni um dos grandes do movimento. Recordo-me perfeitamente quando Esmeraldo Tarquínio, de Santos, fez uma promessa, que se Praia Grande fosse emancipada ele viria de Santos a Praia Grande a pé: nós ganhamos e ele não cumpriu a promessa, veio tempos depois, mas de carro".

O jornal O Estado de São Paulo de 30 de maio de 1966 explica a festa da [emancipação][... N.E.: trecho "empastelado" na impressão] "por causa das trezentas pessoas, um pouco de cada lugar, que se reuniram para formar uma comissão. Foram eles que pediram ajuda aos deputados Hilário Torloni e Osvaldo Massei na Assembléia e ao deputado Henrique de La Roque na Câmara.

Essa foi, por exemplo, a luta de Eládio Barros, membro da comissão e dono do bar Guarapari na Cidade Ocian. Sexta-feira, quando voltou de Brasília, escreveu na calçada em frente do bar: VIVA A CIDADE DE PRAIA GRANDE, A PRAIA MAIS QUERIDA DO MUNDO. Ele faz sempre questão de dizer que tudo foi feito só pelo povo.

Para Paulo Pintor, Praia Grande é, antes de tudo, uma grande família. Está sempre disposto a brigar com quem não concorda com isso, e por causa de suas brigas já foi parar na cadeia duas vezes, quando quis bater nos deputados Olavo Hourneaux de Moura e Paulo Mansur.

Outro que está muito contente com o desmembramento é Roberto Andraus, dono da Imobiliária Ocian, a maior de lá. Além do lucro com a valorização de seus prédios, ele não gosta muito de São Vicente. Foi prefeito de lá em 1962, mas não aparecia muito na Prefeitura, e sete meses depois a Câmara exigiu a sua renúncia".

JOÃO CARNEIRO (articulador) - Apontado pelos idealistas de 1967 como o grande articulador do movimento, João Carneiro é figura popular na Cidade, com destaque nos meios políticos. Instado a falar sobre o movimento, João Carneiro sumarizou: "O movimento de Emancipação nasceu de um ideal baseado em razões de ordem pessoal, aliado à revolta pelo descaso da Prefeitura de São Vicente. Contando com o entusiasmo de todos, cresceu e culminou com nossa vitória, do povo que votou no plebiscito, que assinou listas, que contribuiu monetariamente e morando, participando e apoiando tudo. Ao contemplar o incessante progresso de Praia Grande, e recordando os dias de luta ao lado dos emancipadores, pergunto se valeu tanto esforço e sinceramente respondo com grande orgulho: valeu!".

PASQUALINO BORELLI (considerado o "grande" da Emancipação) - "Se Praia Grande perder eu vendo tudo e sumo de minha cidade", estes foram os gritos na Câmara dos Deputados, afrontados por Pasqualino Borelli, de caráter violento, insistente e considerado o homem forte da vitória da Emancipação.

Naquele tempo, o homem modesto era proprietário de um bar no Ocian, elemento principal do movimento do bairro. E gosta sempre de dizer: "Na Emancipação larguei tudo. Quase perdi o meu bar, a minha mulher e a minha família". Considerado por unanimidade o Gigante do Movimento, Borelli afirma que entrou na "briga" porque Praia Grande não tinha escolas e considerava isso fundamental no então lugarejo. "Tudo estava abandonado, esquecido, alguém precisava gritar" - disse.

Cansado, esperando o progresso da Cidade avançar, Borelli continua modesto, atualmente é membro da diretoria da Sociedade Amigos de Cidade Ocian, e além dos méritos creditados como grande emancipador, outro é notório e fundamental: é um dos únicos que desde 1967 não participa de movimento político. "A Emancipação foi minha meta. Vencemos, com isso o meu ideal foi alcançado".

ELÁDIO ELOY PESSOA DE BARROS (um dos destaques do Movimento) - O ideal de liberdade e a vontade de melhorar as condições da terra que escolheu para viver e criar seus filhos foram as causas da efetiva participação de Eládio Eloy Pessoa de Barros no movimento de Emancipação, e com muito orgulho enfatiza: "Praia Grande, como bairro de São Vicente, era carente de tudo e nossas reivindicações não sensibilizavam as autoridades, enquanto cresciam as necessidades e o desespero dos que ali residiam. Não faltaram ao praia-grandense os sentimentos de fé, coragem e sacrifício pelo movimento".

E continua Eládio: "Nunca fui homenageado, poucas vezes sou citado, mas a certeza tenho: a de ter lutado ao lado de grandes idealistas por uma causa justa e relevante. Com muito orgulho confesso que ao contemplar o incessante progresso praia-grandense, sinto que sou parte integrante desse desenvolvimento, e isso para mim supera tudo, até as possíveis mágoas".

MARIA LUIZA LAVALLE (depoimento de uma pioneira) - "Aqui encontrei uma vida cheia de sol, de amor, de paz. Sou uma carioca de coração praia-grandense e as primeiras pessoas que conheci, há 18 anos, ensinaram-me a amar esta cidade. Com isso, participei na luta da Emancipação de Praia Grande, quando numa noite estiveram em minha casa o Dozinho, Layde, Hilário Torloni, Massei e outros grandes incentivadores do movimento. Daí as reuniões sucederam-se. No Maracanã, dona Zilda atendia todos carinhosamente. Nas grandes reuniões que ali se faziam, às vezes, à luz das velas, o trabalho foi intenso. Quando foi marcado o plebiscito, ninguém ficou de braços cruzados, galgaram a areia quente e ensolarada, percorrendo grandes distâncias, a fim de se conseguir voto para a Emancipação de Praia Grande. Os soldados da esperança foram aumentando até que os pássaros do Canto do Forte à Solemar cantaram hinos de louvores à vitória das urnas".


O ROL DOS EMANCIPADORES


Construção do Monumento dos Emancipadores. Acervo: Edgar Dall'Acqua.


Na Praça dos Emancipadores, construída na entrada do Boqueirão, foi instalado o principal monumento da municipalidade, uma composição arquitetônica cívica que homenageia os cidadãos que mais se destacaram nos eventos políticos da emancipação. Seus nomes foram  gravados em lâminas de pedra decorativa contemplando num só conjunto representativo 49 pessoas, homens e mulheres, membros da aristocracia e também populares, igualando-os por ordem alfabética, sem identificação por título e status-quo. Certamente não foram lançados todos os nomes dos ativistas e influenciadores - que passavam de 200 e depois atingiu a casa dos 10 mil - e sim os que representavam  de forma mais ativa e visível os anseios libertários da população naquele contexto:

Adston Pompeu Piza. Alberto Ferraro. Aldo Ramacciotti. Antônio Artur Paes Pinto. Antônio Figueiroa. Apolônio Dias da Silva. Augusto F. Brandão. Aurelio Pol. Carlos Alcino Neves. Carmem. R. dos Santos. Cesário Reis Lima. Circe Sanchez Toschi. Dorivaldo Loria Junior. Fernando Sanches Carneiro. Genoveva Bragaia Fefim. Heitor Sanchez. Hermes Lima. Israel Barreto. Israel Grimaldi Milani. Jandira Torres Alves. João Bispo dos Santos. João Carneiro. João de Castro Lancha. José Carlos de Oliveira. José de Oliveira. José dos Reis. Josias Nunes da Silva. Júlio Secco de Carvalho. Layde Rodrigues Rei Loria. Luiz dos Santos Reis. Luiz José de Melo. Maria de Lourdes Fuzinatto. Leopoldo Estásio Vanderlinde. Maria de Oliveira. Maria Luiza Lavalle. Maria Penha A. de Oliveira. Nestor Ferreira da Rocha. Osvaldo Samuel Massei. Oswaldo de Oliveira. Oswaldo Toschi. Paschoal Giordano. Paschoalino Borelli. Paulo Fefim. Roberto Andraus. Rosa Lourenço. Vicente Gonçalves da Silva. Waldemar R. da Cunha. Walter Melotti. Wanda Diane A. de Oliveira. 

Praça dos Emancipadores, no Boqueirão. Registros @e_dronesbr e Dalmo Duque.  



CIRCE SANCHEZ TOSCHI, MEMORIALISTA



11/07/2016. Praia Grande decreta luto oficial por falecimento de emancipadora da cidade
Por #Santaportal em 11/07/2016.


PRAIA GRANDE – A Prefeitura de Praia Grande decretou hoje (11) pela manhã luto oficial de três dias pelo falecimento de Circe Sanchez Toschi, uma das emancipadoras do município. Circe estava com 94 anos de idade e faleceu em casa.

A bandeira da cidade ficará hasteada a meio mastro durante o período de luto oficial. Dona Circe, como era conhecida, nasceu em 10 de janeiro de 1922. em São Paulo.

Ela sempre acompanhou o marido Oswaldo em sua carreira política como vereador de São Vicente e idealizador da emancipação de Praia Grande, que aconteceu em 1967. Através de diversas ações filantrópicas e políticas, Circe Sanchez Toschi passou a atuar de forma incessante na sociedade.

Dona Circe também fundou a Associação de Caridade Santa Rita de Cássia (1967), foi presidente da Sociedade de Assistência à Infância em São Vicente, fundadora do Movimento de Arregimentação Feminina (São Vicente), Grupo de Bandeirantes de Praia Grande, entre outros grandes feitos.

Em 1969, candidatou-se a prefeita de Praia Grande, sendo a primeira mulher a concorrer ao cargo do executivo. Em 1975, ela recebeu o título de cidadã honorária do município, através da Câmara de Vereadores.

Em 1992, concluiu o Curso de Extensão Universitária para a Terceira Idade, na Universidade Católica de Santos, e no ano 2000, publicou seu primeiro livro, “Memórias de Praia Grande”. Em 2003, o livro foi repaginado e publicado novamente com o título “Praia Grande Antes da Emancipação”.

Leitora e escritora voraz, publicou ainda o livro “Andanças de uma Vida”, em 2006. Fã de cinema, Circe fazia questão de sua independência mesmo com a idade avançada.

Dona Circe recebeu diversas homenagens pela emancipação de Praia Grande. A última delas ocorreu em 19 de janeiro deste ano, quando a cidade completou 49 anos de emancipação político-administrativa.

Ela deixa três filhos – Suely, Oswaldo Junior (falecido) e Heitor Orlando -, cinco netos e dois bisnetos.


***




Hoje é um dia muito bom para a gente fazer uma reflexão sobre a historiografia praia-grandense. E não só as comemorações cívicas, mas elas nos remetem às narrativas que explicam as coisas como elas aconteceram.

Não na sua totalidade real, mas naquilo que foi possível explicar. A imprensa faz uma narrativa, mas é uma narrativa conjuntural, do dia, com notícias. Então ela não tem tempo de analisar nem de explicar determinadas coisas.

É importante como documento, como registro. Mas só quem analisa as notícias que foram publicadas sobre determinados fatos, um tempo depois pode perceber o que estava acontecendo. Então, na praia-grande, nós temos narradores importantes da historiografia, como é o caso da dona Graziela Sterque.

Ela fez uma narrativa importante, estrutural, conceitual, mas uma narrativa calma. Até o estilo dela, cívico, conservador, elegante, mas uma narrativa sem aquela preocupação de polemizar e também de explicar. Mais informativa, ela tinha mais um tom de jornalista, jornalista culta. Inclusive, temos essa documentação registrada no Informativo Cultural. É uma narrativa, apesar de conservadora, tradicional, importantíssima, porque é cheia de informações. Gostaria de ter toda ela na minha biblioteca.

Agora, uma narrativa historiográfica, memorial, que me chama muito a atenção é a da Circe Sanchez-Tosque. A dona Circe foi realmente além da imaginação e ela fez as coisas de uma maneira contundente. Contundente, às vezes até assustadora, porque ela era extremamente corajosa. Não conheci a dona Circe, mas imagino que ela era uma pessoa, até de certo ponto, intransigente em algumas coisas porque ela vivenciou muitos fatos, muitos problemas para atingir a família dela e que remontou a experiência do pai dela, do Heitor Sanchez, que foi, na prática, um dos fundadores d e Praia Grande. Não só emancipadores, mas fundadores mesmo.

Porque esse processo de ocupação, de territorialização imobiliária, isso é importantíssimo. Mas ela faz uma narrativa pontual nas memórias que eu achei impressionante. Eu achei impressionante que ela não deixa barato determinados fatos.

Dá nome aos bois, explica as coisas sem medo e com toda a propriedade daquele narrador politizado, consciente. É uma coisa impressionante. Por isso que a gente não pode abrir mão dessa documentação para explicar determinadas coisas.

A dona Circe não era nada romântica. Para ela, as coisas aconteceram da forma factual e ela narra como se fosse um processo de inquérito, de inquérito policial, desse modelo de inquérito forense. E ela também dá um tom de explicação de filosofia da história, intuitivamente.

É um espírito, na minha opinião particular, evoluído. Um espírito que sabe das coisas, sabe olhar as coisas, analisar, criticar e se posicionar de uma maneira filosófica. Uma questão de formação.

Lendo a biografia do avô dela, dá para perceber as raízes, de porque ela era assim, por que narrava as coisas e como é que ela participava como atora política, como companheira do Oswaldo Toschi. Isso é importantíssimo para entender a história da Praia Grande.

Tem trechos que acho extrema coragem e ousadia, que muitos de nós não teriam competência para fazer essa narração. Então, um documento importantíssimo. Lendo e relendo as imagens, os fatos, como ela enxerga as coisas, as pessoas. (Dalmo Duque. Grupo virtual do IHGPG)


*

VERANISTAS E PRAIAGRANDENSES


Esses dois termos talvez sejam os que melhor definem a identidade gentílica dos lugares e suas culturas. Nascer numa localidade, com exceção dos incidentes de parto, fruto do acaso ou da estadia passageira ou de trânsito, quase sempre significa que o sujeito foi gerado e torna-se naturalmente herdeiro dos status quo  e que  o vincula socialmente a um núcleo institucional familiar. Mesmo quando o parto não ocorre na localidade de raiz, por questões circunstanciais, existe todo um conjunto de práticas e rituais que imprimem e fortalecem os vínculos, ritos e tradições, geralmente religiosas e políticas, como o batismo, o apadrinhamento, o registro em cartórios e a própria declaração de domicílio do rebento.  

Contando os quartos de século, ou 25 anos, período no qual se formam e se desenvolvem as gerações, Praia Grande, como localidade jurídica, ainda aguarda o amadurecimento da sua geração de raiz, ou seja, que nasceu in loco e realizou todas as etapas da formação civil cultural na cidade. A maioria é proveniente de localidades do Planalto Paulista e que tinham vínculos veranistas com o antigo bairro vicentino. Mesmo os habitantes mais antigos, das moradias sitiantes e dos primeiros loteamentos, eram forasteiros de longa permanência, mas que realizavam as fases de socialização no Planalto, em São Vicente e Santos. Mas já contavam com serviços básicos de natânia documental como os cartórios de registros e os livros batismais das paróquias católicas e outras agremiações religiosas.  

O mesmo acontecia com os ritos funerários, pois a cidade só foi ter sua própria necrópole nos anos 1980 e que demorou algum tempo para ter sua sepultura inaugural. Nem é preciso lembrar que o prefeito da época, nesse aspecto cômico-popular, era satiricamente comparado com o famoso Odorico Paraguassu, personagem da telenovela O Bem Amado, escrita por Dias Gomes, e exibida em massa pela Rede Globo de Televisão. Na novela dos anos 70 e também na série dos anos 80, o prefeito de Sucupira não conseguia inaugurar o cemitério por falta de defuntos na cidade. Quando aprecia algum, logo a oposição dava um jeito de boicotar, cobrindo as despesas e levando o defunto para ser sepultado na cidade vizinha.  

Sobre a identidade gentílica, Praia Grande ainda denomina seus habitantes genericamente como “caiçaras”. Isso significa que não surgiu ainda uma denominação autenticamente local. “Praigrandense”  tornou-se então a denominação mais comum, como reflexo gramatical obvio de uma identidade em construção.   

Interessante lembrar que a cidade possui um pequeno e antigo grupo familiar que se estabeleceu primeiramente como veranistas e comerciantes, com mais de um século de residência, que não tinha vínculos culturais com São Vicente, e do qual brotou a identidade mais forte e autêntica da localidade: os emancipacionistas e depois emancipadores, que antecederam em três décadas o movimento que os desvinculou definitivamente do domínio politico vicentino. São dois mundos diferentes convivendo num mesmo espaço geográfico. 

Essa divisão cultural entre planaltistas e praiagrandenses existe até hoje, já que a maioria dos imóveis próximos ou na própria orla (setores 1 e 2) pertencem aos veranistas. Os frequentadores das praias, que chegam a ultrapassar a marca de 1 milhão de pessoas nas temporadas de verão nem imaginam ou percebem que existe uma cidade de vida própria e cotidiana, desvinculada das atividades de lazer praiano e que já ultrapassa a casa dos 250 mil habitantes. Esse fenômeno aconteceu com as cidades litorâneas mais antigas da região e que se adaptaram a essa dupla realidade e identidade de existência, convívio e pertencimento. Também aconteceu mais recentemente com Mongaguá, Peruíbe e Bertioga. Nos próximos 25 anos,  Praia Grande já terá sua geração autêntica, nascida e formada na cidade, com sua própria cultura e identidade cujo nome popular aparecerá espontaneamente.  


A REPRESENTAÇÃO  POLÍTICA

Meio século depois da emancipação e criação do município, com doze mandatos executivos e legislaturas, é interessante lembrar e observar o aspecto novato e as origens mais próximas dos representantes políticos da população. É um retrato autêntico de uma sociedade de formação recente e que se revela claramente nos seus traços culturais e as suas raízes.

No poder executivo encontramos representantes majoritariamente de origem paulistana, descendentes de italianos, portugueses e espanhóis, quase todos originários do terceiro setor, comerciantes e bacharéis técnicos.

No poder legislativo, de referência mais popular, se repete a origem paulistana, porém aparecem os imigrantes japoneses, sírio-libaneses e os migrantes nordestinos, seguidos dos nascidos na Baixada Santista. Como São Vicente e o bairro de Praia Grande não possuíam estrutura de registro cartorial e maternidade hospitalar, muitos foram registrados nos seu locais de nascimento, que era mais comum em Santos e São Paulo. O mesmo procedimento ocorria com óbitos e sepultamentos.

Nas antigas instalações da Prefeitura Municipal de Praia Grande no Ocian Praia Clube, solenidade com o interventor Nicolau Paal (em pé) que comandou a cidade de 1967 a 1968. Na imagem também o então diretor do Ginásio Estadual, Roque Sandoval. 


INTERVENTORES NOMEADOS 

1. Nicolau Paal: 19/01/1967 - 03/03/1968. Interventor Federal, nomeado pelo Presidente Castelo Branco.

2. Paulo de Souza Sandoval: 04/03/1968-31/12/1968. Interventor estadual, nomeado pelo governador Abreu Sodré.


A PRIMEIRA DISPUTA POLÍTICA

Vários deputados estaduais e federais tomaram posições  favoráveis, contrárias e neutras em relação à emancipação de Praia Grande, de acordo com seus interesses políticos. O deputado Murilo de Sousa Reis (1915-2005) foi um dos mais  combativos na ala dos contrários à autonomia, fazendo oposição e denúncias na Assembleia Legislativa de São Paulo, que sempre ressoavam na imprensa. Mesmo após a emancipação, durante  o período transitório da intervenção federal, continuou mantendo sua posição contrária e suas denúncias. Em 1967 ele atacou de forma incisiva o interventor Nicolau Paal e o construtor Roberto Andraus, ambos engenheiros e sócios em empreendimentos em Praia Grande. Murilo também era engenheiro químico, como Andraus, e ocupava funções reguladoras em diversas comissões  fiscalizadora na Assembleia. Nesse episódio, o deputado declarou que emancipação havia sido um erro porque não atendia os interesses da população, mas somente interesses econômicos privados. Mesmo tendo ingressado na ARENA, partido de apoio à ditadura, Murilo de Souza Reis entrou para a lista dos deputados que tiveram seus mandatos cassados pelo regime militar. Ele acusou Nicolau Pall de ter obtido o cargo de interventor através de “injunções políticas”. Paal foi apontado também como o principal articulador da cassação do vereador Oswaldo Toschi, representante histórico de Praia Grande na câmara de São Vicente, assumidamente emancipacionista, porém considerado o principal empecilho ao interesses de Andraus e Paal na futura cidade. Murilo de Souza Reis faleceu em 25 de maio de 2005 e seu corpo, velado no hall da ALESP, foi sepultado em São Paulo, no cemitério do Araçá.

 O ano de 1968 foi marcado pela primeira disputa entre os grupos e partidos que pretendiam governar a cidade após a emancipação. A estrutura bipartidária deixava a disputa mais acirrada, como foi fartamente noticiada pela imprensa regional da época. Na legenda da Arena (Aliança Renovadora Nacional) o destaque foi a chapa Dorivaldo Loria Junior e Leopoldo Vanderlinde. Na legenda do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) houve uma intensa disputa interna entre o interventor federal Nicolau Paal, disputando com Elísio Zácaro e Nelio Andreotti (representando a Associação Comercial) e com Circe Sanchez Toschi. Paal representava  o núcleo político da Cidade Ocian, que já havia governado o novo município no período da primeira intervenção, com grande influência do empresário Roberto Andraus; Circe representava o núcleo do Boqueirão-Guilhermina-Jardim Mathilde, grupo mais tradicional formado pelos mais antigos emancipacionistas e empresários da cidade. O MDB  teve mais mais dois candidatos: Izael Barreto e Tude Bastos. Para chegar nessa composição de chapas houveram muitas articulações estruturantes e manobras para desconstruir planos e remover obstáculos. O vereador Oswaldo Toschi, por exemplo, foi cassado juntamente com o prefeito de São Vicente, embora não houvesse contra ele nenhuma prova sobre as acusações alegadas para a perda do mandato. Toschi, pelo seu histórico de votos como vereador representando o então bairro na Câmara de São Vicente, certamente era o candidato mais natural para ocupar o cargo de primeiro prefeito de Praia Grande emancipada. Torna-se então nesse momento o mais forte obstáculo para um grupo que planejava dirigir a cidade longe do núcleo tradicional do Boqueirão-Guilhermina. A candidatura de Circe Sanchez Toschi, preenchendo o vazio deixado pela cassação do marido, foi uma resposta imediata  à negação do Tribunal Eleitoral, proibindo a candidatura dos líderes que haviam sido cassados e que recorreram dessa decisão. Circe revelaria anos depois que a cassação de Oswaldo Toschi foi uma manobra comandada pelo interventor Nicolau Paal, que percebeu que não teria chance como candidato se Oswaldo Toschi disputasse a eleição. Ela relata em seu livro de memórias que o interventor e candidato tinha inimizade antiga e gratuita por Heitor Sanchez, seu pai,  antipatia e temor transferidos para genro Oswaldo. A manobra política  também envolvia interesses de empreiteiros que haviam se sentido prejudicados numa licitação de obras públicas em Praia Grande, incluindo a construção o Ginásio Estadual, comando por Toschi e antigos comerciantes e moradores do Boqueirão, Forte e Guilhermina. O regime ditatorial em curso facilitou a manobra acusatória contra Toschi, a qual foi considerada abusiva e posteriormente anulada e reparada pela justiça federal. A manobra de Paal era um risco de ruptura da unidade territorial do novo município e também provocou entre os adversários de outras chapas uma contra-manobra localista para afastá-lo da disputa. Uma das estratégias foi o convite feito a Circe Sanchez Toschi a candidatar-se pelo MDB, preenchendo o vazio deixado pela cassação do seu marido, neutralizando também a pretensão política de Nicolau Paal. Os vencedores do primeiro pleito eleitoral de Praia Grande foi a chapa Dorivaldo Loria Junior e Leopoldo Vanderlinde. Ambos não pertenciam ao núcleo antigo e tradicional da cidade, porém, após a eleição, passaram a entoar um discurso unificador e prática agregadora junto aos antigos adversários.  Na eleição seguinte (1972), Leopoldo Vanderlinde foi eleito prefeito tendo como vice  Aldo Bastiani.  Dorivaldo Loria Junior voltou a governar a cidade em mais duas eleições: em 1977 e 1989. 


Inauguração da Avenida Castelo Branco em 1967. Jornal Cidade de Santos. Acervo Digital BN


VOTO EM BRANCO VENCEU A PRIMEIRA ELEIÇÃO

Acima o resultado das eleições de 1968 em nota parcial do jornal Cidade de Santos na edição de 17 de novembro de 1968. A nota completa também incluía em minúsculos parágrafos os resultados em Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe, indicando que  a ARENA, partido do regime militar, venceu nessa região exceto em Santos, onde venceu a oposição com a vitória do deputado Esmeraldo Tarquínio e Oswaldo Justo, chapa do MDB. A chapa santista vencedora não tomou posse devido à cassação de Esmeraldo. Em solidariedade ao parceiro,  o vice Oswaldo Justo renunciou. Santos passou a ter um interventor militar com a alegação de ser área de segurança nacional, doutrina marcante desse período.

Sobre essas tramas, Circe Sanchez Toschi lembrou como elas funcionaram também em Praia Grande:

“Na época da 1ª eleição do município, o deputado Hilário Torloni, ajudando na eleição do primeiro prefeito, o candidato da ARENA, em um dia de semana, reuniu operários do DER e, ameaçando-os, deixou claro que queria todos os votos do acampamento do DER para o candidato da ARENA (partido do governo), caso contrário, poderia haver punições. Hilário Torloni tinha um pequeno apartamento de fim de semana, pelos lados da Cidade Ocian e nem sequer era eleitor de Praia Grande. Coisas e coisas de política opressora e não limpa... “ (Praia Grande Antes da Emancipação).

Mesmo antes da emancipação, já existia um território eleitoral definido em Praia Grande, disputado por representantes locais   na câmara de São Vicente, como Oswaldo Toschi e Tude Bastos; e os deputados da região e também os paulistanos, interessados nos votos dos veranistas. 

Na primeira eleição desse novo período a diferença entre a ARENA (1610) e o MDB (1205) foi de apenas 405 votos. O número de votos em branco (1049) foi considerado alto e os nulos (107) não muito significante. Nessa época o eleitorado carente, em maior quantidade, estava concentrado no Sítio do Campo, que era considerada a periferia da cidade. 

A legislação eleitoral vigente em 1968 considerava o voto nulo inválido. Já o voto em branco tinha outra interpretação e aplicação. Era considerado válido e servia como fator regulador nas eleições proporcionais, sendo transferido para os vencedores. Os críticos afirmavam  que era um voto conformista, cujo comparecimento à urnas não significava protesto e sim uma uma procuração dada aos candidatos majoritários. 

Em Praia Grande, apesar do entusiasmo do plebiscito realizado quatro anos antes e da grande mobilização emancipadora, a grande maioria dos eleitores silenciaram suas preferências e suas escolhas. Numericamente, o voto em branco venceu no primeiro pleito.


PREFEITOS ELEITOS POR VOTO DIRETO


01.Dorivaldo Loria Júnior; vice: Leopoldo Estásio Vanderlinde:01/01/1969-31/12/1972

02.Leopoldo Estásio Vanderlinde; vice: Aldo Bastiani: 01/01/1973-31/12/1976

03.Dorivaldo Loria Júnior; vice: Edmilson das Neves: 01/01/1977-31/12/1982

04.Wilson Guedes; vice: José Olímpio da Silva: 01/01/1983-31/12/1988

05.Dorivaldo Loria Júnior; vice: Alberto Pereira Mourão :01/01/1989-31/12/1992

06. Alberto Pereira Mourão; vice: Ricardo Akinobu Yamauti:01/01/1993-31/12/1996

07.Ricardo Akinobu Yamauti; vice: Domingos Augusto Nini de Oliveira: 01/01/1997-31/12/2000

08.Alberto Pereira Mourão; vice: Alexandre Evaristo Cunha: 01/01/2001-31/12/2004

09.Alberto Pereira Mourão; vice: Alexandre Evaristo Cunha: 01/01/2005-31/12/2008

10.Roberto Francisco dos Santos; vice: Arnaldo Amaral; 01/01/2009-31/12/2012

11.Alberto Pereira Mourão; vice: Maura Lígia Costa Russo: 01/01/2013-31/12/2016

12.Alberto Pereira Mourão;vice: Maura Lígia Costa Russo: 01/01/2017- 31/12/2020

13. Rachel Auxiliadora Chini; vice: Edinaldo Santos Passos (Reco). 01/01/2022



DO MOVIMENTO DE EMANCIPAÇÃO À AUTONOMIA
A PRIMEIRA LEGISLATURA



De 1º de janeiro de 1969 a 31 de janeiro de 1972:

Presidida pelo vereador mais votado, Cesário Reis Lima, a primeira sessão solene legislativa da primeira legislatura foi realizada no dia 1º de janeiro de 1969.

Vereadores eleitos em 15 de novembro de 1968: Cesário Reis Lima (MDB - 240 votos); Oswaldo Luiz Sanchez Toschi (MDB - 204 votos); Pablo Trevisan Perutich (Arena - 138 votos); Osvaldo Antonio Aranha (MDB - 88 votos); Arnaldo Perticarati (Arena - 121 votos); Osmar Martinatti (Arena - 166 votos); Aristeu Luz (ARENA - 152 votos); Luiz dos Santos Reis (MDB - 92 votos); Waldemar Murano (Arena - 164 votos)

Suplentes que assumiram: Elízio Záccaro (MDB - 76 votos); Antonio Figuerôa (Arena - 113 votos); Alberto Ferraro (MDB - 64 votos); Luiz Leite (MDB - 80 votos); Paulo Antonio Milani (Arena).

Estavam aptos a votar 3.865 eleitores e foram apurados 2.815 votos válidos, 127 brancos, 219 nulos e 18% de abstenção. Fonte Câmara Municipal de Praia Grande.


Solenidade na Câmara no início dos anos 1970 com a presença do prefeito Leopoldo Estásio Vanderlinde. 



LEGISLATURAS E PARLAMENTARES DE 1969 A 2024


13ª (2021-2024)- 25 PARLAMENTARES: Artur Pedro da Silva Junior (REP) 807 votos; Augusto dos Santos Neto(PSD); Carlos Eduardo Barbosa(PTB);Emerson Camargo dos Santos(PSL);Francisco de Araujo Lima Junior(PSD); Hugulino Alves Ribeiro(PSDB); João Alves Correa Neto (PSDB); José Carlos dos Santos(SOLID); Marcelino Santos Gomes(PSDB);Márcio Castilho(PTB); Márcio Glauber Vicente de Oliveira(PSDB), Marco Antônio de Sousa(PSDB); Marcos Rogério Camara(MDB); Michele Correia Quintas dos Santos(REP); Natanael Vieira de Oliveira (PSDB); Paulo Cesar Monteiro Silveira (REP); Renata Zabeu Luz(DEM); Roberto Andrade e Silva (PSDB); Rodrigo Penasso da Silva (PSDB); Rodrigo Rosário dos Santos (PP); Rômulo Brasil Rebouças(POD); Sérgio Luiz Schiano de Souza(PSDB); Thiago Rodrigues(PTB); Vera Lúcia Figueiredo Benicio (PSDB); Whelliton Augusto Silva (PL).


12ª (2017-2020)- 21 PARLAMENTARES: Alexandre Corrêa Comin(POD);Carlos Eduardo Barbosa(PTB);Dimas Antônio Gonçalves(PSDB);Ednaldo dos Santos Passos(PSDB);Eduardo Pádua Soares Jardim(PSDB);Eduardo Rodrigues Xavier(PSDB);Hugulino Alves Ribeiro(PSDB);Isaias Moisés dos Santos(PSDB);Janaina Ballaris(PL);João Alves Corrêa Neto(PSDB);José Carlos dos Santos(PSB);Leandro Avelino Rodrigues Cruz(PSDB);Marcelino Santos Gomes (PSDB);Marcelo Alves de Andrade (PT);Marco Antônio de Sousa(PSDB);Natanael Vieira de Oliveira(PSDB);Paulo Emílio de Oliveira;(PRB);Roberto Andrade e Silva(PSDB);Rômulo Brasil Rebouças (POD); Sérgio Luiz Schiano de Souza (PSDB);Tatiana Toschi Mendes (PSDB)



1994 - Inauguração da Galeria dos Ex-Presidentes da Câmara Municipal da cidade. Na imagem,  Cezário Reis Lima, Valter Salerno, Alberto Mourão e Jaspe Bastos de Oliveira. Acervo de Fernando Feijó.

 

11ª (2013-2016)- 25 PARLAMENTARES: Antônio Carlos Rezende(PSDB); Antonio Eduardo Serrano(Sem filiação);Benedito Ronaldo Cesar(PMDB);Carlos Eduardo Barbosa(PTB);Carlos Eduardo Gonçalves Karan(PDT); Ednaldo dos Santos Passos(SD);Eduardo Pádua Soares Jardim(MDB);Euvaldo Reis dos Santos Menezes(PTN);Francisco Rodrigues Bonito Neto(PPS);Hugulino Alves Ribeiro(PMDB);Janaina Ballaris(PT); João Alves Correa Neto(PSC);João Batista Braga de Agrela (PHS) Suplente; José Neves de Assunção Junior(PHS);José Valter de Oliveira (PTB);Katsu Yonamine(PSDB);Marcelino Santos Gomes(PMDB); Marcelo Alves de Andrade(PT);Marco Antonio de Sousa(PMN); Orrara Firmino dos Santos(PHS) Suplente;Roberto Andrade e Silva(PMDB);Rômulo Brasil Rebouças(PSD); Sérgio Luiz Schiano de Souza(PSDB); Tatiana Toschi Mendes(PMDB);Vera Lúcia Figueiredo Benício (PDT) Suplente.


10ª (2007-2012)- 14 PARLAMENTARES: Antônio Carlos Rezende (PSDB); Antônio Cavalcante da Silva(PDS); Antônio Eduardo Serrano(PSB); Ednaldo dos Santos Passos(PDT); Esmeraldo Vicente dos Santos(PMDB); Euvaldo Reis dos Santos Menezes(PTN); Francisco Rodrigues Bonito Neto(PPS); Heitor Orlando Sanches Toschi(sem filiação); Hugulino Alves Ribeiro(PSB); Katsu Yonamine(PSDB);Leandro Avelino Rodrigues Cruz(sem filiação); Marco Antonio de Sousa(Não possui filiação); Paulo Emílio de Oliveira(PST); Sérgio Luiz Schiano de Souza(sem filiação).


9ª- (2005-2008)- 16 PARLAMENTARES: Ademir Noelson Cordeiro(sem filiação);André Takeshi Yamauti(sem filiação); Antônio Carlos Rezende(PSDB); Antônio Cavalcante da Silva(PDS); Arnaldo Alberto Amaral (PSB); Artur Pedro da Silva Junior(sem filiação); Cássio de Castro Navarro(PSDB); Dorivaldo Loria Junior(PTB); Edson Milan(PFL); Francisco Rodrigues Bonito Neto (PPS); Heitor Orlando Sanches Toschi(PSDB); Katsu Yonamine(PSDB); Márcio Rodrigues de Carvalho Barros(PT); Marco Antonio de Sousa(se filiação); Renaldo Correia Santos(PPS); Rosana Perchiavalli Albuquerque Esteves (PP).


8ª – (2001-2004)- 20 PARLAMENTARES: Alina Trindade Maximiano Soares(sem filiação);Antônio Carlos Rezende(PSDB);Antônio Eduardo Serrano(PSB); Arnaldo Alberto Amaral(PSB); Cássio de Castro Navarro(PSDB); Edson Milan(PFL);Edson Reinaldo Neno Manzon(PPS);Ermano Benedito de Castro(PL);Esdras de Oliveira e Silva(PSB);Felipe Avelino Moraes(PMDB);Francisco Rodrigues Bonito Neto(PPS);Heitor Orlando Sanches Toschi(PSDB);Helder Ribeiro de Albuquerque Esteves(PMDB) ;João Gonçalves(PSDB);Jorge Dantas Vasconcelos(PMDB); Katsu Yonamine(PSDB);Layde Rodrigues Reis Loria(PTB);Paulo Emílio de Oliveira(PST); Renaldo Correia Santos(PPS), Sidiney Silva Pires(PFL).


7ª – (1997-2000)- 19 PARLAMENTARES:Alexandre Evaristo Cunha(PMDB);Antônio Carlos Rezende(PST); Antônio Cavalcante da Silva (PDS);Antônio Eduardo Serrano(PSB);Edgar Garcia(PTB); Edson Reinaldo Neno Manzon(PFL);Esdras de Oliveira e Silva (PSB);Francisco Rodrigues Bonito Neto(PMDB); Heitor Orlando Sanches Toschi (PV);Helder Ribeiro de Albuquerque Esteves(PMDB);João Gonçalves(PMDB);Jorge Dantas Vasconcelos(PMDB);Luiz Alberto de Souza Borges(PSD);Morched Noureddine El Khatib(PTB);Nelson Ribeiro(PFL);Paulo Emílio de Oliveira(PST);Pedro Manoel Valentim(PSB);Renato Antonio Bolsonaro(PMDB);Sebastião Tavares de Oliveira(PSDB).


6ª-(1993-1996)- 20 PARLAMENTARES: Alexandre Evaristo Cunha(PMDB);Antônio Carlos Gouveia Souza(PMDB); Antônio Cavalcante da Silva (PDS);Antônio Eduardo Serrano (PSB); Cezário Reis Lima(PMDB);Djalma Cassiano(PSD);Edgar Garcia(PTB); Edson Milan (PL); Edson Reinaldo Neno Manzon (PDT);Felipe Avelino Moraes(PMDB); Francisco Gomes da Silva(PDS);Francisco Rodrigues Bonito Neto(PDS); Heitor Orlando Sanches Toschi(PFL);Helder Ribeiro de Albuquerque Esteves (PFL);Jamil Issa Filho(PL);João Gonçalves (PMDB); João Pires da Silva(PSDB);Luiz Alberto de Souza Borges(PSD);Nelson Ribeiro(PFL); Sebastião Tavares de Oliveira(PSDB).


5ª (1989-1992)- 19 PARLAMENTARES:Antônio Cavalcante da Silva (PDS);Antônio Mendes Pereira Neto (PL);Edson Milan (PL);Edson Reinaldo Neno Manzon (sem filiação);Francisco Gomes da Silva(PDS); Francisco Rodrigues Bonito Neto(PDS);Gilberto Ceccon (PSDB);Heitor Orlando Sanches Toschi (PFL);Jamil Issa Filho(PL);João Gonçalves(PDS);João Pires da Silva(PSDB);José Bento Toledo Piza(PDS);Luiz Alberto de Souza Borges(PL);Manoel Ruiz Porcel(PTB);Sebastião Tavares de Oliveira(PFL);Valter Magalhães Pereira(sem filiação); Valter Salerno(PDS);Vital Muniz Filho(PMDB).


4ª -(1983-1988) – 14 PARLAMENTARES:Alberto Pereira Mourão(PMDB); Ezio Dall'Áqua Júnior(PDS);Fausto dos Santos Amaral(PDS);Gonçalo Batista Menezes(PMDB);Isaac do Amaral Maciel (PMDB);Isaura Campos(PDS); Julio Couto (PTB); Max Dadá Gallizzi(PDS); Miguel Abdalla(PMDB);Nelson Messiano(PMDB);Osmar Martinatti(PDS);Pedro Chaves da Silva(PMDB);Sebastião Tavares de Oliveira(PFL);Vital Muniz(PMDB).


3ª- (1977-1883)- 11 PARLAMENTARES: Cezário Reis Lima(MDB);Ezio Dall'Áqua Júnior(PDS);Fausto dos Santos Amaral(PDS);Florivaldo Borges de Queiroz(ARENA);Gregório França de Siqueira(ARENA);Isaura Campos(PDS);José Gama(ARENA);José Martins da Silva(ARENA);Nelson Messiano(PMDB); Osmar Martinatti (PDS);Vital Muniz (PMDB).


Cena cotidiana da atividade parlamentar nos anos 1980:  A vereadora e enfermeira Isaura Campos, confere a febre do colega Alberto Mourão durante um mal estar seu na legislatura de ambos (Câmara Municipal no período 1983-1988). Acervo de Edgar Dall'Acqua.

 

2ª – (1973-1976)- 11 parlamentares: Alberto  Ferraro (MDB);Antônio Figuerôa(ARENA);Elízio Záccaro(MDB); Gilberto Santana dos Santos(ARENA; Gregório França de Siqueira (ARENA);Jaspe Bastos de Oliveira (ARENA);Jenner de Andrade e Silva (ARENA);José Carlos Gatto (ARENA);José Martins da Silva (ARENA);Layde Rodrigues Reis(ARENA);Teodósio de Augustinis(ARENA);


1ª –(1969-1972) – 4 PARLAMENTARES: Alberto Ferraro (MDB); Antônio Figuerôa(ARENA);Elízio Záccaro(MDB); Luiz Leite(MDB).

1. Waldemar Murano

2. Oswaldo Antônio Aranha

3. Luiz dos Santos Reis

4. Pablo Trevisan Perutich

5. Osmar Martinatti

6. Dorivaldo Loria Junior (Prefeito eleito)

7. Paulo Sandoval (Interventor)

8. Leopoldo Estásio Vanderlinde (Vice-prefeito)

9. Cesário Reis Lima

10. Arnaldo Perticarati

11. Oswaldo Luiz Sanchez Toschi



 Os vereadores Teodósio Augustinis, idealizador do CAMPPG;  e Júlio Couto, conhecido radialista paulistano radicado na cidade. Sessões da Câmara nos anos 1970. Acervo de Edgar Dall'Acqua.


MESAS DIRETORAS DO LEGISLATIVO

As 12 Mesas Diretoras  da Câmara Municipal da Estância Balneária de Praia Grande com mandatos concluídos até 2020. Na primeira linha horizontal, os presidentes, seguidos nas linhas verticais pelos vice-presidentes, 1º e 2º secretários:


1ª- 1969-1972: Oswaldo Antônio Aranha (MDB); Osmar Martinatti (ARENA), Antônio Figueirôa (ARENA); Paulo Trevisan Perutchi (ARENA).

2ª - 1973-1976: Jaspe Bastos de Oliveira (ARENA). José Carlos Gatto(ARENA); Layde Rodrigues Reis (ARENA): Gilberto Santana do Santos (ARENA).

3ª - 1977-1983: Fausto do Santos Amaral (PDS); Gregório França Siqueira  (ARENA); José Martins da Silva (ARENA).

4ª -1983-1988: Alberto Pereira Mourão (PMDB); Sebastião Tavares de Oliveira (PTB); Júlio Couto (PFL); Max Dadá Galizzi (PDS).

5ª - 1989-1992: Valter Salerno (PDS); Sebastião Tavares de Oliveira (PTB); Valter Magalhães Pereira (sem partido);  Gilberto CEccon (PSDB).

6ª - 1993-1996:Edson Milan (PL); Cezário Reis Lima(PMDB); Luiz Alberto de Souza Borges (PSD); Francisco Gomes da Silva - Tatico (PDS).

7ª - 1997-2.000: Edson Reinaldo Manzon (PFL); Antônio Cavalcante da Silva (PDS);  Nelson  Ribeiro (PFL);  Luiz Alberto de Souza Borges (PSD).


8ª - 2001-2004: Edson Milan (PFL); Sidinei Silva Pires (PFL); Jorge Dantas Vasconcelos (PMDB); Reinaldo Correia Santos (PPS).

9ª - 2005-2008: Arnaldo Alberto Amaral (PSB); Heitor Orlando Sanchez Toschi (PSDB); Reinaldo Correia Santos (PPS); Francisco Rodrigues Bonito Neto (PPS).

10ª - 2009-2012: Antônio Carlos Rezende ( PSDB); Esmeraldo Vicente dos Santos (PMDB); Hugulino Alves Ribeiro (PSB); Francisco Rodrigues Bonito Neto (PPS).

11ª- 20133-2016: Roberto Andrade e Silva (PMDB); Marco Antônio Souza (PNM); Ednaldo Santos Passos-Reco (SD); Carlos Eduardo Barbosa (PTB).

12ª - 2017-2020: Ednaldo Santos Passos -Reco (PSDB); Janaina Ballaris ( PL); Marco Antônio Souza (PSDB); Carlos Eduardo Barbosa (PTB). 


*

O CIVISMO E OS SÍMBOLOS MUNICIPAIS



A Bandeira Municipal segue a medida oficial, tendo no campo três faixas em preto, branco e vermelho, ficando no centro da faixa central a reprodução do Brasão de Armas nas suas cores e metais


"Essa bandeira foi hasteada pela primeira vez no paço municipal de Praia Grande em 19 de novembro de 1973. Eu estava lá. 

O antigo Colégio Estadual de Praia Grande (Hoje Reynaldo Kuntz Busch) foi convidado para a cerimonia de entronização do pavilhão praiagrandense e os alunos perfilaram defronte o paço e ali o fato foi comemorado com um pequeno desfile alusivo ao "Dia da Bandeira". A seguir foi feito o hasteamento do pavilhão nacional, paulista e de Praia Grande (este último pela primeira vez) pelo Prefeito a época Sr. Leopoldo Estasio Vanderlinde (saudoso prefeito falecido). 

O que foi uma pena é que quase ninguém em Praia Grande assistiu ao programa "Clube dos Artistas" da saudosa Rede Tupi de Televisão (onde a Bandeira foi apresentada ao país em rede nacional), uma vez que naquela época somente a Globo era captada com perfeição em Praia Grande. As imagens da Tupi so eram captadas em algumas residencias que tinham como direcionar suas antenas para o município de São Paulo e com muito custo conseguiam receber com falhas (imperfeitas) as imagens da Tupi. O Carlos Lobão aparece nas imagens do programa pois na época ele era ator de novelas da Rede Tupi de Televisão. Ele que faleceu recentemente e é pai do comerciante do ramo ótico e ex-secretário de Cultura e Turismo de Praia Grande Carlos Ananias Lobão". Silvio Luis dos Anjos.


16 de novembro de 1973. A bandeira oficial de Praia Grande é apresentada pela primeira vez ao público em rede nacional pela  TV Tupi. Na imagem o prefeito Leopoldo Vanderlinde explica os símbolos à apresentadora Lolita Rodrigues. Na foto o deputado Alex Freua Netto, de terno escuro; e à esquerda, de terno branco, Carlos Lobão. 



HINO DE PRAIA GRADE

COMPOSIÇÃO: OSCAR GOMES CARDIM*


"Praia Grande, Praia Grande

Beleza e glórias mil

Espelho do mundo inteiro

E grandeza do meu Brasil

Praia Grande, Praia Grande

Orgulho de uma Nação

O seu lema é trabalhar

Com a força da união

Praia Grande, Praia Grande

Coberta com um céu de anil

Colar de estrelas brilhando

No coração do Brasil

Praia Grande, Praia Grande

Beleza e glórias mil

Espelho do mundo inteiro

E grandeza do meu Brasil" (Bis)

E grandeza do meu Brasil

Praia Grande...


Original e historicamente a expressão "Marenostrum" remonta à antiguidade clássica, sendo uma conhecida alocução latina que identificava a expansão militar e conquista territorial do Mar Mediterrâneo, então centro da civilização ocidental, antes dominado pelos fenícios, cretenses, gregos, cartagineses e finalmente os romanos. A doutrina do Marenostrum imposta durante o período republicano séculos mais tarde foi ampliada durante o governo imperial de Augusto sob a denominação doutrinário de "Paz Romana".  Ambas atravessaram dois milênios como símbolos de superioridade e conquista, fartamente repetidas em documentos diplomáticos, discursos cerimoniais e também, nesse contexto da emancipação e criação do munícipio de Praia Grande, como narrativa heráldica. 


Lena Torres, secretaria executiva do gabinete do prefeito, testemunhou essa criação e oficialização dos símbolos da nova cidade: 

"Quando da criação do brasão e da bandeira de Praia Grande, foi determinado o texto MARE

NOSTRUM e o dia de São Pedro como homenagem aos pescadores. Participei e fiz elaboração da Ata da reunião".


O Brasão de Armas de Praia Grande possui as seguintes características: brasão em formato redondo português, cortado e partido. No primeiro campo, de prata, as armas de Martim Afonso de Souza; no segundo do mesmo metal, uma Cruz de Cristo; no terceiro de blao (azul), no alto do campo um morro de prata e, em baixo no fundo do Brasão, faixas de prata. Como suporte: à direita um ramo de louros e à esquerda um ramo de carvalho, ambos na sua cor natural. Por timbre uma coroa mural, tendo sobre a porta principal, um escudete de blao (azul), com duas chaves cruzadas, postas en santor. Num listel de goles (vermelho) a legenda latina "Mare Nostrum".


O AUTOR DO HINO


OSCAR GOMES CARDIM. Aparece nessa foto familiar à esquerda, segurando um sobretudo.  Compositor. Radialista. Filho de um professor e uma jovem de tradicional família paulista. Começou a interessar-se pela música ainda criança quando ficava ouvindo seu avô, o maestro João Pedro Gomes Cardim tocar piano. A partir dos sete anos de idade passou a frequentar a escola Caetano de Campos onde fez os cursos primário e complementar. Aos 14 anos, ingressou na Escola Normal e também no Conservatório Dramático e Musical, começando a estudar violino e logo trocando pelo aprendizado de piano. Em 1934, interessado em seguir a carreira artística na música popular, mudou-se para o Rio de Janeiro, já quer a família preferia que seguisse a música clássica. Em 1936, casou-se com a também compositora Lela Cardim. No Rio de Janeiro atuou como radialista tornando-se amigo de inúmeros artistas. Retornando à São Paulo, foi nomeado pelo governador Adhemar de Barros como fiscal musical. Sócio da SBACEM, exerceu cargo no conselho deliberativo. Iniciou a carreira artística ainda em 1934, quando mal acabara de chegar ao Rio de Janeiro. Foi fazer uma visita à Rádio Cajuti, na Rua 13 de Maio, centro do Rio de Janeiro, na ocasião em que estava sendo apresentado o programa de calouros dirigido pelo radialista Paulo Bevilaqua. Atuou ainda em outras Rádios como a Ipanema e Transmissora Brasileira, posteriormente Rádio Globo, na qual permaneceu por nove anos. Como compositor passou a ter músicas gravadas a partir da década de 1940.

Em 1958, ingressou na TV Paulista, posteriormente TV Globo, na qual permaneceu por seis anos como Diretor Musical, produtor e diretor de programas. Mudou-se depois para a cidade de Santos, São Paulo, onde assumiu a direção da Rádio Clube de Santos na qual durante seis anos produziu e dirigiu programas.


Oscar Gomes Cardin sendo homenageado pelo prefeito Leopoldo Vanderlinde.


*


A CONSTRUÇÃO   ADMINISTRATIVA:
DO PAÇO  PROVISÓRIO NA OCIAN AO DEFINITIVO NA MIRIM



Confraternização dos primeiros funcionários da Prefeitura da cidade em 1967 no Ocian Praia Clube, onde estava instalada provisoriamente a primeira sede do executivo. Acervo: Lena Torres.


A fase de implantação administrativa de Praia Grande certamente aconteceu num misto de planejamento emergencial e medidas de improviso, diante da sucessão de situações previstas e imprevistas. 

O primeiro cenário desses acontecimentos foi o Ocian Praia Club, que emprestou parte das suas instalações para que o processo administrativo fosse iniciado.  A presença sucessiva de dois interventores, primeiramente um federal e depois um estadual, gerou diversos impasses sobre as medidas administrativas prioritárias e também na escolha de contratações. 

Outro aspecto que influenciou essas decisões e escolhas de pessoal foi a dúvida sobre qual seria melhor lugar para que o Paço Municipal fosse instalado, visto que havia uma disputa - ainda que velada- entre os bairros, as lideranças sobre diretrizes politicas da nova cidade. Tanto os interventores como os primeiros prefeitos e vereadores eleitos tinham um grave desafio nesse aspecto: impor seus interesses representativos, suas prioridades e ao mesmo tempo defender a unidade político-territorial, impedindo que já no início houvesse uma ruptura e fragmentação. 

O primeiro Paço Municipal começou a funcionar na Ocian, depois foi deslocado para  Boqueirão e depois definitivamente instalado na Vila Mirim. Essas mudanças não foram apenas por questões e meras circunstâncias administrativas. Teve um peso geopolítico também.  

Além dos assessores e cargos de confiança, uma estratégia pública e notória foi a contratação de funcionários - em caráter emergencial - e também  a colaboração de funcionários de outras prefeituras para organizar os departamentos e treinar os novos servidores nos cargos elementares para  o funcionamento da "máquina".  A busca desses servidores teve como critério as indicações pessoais, as de natureza político-partidária e algumas que inevitavelmente foi de natureza técnica, que exigia especialidade e sigilo funcional. 

Israel Grimaldi  Milani, emancipacionista histórico,  foi um dos articuladores, senão o principal, dessa montagem da primeira equipe de servidores municipais, em sua maioria composta por antigos moradores veranistas de origem  paulistana, com perfil cultural politizado e com formação técnica adequada para ocupar os cargos incialmente disponibilizados. Milani foi o servidor com ficha funcional número 01 da Prefeitura de Praia Grande. 

Marilene Murray Torres, conhecida como Lena Torres, foi um exemplo dos vários tipos de contratação funcional para viabilizar a gestão e o atendimento ao público naquele contexto de estruturação administrativa.



NOS TRÊS PAÇOS MUNICIPAIS 

MARILENE MURRAY TORRES (LENA)



Lena Torres em foto de 2021. Na imagem anterior, da confraternização de funcionários, é a primeira no canto canto direito.

"Cheguei em Praia Grande em fevereiro de 1967. Sou paulistana do bairro do Butantã. Vim como secretária de Gabinete do Interventor Nicolau Paal.

A Prefeitura foi instalada em sede provisória no Ocian Praia Clube, bairro Cidade Ocian, em janeiro de 1967.

19 de janeiro é o aniversário da cidade.

Nas dependências do Clube, as instalações estavam com organização estruturada com os setores de trabalho determinados. Com funcionários contratados, a Prefeitura teve a colaboração de pessoal de outros municípios para atendimento no Gabinete, Setor de Obras, Setor Financeiro e demais departamentos.

O registro de funcionários foi com numeração de dois dígitos. Meu registro, foi nº 09 (nove).

Praia Grande, ainda começando como cidade, tinha o privilégio de 22 quilômetros de praia, que já era procurada também por moradores de municípios próximos.

Foi a oportunidade que tive para vir trabalhar em Praia Grande, quando aqui estava de férias. Um grande amigo, Senhor Israel Grimaldi Milani, assessor do Gabinete do Interventor, que encaminhou minha inscrição e posteriormente fui chamada e quem cuidou da minha chegada aqui.

O crescimento de Praia Grande, em questão de turismo, começou a ter grande movimento. Em fevereiro de 1968 o Sr. Nicolau Paal foi deposto do cargo. A Prefeitura ficou dois dias sem administrador.

Nomeado o Dr. Paulo Sandoval, pelo governador do Estado, este providenciou após algum tempo a mudança da sede da Prefeitura para o bairro do Boqueirão, também como provisória, num sobrado de esquina, entre a rua Pernambuco e a Praça 19 de Janeiro.



SEGUNDO PAÇO TRANSITÓRIO



Imagem do segundo Paço Municipal de Praia Grande em 1968. Entre o Ocian Praia Clube e o Palácio São Francisco na praça 19 de Janeiro, houve esse paço nas esquinas da Pernambuco com Paraíba. Na imagem o governador Abreu Sodré. Neste mesmo sobrado funcionou durante muitos anos a Delegacia de Policia.




Lena Torres em pleno exercício de secretária executiva no Gabinete do prefeito. 


Atendi novo Interventor por pouco tempo. Aguardava nova secretária.


O PAÇO MUNICIPAL DO BOQUEIRÃO


Boqueirão no início dos anos 70: centro econômico e administrativo da cidade. 


Em 17 de novembro de 1968, o Sr. Paulo S. Sandoval inaugurou a sede definitiva na Praça 19 de Janeiro, em área espaçosa, onde atualmente está instalada a Faculdade Estadual-FATEC.

Em janeiro de 1969 assumiu a Prefeitura o Sr. Dorivaldo Loria Júnior, prefeito eleito, conhecido como Dozinho.

Praia Grande sempre foi, mesmo antes da emancipação de São Vicente, chamada de “praia dos farofeiros”, de turista de “um dia”. Notava que parentes e amigos falavam “Vou para Santos” e “Vim de Santos", mas sempre vinham para Praia Grande.

Praia Grande “ressurgiu das cinzas” em progresso e população após a administração, por diversas gestões, do Sr. Alberto Mourão, por eficiência e amor pela cidade. Isso servia para que as cidades próximas fizessem atualizações em seus governos e que estavam em sono profundo, em berço esplêndido.

Em 1991, acredito que seja essa data, a Prefeitura mudou para nova sede na Vila Mirim, por ser área central da cidade. Tornou sede definitiva de Praia Grande. Por ocasião dessa mudança eu já estava aposentada. Mantive sempre contato com amigos e colegas de trabalho.


Praia Grande, Canto do Forte, 10 de junho de 2022".


Cópia digitalizada do depoimento escrito de próprio punho por Lena Torres.



Praça 19 de Janeiro, então sede da Prefeitura e Câmara Municipal de Praia Grande nos anos de 1970. Página de Claudio Sterque, 01 de maio de 2021, 



Palácio São Francisco de Assis na praça 19 de Janeiro, Boqueirão, anos de 1980. Abaixo, o totem de pedra com o brasão e placa de inauguração do paço. 



Funcionários do Paço Municipal na década de 1970, incluindo a atual vereadora Vera Benício. Acervo: Militão Guimarães.


O PAÇO MUNICIPAL DA VILA MIRIM 


Concebido como marco geopolítico estratégico, o Paço Municipal da Vila Mirim  foi construído para consolidar a unidade política e territorial de Praia Grande, neutralizando a tendência emancipadora dos bairros mais próximos do litoral sul e também a supremacia dos bairros mais próximos do centro centro nervoso do Boqueirão. 

A medida também abrangia um crescente e influente território geopolítico, formado pelos novos bairros do terceiro setor, que vai do Sítio do Campo (Tude Bastos)  à grande área da "Curva do S" (vizinha continental com São Vicente-lado serra) até o Jardim Solemar-Cidade da Criança, vizinha de Mongaguá. 

O Terceiro Setor foi historicamente separado da orla pela antiga Linha do Telégrafo(atual avenida Presidente Kennedy) e posteriormente por um antigo trecho  da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega (iniciado Boqueirão na antiga e vicentina avenida Tupiniquins) e que foi substituída pela recente e praiagrandense  Via Expressa Sul, também até o anel viário da "Curva do S" e trecho serra da rodovia Padre Manoel da Nóbrega. 

Com algumas exceções,  toda essa região teve como característica a ocupação informal e ilegal, em condições precárias, resultado das migrações históricas para a região sudeste e  das pressões demográficas ocorridas em Santos e São Vicente entre as décadas de 1970 e 1990. Essa marca de crescimento rápido e desordenado do Terceiro Setor, forçou a prefeitura a repensar e redirecionar o orçamento municipal, equilibrando as necessidades da estância balneária, predominante nos setores 1 e 2, com a crescente carência social predominante no setor 3.   

Acima o Jardim Guaramar  e abaixo a Vila Sônia em 1994, ambas no setor 3. Ocupação crescente e carência de urbanização.  



PONTO MÉDIO E ESTRATÉGICO DA VILA MIRIM

O Paço da Mirim ficou instalado, então, localizado externamente num ponto realmente logistico-estratégico do eixo São Paulo-Santos-Curitiba;  e internamente num ponto médio entre os dois extremos da cidade e ao mesmo tempo entre os três setores territoriais urbanos. 

A Vila Mirim, que também foi reservada para receber novos empreendimentos imobiliários, equipamentos de lazer e turismo, bem como novos estabelecimentos de serviços públicos e privados, recebeu esse nome como homenagem  a uma entidade espiritual da Umbanda, culto muito popular na cidade e que sempre atraiu milhares de devotos veranistas.

DADOS OFICIAIS TRANSPARENTES

No final dos anos 1960, Praia Grande contava com um pequeno e precário número de pouco mais de uma dezena de funcionários da subprefeitura de São Vicente. Com a emancipação esse número subiu para pouco para cerca de uma centena e, meio século depois, atingiu a marca de cerca de 12 mil servidores de secretarias e departamentos, curiosa e numericamente liderados pelo setor da educação e ensino fundamental.  

A prefeitura registra hoje no seu Portal Digital de Transparência (acesso em 16 de unho de 2022), a marca de 20 núcleos administrativos - Gabinete do prefeito, Procuradoria e18 Secretarias Executivas - numa escala de zero a sete mil funcionários. 

A Secretaria da Educação, basicamente mantida pelo recurso federal do FUNDEB, lidera o corpo de servidores públicos com 6.839 funcionários, seguida pela Secretaria de Saúde, com 2.099 funcionários; da Secretaria de Serviços Urbanos, com 1.337 funcionários; e da Secretaria de Assistência Social, com 522 funcionários. 

As outras 14 secretarias funcionam com um contingente abaixo de 400 funcionários.  

Educação e Saúde são os dois maiores orçamentos do município, com cerca de 106 milhões de reais. 

A arrecadação em 2022 atingiu o valor de 929 milhões de reais (o previsto foi 1.829 milhões); e a despesa foi 644 milhões (o previsto foi de 1.999 milhões). 

Como suporte de legitimação das políticas públicas, a prefeitura conta com 21 conselhos municipais, concentrados na Casa dos Conselhos, cujo destaque é o Conselho de Acompanhamento e Controle do FUNDEB (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica).  Praticamente, todos os demais conselhos estão ligados  direta ou indiretamente aos sistemas de ensino, de saúde e de assistência social



Início dos anos de 1990 na construção do Paço Municipal na Mirim. Obra planejada e executada pela PRODEPEG. Acervo de Augusto Viana Neto. 

Paço da Vila Mirim já concluído em 1990, com posto bancário do Banespa.


Marco geodésico de Praia Grande instalado no Paço Municipal da Vila Mirim. Registro de Almir Marcelino. 2025.






PLEITOS ELEITORAIS



PRESENÇA FEMININA NA POLÍTICA "Layde Rodrigues Reis Loria. A cidade que elegeu a sua primeira prefeita* em toda a sua história e possui hoje diversas lideranças femininas, não devem esquecer desse fenômeno político que foi a Dra. Layde em Praia Grande. Durante muitos anos chegou a ocupar os serviços sociais do município, foi vereadora e grande articuladora política entre os partidos na cidade. Layde era a esposa do ex- prefeito Dozinho e muitas das decisões e articulações que saiam do Palácio São Francisco, eram de sua responsabilidade. Com um traquejo especial, conseguia a simpatia dos mais humildes e se impor entre os seus oponentes. Foi, sem sombra de dúvidas, a maior personalidade política feminina que a nossa cidade já teve" - Claudio Sterque. A imagem é de Edgard Dall'Acqua. 

*Se referindo à engenheira Raquel Chini, eleita em 2020.


ALGUMAS CHAPAS ELEITORAIS DO EXECUTIVO



Eleições de 1988. Acervo de Edgard D'Allaqua


OS CHEFES DE GABINETE 


Vicente Marcelino Rosa, chefe de gabinete do prefeito Leopoldo Vanderlinde. Acervo: Claudio Sterque.


A atividade política tem como motor o exercício da liderança e o contato permanente com forças populares, dialogando, buscando interpretar e responder às necessidades, desejos e expectativas do público, que é a base dos certames eleitorais e dos mandatos conquistados nas eleições. Os candidatos aos cargos eletivos geralmente já possuem essa vivência e também atraem para seu círculo de influência pessoas da sua confiança e que têm esse potencial de agregar simpatizantes e apoiadores. Quando têm sucesso nas campanha eleitorais, geralmente eles são transformados e assessores mais próximos dos candidatos eleitos para dar continuidade aos planos e projetos elaborados e divulgados como plataforma da campanha. São eles que mantém vivas a crença nas promessas e que trabalham que eles se materializam durante os mandatos, administrando as prioridades e protegendo o mandato como estratégias solucionadoras. 

Os chefes de gabinetes são na prática os intermediários entre os governantes e as forças que o apoiaram e também as que se opõem a eles, vigiando e descobrindo novas possiblidades de convívio, alianças e acordos. Isso acontece porque eles têm a liberdade informal e, intimidade pessoal com os mandatários e também com seus opositores. Na ausência do líder maior, os chefes de gabinetes lideram ações para atender todas essas demandas da política e da população. Existem chefes de gabinetes que permanecem com servidores discretos e anônimos; e também outros, de temperamento mais extrovertido, que se destacam e logo são aproveitados e lançados como sucessores dos seus antigos líderes. Mas todos são reconhecidos como figuras essenciais do processo político. Todos eles se desdobram em múltiplas funções e papeis, dependendo do contexto e das necessidades da sua função, quase sempre marcada pela fidelidade e reconhecimento pelos seus serviços. Geralmente são alvos alvos de intrigas e constantes tentativas de envenenamento das suas relações com o chefe do Executivo. Muitas vezes, mesmo sendo competentes e fiéis, os ocupantes desses cargos, assim como todo todos cargos de confiança, precisam ser sacrificados em função de novas alianças e reestruturação dos governos. 

Na lista histórica dos prefeitos eleitos que sucederem os interventores Nicolau Paal e Paulo Sandoval,  aparece imediatamente a figura de Artur Paes Pinto, que  foi chefe de gabinete do 1° prefeito eleito Dorivaldo Loria Júnior. Paes Pinto tinha conhecimento e trânsito nos bairros periféricos, sobretudo no Tude Bastos, onde havia a maior número de eleitores da cidade.

No mandato do prefeito Leopoldo Vanderlinde a chefia de gabinete foi assumida por Vicente Marcelino Rosa. Na foto acima ele aparece no famoso e folclórico "Canhão Leopoldo" , instalado como peça turística no Canto  do Forte. O canhão foi doado e apelidado com o nome do prefeito pelo então comandante da Fortaleza de Itaipu, coronel Estélio Teles Pires Dantas. Figura muito bem humorada e querida em Praia Grande,  o Cel Estélio assumiu durante a sua permanência na cidade  a missão de aproximar a população de servidores da Fortaleza por meio de atividades cívicas e culturais. 


Cidade de Santos, 25 de julho de 1969. A nota política  plantada na imprensa para testar o prestígio do chefe de gabinete Artur Paes Pinto (foto abaixo) , que teve seu nome trocado e com erro de grafia, demonstrando que o informante e o autor do texto não tinham conhecimento da real situação política naquele contexto.

 

Artur Paes Pinto, elo de ligação entre as lideranças dos bairros da orla e os leitores da periferia.

 

A PROCURADORIA DO MUNICÍPIO


Sendo um órgão de Estado, as prefeituras têm na sua instância as mesmas funções e atividades dos demais poderes executivos, estaduais e federais. Por ser uma entidade essencialmente jurídica, o estado precisa de representantes e defensores dos seus interesses para remover obstáculos e criar possibilidades de ação a partir da legislação vigente ou então elaborando tecnicamente leis que facilitem esse processo.

Como município nascente, Praia Grande teve que elaborar e aplicar rapidamente a sua Lei Orgânica, ou a equivalente da época, viabilizando juridicamente, na mesma dinâmica, o seu quadro funcional e suas respectivas secretarias e departamentos. Foi uma fase naturalmente muito instável e cheia de imprevistos, na qual as circunstâncias muitas vezes esbarravam ou colidiam com interesses opostos. As ações advocatícias eram, como ainda são, de grande importância para evitar e resolver conflitos que poderiam causar transtornos e prejuízos ao erário público. Da mesma forma, poderiam trazer recursos e benefícios.

Como todas as secretarias e departamentos, a Procuradoria passou por diversas fases desde à sua implantação, durante e após a autonomia municipal. Cada época teve seus contextos, suas necessidades e exigiu desses profissionais do Direito as devidas habilidades e competências para solucionar e prevenir problemas, na medida que sucediam os mandatos e as legislaturas.

Inicialmente os procuradores eram contratados como prestadores de serviços, função que com o tempo foi transformada em cargo efetivo, cujos ocupantes foral alçados no exercício por concurso público. Consultando a memória de alguns antigos funcionários e moradores da cidade, veio à tona alguns nomes de profissionais que atuaram durante os primeiros anos da organização municipal. Eles prestaram serviços entre 1967 e 1993, quando então a Procuradoria, de forma simultânea aos novos mandatos, passou pelas mesmas mudanças sociais em curso. 

Não se trata de uma lista oficial e sim memorial, podendo ter sido omitidos alguns nomes também históricos. Todos os nomes  dessa lista mais  ampla foram lembrados por João Paes Pinto. 

São eles:

Osmar Bocci; João Plinio Paes de Barros; Jenner de Andrade e Silva; José Campedelli; Denise Reis Buldo; Nicolino Bozella; José Neves de Assunção; Layde Rodrigues Reis Loria; Lucilene Rocha; Paulo Antônio Rossi; Carlos Gonçalves Duarte; Ana Beatriz Guerra Campedelli; Luiz Alberto Vieira Nascente;Luiza Helena Faustino Sampaio; Maria Inêz Nowill Mariano; Waldir Cipriano; Itamar Pereira dos Reis, Maria José Bozzella Rodrigues Alvez. 

Todos contribuíram, de uma forma ou de outra, para que o município fosse devidamente instalado e que todos os seus órgãos pudessem trabalhar amparados pela legalidade, sem que houvesse danos aos recursos da fazenda pública.

Entre 2005,  com a extinção da Secretaria de Assuntos Jurídicos, foi criada a  Progem - Procuradoria Geral do Município, que tem como  cargo principal a figura do Procurador Geral do Município.


A PRODEPG

 AUTARQUIA PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO 
DE PRAIA GRANDE 


Posse da diretoria da PRODEPG em janeiro de 1993. Banco de imagens da PMPG.


Na segunda metade da década de 1960 houve uma proliferação de empresas de economia mista com a intenção de ampliar a capacidade do Estado de explorar e captar recursos para viabilizar as políticas públicas de desenvolvimento.

Um decreto- lei de 1967 (nº 200) ganhou em 1969 (nº900) uma nova redação possibilitando que as empresas mistas tivessem todas as características estruturais da iniciativa privada, incluindo a liberdade de competir no mercado, com garantia de capital público, porém com limitações e ingerência governamental. Havia nesse novo texto a possibilidade de estruturação pelo regime acionário, segundo a lei 6.504, artigo 236, com permissão legislativa prévia. 

Empresas como o Banco do Brasil e a Petrobrás se tornaram modelos desse tipo de organização para fomentar negócios de interesses comuns entre o setor público e o privado, tendo também como marca operacional a contratação por regime de CLT. Permitia-se assim a formação de grandes quadros funcionais sem a necessidade de concursos e com maior liberdade na realização de projetos e licitações. 

Esse modelo também foi adotado em larga escala pelos municípios cujas prefeituras esbarravam nos limites de captação recursos para obras e serviços básicos de saneamento, limpeza, pavimentação e também serviços administrativos cada vez mais complexos e dispendiosos. 

Os modelos regionais de empresas mistas mais conhecidos, além dos citados, eram A COSIPA- Companhia Siderúrgica Paulista; a Companhia Docas do Estado de São Paulo –CODESP e principalmente a PRODESAN, Progresso e Desenvolvimento de Santos, fundada em 1965, cuja estrutura urbanitária era uma importante referência para as prefeituras da Baixada Santista. 

Em Praia Grande, o modelo gestor teve duas fases distintas, cada uma delas voltada para as necessidades mais urgentes em cada época. 

No primeira fase a prioridade  era construir uma infraestrutura que diminuísse de forma imediata a insatisfação dos moradores e veranista: rede água e esgoto, rede elétrica e pavimentação das ruas. Esses eram os problemas mais gritantes e as reivindicações mais acaloradas do munícipes, novos e antigos. Foram esses problemas que  mais motivaram a luta pela emancipação e que, portanto, não poderia frustrar esse coletivo politizado e que havia apoiado a ruptura com São Vicente. O modelo gestor inicial foi implantando em 1975 pelo prefeito Leopoldo Vanderlinde, considerado um elemento-chave para a execução dessa rápida intervenção urbana. Vanderlinde era um técnico pragmático que usou sua experiência de chefe de obras na construção da Cidade Ocian para solucionar esse imbrólio. Sua escolha como candidato e sua eleição nas urnas foi um dos grandes êxitos na história da nova Praia Grande. Essa primeira fase gestora da Prodep cumpriu sua missão e também preparou o terreno para o desenvolvimento em outras etapas. Há até hoje uma placa  no quinto andar do edifício onde estava instala a empresa , para lembrar esse período glorioso, descerrada no dia da inauguração.  Quando inaugurada, a Prodepg ocupava apenas o quinto andar daquele prédio, depois a empresa cresceu e estendeu-se por todo o prédio. Os primeiros diretores da empresa foram Arnaldo Alberto Pires Pardal e Vicente Fernandes. 

Ao contrário da PRODESAN, que existe e funciona até hoje em Santos, a maioria das empresas mistas municipais foram extintas por liquidação. Hoje o prédio da Prodepg está ocupado pela Receita Federal e alguns órgão administrativos da prefeitura.  Pela sua primazia como sede dos primeiros órgão administrativos da cidade emancipada e também pela longa permanência deles ali,  esse edifício localizado na avenida  Presidente Costa e Silva ,794 jamais deixará de ser conhecido como o prédio da Prodepg. A empresa que na época ocupava todo aquele prédio da avenida Costa e Silva não existe mais. Foi assim que surgiu a autarquia municipal PRODEPG, Progresso e Desenvolvimento de Praia Grande, fundada em 1975 em projeto de lei do vereador Alberto Ferraro (PMDB). 

A segunda fase histórica da Prodepg foi organizada nos anos 1990 para apoiar uma nova fase estrutural do município, que foi a expansão urbana, atendendo a crescente demanda populacional que atingia a cidade e cobrava novas medidas modernizadoras.  Uma segunda etapa do Plano Diretor Urbano elaborado em 1972 por Leopoldo Vanderlinde  iria entrar em processo de execução e precisava de dados mais precisos da situação socio-econômica do município, para justificar a dotação orçamentária. A Prodepg dessa fase, com novos estatutos e estrutura jurídica acionária, teve a missão de realizar um amplo censo de levantamento de informações. A empresa, que tinha como perfil inicial principalmente a realização de projetos e obras de engenharia, teve no seu quadro de diretores e técnicos  nomes importantes como os ex-prefeitos Alberto Mourão, que extinguiu a autarquia em 2001; o prefeito Ricardo Yamauti; e a atual prefeita Raquel Chini , engenheira, que exerceu ali o cargo de diretora técnica.


O prefeito Ricardo Yamauti  e o secretário de planejamento Alberto Rodrigues de Oliveira Neto, conferindo a primeira coleta de dados do censo municipal realizado pela Prodepg em 1997. Banco Imagens da PMPG. 

Corpo de funcionário da Prodepg nos anos 1970, incluindo os patrulheiros do CAMP. Acervo: Silvio Luis dos Anjos. 


O funcionário Jaime Tadeu Correia no Cadastro da Prodepg nos anos 1970. Acervo Claudio Sterque.


Edifício da Prodepg ( Progresso e Desenvolvimento de Praia Grande) nos anos 70 no Boqueirão. 



A JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA



O Capitão Antero de Moura, delegado de polícia e sitiante em Praia Grande nos primeiros anos da República Velha. Acervo: Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente. 


Os primeiros registros históricos conhecidos de ações segurança pública em Praia Grande constam do início do período republicano, marcado pelas instabilidade política, inquietações e levantes armados, revelando a disputa de poder entre civis e miliares. Durante a Revolta da Armada, em 1894, durante  o governo do Mal. Floriano Peixoto, foi registrado em Praia Grande  um incidente envolvendo soldados de um batalhão militar em moradores dos sítios do próximo ao antigo Porto do Rey.  

O Batalhão Federal de Franco Atiradores, estacionado no litoral, marchou de São Vicente em direção Vale do Ribeira para conter alguns revoltosos partidários da Armada da Marinha de Guerra, em Xirica (Eldorado). Ao passar por Praia Grande, alguns soldados indisciplinados cometeram abusos e violências, causando temor entre os pacatos sitiantes da região, que correram em busca de refúgio nos sítios Mariana e Queirozes. As agressões foram rapidamente denunciadas ao Inspetor de Quarteirão do bairro, Januário da Silva, que alertou o Delegado de Polícia, Capitão Antero Alves de Moura. Este conteve os abusos atuando junto ao comando do batalhão e tranquilizou a população, enviando o Cabo Antônio e quatro praças da delegacia para acalmar e proteger os sitiantes em seus ranchos. Esse relato foi registrado por Edson Telles de Azevedo, o livros Vultos Vicentinos. 

A inspetoria de quarteirão e a chefatura de polícia eram  estruturas do sistema de segurança pública já  existentes nas grandes cidades brasileiras do século XIX, imitando os modelos da América do Norte e da Europa ocidental.  Tanto a polícia civil como a militar foram instituídas no Brasil como instituições inspiradas nos modelos similares da França, incluindo uniformes e a estrutura hierárquica. 

As patentes militares da antiga Guarda Nacional do Brasil, criadas para conter as rebeliões durante o período regencial,  foram mantidas durante a primeira república e com elas encontramos em nossa região as figuras dos capitães Luiz Horneaux, Antero de Moura e Antão de Moura. O primeiro, filhos de imigrantes franceses radicados  no final do século XVII em São Vicente; e os dois últimos, irmãos portugueses migrados e também radicados em São Vicente no final do século XIX.  Antero de Moura casou-se a professora Isabel Horneaux, filha do Capitão Luiz Horneaux.

Na segunda república, isto é, após o movimento de 1930, que depôs Washington Luiz e impediu a posse de Júlio Prestes, ambos paulistas,  o estado de São Paulo foi reestruturado por secretarias especializadas sendo as polícias separadas em duas instituições: a Força Pública,  fardada e hierarquicamente militarizada, para ações ostensivas, prevenção e repressão;  e a Polícia Civil, instituída como academia científica de investigação, identificação e policiamento  comum e judiciário .  Inicia-se então a instalação sistemática  gradual de estabelecimentos distritais e regionais, por meio de batalhões, distritos, delegacias e postos policiais, atualmente administrados pela secretaria de segurança e pública; e os centros de detenção, progressão, ressocialização e penitenciárias,  pela secretaria de administração penitenciária  

Em Praia Grande, como bairro e distrito de São Vicente, os estabelecimentos eram historicamente  de segunda ordem e só adquiriram status de primeira ordem, civil e militar, após a emancipação do município, em 1967. O mesmo processo ocorreu na evolução do sistema judiciário, com a instalação do fórum, varas judiciais e estabelecimentos de detenção. 

A cidade tem, desde de dezembro de 2004,  centro de detenção, destinando à custódia provisória de presos do sexo masculino, localizado na Vila Mirim, com capacidade para 564 reeducandos, com 7 mil metros de área construída e denominado "ASP Charles Demitre Teixeira".  Conta também  com 45° BPM/I - Batalhão da Polícia Militar, que funcionou durante muitos anos em um imóvel alugado na lona Cidade Ocian e que hoje funciona em sede própria na avenida Ayrton Senna.  

É interessante observar e lembrar que esses cargos e funções são historicamente típicos dos sistemas políticos autoritários e remontam o período de reação conservadora durante a Revolução Francesa. Foram instituídos a partir do Código Civil redigido por Napoleão Bonaparte, modelo para a grande maioria das nações liberais europeias e sul-americanas de influência cultural ibérica, também inspiradas na organização social greco-romana. No Brasil, o código influenciou a criação do Estado Nacional em 1824  e por meio do Ato Adicional de 1831, durante as rebeliões regenciais. Repetiu-se essa tendência na proclamação e organização da república e nos períodos de instabilidade política que ameaçavam os interesses patrimoniais e financeiros dos grupos dominantes: no Estado Novo (1937-1945) e na ditadura militar(1964-1985). Em São Paulo, em 1975, o governador Paulo Egídio Martins, nomeado pelo regime militar, ressuscitou e  reorganizou a função dos inspetores de quarteirão  por meio de um decreto, enquadrando o inspetor de quarteirão  como vigilante e informante das autoridades ligadas ao sistema de repressão.

INSPETOR DE QUARTEIRÃO E DELEGADO DE POLÍCIA

República Velha. Governo do Mal. Floriano Peixoto. Durante a Revolta da Armada, em 1894, o Batalhão Federal de Franco Atiradores, estacionado no litoral, marchou de São Vicente em direção Vale do Ribeira para conter alguns revoltosos partidários da Armada da Marinha de Guerra, em Xirica (Eldorado). Ao passar por Praia Grande, alguns soldados indisciplinados cometeram abusos e violências, causando temor entre os pacatos sitiantes da região, que correram em busca de refúgio nos sítios Mariana e Queirozes. As agressões foram rapidamente denunciadas ao Inspetor de Quarteirão do bairro, Januário da Silva, que alertou o Delegado de Polícia, Capitão Antero Alves de Moura. Este conteve os abusos atuando junto ao comando do batalhão e tranquilizou a população, enviando o Cabo Antônio e quatro praças da delegacia para acalmar e proteger os sitiantes em seus ranchos. (Dalmo Duque. Fonte: Poliantéia 

GUARDA NOTURNA E CAVALARIA

Por iniciativa da Companhia Territorial de Praia Grande , foi organizada em 1959 a Guarda Noturna, instalada em prédio alugado no Boqueirão. O serviço oferecido à comunidade era de três turnos de oito horas , comandado pelo Coronel Edivaldo dos Santos. Circe Sanchez Toschi (2008) recorda em sua memórias que essa iniciativa privada em cooperação com a segurança pública cobria uma extensão de dez quilômetros - que era pouco se fosse considerada a dimensão territorial de quase 30 quilômetros da orla- e não se limitava à simples vigilância. O serviço contava, segundo ela, com acolhimento e informações a turistas, guarda e estacionamento de carros,  e guarda de valores para banhistas. Como equipamento a guarda utilizavam-se cavalos, bicicletas, uma viatura de patrulhamento, telefone e rádio transmissores portáteis. A Força pública atuava em São Vicente e Praia Grande, com um efetivo de 70 soldados distribuídos nas sub-delegacias da Cidade Ocian e do Boqueirão. Esse policiamento de cavalaria funcionava entre as 22 horas e as 4 horas da madrugada, sob o comando de  Sidney Sandi (inspetor-chefe), Geraldo Nascimento e Miguel Alves (relações públicas) e Claudio Sampaio (motorista). O primeiro posto policial funcionou numa casa alugada, sob a responsabilidade de Oswaldo Toschi, sendo a cadeia construída com a contribuição de alguns cidadãos e também dos policiais que foram trabalhar no local. Funciona de forma simples, mais como abrigo noturno provisório  de alguns detentos embriagados, que eram liberados logo pela manhã. Ficava na rua Boguassu ( atual Fumio Myazi), entre as ruas Mococa e Sorocaba.



*

COMUNICAÇÃO


Assinantes da Companhia Telephonica do Estado de São Paulo em 1910. Nela consta o endereço de Antão de Moura em Praia Grande (Porto do Rei).


Praia Grande era cortada por uma extensa linha do Telégrafo Nacional (onde hoje é a avenida Presidente Kennedy).  Durante muitas décadas o telégrafo foi considerado o símbolo da comunicação no Brasil, até que fosse desbancado pela telefonia de ligação e voz direta, cuja rede mais complexa de fiação física também seria superada décadas mais tarde pelas antenas de transmissão celular ou telefone móvel. 

Apesar de ter passado por todas essas fases tecnológicas, Praia Grande, como grande parte das cidades brasileiras, teve que aguardar muitos anos para que a  população tivesse acesso aos meios mais rápidos e mais baratos de comunicação.  A maioria dos serviços eram concentrados em São Vicente, que também sofria com as limitações das operadoras regionais. Após a emancipação, foram sendo instalados vários equipamentos de serviços públicos, principalmente os que eram controlados pelo governo do estado. Claudio Sterque tem viva essa lembrança dessas instalações graduais em Praia Grande: 

"Que eu me lembre, o primeiro centro telefônico foi na Costa e Silva, no final dos anos de 1960. Também havia um na Ocian e outro na Caiçara. Usei dois deles. Eram da CTLP, Companhia Telefônica do Litoral Paulista. O da Caiçara era onde hoje é a rua Brasília. Essa rua foi batizada de Brasília porque em uma das esquinas dela havia uma casa que imitava o Palácio da Alvorada. Infelizmente foi demolida e não há imagens dela. Eu, menino, passava férias nessa rua".

João Paes Pinto lembra da A agência do Correio instalada na casa de esquina da rua Pernambuco com avenida Brasil (foto abaixo):  

"O responsável pela agência era o Sidney. Não havia entrega por carteiros, tínhamos que ir até a agência para ver se haviam cartas. Algumas famílias possuíam as caixas onde o Sidney ia colocando as cartas. As demais ele guardava em ordem alfabética para facilitar quando as pessoas iam lá procurar. Naquela época, onde está estacionado esse fusca, ficava o tambor onde as pessoas pegavam água potável. Nós finais de semana prolongados e temporada fila imensa para pegar água rsrs. Nessa casa e na mesma época funcionava o pronto socorro. Atrás da referida casa, nos fundos, os poucos funcionários da roçagem, guardavam alfanges, enxadas e rastelos".



Jornal Cidade de Santos noticias em 1967 obras da expansão de linhas telefônicas e qualidade do serviço de comunicação na cidade. 



1952: surge a agência postal no Boqueirão. Em 1º de agosto foi inaugurada a primeira agência dos Correios em Praia Grande, no atual bairro Boqueirão, com a presença  de Charles A. de Souza Dantas Forbes, então prefeito de São Vicente, vereadores e da funcionária Elizabeth Marins Celere. A agência pioneira foi inaugurada na antiga Avenida Siqueira Campos, hoje Mal.Mallet. Posteriormente mudou-se para as esquinas da Rua Pernambuco com Avenida Brasil (onde hoje é um restaurante) e mais adiante para a Galeria Flórida.  Acervo PDA



Nessa casa que foi instalada uma agência dos Correios no início dos anos de 1960  com caixas postais. Avenida Brasil com a rua  Pernambuco. Na época desse registro fotográfico, durante a administração de Nicolau Paal, funcionava como pronto socorro. A casa funcionou também como centro de vacinação, como consta  neste capítulo, no item Saúde e Assistência Médica. Acervo PDA. 

As agências postais dominaram a comunicação por séculos  e, as que tinham telégrafo dominaram também estenderam esse domínio por algum tempo,  quando foram substituídas pelos postos telefônicos , por cabines  privativas e mais tarde pelos conhecido orelhões. 


TELEFONIA, RÁDIO E TV



Antena de retransmisão de telecomunicações na entrada da cidade nos anos 1990. PDA-Museu da Cidade. 


Muitas empresas tinham seus próprios sistemas de comunicação, pois dependiam deles para agilizar seus negócios, dentro e fora do país.   

No início do século passado, os aparelhos de telefone fixo, e suas linhas de contato, eram controladas analogicamente por operadoras manuais - as telefonistas - que faziam e completavam ligações introduzindo fios plugados diretamente em tomadas numeradas, identificando as linhas receptoras, domésticas ou comerciais. As sequências numéricas do aparelhos possuíam no máximo três a quatro dígitos, o que significava um baixo número  de linhas ou assinaturas. Depois de ser prontamente atendido com a expressão "Telefonista...", o usurário solicitava o serviço " dizendo "288, por favor" e logo tinha sua ligação completada. 

As ligações interurbanas, interestaduais e internacionais, demoravam algumas horas e até um ou dois dias para serem completadas. Somente o telégrafo supria essa demora. Esse problema da velocidade de contado só seria resolvido pelas inovações tecnológicas surgidas pela modalidade  de transmissões digitais, que obviamente teria um grande impacto em todos os segmentos de serviços, assim como aconteceu no setor diversão e entretenimento.

As transmissões e recepções TV tinham as mesmas barreiras. Apesar da grande oferta de atrações nas grades de programação, a população tinha muitas dificuldades de acesso. Os institutos de pesquisa eram presença constante nos jornais fornecendo informações de audiência para os telespectadores e principalmente para os anunciantes. Era um mercado novo e que  precisava de monitoramento diário para atrair consumidores e justificar os investimentos em tecnologia e publicidade dos produtos e serviços.

Maria Cristina de Oliveira:  

"Eu nasci em 1952 aqui na Praia Grande mesmo. 

Na minha primeira infância nós não tínhamos nem energia elétrica, pq nossa casa era no Canto do Forte mas perto do morro. Só quem tinha energia elétrica era meu avô que morava na Mal Mallet pertinho do quartel, mesmo assim ele só tinha um rádio, lembro-me bem que ele ouvia tds noites a Hora do Brasil (noticiário).

Depois quando já estava na adolescência,  mais ou menos12 anos, o Sr. Tenente Gato que morava na entrada do quartel da rua Mal. Rondom comprou uma Televisão.  Aí eu e meus irmãos conhecemos a TV. Depois, quando já tínhamos luz em casa, minha mãe comprou geladeira e depois quando já éramos mocinhas eu e minha irmã, já trabalhando compramos a primeira televisão da marca Telefunkem, nem existe mais. Antenas encima do Telhado mesmo assim as imagens eram horríveis, dia de chuva não pegava nada".


A RÁDIO ANCHIETA

A rádio foi dirigida durante os anos iniciais pelo jornalista Mário Gimenes. Em 1978 proprietário Jaime de Castro instalou uma extensão da emissora em um estúdio no bairro da Aviação, sob a direção do filho Carlos Eduardo Conte de Castro, na época com 16 anos. Anos mais tarde a rádio foi vendida e desativada em Praia Grande. Carlos Eduardo foi então trabalhar como locutor na Rádio Cultura de Santos, de propriedade da família Mansur (pai do prefeito e deputado Beto Mansur), cuja sede era em São Vicente. 

Em 1996, Carlos Eduardo participou como apresentador  da primeira campanha do prefeito Alberto Mourão, assumindo depois a chefia do Departamento de Turismo. Atuava como mestre de cerimônias da prefeitura. Foi ele quem produziu os primeiros shows de verão na orla, pois tinha conhecimento e contato com os empresários do meio artístico musical.  Faleceu precocemente ao 33 anos de idade. 

Rádio Anchieta em um evento no litoral sul nos anos 1970. 


*

SAÚDE , ASSISTÊNCIA MÉDICA E SERVIÇO FUNERÁRIO


Esse trecho da biografia do farmacêutico vicentino José Ignácio da Glória revela o precário estado de saúde dos primitivos moradores de Praia Grande, "os caiçaras",  atacados pela maleita, a mais perigosa doença tropical no início do século XX no Brasil.  Mas os atingidos não eram apenas os caiçaras. A Mata Atlântica era um ambiente ainda selvagem e fértil do mosquito causador dessa moléstia. Uma das suas vítimas foi o pioneiro e loteador  Heitor Sanchez, que sobreviveu permanecendo longos anos em tratamento fora de Praia Grande até sua recuperação e retomada dos seus negócios.  Fonte: Vultos Vicentinos. Edson Telles de Azevedo. 


"As imagens antigas são grande fontes de informação e servem também para reavivar a nossa memória de situações e comportamentos vividos. Esse era o local que nós recebíamos as vacinas no final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970. É a esquina da Pernambuco com Av. Brasil no Boqueirão, onde hoje é um restaurante. 

Nesses anos pegávamos a fila e nada dizíamos. Ninguém perguntava em que país a vacina foi fabricada, qual o laboratório e quais as possíveis consequências. Se uma autoridade da Saúde dizia que era necessário, a gente se vacinava e pronto.

Se alguém, ao negar a vacina, dissesse que liberdades individuais estariam em jogo, possivelmente seria preso pois estaria confrontando o regime militar então vigente.

O fato é que vacina nesses anos era só um agente introduzido no nosso organismo para provocar a formação de anticorpos contra determinado agente infectante. E hoje podemos dizer que depois de tantas vacinas, sobrevivemos para contar todas essas histórias". Claudio Sterque.


Final dos anos 80 no Ambulatório Médico do Recanto do Forte, na Rua Cintia Giufrida. Postagem de Claudio Sterque e foto de Augusto Viana Neto.


1ª SEMANA ODONTOLÓGICA



Registro de um evento do setor odontológico do 1º governo do Dorivaldo Loria Junior -Dozinho (1969/72), quando foi promovida a I Semana Odontológica do Município.  Na foto estão os  dentistas pioneiros do município, Dr. Ezio Dall'Acqua Jr; Dr. Jener; Dr. Homero e Dr. Durval Capp, como também e o Farmacêutico Mendes.   Do 1º escalão do governo: Dra. Layde, Jaspe Bastos e Jodir Seabra. Dr. Ezio Dall'Acqua Jr., um dos primeiros dentistas da cidade. Se estabeleceu em 1969. Atendia  em sua residência, na  Av. Costa e Silva, 1003, Boqueirão. Acervo Edgar Dall'Acqua

 Sobre alguma figuras históricas da cidade citadas na foto da Semana Odontológica, o membro IHGPG João Paes fez as seguintes considerações:

"O Ezio foi nosso dentista na rede pública municipal e teve muita atuação na política como vereador.  Além disso tocou o jornal Ondas por vários anos, trabalhou no ramo de gráfica tendo suas máquinas em sede própria na rua Rui Barbosa. Junto com o senhor Manoel Ramos tocaram durante bom tempo programa de rádio onde destacavam a baixada santista sempre dando tratamento especial aos assuntos de Praia Grande nas áreas de interesse da comunidade como política, saúde, educação e entrevistas.

 O Jenner foi procurador jurídico da prefeitura. Também foi secretário de assuntos jurídicos e em outra oportunidade secretário de Finanças.

O Jaspe Bastos de Oliveira foi vereador e presidente da Câmara Municipal. Também atuava no campo das tradições nordestinas. Também atuou no ramo imobiliário, notadamente no jardim Quietude onde negociou muitos terrenos. Naquele tempo o Quietude era a esperança de muitas pessoas construírem aos poucos suas casinhas. O bairro Tude Bastos, vila Sônia e Antártica já começavam a apresentar valores maiores no metro quadrado dos terrenos. Quietude passou a ser uma boa opção.


"A primeira psiquiatra que atendia na cidade, Dra. Márcia Prata Ramos. Márcia implantou o primeiro programa de saúde mental em Praia Grande e também atendia no seu consultório na rua Jaú.  A imagem é de 1982 e é do amigo Augusto Viana Neto". Claudio Sterque. 

Uma rara imagem de uma ambulância e equipe do antigo Pronto Socorro do Boqueirão, rua Copacabana nos anos de 1980. O primeiro da esquerda para a direita, é o Sr. Odair Vasques Pereira (Darico) com dois dos seus colegas. Durante muitos anos esse foi o principal P.S. da cidade. Nesses anos ainda não havia um hospital em Praia Grande e em casos mais graves os pacientes eram transportados para o Hospital São José e Santa Casa de Santos. Imagem de Nino Pereira.


SALVANDO VIDAS



 Os salva- vidas (assim que eram chamados) Tito Freire (depois Patrulheiros) e Elias da Silva, sempre presentes no final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970.


Pelotão dos Salva Vidas de Praia Grande, em frente a antiga sede na Costa e Silva nos anos de 1970.Na imagem a secretaria Dona Cacilda. O registro é de Marcelo Chaves.


*


Inauguração do IML em junho de 1985. Imagem Dr. Esdras Silva.


SEPULTANDO OS MORTOS


Nota do jornal Cidade de Santos, edição de 24 de outubro de 1969. 


Placa indicativa dos anos de 1970, onde seria futuramente construído o cemitério da cidade na Vila Antártica. O nome "Morada da Grande Planície" foi uma sugestão da vereadora Isaura Campos que obteve aprovação imediata. Arquivo dos Sterque.



HISTÓRIAS E LENDAS DE PRAIA GRANDE

Um cemitério que demorou a funcionar

População comparou-o com uma novela satírica apresentada na televisão

Obra do falecido escritor novelista Dias Gomes, tendo como principal ator Paulo Gracindo (também já falecido), a novela O Bem Amado estreou na Rede Globo de Televisão em 24 de janeiro de 1973, prosseguindo em capítulos diários até 9 de outubro daquele ano. Uma das histórias de seu enredo era sobre a dificuldade do prefeito da fictícia cidade de Sucupira, Odorico Paraguaçu, em conseguir um defunto para inaugurar o cemitério da localidade, principal obra de sua administração.

Já em Praia Grande, apesar de o problema não ser a falta de defuntos, existiam outras semelhanças entre arte e realidade, e o sucesso da novela fez com que a população a comparasse com a situação encontrada neste município. A história foi assim relatada pela professora e pesquisadora Graziella Diaz Sterque, em seu boletim Informativo Cultural, edição 29 (maio de 1980), da Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande (Aceam):


GRAZIELLA DIAZ STERQUE... INFORMA


A novela do cemitério

Ao contrário de Sucupira, que teve que importar defunto para inaugurar seu Cemitério, Praia Grande tem defunto todo dia, e tem gente até que só está esperando o Cemitério ser inaugurado.

Falta arborização, faltam urnas, faltam epitáfios e talvez até um ar triste de Campo Santo. Nas outras cidades, o cemitério começa com o primeiro defunto, as pequenas sepulturas com tosca cruz de madeira, depois vem a arborização e finalmente o muro, porque existe em tudo isso uma realidade. Quem vai assaltar cemitério de pobre? 

Portanto, o muro, que é o mais caro, vai sendo construído paulatinamente com a verba que vai entrando da venda das sepulturas e o cemitério se mantém com sua própria renda. Mas se começarem com altas mordomias, também vamos ter que fazer tomada de preços para enterrar nossos defuntos.

Atento aos grandes problemas que afligem os moradores do pequeno Império de Praia Grande, o poeta José Florindo satiriza o caso:


I

O assunto hoje é forte,

   É um caso muito sério,

      Não vamos falar de morte

         Mas, tratar de cemitérios.


II


No antigo Sítio Mio,

   Área e boa miragem,

      Há muitos anos serviu,

         Para enterrar selvagens.


III


Terreno frente ao mar,

   Lugar privilegiado,

      Objeto de controvérsias,

         E, por muitos, cobiçado.


IV


Políticos e grileiros,

   Numa luta prolongada,

      Queriam ganhar a área,

         Muito bem localizada.


V


Com a emancipação,

   Adotou-se nova tática,

      Cemitério em construção,

         No bairro de Vila Antártica.


VI


Entretanto essa obra,

   Há muito em andamento,

      Somente agora, está,

         Em fase de acabamento.


VII


Acabamento demorado,

   Um trabalho negligente,

      Defuntos são sepultados,

         Na cidade de São Vicente.


VIII


Necrópole quase pronta,

   A fase é de conclusão,

      Falta epitáfios e urnas,

         Para inauguração.


IX


O caso é muito sério,

   É importante o assunto,

      Prá inaugurar cemitério,

         Todo dia tem defunto.


X


Defunto é a matéria-prima

   Não precisa ser importado,

      Aqui não é Sucupira,

         A terra do "Bem Amado".


*




Matéria de A Tribuna em 20 de dezembro. Acervo: Hemeroteca Digital da BN.


A MORADA DA GRANDE PLANÍCIE


Serviço de zeladoria da Morada  da Grande Planície nos anos 1990.  Banco de Imagens- PMPG 


O hábito de sepultar os mortos surgiu nas sociedades humanas há 10 ou 15 mil anos, quando se tornaram sedentárias e suas moradia fixas tiveram que ser repartidas com os nossos antepassados, como cultivo da memória e reafirmação dos costumes deles herdados. A morte e o sepultamento eram domésticos. Os ritos funerários passaram então fazer parte da vida nas aldeias rurais durante séculos e dali se transferem para as cidades, juntamente com o comércio, acompanhando a trajetória humana em todas as suas fases e formas de lidar com a vida e com a morte. Os túmulos e seus espaço tornaram referência de localidade e identidade dos lugares dos povoamentos.

Nosso modelo ritualístico mais  próximo e influente, separado do lar,  é o greco-romano - herdado e preservado pela igreja católica- parte da estrutura da polis e da civita: Acrópole (praça), Asty (mercado), Panteão -monumento ou templo - e a  Necrópole, espaços sagrados monumental e público, de culto, cuidados sanitários e garantia coletiva de perpetuidade. 

Como na cultura ocidental a morte ainda é muito ligada aos ritos religiosos, o sepultamento ainda tem restrições aos meios modernos de tratamento dos restos mortais, como , por exemplo, a cremação e o sepultamento fora da terra, em túmulos artificiais e verticais.  O rito funerário também  teve que se adaptar à nova realidade urbana, cujos costumes exigem, a título de ilustração,  o sepultamento de animais de estimação em espaços específicos e não mais em aterros sanitários. 

Em Praia Grande , até o início dos anos 1980, os sepultamentos eram feitos nos municípios vizinhos- sobretudo São Vicente e Santos - ou  nas cidades de origem dos mortos. Alguns óbitos de pessoas consideradas importantes e que tiveram seus despojos sepultados fora da cidade, despertaram em alguns setores e autoridades a necessidade de criar um espaço específico para funcionar como necrópole. 

O primeiro cemitério foi construído em local distante do então centro do Boqueirão-Guilhermina e, como aconteceu em quase todas as cidades, hoje encontra-se rodeado de bairros e vilas que se expandiram no decorrer dos anos.  Foi denominado "Morada da Grande Planície", lembrando os Campos Elísios de Roma e das cidades que buscaram nessas necrópoles da antiguidade clássica  a ideia de descanso, paz, eternidade e ressureição. 

A primeira necrópole praiagrandensse, inaugurada em 1981,  acolhe desde então mortos de todas as classes sociais, incluindo os indigentes.  Tem também espaço reservado para jazigos privados  e um especial, de natureza perpétua, destinado aos cidadãos considerados os fundadores da nova cidade. Eles estão sepultados na Alameda do Emancipadores,  cujos túmulos rodeados de um belo jardim possui lápides de pedra com seus nomes em letras gravadas em destaque. É um monumento memorial, semelhante ao que foi erigido na entrada da cidade , para lembrar aos moradores e visitantes que Praia Grande tem história e cultiva a memória do seus antepassados, dos seus heróis e, por exemplo,  de figuras populares que tiveram destaque em algum segmento social  ou então um fim trágico. A primeira campa dessa alameda abriga os restos mortais do jovem Oswaldo Luiz Sanchez Toschi, diretor administrativo da Prodepg, falecido em 31 de maio de 1981, num   acidente ocorrido na avenida Ana Costa, em Santos. Tinha 32 anos, casado e pai de um filho. Quarenta dias após essa tragédia familiar, no dia 10 de julho,  seu pai, o ex-vereador Oswaldo Toschi, faleceu vitimado por um infarto. Foi sepultado ao lado do filho. A matriarca da família, Circe Sanchez Toschi, esposa do ex-vereador Oswaldo Toschi e filha de Heitor Sanchez, também está sepultada numa das alamedas da Morada. 



Túmulo de Circe Sanchez Toschi com uma capelinha de devoção a Santa Mathilde. Acervo Suely Sanchez Toschi. 


Anúncio em A Tribuna. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. 



Notícia do jornal A Tribuna. 



Luto oficial em Praia Grande

O prefeito Dorivaldo Dura Jator decretou ontem luto oficial por três dias em razão da morte no domingo do diretor administrativo da Progresso e Desenvolvimento de Praia Grande-Prodepg, Oswaldo Luz Sanchez Toschi.  Ainda ontem foi suspenso todo o expediente da Prefeitura e da Câmara Municipal para que todos funcionários pudessen comparecer ao enterro

A morte de Oswaldo Luiz Sanchez Toschi praticamente paralisou ontem o Município de Praia Grande. O acidente que vitimou o diretor da Prodepg foi amplamente comentado, havendo uma opinião unânime de que Praia Grande perdeu um de seus membros mais importantes.

À pequena igreja do Jardim Mathilde próximo ao Canto do Forte, acorreram autoridades e amigos de vários municípios da Baixada Santista e Litoral. Desde as primeiras horas da manhã o movimento foi intenso verificando-se até a presença de vários escolares da cidade. O prefeito Dorivaldo Loria Junior comentou a morte de Oswaldo Luiz Sanchez Toschi:  "Essa foi a única mancada que ele me deu ao longo de todos os anos que trabalhamos juntos para o progresso desenvolvimento do Município de Praia Grande"

O féretro de Oswaldo Toschi partiu da pequena capela às 16 horas seguindo pela Avenida Mascarenhas de Morais até a Avenida Castelo Branco, na praia. Um grupo de crianças defronte a Escola do Jardim Matilde postou-se na calcada com pequenas bandeiras brancas prestou homenagem a Tochi, filho de um dos maiores membros da Comissão que lutou pela emancipação do Município de Praia Grande.

Pela praia o cortejo, que tinha mais de 100 carros seguiu até a Vila Guilhermina por onde seguiu até a Rodovia Padre Manuel da Nóbrega em direção cemitério municipal. Nesse local, além de dezenas de pessoas, estavam várias máquinas e viaturas da administração. 

Oswaldo Luiz Sanches Toschi foi enterrado na área reservada aos reservados emancipadores de Praia Grande, onde futuramente a administração municipal pretende construir um mausoléu para homenagear aqueles que lutaram pela autonomia do município. Sobre o caixão foi colocada a bandeira da cidade Além de vereadores e amigos de toda a Baixada, compareceram ao enterro o presidente da Associação Paulista dos Munícipios - APM,  Wilson José, o superintendente da Sudelpa, Ernesto Correa Neto, representantes da Sabesp, Telesp e CESP e membros das polícias civil e militar.

Acervo: Suely Sanchez Toschi. 


Anúncio em A Tribuna. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. 




Alameda dos Emancipadores. Jairo Marques.  Banco de Imagens - PMPG


FAMOSOS NA MORADA

Nos demais espaços, misturados com a gente comum, encontram-se  alguns nomes de personalidades que vieram residir em Praia Grande  e, no período final  de aposentadoria, foram ali sepultadas. Os mais conhecidos são o goleiro Barbosa, que sofreu no  Estádio do Maracanã a histórica derrota para a seleção Uruguai na Copa do Mundo de 1954. Também dois grandes artistas, cantores de sucesso da velha guarda da MPB ,  estão sepultados na Morada da Grande Planície: o cantor Francisco Egídio, que foi candidato a vereador, com o lema "Creio em ti, Praia Grande" ; e o seresteiro romântico e locutor de rádio Osny  Silva. Foi  dele o lançamento e popularização do hino do Esporte Clube Corinthians Paulista, conhecido como "Campeão dos campeões". Fechando essa pequena lista de famosos, foi sepultado também na Morada o inesquecível "Feliz",  repórter do tempo do Sistema Brasileiro-SBT. 



Barbosa(www.supervasco.com); Feliz (SBT Divulgação); Francisco Egídio (LP Odeon, acervo particular); Osny Silva (Compacto 33 LD 30730, acervo particular)



Jardim  e lápides da Alameda dos Emancipadores. Jairo Marques. Banco de Imagens- PMPG




CAPÍTULO VIII

OS COMERCIANTES E NOVOS URBANIZADORES


Antigas e atuais fontes históricas informam que o comércio primitivo de Praia Grande sempre esteve ligado ao abastecimento de alimentos, por meio de feiras e postos de trocas entre os sitiantes do Porto do Rei, do rio Peaçabuçu e do Porto Tumiaru, na área insular. Um dos poucos registros conhecidos dessa atividade econômica específica são  os relatos biográficos do agricultor e comerciante português Fernando Bittencourt, herdeiro do sítio Acaraú, localizado nas margens do rio Mariana, na área continental serrana; e os sítios do Samaritá, um dos quais pertencia Francisco Xavier dos Passos e depois vendido ao comerciante espanhol  José Ignácio Requejo. Provavelmente os demais sítios realizam as mesmas práticas de circulação de mercadorias, mas não tiveram suas atividades registradas. Bittencourt teve esse privilégio porque era vereador e ganhou fama com seus produtos artesanais, sobretudo a conhecida aguardente. O Sítio Acaraú é um exemplo de como era a dinâmica produtiva dos sítios de Praia Grande e do litoral sul, que aliás existiam também em na área insular vicentina (Valença, São Jorge, Barreiros), nos morros e na área continental de Santos (Cubatão, Ilha Diana, Monte Cabrão, Guarujá e  Bertioga). Muitos desses sítios eram remanescentes de antigos engenhos de açúcar, como os do Japui e Itaipu. Na biografia de Bittencourt (Vultos Vicentinos), Edson Telles de Azevedo descreve a estrutura agrícola e pecuária do sítio e sobretudo o percurso fluvial entre a serra e a ilha, para escoar sua produção no Porto Tumiaru. Essa rotina provavelmente era mesma dos sitiantes do Itaipu, do Porto do Rei e de Mongaguá. Bittencourt navegava pelo rio Mariana até o Mar Pequeno, expunha seus produtos no Porto,  abastecia seus clientes comuns e revendedores e, terminada a jornada semanal, seguia para sua "casa de cidade" para um repouso vespertino. À noite atuava na política nas sessões da Câmara Municipal. Nos dias seguintes retornava ao sítio.

Na faixa da orla havia o comércio pesqueiro artesanal praticado pelos caiçaras, em diversos pontos, mas sobretudo no Boqueirão, pela proximidade dos sítios e das primeiras casas de veraneio que foram parecendo com os loteamentos a partir da década de 1920. Na medida que a população e os loteamentos foram crescendo, cresceu também a oferta de produtos serviços aos novos ocupantes, moradores fixos e veranistas.


"FORMOSO ARREBALDE Á BEIRA MAR"

Em 1914 o jornal A Tribuna, edição de 11 de novembro,  anunciava a inauguração de um estabelecimento comercial na Praia do Boqueirão, provavelmente na altura da atual avenida Costa Silva. Tratava do "Praia Grande Bar", de propriedade do  Dr. Franklin de Moura,  conhecida pernsonalidade social residente em Praia Grande e atuante bacharel na região.


Os anúncios são de 1914, Inauguração do Bar; 2015, divulgando  o Bar;  e 1926, nos festejos religiosos.




"Eu tinha por volta de 10 anos de idade quando meu pai montou nosso rancho na Praia Grande e a única lembrança que tenho é do armazém com a inscrição 'Franklin Moura'. Ficava na esquina da Dr Júlio de Mesquita Filho com a atual Presidente Castelo Branco do lado oposto ao Aero Clube.  Logo foi vendido e a inscrição do proprietário passou a ser João Dória  & Filhos" - Mário Leitão Filho. 


PRAIA GRANDE BAR. Verifica-se hoje, no pitoresco bairro de Praia Grande, a inauguração desse importante estabelecimento que girará sob a firma de Franklin Moura e C.

A necessidade que há muito se vinha fazendo sentir de uma casa de 1ª ordem, nesse genero, naquele formoso arrebalde à beira mar, tão procurado pelos passeantes, fica agora satisfeita com o estabelecimento do "Praia Grande Bar". Para a inauguração citada, pedimos a gentileza de um convite. 



O Dr. Franklin de Moura também era, juntamente com sua família, destacado membro benemérito da comunidade religiosa de Praia Grande, liderando os festejos de Sant'Ana, conforme nota do jornal A Tribuna, de 6 de agosto de 1926:

"A Vila Itaipu era forma por três ruas: uma delas, Rui Barbosa, tinha um pequeno número de casas de veraneio. Havia também, na esquina com a rua Bahia, um armazém onde se vendia de tudo um pouco. Seu proprietário, Franklin de Moura, morava em São Vicente e, diariamente, vinha a Praia Grande trabalhar no seu comércio (...)" - Circe Sanchez Toschi. Praia Grande antes da emancipação.

Circe recorda na mesma obra que o comerciante Antônio Coraine foi o proprietário da mais antiga padaria instalada na fase de formação urbana.  O pequeno estabelecimento,  quase doméstico, funcionava ao lado do Forte Itaipu e atendia, além dos militares e seus familiares, bem como as primeiras residências particulares do vilareja que ali se formava. Nessa época os sítios já estavam sendo desmembrados em pequenas chácaras, nas quais eram comuns as plantações de ananás, cajueiros, carambolas e bananas.

A urbanização nascente e em franco desenvolvimento recebeu, sem dívida o impulso da construção da Ponte Pênsil, que trouxe para Praia Grande o movimento turístico e comercial dos veículos motorizados, automóveis, caminhões, as jardineiras de passageiros e também as motocicletas. Registra-se então, também pela memória de Circe Sanchez Toschi, a instalação  em 1930 de uma pequena e manual  bomba de gasolina Texaco. Sua localização já foi pensada estrategicamente contando com o aumento da circulação de veículos no Boqueirão: a Bomba do Edmundo, como ficou conhecida, ficava em frente ao mar, na esquina da praia com a atual avenida Costa e Silva. Além de combustível, Edmundo tinha de prontidão um caminhão guincho para socorrer os veículos que encalhavam na areia da praia. O serviço extra tinha ajuda de pescadores que sempre estavam por ali dispostos a ganhar alguns trocados de gorjeta. Ali por perto, a nossa memorialista localiza os pioneiros comerciantes veranistas: O Bar do Sérgio Rodrigues e do Cartelha, armazém que tinha um procurado aparelho de telefone; e como vizinho o estabelecimento de José Carlos Borstenez e sua esposa Brígida, que todos conheciam pelo apelido do proprietário: restaurante do "Açúcar".  Borstenez, desportista e figura muito animada e popular,  era também  subdelegado de polícia, inspetor de quarteirão. Em 1953, era ativo membro do diretório político do Partido Social Progressista-PRP. Na avenida Tupiniquins, em 1952, Natanael de Abreu abriu a primeira farmácia da cidade. Era uma ramo de negócio tão raro que o vereador Oswaldo Toschi teve que requerer uma lei concedendo isenção de impostos por três anos  para os estabelecimentos já em funcionamento e também para os novos. 

ORGANIZAÇÃO DO COMÉRCIO

A iniciativa de organização do comércio em Praia Grande remonta o período vicentino das primeiras décadas do século XX quando os empreendedores dos primeiros loteamentos se mobilizavam para atrair compradores de terrenos. Para viabilizar os negócios era necessário oferecer infraestrutura básica e isso já era um grande obstáculo, pois dependia do serviço público. 

A Associação dos Amigos de Praia Grande, fundada em 1948, liderada por Heitor Sanchez e Nestor Rocha, com escritório em São Paulo, na rua José Bonifácio.  Foi a primeira organização comercial a se mobilizar para que o então bairro vicentino recebesse tratamento de políticas públicas visando a criação de uma rede de energia elétrica e abastecimento de água. Sem essa base seria praticamente impossível manter e ampliar a oferta de lotes residenciais e comerciais. Os complementos sanitários, de drenagem e pavimentação viram somente nas décadas e 1950 e 1960, quando Praia Grande estava já próxima da sua emancipação, evento que teve grande influência e que foi acelerado pela carência de serviços públicos, negligenciados pela administração vicentina. 


A AMPG tinha o seguinte quadro diretivo:

Presidente: Nestor Ferreira da Rocha.

1º Vicente Presidente: Comendador Joaquim Monteiro.

2º Vice Presidente: Júlio Vieira dos Santos.

1º Secretário: Heitor Sanchez.

2° Secretário: Manuel A.B. da Silva.

1º Tesoureiro: Raul B. Pavão.

2º Tesoureiro: Joaquim Alves Nogueira.

No Conselho Consultivo da entidade aparecem  nomes conhecidos na Capital como o Dr. Oscar Pedroso Horta, Major Silvio Magalhães Padilha, Prof. Sylvio Ubaldo Padilha, Dr. Raul Loureiro; e os conhecidos residente em Praia Grande : Oswaldo Toschi e Júlio Secco de Carvalho. 


OS PIONEIROS DO TURISMO


Em 1922 chegava a Praia Grande o pioneiro Heitor Sanchez, que, encantado com a beleza selvagem do lugar, fundou o loteamento do Jardim Guilhermina, oportunidade em que a família Guinle, proprietária da Cia. Docas de Santos, pagou pela gleba a vultosa importância de 250 contos de réis. Eram 660 metros frente ao mar por 1.800 metros de fundos. Na época foi apontado como inconseqüente, mas como todo pioneiro, acreditava no local, tanto que contribuiu conforme recibo...

Sempre acreditando no progresso da cidade, lançou com seu irmão Cristovam o Jardim Mathilde (em homenagem ao nome de sua mãe - Mathilde B. Sanchez).

Em 1927 fundou com alguns companheiros, entre eles Nestor Ferreira da Rocha, a Companhia Territorial Praia Grande, responsável pelo lançamento e venda dos loteamentos: Jardim Caçula, Vila Circe, Balneário Flórida, Flórida Mirim e Planetário, estes últimos localizados em Mongaguá.

Ainda em 1927, época em que a Cia. Air France estudava a construção do Campo da Aviação, para em seguida construí-lo, a Cia. Antarctica Paulista de Bebidas, através da filial em Santos, construiu um hotel entre o Jardim Guilhermina e o Boqueirão, sendo seus proprietários os senhores Roberto Kook e Margarida Kook, naquele tempo sua esposa e com a qual possuía duas filhas.

O hotel (hoje propriedade da família Pedroso Horta, e que por várias vezes recebeu a visita do então Governador Jânio Quadros, localiza-se na Av. Castelo Branco) era usado e freqüentado pelo pessoal da Fortaleza de Itaipu, pelo pessoal do Campo de Aviação e pelos corretores de imóveis, que na época vendiam os loteamentos de Vila Guilhermina. Segundo depoimento de Dona Maria Francisca dos Santos (Maria do Forte), que na época fora convidada para cozinhar para o pessoal que construía o Campo da Aviação, a única casa construída no Boqueirão era a do sr. Luiz Caiaffa, havia ainda o Bar do Sérgio, a "birosca" do sr. Açúcar (Organizador do Carnaval da Cidade) e alguns índios que se misturavam entre caiçaras, pescadores, corredores, militares e alguns turistas.

A única manifestação de Turismo organizado eram as Festas de São Pedro, até hoje o verdadeiro Padroeiro da Cidade e que em 1977 - graças ao incentivo dado pelo vigário padre Pedro Ferreira, pela sra. Maria Francisca dos Santos (Maria do Forte) pela equipe da Associação Centro de Estudos Amazônicos, pelos pescadores da Colônia de Pesca e pela sra. Layde Rodrigues Reis Lória (que mandou restaurar a primitiva imagem de São Pedro) - foi realizada depois de 20 anos a referida procissão. O dia 15 de outubro também era comemorado, pois era dia de Santana. O arrastão era uma tradição natural.

Em 1946, não haviam técnicas predeterminadas, simpósios, congressos, teses, estudos e pesquisas, e o praiagrandense só contava com a imensidão da praia, a vastidão do mar, a brancura da areia, e um sol brilhante.

Consideramos, também, como um dos pioneiros do turismo de Praia Grande o sr. Antônio Augusto de Sá Lopes, pois, usando de imaginação e picardia, engendrou o que ele próprio cognominou de "o truque da baleia", conforme seu depoimento no livro de sua autoria "A Odisséia de um Motorista".

"Enquanto não vinha licença para uma nova linha funcionar, os ônibus para o Boqueirão de Santos estavam deficitários, havia então necessidade de se criar algo novo.

"Na hora pensei promover uma excursão a Itanhaém, mas como interessar pessoas com um tempo feio? De uma hora para outra, sem anúncio e sem reclame?

"Foi então que chamei um pequeno vendedor de jornais, e por dez cruzeiros ele foi no Café Atlântico e começou a gritar que havia uma baleia na Praia Grande. Daí a pouco, o carro estava lotado com mais de cinqüenta passageiros, todos curiosos por verem o enorme cetáceo.

"Mas quando chegávamos ao ponto final da viagem que era o Campo de Aviação, outra desculpa era dada, e a viagem prolongava-se até Itanhaém". (transcrito do livro "A Odisséia de um Motorista").

E assim Praia Grande ficou conhecida, tudo por causa de uma baleia!

Segundo depoimento de dona Wanda Apparecida Dione de Oliveira, esposa do dr. José Carlos de Oliveira, já falecido, que durante 10 anos consecutivos [foi] subprefeito de Praia Grande, "além da pesca - que naquela altura dos acontecimentos (1947) se constituía um verdadeiro espetáculo, atraindo turistas, curiosos e compradores de peixe -, Praia Grande estava cotada no mercado turístico, pela abundância do pescado, e pelos tipos populares e simples que freqüentavam o Boqueirão como o Açúcar, Nézinho, Diogo etc."

Devido à correnteza marítima em julho de 1948 (época considerada como a que mais frio fez no litoral), vieram dar em Praia Grande inúmeros icebergs e, quando os grandes blocos de gelo se dissolviam, os pingüins que haviam viajado nos icebergs, procedidos do Sul, eram facilmente apanhados pelos pescadores e conduzidos para o Entreposto de Pesca, que ficava instalado na Rua Siqueira Campos, depois Tupiniquins e hoje av. Costa e Silva, no local onde está construído o prédio Long Beach.

Um cercado foi providenciado, e durante algum tempo dona Wanda carinhosamente tratava dos animais, tornando-se assim uma atração turística. Além dos pingüins, havia tartarugas de grande porte que também chamavam atenção.

Certa noite, para tristeza da tratadora (que a essa altura já se havia afeiçoado aos animais), os mesmos foram roubados, e não se descobriu por quem; desgostosa com esse fato, tomou a deliberação de doar, todos os animais que aparecessem na praia, para o Aquário de Santos.

Até mesmo um leão marinho, que aportara dias depois, cometendo a travessura de morder a mão de um dos pescadores: Manoel dos Santos (Nézinho), que ganhou uma grande cicatriz e muitas histórias para contar.

Informativo Cultural, boletim informativo da Associação do Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande: março de 1978, no número V (ano VI)


AS ARTÉRIAS DE PRAIA GRANDE


A gigantesca extensão da orla de Praia Grande influiu histórica e geograficamente - e ainda influi - na formação e organização do município ao longo das primeiras décadas do século XX. O sentido de ocupação e desenvolvimento ocorreu sempre na direção sul do litoral, selvagem e inóspita, à espera dos exploradores e investidores sempre atentos a novas oportunidades.

Seguindo o fluxo dos antigos caminhos da época colonial e depois das ferrovias, surgiu primeiramente nessa perspectiva a famosa Linha do Telégrafo Nacional, instalada bem ao centro entre a orla e o Mar Pequeno cortando os sítios da região. O sistema de comunicação inaugurado por D. Pedro II em 1852 fez parte do processo de modernização do império servindo como tecnologia estratégica comercial, militar também judicial. O telegrafo já era utilizado pelo Ministério da Justiça na repressão ao tráfico de escravos. Antes do surgimento do rádio e da telefonia, o Telégrafo Nacional tinha 182 estações interligando diversas regiões (dados dos site da Biblioteca Nacional-RJ).

A linha regional do Telégrafo Nacional foi aberta em Praia Grande também no sentido Norte-Sul e, depois depois de desativada, tornou-se referência geográfica e marco divisório das antigas propriedades rurais (ver a citação de Tude Bastos e sitiantes no edital judicial da 2.a Vara Cível e Comercial da comarca de Santos- 1935) e nas décadas seguintes transformou-se na também extensa avenida Presidente Kennedy, entre a Vila Guilhermina-Tude Bastos e o Jardim Solemar, divisa com o município de Mongaguá.

No antigo trecho da rodovia SP-55 (formada por Padre Manoel da Nóbrega, Cônego Domênico Rangoni e Doutor Manuel Hipólito Rego) na extensão da Ponte Pênsil e avenida Tupiniquins, surgiu a Via Expressa Sul, entre a Guilhermina e a Vila Mirim (na Curva do S). A via possui duas avenidas marginais de sentidos opostos, interligando os bairros do setor 3 às avenidas Kennedy e Costa e Silva: a Ministro Marcos Freire, setor 3 na direção norte-sul Mongaguá; e Dr. Roberto Almeida Vinhas, setor 2, sentido sul-norte São Vicente. Esse antigo trecho rodoviário existiu até o início da década de 2.000, sendo depois deslocado para a área serrana - na altura da Vila Caiçara - para fazer parte do complexo Anchieta-Imigrantes. É também hoje um importante corredor comercial e logístico intermunicipal de ligação entre Cubatão, Santos, São Vicente, as cidades do litoral Sul, Vale do Ribeira e Curitiba-PR.

A Estrada do Telégrafo, que cortava e percorria toda a extensão da antiga Praia da Conceição, teve uma importante função urbanizadora, pois tornou-se referência para todos os loteamentos criados próximos dos seus quase 30 quilômetros. A municipalização dessa via e a mudança da nomenclatura para avenida Presidente Kennedy reforçaria essa função e ao mesmo manteve a unidade político-territorial do novo município. O risco de fragmentação era recorrente entes e após a emancipação. Isso só não ocorreu por causa da habilidade agregadora dos primeiros governantes, neutralizando possíveis movimentações separatistas. Para tanto, eles contavam com diversas ferramentas para administrar interesses diversos e manter a fidelidade ao movimento original. Primeiramente, foram neutralizados os movimentos de Solemar e da Cidade Ocian. Posteriormente o mesmo aconteceu com os empreendimentos também próximos às estações ferroviárias, cuja presença de paulistanos e interioranos poderia certamente insuflar o separatismo. A presença dos militares na criação e estruturação do novo município, incluindo a influência na nomeação de interventores, foi uma das ferramentas de contenção de focos de autonomia. Seguindo essa estratégia de agregar e neutralizar, iniciada pelo prefeito Dozinho – formador e líder da primeira comissão emancipacionista- surge a ideia de centralizar geopoliticamente a gestão administrativa da cidade. O prefeito Wilson Guedes foi o principal articulador e executor dessa estratégia, construindo e instalando o novo paço municipal na Vila Mirim. Pensada ou intuída, essa medida política e técnica foi uma das grandes bases formadoras da territorialidade de Praia Grande. Ela neutralizou um risco negativo de supremacia de interesses dos bairros da Guilhermina e Boqueirão – até hoje centros nervosos do comércio e serviços- aproximando a administração do ponto extremo do Solemar e dos bairros centrais, que estavam em processo de formação e também potencialmente separatistas.



Boqueirão,  anos 1970: Avenida Costa e Silva. Jornal Cidade de Santos


Os muitos nomes da Av. Pres. Costa e Silva. Mapas antigos do século retrasado (dos quais possuo dois de Praia Grande), atestam que o primeiro nome dessa via chamava-se Caminho da Praia e nesses mapas estão registrados os primeiros da Praia Grande, juntamente com o Caminho do Porto do Campo (para o Sítio do Campo). Esses eram os dois únicos caminhos registrados em mapas que existiam aqui na região e os dois partiam do Portinho.

Já no século passado essa via foi batizada de Siqueira Campos e posteriormente com a melhoria da Av. Tupiniquins, que partia de São Vicente, ganhou esse nome da Ponte Pênsil a hoje Av. Pres. Castelo Branco (então Av. Beira Mar). Em 1970, Praia Grande já emancipada e com a morte do presidente Artur da Costa e Silva no ano anterior, resolve homenagear o militar batizando a sua primeira via em sua homenagem. Claudio Sterque.


  DE ESTRADA DO TELÉGRAFO À VIA DE UNIFICAÇÃO: 

A FUNÇÃO URBANA DAS AVENIDAS MALET E KENNEDY EM DIFERENTES ÉPOCAS

Estrada do Telégrafo nos anos 1960, que se estendia até Mongaguá (atual avenida São Paulo). Museu da Cidade. 

"A Avenida Presidente Kennedy é um dos principais corredores comerciais de Praia Grande, com 21 quilômetros de extensão, passando pelos bairros Boqueirão, Guilhermina, Aviação, Tupi, Ocian, Mirim, Maracanã, Caiçara, Real, Flórida e Solemar. Mourão idealizou o projeto de tratamento paisagístico, incluindo ciclovia ao longo da via. A primeira fase das obras de reurbanização foi entregue oficialmente em 2008 e compreendeu o trecho de 3.200 metros, entre os bairros Boqueirão e Aviação. Após isso, foram realizadas intervenções nos demais bairros. As pistas da Avenida Presidente Kennedy foram alargadas para 7 metros e recapeadas. Contam com duas faixas de rolamento em cada sentido. Ao longo da via foram inseridos bolsões para ônibus e estacionamento de veículos (de 30 a 40 metros de extensão, comportando de seis a oito veículos). As calçadas ganharam nova cobertura de bloquetes intertravados de concreto. Também foi colocado piso podo tátil, instaladas rampas e guias rebaixadas para atender ao portador de necessidades especiais. Toda a Avenida conta com ciclovia, com 3 metros de largura, interligada ao sistema cicloviário já existente nas Avenidas Roberto de Almeida Vinhas e Castelo Branco". (Alberto Mourão http://albertomourao.com.br/)


DEMARCANDO TERRITÓRIOS POLÍTICOS


Na disputa pelo controle das instituições municipais, as forças e lideranças costumam demarcar territórios, visando a conquista, manutenção e perpetuação dos seus objetivos políticos. O mesmo acontece nas demais esferas de poder constitucional. Uma das formas mais comuns dessa prática é dar nomes aos bairros, ruas, avenidas, praças e monumentos que identifiquem esses interesses. De tempos em tempos essas peças da organização e decoração urbana mudam de nome, são revividos ou então relegados ao abandono quando seus propositores perdem prestígio politico, seja pelo tempo ou alguma circunstância que foge do controle dos mesmos. 

Em Praia Grande esse fenômeno já acontecia eventualmente quando a cidade ainda era bairro vicentino, por meio de empresas de loteamento com denominações mercadológicas e algumas homenagens, e passou a ser mais constante quando os interventores foram afastados e um líder local eleito assumiu a governança do município. Nesse caso específico foi o prefeito Dorivaldo Loria Júnior, "Dozinho", inaugurando na Praia Grande emancipada essa antiga prática de demarcação territorial por meio da denominação ideológica dos pontos geográficos. Dozinho assumiu o poder no auge do chamado regime exceção implantado em 1964 e endurecido pelo Ato Institucional nº 5 em 1969. 

Mesmo sendo eleito pelo voto direto e democrático, o prefeito que também lutou pela autonomia da cidade buscou manter um claro alinhamento cívico-ideológico com a ditadura militar que governou o país mais de 20 anos. Observando as denominações dadas por ele aos antigos e novos pontos geográficos, e também aos monumentos, é notória a sua inclinação pelos heróis militares antigos e figuras dominantes do regime de 1964. Outra característica desse prefeito foi a sua admiração, muito comum na época, ao "American way of life", culto ao modo de vida dos EUA, iniciado no Brasil em 1945 e acentuado durante a Guerra Fria, quando o General Eurico Gaspar Dutra assumiu o poder após a deposição de Getúlio Vargas. 

 Dozinho era admirador da figura mítica de John F. Kennedy, presidente democrata americano e dono de uma das mais agressivas políticas externas contra a URSS e o Bloco Comunista. Kennedy, que também notabilizou-se pelo impulso ao programa espacial americano, foi assassinado em 1963, porém, antes da sua morte, foi um dos articuladores que colocou os militares brasileiros alinhados aos EUA no poder em 1964. A principal e mais extensa avenida de Praia Grande ganhou de homenagens o prefeito Dozinho e do seu grupo o nome do presidente a mais popular daquele contexto. O nome Presidente Kennedy repetiu o fenômeno de homenagens a diversos presidentes norte americanos e aparece em quase todas as cidades que sofriam transformações urbanas, incluindo as emancipações na região do ABC. 

Foi uma época que também seria marcada pela tragédia da morte do seu irmão e secretário de justiça Bob Kennedy em 1968. Bob era o mais forte candidato à presidência para a sucessão de Lyndon Jonson. Nesse período também foram assassinados nos EUA líderes negros que lutavam contra a discriminação racial - uma bandeira assumida pelos Kennedy- como o moderado e pacifista Martim Luther King e os radicais Malcoml-X e Fred Hampton (Panteras Negras). Em 1969, ano da eleição de Dozinho, ecoava no mundo e em Praia Grande a chegada do Homem à Lua, promessa de Kennedy feita oito anos antes num discurso em Berlim e concretizada na época que Praia Grande elegeu seu primeiro prefeito.


O VERANISMO E A TRANSFORMAÇÃO URBANA


 Concepção da Ponte do Mar Pequeno, em São Vicente/SP. Imagem: Secretaria de Transportes do Estado de São Paulo/Dersa. Esse empreendimento mudaria radicalmente a história da cidade, permitindo o acesso direto, antes feito somente pela Ponte Pênsil e pela linha ferroviária do litoral sul.


Até o final dos anos 1970 o único acesso rodoviário de grande contingente à Praia Grande era a Ponte Pênsil, inaugurada em 1914. A emancipação em 1967 deu autonomia ao novo município, porém o isolamento persistiu durante muitos anos e a cidade permaneceu estática e repleta de problemas de infra-estrutura. Essa realidade mudaria radicalmente quando o projeto da nova ponte, criado em 1965, saiu do papel e serviu como o empreendimento propulsor do desenvolvimento do litoral sul. A ponte seria o ponto de recepção de veículos do sistema Anchieta-Imigrantes tornando-se um eixo de ligação rápida entre os municípios do litoral sul e Vale do Ribeira. Essa obra atenderia também a demanda de novos empreendimentos imobiliários, com novos loteamentos, exigindo um plano diretor e um novo traçado urbano. O grande propulsor dessa transformação foi o então governador Paulo Salim Maluf, que já havia retomando o projeto de construção da ponte em 1972, quando ainda era secretário de transportes do governador Laudo Natel. Como governador, e também particularmente como investidor, Maluf atualizou o projeto e abriu novas perspectivas dos negócios imobiliários, setor que se tornaria sólido e responsável pela expansão urbana nas décadas seguintes. Assim como aconteceu com alguns pioneiros - sobretudo com o empreendimento da Cidade Ocian - as administrações pós-ponte perceberam o potencial de crescimento desse setor e passaram a influir diretamente nesse segmento, dando um direcionamento estratégico para a ocupação territorial. Surge a partir daí uma verdadeira indústria imobiliária, movimentada por inúmeros pequenos construtores de casas geminadas, espalhadas nos bairros próximos e distantes da área central; e também os grandes construtores de edifícios de apartamentos, cujo ritmo acelerado dura até hoje. De bairro vicentino isolado e muitas - vezes abandonado pela administração insular- a município emancipado, Praia Grande foi se transformando exponencialmente até se tornar no início do novo século a promessa de ser a próxima metrópole da região. Muito semelhante ao que aconteceu com Santos em 1540, quando criou sua própria vila e redimensionou sua vocação portuária.


19 de dezembro 1981 - Inauguração da pista descendente da Ponte do Mar Pequeno. Claudio Sterque


O VERANISMO, O FLUXO FERROVIÁRIO E RODOVIÁRIO 

O veranismo ou ocupação sazonal sempre foi a base econômica das cidades do litoral, cuja geografia reúne numa só localidade três importantes e muito consumidos atrativos naturais: a serra do mar, os rios e mangues e principalmente as praias, que concentram o maior contingente de consumidores de lazer, pelos custos baixos e fácil acesso e retorno aos lugares de origem.

A crescente demanda das temporadas e a hospedagem em massa provocou uma super oferta de imóveis de pequeno espaço e uso por cobrança diária, como alternativa popular à hospedagem hoteleira. O proliferação dos famosos "kitnetes" nos anos 80 e 90 foi tão alta que a prefeitura foi obrigada a solicitar à Câmara uma legislação específica exigindo uma área mínima para construção de apartamentos.

Outra ação controladora foi a proibição de estacionamento de ônibus na orla, que ocorria em total desordem, geralmente na faixa de areia das praias. A ideia era conter os efeitos negativos do turismo predatório no qual os frequentadores não consomem durante sua rápida permanência, porém deixam ao retornarem, além do prejuízo econômico, toneladas de resíduos e alta carga de detritos orgânicos. A lei surtiria efeito à médio e longo prazo transformando gradualmente o perfil social e aquisitivo dos empreendedores e também turistas em Praia Grande.

Notícia do jornal Cidade de Santos (02 de maio de 1969). O governador Abreu Sodré anunciava a doação de 26 terrenos em Praia Grande para construção de colônias de férias.

Uma marca importante da ocupação veranista massiva da cidade foi aparecimento das colônias de férias e de lazer, modelo alternativo da rede hoteleira e dos aluguéis de casas, apartamentos e kitnetes. Esses estabelecimentos são empreendidos e administrados por associações e entidades de classe, sindicatos de trabalhadores e grandes empresas, recebendo durante o ano todo, em 31 unidades, um grande fluxo de hóspedes da Capital, região do ABCD e interior. Em todo o litoral paulista, elas são no total 160 unidades, refletindo o histórico processo de industrialização ocorrido na Grande São Paulo e também a proximidade do principal foco de atração dos consumidores desse tipo de lazer: a Baixada Santista. 

Em Praia Grande está localizado o maior número de colônias de férias e lazer da região.  Com exceção de alguns bairros da orla, 80% das colônias se concentraram na Vila Mirim, instaladas na conhecida avenida dos Sindicatos. A colônias juntas ofertam 12 mil apartamentos para altas e baixas temporadas. 

Em décadas passadas Praia Grande sediava congressos de municípios e, na falta de estruturas hoteleira suficiente, por solicitação da prefeitura,  as colônias atendiam essa demanda de hospedagem de pernoite. 

A escolha dessa parte da orla da cidade para concentrar e estruturar  as instalações das colônias foi motivada pelo histórico de frequência de veranistas de classes C e D que buscavam hospedagem rápida  e de baixos custos desde a década de 1940. Geralmente eram casas de veraneio alugadas por curto período e algumas delas, com ampliação de leitos, passaram a funcionar como pequenos estabelecimentos informais de recepção e hospedagem. 

Ao contrário do que superficialmente se divulga, as colônias não são grandes geradoras de empregos - como postos fixos de trabalho-  nem de fomento de consumo turístico. A maioria delas possui em média 6 a 8 funcionários na alta temporada; e 3 a 5  nos períodos de queda de frequência. Raramente os hóspedes deslocam para os centros de compras e serviços próximos dos centros comerciais, pois chegam à cidade por meio de transporte coletivo fretado ou de linha regular, com permanência curta. Esses dois fatores dificultam a mobilidade turística de consumo.  As colônias também apontadas como principal causa da ausência e desinteresse de investimentos hoteleiros na cidade. Entretanto, é preciso lembrar que muitas delas são economicamente deficitárias e só funcionam por serem mantidas pelas entidades as quais pertencem, com recursos das contribuições dos associados. Já houveram reivindicações  e projetos de desoneração de custos das colônias por meio de isenção de IPTU, medida que foi rejeitada pela prefeitura, alegando que elas são jurídica e igualmente tratadas como todos os estabelecimentos de serviços que usufruem dos recursos naturais e artificiais que a cidade oferece.


Avenida dos Sindicatos, na Vila Mirim nos anos 1970, área principal das colônias de férias em Praia Grande. Acervo: Claudio Sterque


AVENIDA DOS SINDICATOS

"Maior complexo de colônias de férias da América Latina, conta com 32 colônias em seus 1.260 metros de extensão. São aproximadamente 10 mil leitos com estrutura adequada para atender turistas de todos os pontos do País. Sua história começa em 1870, quando o imigrante português Francisco Antônio da Silva, proprietário do sítio Boaguaçu, faleceu e deixou em testamento para seus escravos a área compreendida entre o atual Bairro Ocian e a divisa com Mongaguá. A determinação era de que nenhum deles poderia vender suas respectivas partes, mas quatro deles acabaram dispondo de suas terras para uma construtora, o que levou à contestação das terras em 1911, por contrato de venda irregular. Em 1962, uma comissão de representantes de vários sindicatos requisitou à Secretaria Estadual do Trabalho uma área para a construção das colônias, o que foi atendido em 1969". Fonte: Site da PMPG

 COLÔNIAS DE FÉRIAS SEDIADAS EM PRAIA GRANDE

1. Colônia de Férias da Apeoesp

2. Colônia de Férias dos Empregados do Comércio do estado de São Paulo

3. Colônia de Férias dos Funcionários Da Assoc. Comercial do Estado de São Paulo

4. Colônia de Férias da Saúde

5. Colônia de Férias da Difusão Cultural e artística

6. Colônia de Férias da União dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo

7. Colônia de Férias do Clube dos Sub-tenentes e sargentos do II exército

8. Colônia de Férias do Sindicato dos Trabalhadores de minério e derivados de petróleo

do Estado de São Paulo

9. Colônia de Férias dos Gráficos

10. Colônia de Férias dos Metalúrgicos de Santo André

11. Colônia de Férias dos Professores do Estado de São Paulo

12. Colônia de Férias dos Taxistas

13. Colônia de Férias dos Trabalhadores em Alimentação

14. Colônia de Férias dos Trabalhadores nas Indústrias dos Artefatos de borracha,

pneumáticos e afins

15. Colônia de Férias dos Eletricitários de Campinas

16. Colônia de Férias da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo

17. Colônia de Férias dos Trabalhadores da Indústria do Vidro, Cerâmica e Ótica.

18. Colônia de Férias da Federação dos Empregados em Turismo e Hospitalidade de São

Paulo

19. Colônia de Férias da Federação dos Têxteis

20. Colônia de Férias da Federação dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do

Estado de São Paulo

21. Colônia de Férias da Federação dos Empregados do Comércio Hoteleiro do Estado de

São Paulo

22. Colônia de Férias da Federação dos Trabalhadores na Indústria de Papel, papelão e

cortiça do Estado de São Paulo.

23. Colônia de Férias dos Ferroviários Hary Normantos

24. Colônia de Férias da Indústria Farmacêutica

25. Colônia de Férias do Sindicato das Costureiras e trabalhadores nas ind.dos munic.

Osasco e São Paulo

26. Colônia de Férias do Sindicato dos empregados na indústria de joalheria e relojoaria

de São Paulo

27. Colônia de Férias do Sindicato dos Mestres e Contra-mestres da Fiação e Tecelagem

28. Colônia de Férias do Sindicato dos trabalhadores na Indústria e Tecelagem Santo

André e Mauá

29. Colônia de Férias do Sindicato dos Coureiros, Sapateiros e Vestimentarista

30. Colônia de Férias do Sindicato dos Aeroviários no Estado de São Paulo

31. Colônia de Férias dos Trabalhadores na Indústria de Construção e do mobiliário de

Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.


Fontes: 


COLÔNIAS DE FÉRIAS: TURISMO E LAZER DO TRABALHADOR

1. Fernando Estima de Almeida. Docente e Pesquisador do Centro Universitário SENAC SP

2. Maristela de Souza Goto Sugiyama. Docente e Pesquisadora do Centro Universitário SENAC. 

GT “Turismo Social” do IV Seminário de Pesquisa em Turismo do Mercosul – Caxias do Sul, 7

e 8 de julho de 2006.


ORGANIZAÇÃO, ESTRUTURAS E IMPACTO DAS COLÔNIAS DE FÉRIAS DOS TRABALHADORES: ALGUNS ESTUDOS DE CASO. Luiz Roberto Karklis. Dissertação de Mestrado da FFLCH-USP. Dep. de Geografia. São Paulo, 2008.


Jornal noticiava em 1970 o aumento de colônias de férias em Praia Grande.


O VERANISMO DA FÉ

DALMO DUQUE


Festejos de Iemanjá no final dos anos de 1960 no Boqueirão. Imagem Museu da Cidade.



UMA CIDADE NOVA TORNA-SE CENÁRIO DE UMA NOVA RELIGIÃO

Segundo o memorialista Claudio Sterque, uma das festas de Iemanjá realizadas nos anos 1970 em Praia Grande chegou a reunir mais de 1 milhão pessoas na orla, contando adeptos e curiosos que vieram de inúmeros lugares, sobretudo da Grande São Paulo, para celebrar e admirar um dos cultos mais populares do Brasil naquela época. 

As festas religiosas já aconteciam na cidade desde a década de 1950, mas o ápice desse culto aconteceu quando a televisão à cores começou a entrar nos lares brasileiros exibindo todas as nuances da religiosidade afro-indígena em novelas baseadas na obra de Jorge Amado e nas temáticas românticas da escravidão no período imperial (A Escrava Isaura, A Moreninha, Senhora, O Noviço). 

Um pouco antes desse período, no final dos anos 60, Vinícius de Moraes e Baden Powell cantavam seus "afrosambas". Em parceria com Toquinho, Vinícius recheou a trilha sonora da novela O Bem Amado com temáticas do candomblé. As escolas de samba aos poucos abandonavam o ufanismo cívico do regime militar para mergulhar nos enredos de exaltação de temáticas africanas. O mercado fonográfico emplacou no rádio e na TV durante muitos anos os sucessos das canções caipiras místicas e afro-indígenas de Ruy Maurity e inúmeros outros compositores que flutuaram nessa moda da década de 1970. A cantora Clara Nunes, que iniciou no samba-canção e na bossa nova, redirecionou sua carreira artística, seu repertório e visual tornando-se praticamente uma porta da voz nacional dessa cultura que despertou o orgulho e auto-estima das classes baixas, quase sempre obrigadas a esconder as suas preferências e práticas religiosas de terreiro. 

Este foi o Brasil, de sucessivos anos, que levava milhões de turistas e adeptos às praias nos fins de semana, nos dias de Iemanjá e principalmente nas passagens de ano "pulando alegremente as sete ondas" para desejar e pedir boa sorte nos anos que começavam. Nunca a expressão "saravá" foi tão utilizada e pronunciada para saudar amigos e comemorar momentos de confraternização. Nas duas décadas seguintes seria a vez do "axé". 

Como muitas outras cidades litorâneas do Brasil, Praia Grande tornou-se o principal cenário paulista dessa celebração espetacular da religiosidade e do sincretismo religioso brasileiro. A demanda religiosa era tão alta que foi necessária a criação de um projeto específico para organizar o fluxo de turistas. Foi quando foi criada  a Semana de Iemanjá, na Cidade Ocian.  

O historiador Silvio Luis do Anjos lembra que os anos 1970 os festejos de Iemanjá tomavam toda a orla de ponta a ponta. "Hoje os festejos, com a regulamentação da entrada de ônibus de turismo caíram bastante em relação a frequência daqueles anos e nos dias de hoje me parece que a montagem de tendas para a festa foram também disciplinadas e obedecem certas regras, assim a festa acontece somente próxima à estátua de Iemanjá na Vila Mirim". 

O SINCRETISMO COMO EXPRESSÃO E REFLEXO DA MISCIGENAÇÃO

As religiões populares e informais no Brasil sempre encontraram resistência e obstáculos por parte da classe dominante, mas também sempre souberam criar atalhos e alternativas para a sua livre expressão e manifestação. O sincretismo é um desses atalhos mais admiráveis e históricos, sugerindo que as crenças e religiões possuem muito mais pontos convergentes do que divergentes. 

Nessa perspectiva, é notório que o sincretismo estimulou o convívio, a integração e o afeto nas práticas inter-religiosas e também neutralizou a intolerância, o exclusivismo institucional e o sectarismo conflituoso. Esta foi a experiência secular que nasceu no período colonial, juntamente com a miscigenação etnoracial, e que marcou a nossa história nos 500 anos de formação da cultura brasileira. Ao catolicismo europeu trazido pelos jesuítas juntou-se de maneira mais ampla um conjunto de crenças e práticas religiosas de matriz africana e também de hábitos e ritos animistas indígenas. São elementos encontrados em todos os cantos do Brasil em forma de festas, alimentação, medicina natural, arte, artesanato, medicina natural, linguística, ética, religião e espiritualidade.

Surgido como mecanismo de defesa dos cativos e adaptação social nos engenhos e nas vilas coloniais litorâneas nos primeiros tempos da exploração europeia, o sincretismo interiorizou-se com o sertanismo e difundiu toda uma diversidade de concepções e práticas de fé. Uma diversidade formada pelos contatos humanos e suas diferentes formas de manifestação e regionalidade. Na estrutura rural do engenho - o convívio da casa grande com a senzala- e nos primeiros núcleos urbanos, surge o candomblé com suas marcas originais da África e também as primeiras adoções dos ritos católicos como os santos, as missas, os sacramentos e celebrações sagradas de sincretismo. Era uma forma de resistência, distensão religiosa e convívio possível entre brancos, negros, índios, mamelucos, mulatos, cafuzos, pardos e de todas as expressões étnicas que foram surgindo a partir da miscigenação, no litoral e no interior.

O processo de apropriação dos territórios indígenas pelos brancos acelerou o sincretismo religioso sertanejo e, no decorrer dos séculos, foi devolvido ao litoral e aos grandes centros urbanos as crenças mágicas e práticas curativas indígenas, já absorvidas pelos sertanejos. Estes, formando as massas de retirantes do sertão e também dos caipiras e caiçaras migrados para os grandes centros, foram os fundadores da umbanda, como a mais nova e autêntica expressão religiosa brasileira. Nascida como movimento social no século XX (pois já era bem antiga e dispersa como prática e conceito), a umbanda surge como busca de uma identidade e unificação - juntamente com o fenômeno da urbanização nas periferias das cidades - como religião de consolo e também afirmação social das classes baixas e miscigenadas. Nesse contexto também aparecem as manifestações populares protestantes, de matriz pentecostal, destoando das agremiações mais tradicionais (batistas, metodistas, presbiterianas e luteranas) que resultaria no evangelismo de massas. A maioria dessas novas igrejas pentecostais sofreram influência da umbanda e do candomblé quando muitos dos membros se converteram ao protestantismo, porém mantendo sincreticamente suas antigas práticas animistas. O mesmo fenômeno já havia acontecido nos grupos espíritas, influenciados pelos católicos e protestantes que passaram a seguir o kardecismo.

Foi essa alternativa social de fé ao catolicismo, ao protestantismo tradicional e também ao espiritismo, que se manifestou na Baixada Santista como movimento ao mesmo tempo religioso, folclórico e turístico; e que definiu e selou uma das marcas culturais mais importantes da vida balneária e cotidiana de Praia Grande. Uma cidade nova e inicialmente sem identidade cultural própria, além das bases tradicionais religiosas, acolheria não somente as novas coletividades mas também seus novos hábitos e crenças. A presença da umbanda e candomblé em Praia Grande, diferente dos demais cultos religiosos que se instalaram espontaneamente na região, teria uma conotação socio-econômica, por meio de um grande evento cultural do calendário turístico regional.

ANEXO

A FESTA DE IEMANJÁ EM PRAIA GRANDE

"A importância das festividades em louvor a Iemanjá aumenta de ano para ano, e muitos estudos têm sido feitos para explicar o fenômeno. Alguns sociólogos explicam a devoção, baseados como significativo e motivação, de que o povo precisa de prêmios materiais e símbolos concretos. Quando Iemanjá chega às areias, vem com suas cores, suas comidas e promessas, representa o sonho da mulher bonita e mãe carinhosa, fazendo parte da trilogia pela qual o homem luta: beleza, afeição e dinheiro.

Histórico - Em novembro de 1969, o prefeito Dorivaldo Loria Júnior e o sr. José Moura, na época presidente do Conselho Municipal de Turismo, entraram em contato com várias federações, sobre a possibilidade da realização do culto nas areias de Praia Grande, pois a cidade recém-emancipada oferecia duas condições essenciais para as oferendas: muito espaço (23 km de areia), a aceitação e a colaboração das autoridades do povo. Assim nasceu a realização da 1ª festa, que contou com aproximadamente 15.000 participantes.

Instituída pela Lei nº 244 de 3/3/1976 (autoria do ex-vereador Teodósio de Augustinis e sancionada pelo prefeito Leopoldo Estásio Vanderlinde), os crentes têm 7 dias inteiros para cumprirem suas "obrigações".

A lei veio não para dispersar, mas para disciplinar a descida de umbandistas, evitando assim as grandes concentrações. Mas, dia 8 é feriado no Município, tal a importância da festa que basta citar o desdobramento do pessoal do Serviço de Pronto Socorro, do Serviço de Salva-vidas e o recolhimento de crianças perdidas na praia, pela Organização Educacional e Esportiva dos Mirins, Círculo e Amigos do Menor Patrulheiro, orientados pelo SOS". Informativo Cultural, boletim informativo da Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande (Aceam). Publicado em junho de 1979, no número 19 (ano VII). Fonte: Novo Milênio.


MOBILIDADE VERANISTA E TURÍSTICA



Anos de 1940 no Gonzaga, com o primeiro ônibus que fazia a linha Santos- Praia Grande, regularmente. Na lateral da jardineira a inscrição Gonzaga-Praia Grande. O registro é do empresário Antonio Augusto de Sá Lopes, conhecido como o "desbravador de Praia Grande". Posteriormente essas linhas foram vendidas para a Breda Transportes. Interessante notar que apesar da trajetória de Antonio Augusto, Praia Grande é o único munícipio do Litoral Sul que nunca o homenageou. Ao contrário de Mongaguá, Peruíbe e Itanhaém, que o reconhecem como um desbravador e uma personalidade histórica para o desenvolvimento da região. Claudio Sterque.


Atualmente as cidades do litoral contam como via de acesso com uma ampla malha rodoviária para facilitar a mobilidade veranista e turística. Num passado recente dependia de outras formas de acesso como as ferrovias e os primitivos transportes feito por pequenas e médias embarcações nas travessias aquáticas. As primeiras décadas de ocupação em Praia Grande foram influenciadas pela construção da Ponte Pênsil, iniciada em 1910 e concluída em 1914. Antes a travessia da ilha de São Vicente para o continente era feita em pequenas embarcações, do Morro dos Barbosas até o Japuí, no início avenida Tupiniquins; e do Porto Tumiaru até Porto do Campo, pelo Mar Pequeno. A ponte foi uma obra pensada originalmente como duto do esgoto de Santos para a ponta do Itaipu, porém se tornaria a mola propulsora de transformação da região. Sua construção teve o mesmo efeito especulativo provocado meio século depois com a construção da Ponte do Mar Pequeno, atraindo todas as diversidades de negócios imobiliários, legais e ilegais, em todo o litoral sul.

Nas décadas de 1930 e 1940 o interesse pelos negócios imobiliários em Praia Grande eram estimulados pelo acesso rodoviário da Via Anchieta e também da linha ferroviária Mairinque-Santos (ramal Juquiá) que se estendia até Peruíbe e Cajati, a partir da Estação Samaritá, em São Vicente. Duas estações dessa linha estimularam o crescimento dos bairros próximo a Mongaguá: a estação da Vila Balneária e a Estação do Balneário Flórida. Isso explica o fato desses bairros, sobretudo Solemar, terem sido precursores do movimento político emancipação de Praia Grande. Na época a propaganda imobiliária já ofertava terrenos usando como ponto de atração a facilidade de acesso pelos trens que passavam pela região em direção ao Vale do Ribeira.

 O ramal foi construído pelos ingleses da Southern São Paulo Railway, entre 1913 e 1915, partindo de Santos e atingindo Juquiá. Em novembro de 1927, o Governo do Estado comprou a linha e a entregou à Sorocabana, já estatal, no mês seguinte. O trecho entre Santos e Samaritá foi incorporado à Mairinque-Santos, que estava em início de construção no trecho da serra do Mar, e o restante foi transformado no ramal de Juquiá.

A partir daí, novas estações foram construídas, e em 1981, o ramal foi prolongado pela Fepasa, já dona da linha desde 1971, até Cajati, para atender as fábricas de fertilizantes da região. O transporte de passageiros entre Santos e Juquiá foi suspenso em 1997, depois de 84 anos. A linha seguiu ativa para trens de carga que passavam quase diariamente, transportando enxofre do porto para Cajati, até o início de 2003, quando barreiras caíram sobre a linha na região do Ribeira. O transporte foi suspenso e a concessionária Ferroban desativou a linha.

As estações que estão dentro dos limites de Praia Grande eram:

Estação Ferroviária de Solemar, inaugurada em 1944. Fica ao lado da SP-55, no seu km 300; 

A estação de Ferroviária de Pedro Taques foi inaugurada como parada em 1929, com a quilometragem 27450, já pela Sorocabana e fica ao lado da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, no seu km 293;

Estação Ferroviária Vila Balneária, inaugurada, já pela Sorocabana, em 1928, como "parada Villa Balnearia", construída e doada à ferrovia pela "Cia. de Melhoramentos de Villa Balnearia", recebendo a quilometragem original de 30,508. Fica ao lado da SP-55, no seu km 296;

Estação Ferroviária Balneário Flórida, inaugurada em 1928 junto com algumas das residências ainda existentes no local, sendo que a plataforma antiga da estação já não existe mais, restando apenas a plataforma nova inaugurada nos anos 50. Fica ao lado da SP-55, no seu km 299;

Estação Ferroviária Bandeirantes, inaugurada nos anos 50, a Estação Ferroviária Bandeirantes fica na bifurcação da SP-55 com a Via Expressa Sul, no Bairro da Mirim e era também chamada de Vila Bandeirantes. Dela restam apenas a plataforma e a estrutura metálica vertical.

Pela proximidade com Solemar e também por ser, como era Praia Grande, um antigo bairro vicentino, a estação de Agenor de Campos, principal bairro de Mongaguá,  passou a fazer parte do circuito veranista do litoral sul e com grande afinidade com os balneários  localizados  perto da ferrovia. Segundo Marcelo Diano ( O Livro de Mongaguá), a estação de Agenor de Campos foi inaugurada em 1942:

"Quando encontrei os documentos do Sr. Agenor de Campos, no que sobrou do espolio da antiga FEPASA, percebi que foi um homem simples, funcionário da E. F. Sorocabana, mas que teve sua importância em Mongaguá. Projetou as antigas linhas de Trolley, que traziam a produção de bananas de Mongaguá para a ferrovia, de onde seguiam ao Porto de Santos para exportação. O detalhe curioso é que a estação ferroviária do bairro não existia, o trem parou uma vez ali simplesmente para os funcionários da ferrovia seguirem para a casa do Sr. Agenor em virtude de um churrasco. Para o maquinista saber onde parar foi colocada uma faixa: “AGENOR DE CAMPOS”. Passou a ser uma parada eventual e posteriormente uma estação ferroviária oficial. A partir daí toda uma região que cresceu ao redor passou a ter essa denominação"



Estação da linha Santos -Juquiá nos 1940 em Solemar. 


 

A TRANSFORMAÇÃO  ECONÔMICA E COMERCIAL 


Antigas e atuais fontes históricas informam que o comércio primitivo de Praia Grande sempre esteve ligado ao abastecimento de alimentos, por meio de feiras e postos de trocas entre os sitiantes do Porto do Rei, do rio Peaçabuçu e do Porto Tumiaru, na área insular. Um dos poucos registros conhecidos dessa atividade econômica específica são  os relatos biográficos do agricultor e comerciante português Fernando Bittencourt, herdeiro do sítio Acaraú, localizado nas margens do rio Mariana, na área continental serrana; e os sítios do Samaritá, um dos quais pertencia Francisco Xavier dos Passos e depois vendido ao comerciante espanhol  José Ignácio Requejo. Provavelmente os demais sítios realizam as mesmas práticas de circulação de mercadorias, mas não tiveram suas atividades registradas. Bittencourt teve esse privilégio porque era vereador e ganhou fama com seus produtos artesanais, sobretudo a conhecida aguardente. O Sítio Acaraú é um exemplo de como era a dinâmica produtiva dos sítios de Praia Grande e do litoral sul, que aliás existiam também em na área insular vicentina (Valença, São Jorge, Barreiros), nos morros e na área continental de Santos (Cubatão, Ilha Diana, Monte Cabrão, Guarujá e  Bertioga). Muitos desses sítios eram remanescentes de antigos engenhos de açúcar, como os do Japui e Itaipu. Na biografia de Bittencourt (Vultos Vicentinos), Edson Telles de Azevedo descreve a estrutura agrícola e pecuária do sítio e sobretudo o percurso fluvial entre a serra e a ilha, para escoar sua produção no Porto Tumiaru. Essa rotina provavelmente era mesma dos sitiantes do Itaipu, do Porto do Rei e de Mongaguá. Bittencourt navegava pelo rio Mariana até o Mar Pequeno, expunha seus produtos no Porto,  abastecia seus clientes comuns e revendedores e, terminada a jornada semanal, seguia para sua "casa de cidade" para um repouso vespertino. À noite atuava na política nas sessões da Câmara Municipal. Nos dias seguintes retornava ao sítio.

Na faixa da orla havia o comércio pesqueiro artesanal praticado pelos caiçaras, em diversos pontos, mas sobretudo no Boqueirão, pela proximidade dos sítios e das primeiras casas de veraneio que foram parecendo com os loteamentos a partir da década de 1920. Na medida que a população e os loteamentos foram crescendo cresceu também a oferta de produtos serviços aos novos ocupantes, moradores fixos e veranistas.

"A Vila Itaipu era forma por três ruas: uma delas, Rui Barbosa, tinha um pequeno número de casas de veraneio. Havia também, na esquina com a rua Bahia, um armazém onde se vendia de tudo um pouco. Seu proprietário, Franklin de Moura, morava em São Vicente e, diariamente, vinha a Praia Grande trabalhar no seu comércio (...)" - Circe Sanchez Toschi. Praia Grande antes da emancipação.

Circe recorda na mesma obra que o comerciante Antônio Coraine foi o proprietário da mais antiga padaria instalada na fase de formação urbana.  O pequeno estabelecimento,  quase doméstico, funcionava ao lado do Forte Itaipu e atendia, além dos militares e seus familiares, bem como as primeiras residências particulares do vilareja que ali se formava. Nessa época os sítios já estavam sendo desmembrados em pequenas chácaras, nas quais eram comuns as plantações de ananás, cajueiros, carambolas e bananas.

A urbanização nascente e em franco desenvolvimento recebeu, sem dívida o impulso da construção da Ponte Pênsil, que trouxe para Praia Grande o movimento turístico e comercial dos veículos motorizados, automóveis, caminhões, as jardineiras de passageiros e também as motocicletas. Registra-se então, também pela memória de Circe Sanchez Toschi, a instalação  em 1930 de uma pequena e manual  bomba de gasolina Texaco. Sua localização já foi pensada estrategicamente contando com o aumento da circulação de veículos no Boqueirão: a Bomba do Edmundo, como ficou conhecida, ficava em frente ao mar, na esquina da praia com a atual avenida Costa e Silva. Além de combustível, Edmundo tinha de prontidão um caminhão guincho para socorrer os veículos que encalhavam na areia da praia. O serviço extra tinha ajuda de pescadores que sempre estavam por ali dispostos a ganhar alguns trocados de gorjeta. Ali por perto, a nossa memorialista localiza os pioneiros comerciantes veranistas: O Bar do Sérgio Rodrigues e do Cartelha, armazém que tinha um procurado aparelho de telefone; e como vizinho o estabelecimento de José Carlos Borstenez e sua esposa Brígida, que todos conheciam pelo apelido do proprietário: restaurante do "Açúcar".  Borstenez, desportista e figura muito animada e popular,  era também  subdelegado de polícia, inspetor de quarteirão. Em 1953, era ativo membro do diretório político do Partido Social Progressista-PRP. Na avenida Tupiniquins, em 1952, Natanael de Abreu abriu a primeira farmácia da cidade. Era uma ramo de negócio tão raro que o vereador Oswaldo Toschi teve que requerer uma lei concedendo isenção de impostos por três anos  para os estabelecimentos já em funcionamento e também para os novos. 

 


OS BALNEÁRIOS E AS COLÔNIAS DE FÉRIAS


Balneário Brasília nos anos 1970 na orla do Boqueirão. Acervo Museu da Cidade. 

A ocupação veranista em Praia Grande remonta às primeiras décadas do século XX por meio do comércio e dos primeiros loteamentos. A grande extensão da orla e a falta de segurança no então bairro vicentino obrigava os comerciantes a se organizarem por conta própria, sobretudo quando se tratava do fluxo de turistas-dia. 

A construção de balneários solucionou o problema nos bairros mais próximos da Fortaleza de Itaipu e também dos mais distantes, na direção do litoral sul. Neles, o turista poderia ter longa ou curta permanência, dependendo da época e das instalações. Eram oferecidas comumente o serviço de gabines de troca de trajes para os banhistas.  

Os balneários se desenvolveram mais no bairros cujo acesso era mais rodoviário e menos nos locais mais próximos da ferrovia que ligava São Paulo, Santos, São Vicente (área continental) e os bairros próximo à Mongaguá, na direção de Itanhaém e Peruibe.  Geralmente eram criados por comerciantes de origem espanhola ou portuguesa, que já conheciam esse negócio nos seus países de origem. Prosperaram durante algumas até que, na década de 1990, foram perdendo gradualmente a força comercial por causa da restrição da entrada e permanência de ônibus na cidade. 

O prefeito Dozinho, com verba federal, chegou a construir um terminal rodoviário único para esse fim, mas não teve sucesso na empreitada, pois não era vantajoso para os comerciantes nem para os turistas. 

Com o prefeito Mourão, o controle de acesso de ônibus se torna mais rigoroso provocando o fechamento praticamente de todos os balneários, mesmo aqueles que estavam em frente à orla. 

Outro fator que contribuiu para o desaparecimento desses estabelecimentos veranistas foi a crescente ampliação das colônias de férias, cuja organização obedecia as regras de recepção dos ônibus turísticos.  

No anúncio de jornal  acima,  de homenagem ao prefeito Dozinho, em 1969, nota-se ainda a presença influente  de um terço de estabelecimentos balneários, juntamente com a maioria de negócio ligados ao veranismo, principalmente de alimentação. 

As primeiras cabines para troca de roupas e guarda de objetos em Praia Grande, anos de 1920 na Guilhermina. Acervo Circe Sanchez Toschi. Museu da Cidade. 



DISCURSÃO NO GRUPO DO IHGPG (16/02/2025)

Dalmo Duque. Bom dia pessoal. Uma dúvida sobre um assunto importante para entendermos a formação econômica da cidade : a origem e papel dos balneários como tentativa de organizar o veranismo-turismo de um dia. Já existia antes da emancipação? Quando foram extintos? As Colônias de Férias sucederam os balneários ou já existiam simultaneamente e se impuseram por que tinham formato mais organizado?   É um assunto importante para entender a geografia, a história  e a transformação da cidade. Por exemplo: o Balneário Flórida ia ser balneário ou já nasceu com nome de loteamento? 

Claudio Sterque: O Flórida como nome surgiu com o loteamento.  O sr. Heitor Sanchez depois de conhecer a Flórida, se apaixonou e quis fazer algo parecido  aqui. Daí batizou o loteamento de Flórida. 

Os balneários surgiram na década de 20. O primeiro foi no Jardim Guilhermina. Depois nos anos 40 surgiram as colônias.

Vale ressaltar que os balneários como foram construídos aqui e planejados, são muito parecidos com os que tinham em Portugal e a maioria desses comerciantes eram portugueses. Portugueses e espanhóis.

Dalmo Duque: Referência curiosa. Mongaguá e Itanhaém , bem como os bairros de Praia Grande próximos da ferrovia tinham esse perfil. A Ocian parece que foi pensada como um misto de balneário e apartamentos de temporada, modelo da Costa Leste dos EUA.

Claudio Sterque: As redes de pesca puxadas por bois, também vieram de Portugal

Silvio Luís dos Anjos: Dalmo, às vezes a gente pode parecer um pouco cruel com as palavras, um pouquinho drástico em chamar esse tipo de turismo de turismo predatório, mas era isso que acontecia realmente nos anos 1960 e 1970 em nossa cidade. Esse tipo de turismo de um dia era realmente predatório. Eu me lembro que aqui nos anos 1960 e nos anos 1970, a avenida Kennedy, que ainda era toda em areião e havia matagal de ambos os lados, pouquíssimas construções, os ônibus de turismo de um dia invadiam a cidade e estacionavam preferencialmente naquela via. E não eram dois ou três, eram centenas e até milhares deles, que ficavam estacionados ao longo da Kennedy e também em outros locais, mas a Kennedy era talvez o estacionamento principal desses ônibus de turismo de um dia.

Eles vinham de São Paulo, do interior, da grande São Paulo,  encostavam ali e, desculpem até o termo, eles literalmente despejavam turistas na cidade, que dali iam a pé para as praias,  já traziam todo o farnel (como se diz em Portugal,  o farnel é o lanche, a merenda, o piquenique). Já traziam tudo,  não gastavam praticamente um tostão na cidade e alugavam as cabines de banho, que ficavam de frente para o mar. No Boqueirão, eu lembro bem, havia uma, na aviação, perto do Clube de Praia São Paulo, eu lembro que havia outra,  mas existiam outras ,porém dessas duas eu lembro bem.  E eles alugavam essas cabines de banho, se trocavam, iam para o mar,  faziam um piquenique na praia e antes de irem embora deixavam toda a sujeira para nós aqui. Então, era mesmo um turismo predatório, mesmo, porque eles só usavam a cidade e não nos traziam nenhum benefício.

Inclusive, alguns deles invadiam imóveis de particulares, (na época,  existiam muitas casas de temporada ali próximas à praia, algumas até de frente para a praia) para usar as torneiras, para se servir da água, já que na época os muros eram baixos,  então era possível invadir uma casa dessas com tranquilidade. Eles invadiam, às vezes arrancavam torneiras, barbarizavam e se lavavam ali mesmo, ou seja, era um turismo altamente predatório mesmo. Em 1993, ao disciplinar esse tipo de turismo, o prefeito Mourão agiu bem. Ele estipulou uma multa para esses ônibus  que viessem a cidade fazer esse tipo de turismo.

Havia apreensão do ônibus e havia uma multa pesadíssima. Então eles pararam de vir, e tinha que parar mesmo,  porque esse tipo de turismo não interessava a cidade. Na época , a entrada de ónibus de turismo  na cidade, pelo menos quando eu trabalhei na SECTUR, passou a obedecer determinadas regras. Os ônibus podiam entrar na cidade em duas situações: se fosse uma equipe de competição que comprovasse que viesse para alguma atividade esportiva,  ou se os ocupantes do ônibus tivessem uma reserva de hotel ou de colônia de férias, nesse caso podiam entrar. Caso contrário, o ônibus era apreendido e pagava uma multa pesadíssima para ser liberado .  Essas eram as regras.  Eu penso que a medida foi acertada. Não se trata de ser  contra o turista que vem aqui nos trazer divisas, eh preciso recebê-lo e bem. Mas é preciso que esse turista movimente o nosso comércio, faça compras no supermercado da cidade, abasteça nos postos da cidade,  e não simplesmente vir e deixar só a sujeira e a bagunça pra nós como acontecia naqueles anos. Penso então que a medida do prefeito naquela época foi acertada. A cidade que tinha a pecha de paraíso dos farofeiros, com razão, porque era mesmo,  aos poucos foi deixando essa pecha,  essa alcunha, esse apelido,  porque tornou-se uma cidade  diferenciada que passou a não mais receber esse tipo de turismo.

Observa-se hoje na cidade que ainda há esse tipo de turismo de um dia, porem em menor escala. Isso ainda existe porque há pessoas que vêm com seus carros particulares, e nesse caso não há como coibir.  Eles encostam ali na beira da praia,  também trazem a comida deles, e vão usufruir das praias , depois entram nos seus carros, e vão embora. Mas, ainda que haja esse tipo de turismo com veículos particulares, ele acontece em menor escala do que naquela época.  Naquela época, era uma vergonha o que acontecia aqui. Naquela época, muitos moradores da cidade, entre os quais eu me incluo, muitas vezes tínhamos vergonha de dizer que morávamos aqui diante do que acontecia.  Eu tinha um primo que veio de Portugal nos anos 1970 e passou aqui uns 20 dias, mais ou menos, hospedado aqui na casa de meus tios. Certa vez eu estava caminhando para a praia e eu o encontrei ali, sentado na mureta da praia .

Na época não havia o calçadão ainda. Ele olhava para a praia e dizia para mim, “meu Deus, que praia suja aqui, hein?” “Não há uma equipe de limpeza aqui?”.  Isso nos envergonhava. Hoje tudo isso mudou, nós caminhamos pela praia e ela está sempre limpa,  o turismo está disciplinado. Quem viveu naquela época sabe as dificuldades que nós tivemos aqui com esse tipo de turismo. Mas isso felizmente acabou.

Maria Luiza de Paiva: Aqui na Tupi eu,   há uns 15 anos, distribuí uma convocação onde colhemos mais de 500 assinaturas e acompanhados pelo então vereador conhecido como Toto Toschi fomos até o Coronel da Polícia solicitando  providências contra som alto e badernas que ocorriam pela vizinhança. Fomos atendidos e frequentemente policiais percorriam o bairro. Cheguei a processar um desses baderneiros na delegacia da mulher, por ofensas e desacato. Foi punido tendo que pagar  cestas básicas e sumiu do bairro.   Creio que essas ações e de outros solicitantes determinaram a criação de Lei do Silêncio que impõe multa de até $3000,00 para os infratores. Inclusive na orla da praia é proibido caixas de som com som alto. Eu sempre denuncio toda vez que alguém abusa. Vizinhos faziam bailinhos todo fim de semana. Denunciávamos,  a polícia comparecia e aos poucos as badernas cessaram. Hoje desfrutamos de sossego.

Kátia Giulietti : Excelente, Silvio. Você sabe que acompanhei bem de perto tudo isso. E você descreveu com perfeição a história da era da farofa e o depois, com a disciplina do turismo de um dia. 👏👏👏

Almir Douglas O. Marcellino:  Bom, eu ainda chamo o que acontecia em Praia Grande de Turismo Predatório (até pelo que vemos na academia, principalmente na pós-graduação, onde o assunto é mais evidente). Mas darei depois uma lida no texto. 

Kátia Giulietti: O Silvio chamou varias vezes de predatório. E era, sem duvida.

Almir Douglas O. Marcellino: Inclusive há estudos e pesquisas na EACH-USP sobre o assunto, dentre eles incluindo Praia Grande, onde faz-se um panorama sobre o que foi P Grande ontem e hoje. Eu mesmo comento que antigamente a cidade era a "Capital Nacional da Farofa", uma vez que a cidade era conhecida no país pelo seu turismo predatório e que não trazia renda para o município.


GOLPE NO TURISMO DE UM DIA

EDGAR D’ALL ACQUA


O autor, em pé ao centro, quando assessor do prefeito Dozinho recepcionando o ministro da Indústria e Comércio Roberto Cardoso Alves na gestão 1989/92


A péssima imagem da cidade propagada pelo país como “Paraíso dos Farofeiros” começou a incomodar a população fixa, que sentia vergonha de se declarar praiagrandense, e mesmo os veranistas, que assistiam ao desencadeamento de um processo de desvalorização de seus imóveis e degradação da qualidade de vida, tornando aquele antigo sonho da casa na praia e do sossego à beira-mar uma espécie de pesadelo.

Sentindo o clamor dos habitantes e veranistas por providências contra aquele estado de coisas, o então prefeito Wilson Guedes (1983/88) aplicou o primeiro golpe no turismo de um dia, ao decretar o fechamento dos balneários, medida que acabou ganhando a simpatia da opinião pública. Paralelamente, instituiu barreiras para coibir o acesso dos ônibus de excursão nos principais acessos ao Município, promovendo ainda a transferência das barracas de madeira da faixa de areia da praia para a faixa existente entre a mureta de contenção do mar e a Avenida Castello Branco, da orla marítima. 

A partir de então, o turismo de um dia ficou mais restrito, espalhando-se pelas praias mais distantes do trecho entre o Forte e o Jardim Guilhermina. Passaram a concentrar-se mais para os lados do Balneário Maracanã, da Vila Caiçara até a divisa com Mongaguá. Era caracterizado por uma estrutura completamente precária, para não dizer inexistente, e passou a assumir a condição de clandestino. 

Ao assumir pela terceira vez o governo do Município, após a gestão de Guedes, Dorivaldo Loria Júnior, o Dozinho, instituiu em seu plano de governo a construção do Terminal Turístico do Paquetá, empreendimento cuja construção se estendeu por toda a sua gestão e contou com uma pequena participação acionária da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), do governo federal, sendo entregue ao apagar das luzes dessa gestão, sem, porém, as condições legais para entrar em funcionamento. Enquanto não ficou pronto, porém, fazia-se vistas grossas aos ônibus de excursão que vinham às dezenas, e se espalhavam pela orla, entre a Vila Mirim e Solemar, sem qualquer tipo de controle. A situação ficou insustentável. 

Acontece que na mesma época, início dos anos 90, teve início uma reação em cadeia contra o turismo de um dia por parte dos municípios da Região Metropolitana da Baixada Santista. Guarujá e Bertioga, que chegaram a construir terminais turísticos com a finalidade de recepcionar os excursionistas de forma disciplinada, enfrentaram sérias dificuldades com depredações, brigas e ocorrências policiais e se viram impelidos a desativar esses equipamentos. Ávida por se livrar desse triste quadro, a população apoiava em massa qualquer iniciativa no sentido de conter aquela forma de prática do turismo de um dia. 

Em 1992, o então vice-prefeito Alberto Mourão, que estava rompido com o prefeito Dozinho, se lançou como candidato a prefeito com o slogan “Praia Grande exige respeito” e a proposta de resgatar a autoestima da população, apagando aquela imagem de “Paraíso dos Farofeiros” que Praia Grande ostentava. 

Mourão venceu a eleição e, ao assumir, em janeiro de 1993, uma de suas primeiras medidas foi promulgar a Lei Nº 793/93, que “disciplina a circulação e o estacionamento de ônibus de excursão provindos de outros municípios...”. Para ingressar na cidade, os ônibus tinham que ter como destino algum hotel, camping ou uma das colônias de férias que oferecesse estrutura de estacionamento. Os ônibus que desrespeitassem recebiam uma pesada multa ou eram apreendidos. O Terminal Turístico do Paquetá continuou desativado, servindo na verdade de estacionamento para os ônibus apreendidos, a maioria em precárias condições e com problemas de documentação, que chegavam a ultrapassar 300 em determinados fins de semana. Inicialmente, houve certa polêmica com relação à constitucionalidade da lei, no que se refere às restrições ao direito de ir e vir.

 Porém, chegou-se à conclusão que o Município estava apenas disciplinando a circulação e o estacionamento dos ônibus nos limites do seu território, o que era perfeitamente legal, segundo o Código de Trânsito Brasileiro. Tanto que, na sequência, outros municípios da região adotaram normas semelhantes, como Santos e Itanhaém. Aos poucos os ônibus de turistas de um dia começaram a buscar outros destinos e a ordem foi restabelecida.

O Corpo de Bombeiros recebeu novos equipamentos, um heliponto e quatro novos postos de salvamento, com o que o saldo de afogamentos que envergonhava a cidade caiu drasticamente.

A orla da praia ganhou um tratamento urbanístico, com calçadão, jardins, ciclovia, bancos, lixeiras e quiosques de alvenaria com banheiros em substituição às antigas barracas de madeira. E a própria praia ganhou um tratamento diferenciado. Mourão fez um pacto com os carrinheiros ambulantes para que cuidassem da limpeza no entorno de seus carrinhos e desenvolveu um projeto de construção de interceptores de esgotos para eliminar aquela sequência infindável de canais que corriam pela areia direto para o mar, causando doenças diversas aos banhistas, além de uma péssima impressão. Com isso, Praia Grande começou a ganhar uma visibilidade positiva, atraindo novos veranistas e investidores. Os imóveis valorizaram e as antigas kitinetes passaram a dar lugar para construções de médio e alto padrão, com apartamentos de 2 e 3 quartos, suítes e fino acabamento, nas quadras mais próximas da orla marítima.

O terminal turístico do Paquetá, maior elefante branco de Praia Grande. 

Em dezembro de 1992, o então prefeito Dorivaldo Loria Junior, num dos últimos atos antes de deixar o cargo, efetuou a entrega do Terminal Turístico, mesmo sem estar em plenas condições de funcionamento, já que, segundo noticiado na imprensa local, faltava à realização do processo licitatório para a concessão dos espaços (boxes, lanchonete, etc.) à exploração da iniciativa privada. O Terminal, concebido com capacidade para receber 500 ônibus de excursão por fim de semana, funcionou apenas dois finais de semana a título experimental, com um número de ônibus bastante inferior à sua capacidade, período em que teve vários equipamentos, como torneiras, chuveiros e bacias sanitárias, entre outros, quebrados e/ou levados por vândalos.

Diante de tal situação, a Prefeitura, por não dar conta de reposição dos mesmos e verificar a falta de condições de uso no estado em que se encontrava, resolveu mantê-lo inativo até que uma solução fosse encontrada para o melhor  aproveitamento do equipamento. Nesta mesma época, a Prefeitura de Santos fechava o seu Terminal Turístico, no então bairro de Bertioga, pelos mesmos motivos, e a questão do turismo de um dia em nossa região passou a ser discutida de forma metropolitana, através da Câmara Temática de Turismo do Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Baixada Santista – Condesb, órgão composto pelos prefeitos dos nove municípios da região e igual número de representantes do Governo do Estado.

 Enquanto a indefinição quanto à política regional relativa ao turismo de um dia permanecia, o então prefeito Alberto Mourão começou a utilizar o espaço do Terminal como palco de eventos culturais. Na oportunidade, realizou uma enquete com os moradores e frequentadores do local sobre a destinação que se deveria dar ao mesmo, sendo que a maioria optou pela transformação em um complexo educacional e cultural. Tiveram início então estudos de viabilidade para tal, porém, pela situação inacabada do mesmo, havia necessidade de um gasto ainda maior para sua adequação, o que inviabilizou financeiramente a concretização do projeto pela Administração Pública.

Nos anos seguintes, o prefeito Alberto Mourão continuou tentando dar várias destinações ao equipamento, como, por exemplo, transformá-lo em área de lazer do SESC. No entanto, o projeto não prosperou em razão do alto custo que o SESC teria para derrubar os mais de 6 mil metros quadrados de construção, já que a mesma não daria para ser aproveitada. Pensou-se, inclusive, em usá-lo como terminal de ônibus, porém, com o avanço da indústria automobilística, e devido ao pé-direito dos estacionamentos do Terminal ser muito baixo, constatou-se que os novos ônibus não conseguiriam estacionar devido à sua altura e comprimento, que impossibilitava até mesmo simples manobras.


*"Turismo Sustentável: Do Turismo que tivemos ao turismo que devemos ter". Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação de Turismo. Faculdade do Litoral Sul Paulista-Fals. Praia Grande . 2012


A ORGANIZAÇÃO DO COMÉRCIO

A iniciativa de organização do comércio em Praia Grande remonta o período vicentino das primeiras décadas do século XX quando os empreendedores dos primeiros loteamentos se mobilizavam para atrair compradores de terrenos. Para viabilizar os negócios era necessário oferecer infraestrutura básica e isso já era um grande obstáculo, pois dependia do serviço público. 

A Associação dos Amigos de Praia Grande, fundada em 1948, liderada por Heitor Sanchez e Nestor Rocha, com escritório em São Paulo, na rua José Bonifácio.  Foi a primeira organização comercial a se mobilizar para que o então bairro vicentino recebesse tratamento de políticas públicas visando a criação de uma rede de energia elétrica e abastecimento de água. Sem essa base seria praticamente impossível manter e ampliar a oferta de lotes residenciais e comerciais. Os complementos sanitários, de drenagem e pavimentação viram somente nas décadas e 1950 e 1960, quando Praia Grande estava já próxima da sua emancipação, evento que teve grande influência e que foi acelerado pela carência de serviços públicos, negligenciados pela administração vicentina. 


A AMPG tinha o seguinte quadro diretivo:

Presidente: Nestor Ferreira da Rocha.

1º Vicente Presidente: Comendador Joaquim Monteiro.

2º Vice Presidente: Júlio Vieira dos Santos.

1º Secretário: Heitor Sanchez.

2° Secretário: Manuel A.B. da Silva.

1º Tesoureiro: Raul B. Pavão.

2º Tesoureiro: Joaquim Alves Nogueira.


No Conselho Consultivo da entidade aparecem  nomes conhecidos na Capital como o Dr. Oscar Pedroso Horta, Major Silvio Magalhães Padilha, Prof. Sylvio Ubaldo Padilha, Dr. Raul Loureiro; e os conhecidos residente em Praia Grande : Oswaldo Toschi e Júlio Secco de Carvalho. .  


A  ASSOCIAÇÃO COMERCIAL E EMPRESARIAL

A segunda organização de empreendedores surge exatamente nesse contexto, quando a cidade já tinha um contingente populacional fixo e também um fluxo de veranista bastante ampliado, o que significava uma nova força política local de necessidades e contestações, que convergiam para a autonomia do município. 

As novas lideranças políticas de Praia Grande saríam do terceiro setor, cuja maior representatividade era a Associação Comercial e Empresarial de Praia Grande, fundada em 1967, no mesmo ano da emancipação e somente um ano antes da primeira eleição direta para  prefeito e vereadores. A entidade corporativa se torna então uma referência dos negócios privados e também das politicas públicas de interesse comercial. Participar e gerir a ACEPG significava também um exercício de aprendizagem e cultivo político de futuros cargos gestores do município. Eliseo Zaccaro foi o seu primeiro presidente, entre 1967 e 1968. Os presidente que exerceram o maior número de mandatos foram: Eladio Vazquez Gonzalez:1977-1983, 1985-1986, 1989-1991; e José Augusto Soares da Silva: 2005-2007, 2007-2009, 2011-2013, 2013-2015. O futuro prefeito Alberto Pereira Mourão presidiu a entidade no biênio 1986-1987 antes de governar a cidade com o maior número de mandatos.


OS PIONEIROS DO TURISMO

Em 1922 chegava a Praia Grande o pioneiro Heitor Sanchez, que, encantado com a beleza selvagem do lugar, fundou o loteamento do Jardim Guilhermina, oportunidade em que a família Guinle, proprietária da Cia. Docas de Santos, pagou pela gleba a vultosa importância de 250 contos de réis. Eram 660 metros frente ao mar por 1.800 metros de fundos. Na época foi apontado como inconseqüente, mas como todo pioneiro, acreditava no local, tanto que contribuiu conforme recibo...

Sempre acreditando no progresso da cidade, lançou com seu irmão Cristovam o Jardim Mathilde (em homenagem ao nome de sua mãe - Mathilde B. Sanchez).

Em 1927 fundou com alguns companheiros, entre eles Nestor Ferreira da Rocha, a Companhia Territorial Praia Grande, responsável pelo lançamento e venda dos loteamentos: Jardim Caçula, Vila Circe, Balneário Flórida, Flórida Mirim e Planetário, estes últimos localizados em Mongaguá.

Ainda em 1927, época em que a Cia. Air France estudava a construção do Campo da Aviação, para em seguida construí-lo, a Cia. Antarctica Paulista de Bebidas, através da filial em Santos, construiu um hotel entre o Jardim Guilhermina e o Boqueirão, sendo seus proprietários os senhores Roberto Kook e Margarida Kook, naquele tempo sua esposa e com a qual possuía duas filhas.

O hotel (hoje propriedade da família Pedroso Horta, e que por várias vezes recebeu a visita do então Governador Jânio Quadros, localiza-se na Av. Castelo Branco) era usado e freqüentado pelo pessoal da Fortaleza de Itaipu, pelo pessoal do Campo de Aviação e pelos corretores de imóveis, que na época vendiam os loteamentos de Vila Guilhermina. Segundo depoimento de Dona Maria Francisca dos Santos (Maria do Forte), que na época fora convidada para cozinhar para o pessoal que construía o Campo da Aviação, a única casa construída no Boqueirão era a do sr. Luiz Caiaffa, havia ainda o Bar do Sérgio, a "birosca" do sr. Açúcar (Organizador do Carnaval da Cidade) e alguns índios que se misturavam entre caiçaras, pescadores, corredores, militares e alguns turistas.

A única manifestação de Turismo organizado eram as Festas de São Pedro, até hoje o verdadeiro Padroeiro da Cidade e que em 1977 - graças ao incentivo dado pelo vigário padre Pedro Ferreira, pela sra. Maria Francisca dos Santos (Maria do Forte) pela equipe da Associação Centro de Estudos Amazônicos, pelos pescadores da Colônia de Pesca e pela sra. Layde Rodrigues Reis Lória (que mandou restaurar a primitiva imagem de São Pedro) - foi realizada depois de 20 anos a referida procissão. O dia 15 de outubro também era comemorado, pois era dia de Santana. O arrastão era uma tradição natural.

Em 1946, não haviam técnicas predeterminadas, simpósios, congressos, teses, estudos e pesquisas, e o praiagrandense só contava com a imensidão da praia, a vastidão do mar, a brancura da areia, e um sol brilhante.

Consideramos, também, como um dos pioneiros do turismo de Praia Grande o sr. Antônio Augusto de Sá Lopes, pois, usando de imaginação e picardia, engendrou o que ele próprio cognominou de "o truque da baleia", conforme seu depoimento no livro de sua autoria "A Odisséia de um Motorista".

"Enquanto não vinha licença para uma nova linha funcionar, os ônibus para o Boqueirão de Santos estavam deficitários, havia então necessidade de se criar algo novo.

"Na hora pensei promover uma excursão a Itanhaém, mas como interessar pessoas com um tempo feio? De uma hora para outra, sem anúncio e sem reclame?

"Foi então que chamei um pequeno vendedor de jornais, e por dez cruzeiros ele foi no Café Atlântico e começou a gritar que havia uma baleia na Praia Grande. Daí a pouco, o carro estava lotado com mais de cinqüenta passageiros, todos curiosos por verem o enorme cetáceo.

"Mas quando chegávamos ao ponto final da viagem que era o Campo de Aviação, outra desculpa era dada, e a viagem prolongava-se até Itanhaém". (transcrito do livro "A Odisséia de um Motorista").

E assim Praia Grande ficou conhecida, tudo por causa de uma baleia!

Segundo depoimento de dona Wanda Apparecida Dione de Oliveira, esposa do dr. José Carlos de Oliveira, já falecido, que durante 10 anos consecutivos [foi] subprefeito de Praia Grande, "além da pesca - que naquela altura dos acontecimentos (1947) se constituía um verdadeiro espetáculo, atraindo turistas, curiosos e compradores de peixe -, Praia Grande estava cotada no mercado turístico, pela abundância do pescado, e pelos tipos populares e simples que freqüentavam o Boqueirão como o Açúcar, Nézinho, Diogo etc."

Devido à correnteza marítima em julho de 1948 (época considerada como a que mais frio fez no litoral), vieram dar em Praia Grande inúmeros icebergs e, quando os grandes blocos de gelo se dissolviam, os pingüins que haviam viajado nos icebergs, procedidos do Sul, eram facilmente apanhados pelos pescadores e conduzidos para o Entreposto de Pesca, que ficava instalado na Rua Siqueira Campos, depois Tupiniquins e hoje av. Costa e Silva, no local onde está construído o prédio Long Beach.

Um cercado foi providenciado, e durante algum tempo dona Wanda carinhosamente tratava dos animais, tornando-se assim uma atração turística. Além dos pingüins, havia tartarugas de grande porte que também chamavam atenção.

Certa noite, para tristeza da tratadora (que a essa altura já se havia afeiçoado aos animais), os mesmos foram roubados, e não se descobriu por quem; desgostosa com esse fato, tomou a deliberação de doar, todos os animais que aparecessem na praia, para o Aquário de Santos.

Até mesmo um leão marinho, que aportara dias depois, cometendo a travessura de morder a mão de um dos pescadores: Manoel dos Santos (Nézinho), que ganhou uma grande cicatriz e muitas histórias para contar.


Informativo Cultural, boletim informativo da Associação do Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande: março de 1978, no número V (ano VI)


*

RODOVIAS: NOVOS CAMINHOS DO MAR



A primeira pista da rodovia dos Imigrantes em meados do anos 1970: forte  impacto na economia regional e que seria repetido no início dos anos 2.000 com uma segunda pista. 


Os movimentos migratórios sempre foram os geradores da fundação e construção das sociedades, porém, no mundo contemporâneo, a mobilidade e a facilidade de acesso centuplicou esse fenômeno das explorações e ocupações geográficas. 

Isso foi possível pela crescente disponibilidade dos meios de transporte e principalmente das vias de acesso lingando os pontos de interesse. No estado de São Paulo, a proximidade entre a Capital e o litoral, bem como do interior, facilitou esse processo de ocupação e transformação do espaço em virtude do Porto de Santos, que sempre foi a maior demanda do transporte ferroviário e depois rodoviário na região. 

O escoamento da produção agrícola e o mercado de importação gerou na Baixada Santista uma infraestrura que historicamente também beneficiou o mercado veranista e turístico, marcado pela intensa ocupação imobiliária. A rodovia Anchieta, mesmo sendo antecedida pelas estradas de pequeno fluxo, foi um marco de transformação desse importante núcleo da indústria paulista. Ao nascer no coração fabril do ABC, ela acelerou a industrialização daquelas cidades e lançou as bases dessa ampla economia regional, incluindo polo industrial de Cubatão.

O veranismo, por meio da rodovia Anchieta fundou, desenvolveu e emancipou Praia Grande. 20 anos depois foi ao mesmo tempo sucedida e integrada pela rodovia dos Imigrantes, formando um grande sistema rodoviário atendendo as demandas do litoral sul e do norte. 

Nos anos 1970 surge a primeira pista, causando um grande impacto na economia regional, com a construção de pontes de acesso à ilha de São Vicente, pelo Mar Pequeno, e também ao litoral sul. 

Nos anos 2.000 a construção da segunda pista amplia o fluxo de mobilidade, atendendo o porto, as promessas do pré-sal, a indústria e um novo surto imobiliário. Atualmente a concessionária do sistema Anchieta -Imigrantes já planeja uma terceira pista em linha reta por túneis até São Vicente, basicamente urbana e veranista, liberando as demais pistas para o fluxo de cargas, incluindo como suporte o complexo aeroportuário do Andaraguá.



CAPÍTULO  IX

MEMÓRIAS

*

XIXOVÁ ERA ÁREA PARTICULAR E QUASE FOI DESMATADO 


A autorização de desmatamento foi noticiada pelo jornal santista A Tribuna (edição de 31 de maio de 1981) descrevendo o processo que reconhecia grande parte da área como propriedade privada de Heládio Vasquez Gonzales (presidente da Associação Comercial de Praia Grande) e Ricardo Cao Vino.

Toda a área havia sido declarada de utilidade pública e interesse social por um decreto municipal do prefeito de Praia Grande em 1976. No início de 1981 a prefeitura emitiu um outro documento declaratório, alegando que se tratava-se de uma área de preservação, porém a sentença do juiz  Francisco Casconi, da Comarca de São Vicente,  considerou irrelevante as declarações,  reconhecendo  as razões  do promotor de justiça Nelson Caruso Conserino, que se posicionou favorável à autorização do desmatamento por meio de um mandato de segurança. 

Entretanto, o juiz esclareceu que o mandato de segurança só se referia  ao embargo das obras iniciadas no local. A decisão final ficaria  cargo do Tribunal de Alçada. Os proprietários pretendiam construir ali um restaurante e um salão de convenções orçados em - moeda da época - na quantia de Cr$50 milhões. Em 1993 toda a região do maciço Japui-Xixová-Itaipu foi transformada em área de preservação do patrimônio ambiental com a criação de um parque estadual de 900 hectares



Jornal A Tribuna. Fonte : Hemeroteca Digital de Biblioteca Nacional.

*

MEMÓRIAS DO ITAIPU

O CAPITÃO GALILEU




"Galileu Ramos, filho de escravos, nasceu em Mogi Mirim no ano de 1917. Ao ser liberado do reformatório, aos 18 anos, deslocou-se para Santos à procura de sua mãe. Com algum trocado que conseguiu juntar comprou um piston usado numa loja de penhores e passou a tocar nos bailes e gafieira da Praça José Bonifácio. Galileu ingressou no Exército através da Escola de Instrução Militar nº254. Na época era um dos dois negros que integravam a turma e, em troca da isenção do pagamento de mensalidades da EIM-254, ministrava aulas para para os integrantes da banda de cornetas e tambores para os integrantes da banda do Ginásio Tarquinio Silva. Como voluntario, alistou-se na Fortaleza de Itaipu em setembro de 1936. Em 1938, foi promovido a Soldado Corneteiro de 1ª Classe e dois anos depois recebeu as divisas de Cabo, passando, inclusive a exercer a função de Instrutor da Banda da Fortaleza de Itaipu. Em 1941, concluiu com aproveitamento o Curso de Formação para Sargentos. Com a eclosão da 2ª Guerra Mundial, apresentou-se como voluntário para integrar a Força Expedicionária Brasileira, regressando à Fortaleza de Itaipu, em 1945, onde prosseguiu sua carreira militar. Em 1986, quando o ministro do Exército, General Leônidas Pires, visitou a Fortaleza a Fortaleza de Itaipu, o velho Capitão recebeu a Ordem do Mérito Militar, maior condecoração do Exército em tempo de paz. Transferido para a reserva remunerada, passou os últimos anos de suas vida cumprindo voluntariamente o expediente da Fortaleza de Itaipu que tantos amava"



- J. Muniz Jr, Fortaleza de Itaipu, 1902-2002. Revista Universitária Leopoldianum. 2002



Nota do Organizador: Galileu Ramos está sepultado em túmulo reservado da Fortaleza de Itaipu.


Revista Flam. Agosto de 1944. Arquivo digital da Biblioteca Nacional

 


*


DONA MARIA DO FORTE - MARIA CONGÁ



A Fortaleza de Itaipu sempre teve o seu "rancho" funcional de alimentação dos soldados,  desde os primeiros tempos da sua construção, com um baixo contingente de servidores e um longo período de isolamento rural. Na medida que a unidade foi crescendo, a partir de 1930,  em função das novas atividades militares, Itaipu passa  a ter comandos com patentes mais altas e um número cada vez maior de oficiais e visitantes, civis e militares, exigindo um serviço alimentar à altura dos novos postos e frequentadores. 

Esses são alguns dos fatores que explicam a presença em Itaipu da cozinheira e quituteira Dona Maria do Forte ou Maria Congá, figura conhecidíssima dos mais antigos moradores de Praia Grande nas primeiras décadas do século XX, como descreve esse relato do memorialista Cláudio Sterque:

"Maria Francisca dos Santos, também conhecida como  Dna. Maria do Forte, Tia Maria ou Maria Doceira.

Maria foi uma das primeiras moradoras da Praia Grande urbana. Já nos anos 20, acordava às 4 horas da manhã e a pé e pela praia, ia no escuro do Forte a Aviação para preparar o café e almoço dos  primeiros trabalhadores do Campo de Aviação.

Era neta de escravos. Tinha uma obsessão por limpeza e suas panelas brilhavam como espelhos.

Sem muitas opções de trabalho na região, tornou-se uma grande cozinheira e doceira. Suas compotas e quindins tinham clientes certos de Santos e São Paulo. Foi a cozinheira de muitos comandantes e  oficiais do Itaipu.

Tia Maria morava dentro dos domínios da Fortaleza. Sua mãe havia construído sua pequena casa, quando a região ainda era um sítio. O Exército sempre manteve a casa  (que ainda  existe  com algumas modificações) até os dias de hoje, no final da Mallet, do lado esquerdo.     

Maria também foi a benzedeira mais conhecida da cidade, além de aconselhar espiritualmente muitos militares e a todos que a procuravam.

Certo dia, nos anos 70, deu um grito na cozinha e deixou cair no chão as panelas que estavam em suas mãos. Pediu que sua afilhada chamasse alguns militares mais queridos e que ela os  tratava  como afilhados. Chorando, ela relatou o que havia acontecido a 20 quilômetros de distância da  Fortaleza naquele momento. "Um sargento afilhado seu, destacado para uma missão em Santos em  uma Harley- Davidson, sofreu um acidente e havia morrido". Quinze minutos depois, o Forte recebe uma ligação de Santos confirmando o acidente fatal contado minutos antes,  em prantos,  por Maria.

Tia Maria é uma das 10 mulheres homenageadas em 'Mulheres no Museu', exposição que narra a trajetória de grandes mulheres que fizeram história na cidade".

 Questionados e convidados a falar  sobre suas memórias a respeito de Dona Maria Francisca, alguns membros do IHGPG relataram essas lembranças:

Claudio Sterque: eu  frequentava a casa dela e tenho muitas historias dela. 

Suely Toschi: a Maria Congá, como era conhecida. Fez parte da minha vida, da minha historia. Era mocinha, ia à casa dela, próxima à entrada da Fortaleza. Ela vendia brigadeiros, pois à época era algo "diferente". Jogava búzios e a  moçada ia para saber dos namoricos. Era uma excelente cozinheira. No Palácio das Artes/Museu da Cidade temos um acervo que sua sobrinha Isaltina nos doou. Fez "altos" almoços e jantares de coronéis a marechais

Claudio Sterque: Cozinheira preferida do Cel. Erasmo Dias.

Suely Toschi: Era amiga íntima de Dona Yara Mercadante, esposa do Comandante Oliva. As lembranças que tenho dela são muito nítidas. Era jovem, muito jovem,  quando a conheci.

Claudio Sterque: eu babava vendo aqueles vidros de compotas.

Suely Toschi: Pois eu não. ADORAVA QUANDO DONA MARIA JOGAVA BÚZIOS E SAÍA TUDO QUE QUERIA. MUITO ... MUITO JOVEM 😂😂😂😂😂

Claudio Sterque: Dona Maria tinha um carinho muito grande pelo Escobar, meu irmão, que serviu no Forte. Está numa dessas fotos com ela. 

Dalmo Duque: O Brasil é interessante né. Onde teve a presença africana, esta aconteceu de uma maneira muito forte, sempre nos bastidores. Dona Maria deve ter sido tipo uma “Mãe Menininha do Gantois”, confidente de muita gente, simples ou importantes, conselheira, devia saber muitas coisas. Como aconteceu em todos os países onde teve escravidão. No sul dos Estados Unidos, tinha aquelas famílias de elite, mas também as figuras africanas de cozinha e serviços domésticos, criadas em casa, elas tinha uma presença poderosíssima.

Maria Cristina de Oliveira: Verdade - Dalmo -  Dona Maria, Nossa, era de uma sabedoria extrema. Nossa Senhora, nem fale. Não tem faculdade que supere, viu. (risos). Ela benzia as crianças, ela atendia todo mundo que ia lá. Eu fui criada ali, desde pequena. Eu sempre estava lá na casa dela. A casa sempre cheia, sempre com muitos visitantes, gente muito importante que ia pedir conselhos. Muito bom. Muito bom. Infelizmente na quela época nada era registrado, então acabou ficando esquecimento. Ela foi uma pessoa, uma peça muito importante aqui na nossa Praia Grande, principalmente o pessoal mais antigo, que ela atendia todo mundo. Ele fez a fez a festa da minha mãe, quando a minha mãe casou, olha só. Ela fez tudo, doce, bolo. Nossa...Cozinheira, doceira, ainda tinha tempo de atender as pessoas no templo religioso que ela tinha em casa. Nossa, não sei como. Desfilava no carnaval... como Dona Maria Baiana. Desfilava na Ala das Baianas em Santos... Deve ter ter algum registro disso. Ela abraçou também as crianças desamparadas, amparou e cuidou de muitas crianças, inclusive o Leonardo, que trabalhava na prefeitura. Ele era o braço direito da Dona Maruca, fazendo a entrega da merenda, aquelas todas.  Ela cuidou um bom tempo dele. É uma pessoa que a gente não pode deixar cair no esquecimento. 

 

REMINISCÊNCIAS DO FORTE DUQUE DE CAXIAS

 

PAULO MIORIM

 




O Forte Duque de Caxias de Itaipu ocupa a Ponta de Itaipu, no hoje município de Praia Grande, e faz parte da história da minha família. Destinado a proteger a entrada da barra de São Vicente e a entrada do Porto de Santos, por ordem do presidente Bernardino de Campos, teve sua construção iniciada em 1901 e concluída em 1918. Tornou-se uma área preservada ambientalmente, com fauna e flora originais. Praia Grande era um distrito de São Vicente na época.

Tive uma infância maravilhosa, morando em casas destinadas aos oficiais do Exército com amplos espaços para brincar, muito contato com a natureza e animais domésticos. O Forte de Itaipu sempre foi um referencial para nossa família.

Meus bisavôs maternos Fortunato Taffi e Adelaide Grossi Taffi, imigrantes italianos, desembarcaram em Santos no final do século 19. Após um longa viagem partindo de Nápoles. Durante a viagem, nasceu minha tia Anita. Após trabalhar em fazendas em Casa Branca (onde nasceu minha avó Margarida) e Ribeirão Preto, voltaram à nossa região, desta vez em Praia Grande. Fortunato, que era pedreiro frentista, foi trabalhar na construção da Fortaleza de Itaipu, lá por 1908. Frentista era a função de pedreiro de acabamento, especializado em serviços detalhados de construção civil. Fortunato faleceu ao cair de um andaime, deixando minha bisavó com as duas filhas adolescentes.

Meu avô materno, Henrique Coutinho, era encarregado de eletricista, funcionário civil do Exército. Foi no Forte Itaipu que conheceu minha avó, casaram-se e ali foram morar. Minha mãe e meu tio Leonel (o primeiro engenheiro da família) nasceram no Forte Itaipu. Anos depois, um cabo gaúcho beneficiado pela anistia da Revolução de 1932, foi transferido para o Forte Itaipu. Era meu pai, Ambrósio Miorim Netto, também descendente de imigrantes italianos que haviam se radicado no Rio Grande do Sul. Conheceu minha mãe, casou com ela e moraram em diversas cidades até fixar residência no centro de São Vicente, onde nasci. Meu pai foi transferido para a a Fortaleza de Itaipu, onde vivi até os cinco anos. Quando pequeno via, sem entender bem, meu avô materno escutar jogos de futebol naqueles rádios tipo “capelinha” com o som no máximo. Às vezes exclamava um sonoro palavrão, outras berrava goooollll. Era torcedor do Corinthians Paulista e, diante de tanto amor, fui contaminado e sou corintiano.

Minha história é a de um menino que nunca havia sonhado em fazer engenharia. Meu grande objetivo era ser piloto de “avião a jato”, sonhava que enfrentava guerras aéreas e salvava um monte de gente, transportando-as para lugares seguros e recebia elogios dos comandantes. Imaginava-me vestindo aqueles casacos de couro e aqueles capacetes também de couro com óculos dos pilotos da época. Sou uma pessoa sinestésica. Para mim, movimento é tudo. Mas há coisas na vida que você não as escolhe. Elas lhe escolhem. Sem saber ao certo aonde iria, fui trilhando o caminho que me levaria à Engenharia Civil. Quando, na faculdade, um professor informou que a Engenharia Civil era a arte e a ciência de garantir que as estruturas permaneçam imóveis, fiquei decepcionado. Eu, atleta, nadador, corredor, jogador de basquete, surfista, trabalhar para que as coisas fiquem paradas? Mas descobri a imensa quantidade de movimento é necessário para conseguirmos essa estabilidade, objetivo maior da Engenharia Civil. É justamente isso que permite ao mundo se movimentar na terra, no ar, na água, no espaço. Esse entendimento me deu o conforto para descobrir que minha escolha era perfeita. Nem cogitei outras opções e, após mais de cinqüenta anos, o fato de ser engenheiro me parece uma grande novidade ao mesmo tempo em que considero natural.

Antes de encerrar essa pequena recepção às minhas experiências de vida na prática da Engenharia Civil em execução de obras, deixo muito claro que acima de tudo que for aqui relatado está o ser humano, que amo de paixão. Cada pessoa ocupa seu lugar especial em minha vida. Sem essa multidão de gente que tive o privilégio de ter contato (mais de trinta mil pessoas entre profissionais, clientes, fornecedores, colegas de faculdade, etc.), minha vida profissional não teria sentido nenhum.
Foto: acervo do autor.

 

O TEN. CEL. PINTO ROSA PESSOA

 



Década de 40, Ten.Cel. Paulo Rosa Pinto Pessoa e o antigo sitiante do Itaypu, Antônio Maria Gomes. O bar tinha também serviço de restaurantes para os soldados rasos que serviam no quartel. de Acervo de Maria Cristina de Oliveira, membro fundador do IHGP.



PINTO ROSA PESSOA, “Nascido em 20 de março de 1900, em João Pessoa, assentou praça como soldado raso na 4ª Companhia de Estabelecimentos em Realengo no ano d 1917. Quando eclodiu a Revolução de 1930, Pinto Pessoa servia no 5º RAM, atual 3º GAC Ap, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, ocasião em que marchou até a capital paulista e assumiu o comando de um contingente de militares oriundos da guarnição de Santos, dentre os artilheiros da Fortaleza de Itaipu, então 3º GAC.

Em 1939, devido ao Estado de Guerra, recebeu a missão de organizar e planejar a instalação do 3º GMAC no porto do Recife, entre os anos de 1943 a 1949, comandou o 5º GAC e, no eu histórico militar, constam centenas de elogios, recomendando-o pelo seus espírito de decisão, patriotismo e disciplina, evidenciados no discurso que pronunciou em Santos na solenidade cívico militar do Dia da Vitória, após o término da II Guerra Mundial.

Devido ao porte físico e atlético, com o peito sempre saliente, o general Pinto Pessoa passou ser chamado de “Peito de Aço”, apelido que o tornou famoso na Baixada Santista. Muito brioso, enérgico, sereno e amante, jamais deixou irradiar camaradagem aos seus subordinados, demostrando grande dedicação ao Exército até o fim de sua carreira militar”.

J. Muniz Jr. “ Fortaleza de Itaipu, 1902-2002. Editora Universitária Leopoldianum. UNISANTOS. 2002


UM COMANDANTE DEMOCRATA  E EMANCIPACIONISTA 




TEN CEL. ADSTON POMPEU PIZA. Foi Comandante da Fortaleza de Itaipu (9 de março de 1957 a 31 de março de 1960). Era casado com Odete Piza. Seus filhos, Ivan e Narbal, estudaram no I.E. Martim Afonso; Adston Filho estudou em São Paulo; Marcos, que faleceu ainda adolescente, em Santos; teve também uma filha, chamada Tânia. O Comandante Piza foi testemunha oficial do avistamento de OVNI na Fortaleza em 1957, relatando também os depoimentos e incidentes físicos com os soldados, ocorridos na mesma noite. Reformado em Belém-PA entre 1965 e 1966, voltou para Praia Grande, onde atuou como cidadão civil, participando do grupo estratégico da emancipação do município em 1967, desenhando as divisas e limites desmembrados de São Vicente.

PREENCHIDA UMA LACUNA DA GALERIA DE COMANDANTES DA FORTALEZA DE ITAIPU. 


Uma das  fotos que faltavam era a do Tenente-Coronel Adston Pompeu Piza, comandante entre 1957 e 1961. Piza também foi dos emancipadores de Praia Grande, tendo sido o autor estrategista do desenho das divisas e limites geográficas do novo município desmembrado de São Vicente em 1967.

A foto original está na galeria de comandantes da 9ª CSM de Santa Maria -RS. A imagem nos foi enviada pelo Cel. Itamar Vanderlei Batista Asses Ges SVP Gu SM, atual comandante da unidade, que lamentou não ter material de melhor qualidade, porém, com toda boa vontade, fotografou da sua própria parede para nos atender.

Nossa gratidão ao Cel. Itamar e ao pesquisador Afrânio Santos (do site Imortais Combatentes da FEB), que nos orientou na busca de informações, nos proporcionando uma imensa alegria em preencher essa lacuna memorial e histórica da Fortaleza e da cidade. (Dalmo Duque dos Santos- Historiador).



EMANCIPADOR FOI MEMBRO DA FEB NA II GUERRA MUNDIAL

Capitão: ADSTON POMPEU PIZA. Identidade: 1G-107782. Embarcou no 2° Escalão (Ida): Partida do Brasil: 22 de setembro de 1944.

Chegada à Itália: 06 de outubro de 1944. -Comandante: General Oswaldo Cordeiro de Farias. -Navio de Transporte: General Mann. Lotação: 3ª Grupo da Bateria de Comando do I/2ºRegimento de Obuses Auto-Rebocados.

Retorno ao Brasil: -Partida de Nápoles: 12 de Agosto de 1945-Chegada ao Rio: 22 de Agosto de 1945-Comandante: Gen. Cordeiro de Farias-Navio de Transporte: Mariposa (americano). Reforma: 14-05-1971 Tenente-coronel).

Fonte: Imortais Combatentes da FEB.



HISTÓRICO DAS PROMOÇÕES

Promoções:

Aspirante: 29 Dez 1934

2° Tenente: 7 set 1936

1° Tenente: 7 set 1937

Capitão: 9 out 1942



Foi condecorado com a "Croce al valor militare" do governo italiano

O Cel. Pizza em 1961 durante uma entrevista em Santos sobre alistamento militar.



"Em virtude de ter sido transferido por necessidade de serviço do Comando da Artilharia da \costa nesta cidade para o Q.G. do Comando Militar da Amazônia, sediado em Belém do Pará, apresentou suas despedidas aos oficiais da Guarnição o Cel. QEMA Adston Pompeu Piza. Depois de servir mais de sete anos na Baixada Santista, primeiro como comandante da Fortaleza de Itaipu, até quando o 6º GA CosM foi ocupar suas dependências, posteriormente classificado no Q.G. da Guarnição onde chefiou várias secções até a sua promoção ao posto de Coronel quando então assumiu o de chefe do Estado Maior do Gal. Carvalho Lisboa, com a transferência desse oficial-general para a Escola Superior de Guerra, continuou como Chefe do E.M. do atual comandante Carlos Buck Júnior, até esta data.

À solenidade de despedida compareceram oficiais de todas as unidade sediadas na Baixada Santista, Coube ao Gal. Carlos Buck Júnior, em nome dos oficiais , expressar ao velho companheiro os desejos de êxito nas novas funções. Agradeceu comovido o homenageado dirigindo-se a cada oficial com palavras carinhosas. A seguir foi lida a referência elogiosa tornada pública em boletim pelo comandante da guarnição da qual transcrevemos o texto abaixo:

"Possuidor de peregrinas qualidades de caráter, o Cel. Piza, como oficial e posteriormente como Chefe dos Estado Maior, reafirmou o alto conceito em que é tido pelos superiores, pares e subordinados.

Brilhante oficial de Estado Maior e Chefe enérgico mas compreensivo, soube granjear a confiança de seus chefes pelas atitudes firmes e leais que sempre tomou nas horas boas e más, como também a amizade, o respeito e a admiração de seus subordinados pelo trato ameno e o firme senso de justiça e ponderação que preside todos os seus atos.

Após a leitura da referência elogiosa, os oficiais reuniram-se aos sargentos e os funcionários civis no salão do Estado Maior, ocasião em que o Ten. Cel. Geraldo Bastos Soares, em nome da oficialidade, ofertou uma lembrança, tendo designado o sargento José Castelo - mais novo dos sargentos - para fazer a entrega. Após o agradecimento, do homenageado, foi servido um coquitel.

Na última quinta-feira, a bordo do "Rosa Fonseca", seguiu para Belém o Cel. Piza acompanhado de sua família aos cais. Compareceram o Gen. Carlos Buck , toda a oficialidade, sargentos e funcionários civis do Comando da Artilharia, seus amigos e parentes".

Nota do organizador: no livro "Praia Grande antes da Emancipação", a autora Circe Sanchez Toschi afirma que o Cel. Adston Pompeu Piza era um democrata convicto, perfil que desagradava alguns dos seus desafetos, enciumados com a sua alta capacidade técnica e liderança carismática. Este, segundo ela, teria sido o real motivo da sua transferência de Santos para Belém em 1964, uma punição por ser nacionalista e democrata, o que nesse contexto era associado à defesa da legalidade do mandato do presidente João Goulart, deposto pelo regime. A remoção e sumiço de sua foto na Galeria de Comandantes da Fortaleza Itaipu também teria sido fruto da antipatia que um comandante que serviu em Praia Grande sentia pelo Cel. Piza.


O AVISTAMENTO DE OVNI  NO ITAIPU

DALMO DUQUE


Final da década de 1950. O Forte de Praia Grande é um antigo sítio colonial localizado na encosta de Itaipus, morros que formam um maciço e uma península na barra sul da Baia de Santos. A vizinhança é composta por alguns sítios e chácaras antigas e algumas casas de veraneio na direção da praia do Boqueirão. É um lugar isolado e ainda tomado pela mata atlântica, com poucos pontos de ocupação. A pequena praia que fica do outro lado do maciço é completamente isolada e fechada para os banhistas civis, assim como as dependências da base militar, construída para proteger o porto e a ilha de São Vicente. No período noturno a sensação de isolamento e solidão é mais intensa, predominando um silêncio florestal, um forte cheiro de mato, misturado com a maresia. Não se escuta nenhum barulho dentro ou fora da área quartel e raramente acontece alguma movimentação de veículos particulares ou de serviço.

As sentinelas do Forte, distribuídas em vários pontos da propriedade, funcionam como os únicos meios e elos de comunicação entre os ocupantes da antiga gleba e os moradores dos arredores. Tudo que acontece dentro ou fora do Forte, passa primeiro pela guarda, que filtra as informações por meio dos oficiais que verificam rotineiramente as ocorrências percebidas e registradas pela vigilância.


O Forte é também um lugar de segredos. Segredos militares, controlados pela ordem hierárquica e regulatória; e também segredos comuns e cotidianos, sem nenhum controle hierárquico e burocrático. Essas últimas são ocorrências geralmente curiosas, fora do padrão disciplinar, e correm numa velocidade espantosa, extrapolando os muros, cancelas e tomando rumos e destinos incertos, sempre levadas pelos que entram e saem diariamente.


A ocorrência ali registrada na noite de 4 de novembro de 1957 foi uma dessas que alteraram completamente a rotina e o clima de convívio na Fortaleza. Duas sentinelas, de forma totalmente inesperada, foram surpreendidas por um evento sobrenatural, certamente indescritível pelas meios normais dos testemunhos humanos. São relatos que destoam da percepção e senso comuns. Além das sentinelas, o próprio oficial comandante da Fortaleza presenciou a ocorrência e testemunhou visualmente o fenômeno manifestado à céu aberto. O Tenente Coronel Adston Pompeu Piza não teve dúvidas de que estava registrando uma ocorrência completamente fora do normal e dos padrões reconhecidos pela ciência e tecnologias conhecidas naquela época. O mundo de então já realizava experiências avançadas, porém, o que foi visto naquela noite na Fortaleza ainda poderia ser considerado raro e espantoso diante daquelas testemunhas. Os testes nucleares já estavam acontecendo em varias regiões do planeta , sob a vigilância das duas superpotências em franca competição de poderes. O céu do ocidente já era povoado por satélites espaciais e naves tripuladas por bichos domésticos, como a cadela russa Laika, que naquele ano havia sido enviada ao espaço pelos pesquisadores soviéticos. O General George Marshal já tinha sido visto na Fortaleza de Itaipu, cumprindo uma rotina de visita a bases militares brasileiras alinhadas com o bloco da OTAN. Naquele mesmo ano, no Brasil, dois acidentes aéreos causaram a morte de todos os tripulantes e passageiros, mais de 80 pessoas. As aparições de objetos voadores se tornaram frequentes naquele período, em vários lugares do Brasil e os relatos se sucediam de forma também espantosa. 

Em Praia Grande as sentinelas foram atingidas pela luz intensa de uma esfera vermelha, a mesma vista pelo Comandante Adston e também pelos soldados de plantão. Mesmo mantendo segredo militar sobre alguns detalhes considerados inconvenientes para o conhecimento público, o oficial compartilhava repetida e cansativamente sua experiência para familiares e amigos, para não deixar nenhuma dúvida sobre a veracidade do acontecimento e a credibilidade dos soldados-sentinelas ou de qualquer morador dos arredores que testemunharam o fato. O relato oficial foi feito e inclusive retransmitido para outras organizações militares, no caso dos EUA, especializadas e interessadas em fenômenos semelhantes.

Este foi mais um segredo que extrapolou os muros do Forte. Não havia como contê-lo. Nem o comandante se conteve. Era questão de vida e morte e também de razão e sanidade mental. Ver e relatar um fenômeno raro e impressionante não ficava apenas na no aspecto da informação casual e suas repercussões triviais. Surgem muitas dúvidas sobre o significado do acontecimento, coisas que fogem do senso comum. As pessoas sempre questionam se esses fatos são produtos do acaso ou se elas estavam predestinadas a passarem por essas experiências, já que tais acontecimentos causam impactos significativos nas vidas delas. O Tenente Coronel Adston Pompeu Piza, por exemplo, depois de cumprir sua missão de comando no Forte, fixou residência no Boqueirão, onde só frequentava como veranista. Dez anos depois do seu contato com um OVNI no Forte, o oficial se viu envolvido na tarefa de conduzir os novos destinos políticos da cidade, no momento em que Praia Grande rompia seu vínculo político com São Vicente, passando a cumprir um destino totalmente diferente após a emancipação. Adston não era um oficial comum. Lutou na Itália como capitão da FEB e tinha formação específica na matéria Estado Maior das Forças Armadas. Foi encarregado de elaborar um plano estratégico que colocasse Praia Grande como um elemento novo e integrado no contexto da geopolítica regional e nacional. Durante várias semanas ele se debruçou no estudo da geografia física do litoral e frequentava diariamente as instalações da Capitania dos Portos em Santos com a missão de desenhar e estabelecer os pontos divisórios do novo município, respeitando os limites e possibilidades naturais e contemplando as necessidades e tendências da política territorial vigente. Muitas dessas definições escolhas são visíveis e transparentes nos mapas, com razões e explicações óbvias. Entretanto, muitas outras foram por razões impublicáveis, consideradas razões e segredos de Estado. Quais foram elas? Pelos mesmos motivos, o Tenente Coronel Adston Pompeu Piza também deve ter se perguntado no dia seguinte ao 4 de novembro de 1957: Por que essa esfera de imensa luz vermelha se manifestou exatamente nas sentinelas do Forte? Por que somente eu e os soldados de guarda naquela noite testemunhamos esse fato? O que tinha por trás desse fenômeno? Era algo de natureza espiritual? Era de natureza geopolítica e proposital? Havia dentro do Forte algum tipo de segredo militar guardado – que era muito comum no contexto da Guerra Fria - que interessava aos seres extraterrestres? Por que fizeram questão de aparecer, quando poderiam ter se mantido ocultos? Por que Praia Grande nasceu nesse momento e qual seria o seu papel como nova cidade da região e do estado? Seria coisa do destino ou foi tudo uma mera coincidência?

***

O “caso da Fortaleza de Itaipu” foi apresentado ao público pela 1ª vez no “The A.P.R.O. Bulletin”, de setembro/1959. Os detalhes do caso (aqui traduzidos para o português) foram relatados pelo Dr. Olavo T. Fontes, que era o representante no Brasil da “Organização de Pesquisa de Fenômenos Aéreos”, sediada no Novo México-EUA, e que publicava o referido boletim:

“Incidente nº 3:

Este é um avistamento militar ultrassecreto. Está sendo publicado aqui pela primeira vez; nunca foi publicado antes. É uma história de terror. Qualquer um que leia o relatório entenderá as razões pelas quais ele foi ocultado do público, sob um manto de censura absoluta. Estou quebrando este segredo oficial porque acredito que seja perigoso. Acredito ainda que os cientistas civis deveriam ser informados. Algum deles pode descobrir uma defesa ainda não descoberta. Cientistas e técnicos civis, trabalhando em todos os países, podem ajudar a encontrar novas armas e defesas antes que seja tarde demais.

Em 4 de novembro de 1957, às 2h da manhã (apenas quarenta minutos após o Incidente 2 [Caso Varig/Cruzeiro do Sul – Porto Alegre-RS]), algo sinistro aconteceu na fortaleza brasileira de Itaipu. Esta fortaleza pertence ao Exército Brasileiro e foi construída ao longo da costa do Estado de São Paulo, em São Vicente, perto de Santos.

Era uma noite tropical sem lua. Tudo estava quieto. Toda a guarnição estava dormindo em paz. Dois sentinelas estavam de serviço no topo das fortificações militares. Eram soldados comuns, não sabiam que discos voadores existiam. Estavam realizando uma tarefa rotineira, relaxados porque não havia inimigo a temer. Então, uma nova estrela de repente irrompeu em vida ardente entre as outras no céu sem nuvens, sobre o Oceano Atlântico, perto do horizonte. Os sentinelas observaram o fenômeno. Seu interesse aumentou quando perceberam que não era uma estrela, mas um objeto voador luminoso. Estava se aproximando da fortaleza. Eles pensaram a princípio que fosse um avião, mas a velocidade era estranha – muito alta… Entretanto, não havia necessidade de alertar a guarnição. De fato, tão tremenda era a velocidade do objeto que os dois soldados esqueceram sua patrulha apenas para observá-lo. Ele se aproximava rapidamente.

Em apenas alguns segundos, o UAO [objeto aéreo não-identificado] sobrevoava a fortaleza. Então, parou abruptamente no ar e desceu lentamente, com seu forte brilho laranja projetando as sombras de cada homem contra o solo iluminado entre as pesadas torres de canhões. Ele pairou a cerca de 36 a 54 metros acima da torre de canhão mais alta e, então, ficou imóvel. Os sentinelas estavam congelados no chão, os olhos arregalados de surpresa, as metralhadoras Tommy pendendo frouxamente de suas mãos, como coisas mortas. O objeto desconhecido era uma grande nave, do tamanho de um grande Douglas, mas redondo e com a forma de um disco de algum tipo. Estava cercado por um estranho brilho laranja. Estava silencioso ao se aproximar, mas agora, de perto, os dois sentinelas ouviram um som distinto de zumbido oriundo dele. Um objeto tão estranho pairava acima de suas cabeças e nada aconteceu por cerca de um minuto. Então, veio o pesadelo…

Os sentinelas ficaram assustados, incapazes de pensar no que fazer em relação ao UAO. Mas não sentiram terror, nem pressentimento, nem sinal de perigo. Então, algo quente tocou seus rostos (um deles acredita ter ouvido um som fraco de zumbido que não conseguiu identificar naquele momento). No escuro, isso teria sido horrível. Mas o UAO estava brilhante e eles podiam ver que nada tinha mudado. Então veio o calor. De repente, uma onda insuportável de calor atingiu os dois soldados.

Um dos sentinelas disse mais tarde que, quando a onda de calor o envolveu, foi como um fogo queimando suas roupas inteiras. O ar parecia estar cheio do zumbido do UAO. O pânico cego o atormentava. Ele cambaleou, atordoado, ondas de calor preenchendo o ar ao seu redor. Estava muito quente... Ele foi tropeçando e cambaleando, com todo o seu objetivo consciente ser escapar daquele fogo invisível que o queimava vivo. Ele lutava, arfava e batia no ar à sua frente. Ele estava sufocando. Então desmaiou e caiu no chão – inconsciente.

O outro sentinela teve a horrível sensação de que suas roupas estavam pegando fogo. Uma onda de calor o envolveu de repente. O horror o tomou e ele perdeu a razão. Começou a gritar desesperadamente, correndo e tropeçando, chorando de um lado para o outro, como um animal preso. Ele não sabia o que estava fazendo, mas de alguma forma deslizou para um abrigo, sob os pesados canhões da fortaleza. Seus gritos eram tão altos que despertaram toda a guarnição, iniciando um alarme por toda parte.

Dentro dos alojamentos dos soldados, tudo era uma confusão. O som de passos apressados podia ser ouvido por toda parte, soldados e oficiais tentando chegar às suas estações de batalha, com os olhos arregalados de choque. Ninguém sabia o que poderia explicar aqueles gritos horríveis do lado de fora. Então, apenas alguns segundos depois, as luzes por toda a fortaleza se apagaram subitamente, assim como todo o sistema elétrico que movimentava as torres, os pesados canhões e os elevadores. Até mesmo os geradores da própria fortaleza ficaram sem energia. O sistema de comunicação interna também estava morto. Alguém tentou ligar os circuitos de emergência, mas estes também estavam fora de funcionamento. A coisa mais estranha, no entanto, foi o comportamento dos alarmes nos relógios elétricos, que estavam programados para tocar às 5:00 da manhã – todos começaram a tocar em todos os lugares, às 2:03 da manhã.

A fortaleza estava morta, indefesa... Dentro dela, a confusão havia se transformado em pânico generalizado, soldados e oficiais correndo cegamente de um canto para outro pelos corredores escuros. Havia medo em cada rosto – medo do desconhecido – mãos apertando nervosamente as armas inúteis. Então, as luzes se acenderam novamente e cada homem correu para fora para lutar contra o inimigo inesperado que certamente estava atacando a fortaleza. Alguns oficiais e soldados chegaram a tempo de ver uma luz laranja subindo verticalmente e depois se afastando pelo céu a alta velocidade. Um dos sentinelas estava no chão, ainda inconsciente. O outro estava escondido em um canto escuro, murmurando e chorando, completamente fora de si. Um dos oficiais que chegou primeiro era um médico militar e, após um breve exame, viu que ambos os sentinelas estavam gravemente queimados e ordenou que os homens os levassem imediatamente para a enfermaria. Eles foram atendidos imediatamente. Ficou claro que um deles tinha um caso grave de síncope térmica; ele ainda estava inconsciente e apresentava sinais evidentes de falência vascular periférica. Além disso, ambos os soldados apresentavam queimaduras de primeiro e segundo graus profundas em mais de 10% da superfície corporal, principalmente nas áreas que haviam sido protegidas pelas roupas. O [soldado] que conseguia falar estava em profundo choque nervoso e muitas horas se passaram até que ele fosse capaz de contar a história.

O pesadelo durou três minutos...

No dia seguinte, o comandante da fortaleza (um coronel do exército) deu ordens proibindo toda a guarnição de contar qualquer coisa sobre o incidente a qualquer pessoa, nem mesmo aos seus parentes. Oficiais de inteligência chegaram e assumiram o controle, trabalhando freneticamente para interrogar e silenciar todos com informações sobre o caso. Soldados e oficiais foram instruídos a não discutir o caso. A fortaleza foi colocada em estado de lei marcial e um relatório ultrassecreto foi enviado ao Q. G. (no Rio ou em São Paulo). Dias depois, oficiais americanos da Missão Militar do Exército dos EUA chegaram à fortaleza junto com oficiais da Força Aérea Brasileira para interrogar os sentinelas e outras testemunhas envolvidas. Depois, um avião especial foi fretado para levar os dois sentinelas queimados para o Rio. Era uma aeronave militar da Força Aérea.

No Rio, eles foram colocados no Hospital Central do Exército (HCE), completamente isolados do mundo atrás de uma rígida cortina de segurança. Dois meses depois, ainda estavam lá. Não sei onde estão agora.

Três semanas após o incidente, fui contatado por um oficial do Exército Brasileiro, um amigo que sabia do meu interesse em pesquisas sobre UAOs. Ele estava na Fortaleza de Itaipu na noite do incidente. Ele foi um daqueles que interrogaram os dois sentinelas. Ele me contou toda a história exatamente como foi descrita acima. O nome dele foi suprimido deste relatório para protegê-lo. As razões são óbvias; ele me contou algo que não deveria ter contado. Na verdade, este oficial me pediu para esquecer seu nome e ele não estava rindo. Estava muito assustado.

Eu estava ciente, no entanto, de que as informações não eram suficientes, apesar de terem vindo diretamente de uma das testemunhas. O caso era muito importante. Por outro lado, obter mais informações através do anel de segurança criado pela Inteligência do Exército seria uma tarefa quase sem esperança. A única maneira era tentar quebrar o sigilo em torno dos dois soldados em tratamento no Hospital Central do Exército. Como médico, talvez eu pudesse entrar em contato com alguns médicos do hospital e até examinar os dois pacientes, se possível. No entanto, todas as minhas tentativas falharam. A única coisa que consegui determinar foi o fato de que dois soldados da Fortaleza de Itaipu realmente estavam lá, em tratamento por queimaduras graves. Só isso.

O caso permaneceu nos meus arquivos até dois meses atrás, quando a prova final de que era real foi finalmente obtida. Três outros oficiais do Exército Brasileiro que estavam na fortaleza na noite do UAO foram felizmente localizados e contatados. Eles contaram a mesma história. Confirmaram o relato transcrito acima em todos os detalhes.”



AÇÃO CÍVICO MILITAR NO RIBEIRA

A ação cívico militar seria estendida por vários anos, pelo fato da região ser socialmente muito vulnerável, tanto no aspecto politico de extrema esquerda quando no fator criminalidade. A junção desses dois fatores não era incomum nem coincidência e que afetavam os dois lados, tanto os guerrilheiros – que assaltavam bancos para captar recursos- , quanto os militares e policias aliciados pelo crime organizado.  

O nosso confrade e diretor do IHGPG , José Alonso Júnior teve uma participação histórica no Vale do Ribeira, , pós conflitos dos anos 70, no Comando Operações Especiais empreendida pela Fortaleza de Itaipu, que eram revezadas com o  Batalhão de Caçadores de São Vicente.  

 

Implantação do mastro e hasteamento. "Eles não conheciam a bandeira do Brasil"


O oficial José Alonso revendo o bebê que ajudou a vir ao mundo num parto emergencial na madrugada.


GRUPO DO IHGPG :

José Alonso Junior: participei de várias Operações ACISO Ação Cívico Social no Vale do Ribeira como Oficial Comandante do PELOPES - Pelotão de Operações Especiais passei semanas em toda região. Bons Tempos. E ainda existe as Operações ACISO

Dalmo Duque: Muito boa essa lembrança, Alonso. Foi nessa época da notícia ou foi posterior? Dentro daquilo que você pode revelar, como funcionava essa missão? Que cidades e áreas vocês ocuparam? Como a população reagia com presença do Exército?

José Alonso Junior: Nossa participação na operação ACISO foi posterior ao período do Lamarca na Região, mesmo porque na época dele ainda não havia a ACISO. Essa viria a ser realizada muito tempo depois. Minha passagem lá foi em 1978, 79, o Lamarca já tinha morrido. A reação da população era muito boa, porque a operação levava o dentista, o médico, a tropa para fazer obras e reformas. Eldorado, Jacupiranga, Barra do Turvo, Cachoeira da Noiva, onde o Lamarca tinha uma amante. Fazenda Caraitá, onde ele quase foi morto. Mas a população aceitava muito bem. Lógico que ainda existia alguns focos, pois a região era muito inóspita. Uma das mais pobres do Brasil. 

Em Vista Alegre e Miracatu, pra se ter uma ideia,  eles não conheciam a bandeira do Brasil, não tinha luz. Havia um interesse de deixar a população sem nada. O Exército chegou, puxou o cabo de força, puxou água. Implantamos um mastro e hasteamos a bandeira do Brasil. Eu mesmo escrevi no chão: “Pátria, união de todos nós”.  Nessa época sofremos um ataque, de madrugada. Mas também fizemos até um parto emergencial.

Alguns anos depois fizemos o mesmo na Cidade da Criança, com a intenção de espantar a criminalidade daquela área. Fizemos umas operações na Juréia, entrando por Peruíbe, que é uma área enorme, maior do que a Suíça. Fomos por terra, de helicóptero e também saltando.  

  

O CORONEL  ESTÉLIO E O "CANHÃO LEOPOLDO"

 

 "Na praça Duque de Caxias, Canto do Forte, em 1974. Imagem de dias após o canhão Schneider - Canet ser instalado na praça sob empréstimo do Exército. Hoje no local existe um monumento moderno que lembram dois canhões. A inscrição Leopoldo se refere ao ex-prefeito Leopoldo Vanderlinde, que tornou possível essa instalação juntamente com o Coronel Estélio Teles Pires Dantas". Claudio Sterque

 

Batismo de fogo do sistema Astros em 2000 no Canto do Forte. 


*

QUANDO AFONSO SCHIMIDT VIVIA EM PRAIA GRANDE

ADELTO GONÇALVES



O escritor e jornalista Afonso Schmidt numa redação de jornal nos anos 1950.
Arquivo Histórico/PMC) 

Praia Grande, nos últimos tempos, vem ganhando várias escolas públicas por empenho da Prefeitura. Falta agora valorizar mais os professores e, naturalmente, encomendar livros e expandir a biblioteca municipal, um pouco acanhada para a grandeza do município. E, sim, dar um novo nome à biblioteca, que atualmente homenageia um ditador de triste memória. Como não se sabe de um grande autor que tenha nascido no município, vão aqui duas sugestões.

O jornalista Geraldo Ferraz (1905-1979), secretário de Redação de A Tribuna de 1953 a 1966, escreveu em 1956, numa casa de veraneio em Praia Grande, seu célebre romance Doramundo, publicado em 1957 e transformado em filme por João Batista de Andrade, em 1977. Já seria razão mais do que suficiente para a homenagem.

O escritor Afonso Schmidt (1890-1964), nascido na Água Fria, em Cubatão, seria outra opção. Ele, que já dá nome à biblioteca pública de Cubatão, passou um período no Canto do Forte, em Praia Grande. Schmidt rememora essa época em seu livro Bom Tempo, de 1956.

Em 1914, retornado de uma vida errante na Europa, estava na Biquinha, um fim de tarde, quando ouviu de alguns homens, que desciam do bonde da linha 2, a notícia de que estourara aquela que seria a Primeira Guerra Mundial. Sentiu um alívio porque, meses antes, no trem de Marselha, hesitara em acompanhar alguns jovens belgas que iam se alistar na Legião Estrangeira. Depois, em Vieu Port, pensou em vender por 100 francos a passagem de regresso a um simpático armênio que estava disposto a comprá-la. Se tivesse feito, por certo o furacão da guerra o teria levado.

Em situação apertada, sua família arrendou a fazenda na Água Fria e, depois de morar em São Vicente, ainda em dificuldades, teve de se mudar para um rancho na Praia Grande, perto da Fortaleza do Itaipu, que era propriedade de um advogado de Santos. Como o advogado não quis cobrar aluguel, foi a opção que restou.

A esse tempo, Schmidt começou a trabalhar como repórter no jornal Cidade de Santos, vespertino de vida efêmera. O irmão de Afonso, Godofredo, arrumou emprego de professor substituto na escolinha do Porto do Rei, isto é, no Boqueirão, que era a parte mais povoada, até onde chegava a estrada aberta pelo governo dois anos antes, saindo da Ponte Pênsil. Morando no Itaipu e trabalhando em Santos, Schmidt levantava às seis da manhã, quando ouvia o tiro da peça nas obras da fortaleza. Apressado, tomava café, caminhava pela praia até o Porto do Rei e seguia pela estrada, que naquele tempo não passava de um caminho de dois ou três metros, entre valas secas.

Avançando, ele descortinava o Morro do Xixová e seguia adiante até a Ponte Pênsil. Chegando a São Vicente, ali pelas sete e meia da manhã, pegava o bonde via Matadouro, que era mais barato. Muitas vezes, sem um níquel no bolso, continuava a caminhada pela praia até o José Menino ou o Gonzaga, na esperança de encontrar um conhecido. E não raro encontrava gente do Parque Balneário, que o levava à Cidade, como dizemos até hoje. Sua função no jornal era redigir notas policiais. Por isso, seguia direto até a cadeia na Praça dos Andradas para consultar o livro de assentamentos – hoje, diríamos boletins de ocorrências (B.O.) -, ouvia o escrivão e rumava, então, para a redação. No jornal ganhava pouco: vivia de vales que seriam descontados ao final do mês.

No fim da tarde, enfrentava o mesmo martírio na volta para casa. Chegava já noite à estação de bondes em São Vicente, tomava o caminho do Tumiaru, ”que subia entre o morro e o mar morto”. Atravessava de novo a Ponte Pênsil e mergulhava na estrada solitária: só encontrava duas ou três claridades de rancho até chegar ao Porto do Rei. Assim viveu a família de Schmidt por ano e pouco até que ele descobriu uma casa vazia em São Vicente. Decidiram mudar para lá, mas a casa pertencia ao Serviço Sanitário e quase se meteram em encrencas, não tivesse o futuro escritor tido o expediente de procurar em Santos o diretor do Serviço Sanitário, que ficava na Rua Santo Antônio, hoje Rua do Comércio.
Depois, a guerra entrou em declínio e a vida de todos foi aos poucos melhorando. Por indicação de um amigo, Afonso Schmidt entrou para A Tribuna como repórter. Pôde, então, mudar-se, finalmente, para Santos, o sonho de todos aqueles que viviam nos arredores da cidade portuária. Quando, porém, pensou em cumprir o compromisso de devolver a chave da casa ao diretor do Serviço Sanitário, descobriu que a morada nunca tivera chave. À noite, a porta da rua ficava encostada por um caixote de sabão. E lá nunca entrou nenhum gatuno. Bons tempos aqueles.


BOQUEIRÃO, O BERÇO DE "DORAMUNDO"



Geraldo Ferraz com Patrícia Galvão. Arquivo Rafael Moraes - Fundação Arquivo e Memória de Santos.


Doramundo, um romance esteticamente revolucionário, escrito por Geraldo Ferraz em Praia Grande. Não é novidade para muitos e foi o que constatamos ao pesquisar o assunto no acervo digital da Biblioteca Nacional nessa madrugada de 11 de outubro aqui em São Vicente. O que era uma hipótese, folclore e certeza para alguns, talvez agora possa ser confirmado com essa busca curiosa. Mas não é só o aspecto estético da obra e o lugar onde foi produzido que causa admiração e espanto e sim as condições nas quais foi escrito. 

A casa do escritor não era como eu imaginava, uma cabana de isolamento e solidão, no meio de uma praia deserta na qual pudesse desfrutar de condições exclusivas e indispensáveis para escrever com mais liberdade. Pelo contrário, o lugar estava constantemente em estado de ebulição humana, barulho festivo provocado pela presença de amigos em busca de contato e oportunidade de expressão. Doramundo não precisou de silêncio e solidão para ser feito. Isso deve ter contribuído de alguma forma, mas não foi condição essencial. Poderia ter sido escrito no ambiente profissional e cotidiano do autor, que era uma movimentadíssima redação de jornal. O importante e o essencial nesse caso foi o contexto e o conceito que aquele lugar significava: um refúgio muito frequentado. 

O jornalista e companheiro de Pagú-Patrícia Galvão- trabalhava no jornal A Tribuna em Santos e, ao que tudo indica, vivia em Praia Grande numa casa no Boqueirão. A reportagem sobre seu falecimento diz que morou em Santos, São Vicente (Praia Grande era um bairro vicentino) e finalmente no Guarujá. No verão recebia os amigos mais íntimos, como o poeta modernista Sérgio Millet (que se chamava Sergio Millet da Costa e Silva).

Ao escrever uma crônica de despedida pela morte de Millet em 1966, Geraldo Ferraz dá pistas sobre sua moradia e das visitas do poeta nas temporadas de verão. O livro Doramundo também foi levado ao cinema por Joaquim Pedro de Andrade e premiado no Festival de Gramado em 1978. Na crônica, o autor afirma que Sergio Millet leu duas vezes os originais de Doramundo em uma de suas hospedagens em sua casa Boqueirão.

Foi numa dessas estadias também que o poeta e crítico posou para a pintora Wega Nery em um retrato, que carregou consigo ainda com a tinta fresca para São Paulo: "Por que há de secar aqui se quero tê-lo em meu quarto", disse Millet. Wega pretendia dar um acabamento, corrigindo e melhor definindo os traços do poeta, porém não teve tempo e foi vencida pela impaciência quase infantil do amigo.

Era a mesma Praia Grande habitada por Afonso Schimidt (companheiro de Millet e Oswald de Andrade na criação da revista Cultura), povoada pelos primeiros veranistas, dos bois na praia, da pesca de arrasto e das baleias mortas ocasionalmente pelos tiros de canhão do Forte Itaipu.

Geraldo Ferraz era uma figura conhecida no meio intelectual, artístico e politico. Fez parte do núcleo modernista de 1922 e trafegava livremente nas organizações de esquerda, nos sindicatos e órgãos governamentais. Foi parceiro conjugal de Pagú e também da pintora Wega Nery Gomes Pinto, com quem viveu até seus últimos dias. Wega faleceu no Guarujá em 2007. 

Geraldo  foi preso nas duas ditaduras republicanas, no Estado Novo de 1937; e no regime militar de 64. Como era muito ligado às artes e tinha amigos influentes, sempre se livrava das punições mais rigorosas aos opositores dos regimes de exceção. Era homem de confiança dos proprietários de jornais , onde exercia funções estratégicas como editorialista e secretário de redação, o que garantia um bom relacionamento dos funcionários com os patrões. Mesmo assim, suas prisões foram fruto da delação de jornalistas que se diziam conservadores, mas que não passavam de invejosos que não aceitavam seu prestígio profissional. 

Nesse contexto da Guerra Fria e Caça às Bruxas, todos que não se enquadravam no padrão ideológico imposto pelos alinhados dos EUA eram facilmente rotulados de comunistas.  Impossível ter frequentado durante tanto tempo o então bairro de Praia Grande sem que ninguém soubesse da sua presença e dos seus inúmeros e famosos convidados. Certamente os vizinhos, a polícia, os moradores e veranistas mais antigos sabiam da sua presença, mas é bem possível que tudo isso era assunto de comentários em voz baixa e cheio de cuidados de não comprometimento.


O SOLEMAR DO JÚLIO SECCO, CIDADE DA CRIANÇA  E ALVORADA NOVA



 


E.E. Júlio Secco , avenida Presidente Kennedy com Ameletto Francischelli. Google Maps.

 

Em 2002, residindo em São Paulo, resolvi voltar para São Vicente, cidade onde vivi entre 1974 a 1985. Entrei no concurso de remoção da Secretaria de Educação e listei por ordem preferencial as escolas com vagas disponíveis na diretoria regional de ensino. Não consegui colocação em São Vicente e acabei indo parar em Praia Grande. Achei que tinha escolhido uma escola próxima da orla e, somente depois de conferir o endereço, descobri que havia cometido um engano. A escola que escolhi era da prefeitura e não aquela para a qual fui removido era da rede estadual. As duas tinham o mesmo nome, Lions Clube, e não percebi a sigla que as diferenciava. Lecionei durante um ano na Vila Tupiri, Bairro Ocian, na escola Lions Clube-Centro, o que significava que a unidade havia sido construída por este conhecido clube de serviço, para prover uma necessidade dos moradores que ainda não tinha sido realizada nem pela prefeitura nem pelo estado. Ali, por indicação de uma nova diretora, fui trabalhar como vice-diretor no bairro Solemar, na Escola Estadual Júlio Secco de Carvalho, onde permaneci até o final de 2005. Este foi um curto período de 1071 dias no qual pude reencontrar com a cidade que tinha conhecido quando criança, em 1973, e mais tarde como adolescente, nos anos 1980, em visitas turísticas.

Nesse novo contexto do início do século, pude conhecer um pouco do cotidiano da cidade, embora fosse um bairro bem afastado do centro, mais próximo de Mongaguá. Conheci também a história da emancipação de Solemar e de Praia Grande, capitaneada primeiramente pelo patrono da nossa escola.

No Jardim Tupiry a rotina era de vila da periferia, mais populosa e composta de moradores fixos. Em Solemar era diferente: um bairro praticamente despovoado, com centenas de casas de veraneio, que permaneciam fechadas quase o ano inteiro. No entorno da escola, a maioria dessas casas praticamente nunca foram abertas durante os três anos que lá fiquei, mesmo nos fins de semana. Algumas delas eram zeladas por moradores da Vila Cidade da Criança, do outro lado da pista da rodovia Manoel da Nóbrega, praticamente à duas quadras da escola.


Durante o dia havia um movimento regular, porém muito reduzido na avenida Presidente Kennedy – já na altura do número 18 000 – e à noite um silêncio de antigo arraial. No período do inverno e de chuvas, essa sensação de isolamento e solidão era mais intensa. A impressão não era só minha, mas também dos moradores e funcionários que ali moravam. O mesmo acontecia nos bairros de Mongaguá e no Flórida e outros antes a Vila Caiçara, que era mais movimentada por ter um pequeno centro comercial.

A população, com exceção de alguns moradores mais antigos, era composta de paulistanos flutuantes e alguns que fixavam residência por períodos mais longos, como opção de mudança de ares e procurando sossego; ou então para fugir de crises pessoais e familiares, como falecimentos, falências, separações conjugais e desemprego. Por isso matriculavam os filhos na escola e passavam a ter nela um dos seus novos pontos de referência.

Outra população, esta mais ou menos fixa – na verdade sazonal – eram os migrantes que oscilavam entre Praia Grande e seus lugares de origem , a maioria nordestinos, em função da oferta de trabalho nas temporadas de verão, entre novembro e março, após o carnaval. Os educadores que trabalhavam na E.E. Júlio Secco de Carvalho, com raríssimas exceções, moravam em outros bairros da cidade, em São Vicente, Santos e até Guarujá. Os supervisores de ensino geralmente residiam em Peruíbe, trabalhavam na diretoria regional em São Vicente e atendiam nossa escola por ser um ponto de passagem para casa ou para o trabalho deles na DRE.

Tínhamos uma ligação bem próxima com a prefeitura, por causa da merenda, feita por dois funcionários da secretaria da educação do município. Os alunos desfrutavam, embora simples, de um ótimo serviço de alimentação e nós da gentileza das nutricionistas que sempre nos alertavam sobre o vencimento de validade dos alimentos perecíveis sugerindo cardápio diferentes ou então o uso em festa escolares, desde que não fosse comercializados, mas como cortesia da escola.

 Também com a comunidade as relações eram estreitas, às vezes conflituosas, mas nada que não fosse resolvido pelo diálogo ou medidas de segurança de rotina, pois a escola não tinha caseiro. Essa carência foi durante algum tempo preenchida por uma horta comunitária construída por um professor de matemática que tinha formação em tecnologia agrícola. Com a ajuda dos alunos ele fez a correção da acidez do solo, a formatação dos canteiros em alto relevo, a adubação química; e finalmente o plantio, colheita e manutenção de legumes e ervas de tempero. Uma beleza de horta, um sucesso de produção e também de consumo, sobretudo nos fins de semana, pois a feira mais próxima ficava à dois ou três quilômetros de distância.

O Júlio Secco ficava – ainda fica – praticamente em frente ao mar, de onde podíamos ouvir o barulho das ondas e ver a imensidão do Atlântico. Nos dias de chuva e sol, abria após a rodovia e próximo da serra, imensos arcos-íris que davam a impressão de serem verdadeiros portais para um outro mundo. Alguns moradores da Cidade da Criança diziam que eram acessos à Alvorada Nova, uma cidade espiritual que vai de Mongaguá até o Guarujá. 

Nunca me disseram nada sobre discos voadores. Nunca perguntei e também nunca vi nada parecido. Mas, no silêncio dos finais de tarde, na hora do Ângelus, sentia vontade de andar no imenso quintal da escola. Ali, muitas vezes meu coração ficava apertado, como se alguém do invisível pedisse socorro, de alma pedida. Imediatamente me recolhia em oração e depois apontava mentalmente para as nuvens junto à serra dizendo ao pedinte: “Olhe para as nuvens e pense em Nova Alvorada. Eles estão te esperando”. Dizendo isso, o coração desapertava. 

Começava então a chegar os primeiros alunos do período noturno. Eram adultos de meia idade e alguns idosos. Havia também alguns jovens. Todos à procura de um diploma e melhoria de vida. Na verdade era, para todos, um reencontro com a escola, da qual se afastaram por algum motivo circunstancial ou pessoal. Nessa última hipótese a maioria trazia consigo uma equação do passado na forma de trauma ou pendência moral ligada à ordem e disciplina escolar. Eu não era diferente deles. Também estava ali por algum motivo muito parecido e necessário. E resolvemos juntos muitos desses problemas por meio da colaboração, respeito e amizade. Uma oportunidade que tivemos de nos tornarmos melhores e mais próximos.

Nesses 1071 dias, de muitas histórias e experiências preciosas, somente um incidente grave: um rapaz que trabalha como vigia noturno e não respeitava os horários de entrada nem de saída. Mesmo advertido, com toda a educação, dava as costa e ia embora. Certa vez sumiu. Soubemos depois que ele tinha assassinado um adolescente durante uma discussão. Esse nosso aluno era fugitivo de outro estado, onde era procurado pelo mesmo tipo de crime.

Um outro episódio inesquecível foi quando, durante o recreio da manhã, surgiu na calçada lateral da escola uma pequena legião de jovens que haviam sido libertados de um estabelecimento prisional próximo. Fiquei assustado, pois eles queriam conversar com as alunas, alguns com flores nas mãos dizendo que tinham que cumprir uma promessa de reconciliação com a vida. Jogavam as flores por cima da cerca de palitos de concreto e iam embora aos poucos. Um alívio. Depois os funcionários da escola me disseram que não era primeira vez e que isso acontecia frequentemente.. Dalmo Duque


*


ESCOLAS, GINCANAS, DESFILES E EVENTOS CULTURAIS



Praça 19 de Janeiro nos anos 1970: Estudantes trajados de personagens históricos. Museu da Cidade


Nos anos 1960 e 1970 a cultura urbana brasileira ainda era muito influenciada pelos estabelecimentos escolares e pelas bibliotecas, consideradas as mais seguras, influentes e acessíveis fontes de informação e de cultura em geral.

As enciclopédias e seus verbetes especializados eram vistas como os melhores repositórios de conhecimento.

Vivia-se numa época em que a oferta de dados era restrita e elitizada, por causa das limitações dos meios de comunicação, quase todos lentos na produção e transmissão de informações. Até mesmo a televisão, com seu poder imagético, não produzia por si mesma conteúdos sólidos e sua credibilidade dependia das referência bibliográficas e da consultoria acadêmica.

Dessa forma, no meio social, a atualização de dados também era lenta e mais duradoura. A informação acumulada e sua permanência como conhecimento possuía valores de alta representação em todos os aspectos dos saberes. A própria cultura era sinônimo de erudição quantitativa. Saber era importante e saber muito era essencial.

Nos ambientes culturais e veículos de comunicação era muito comum a exploração de jogos e desafios de temáticas sobre curiosidades que influenciavam a dinâmica do conhecimento. As gincanas ou competições de conhecimento e resoluções de tarefas complexas era uma verdadeira febre cultural, pois atestavam a inteligência e também as esperteza dos elaboradores e participantes.

O cotidiano de Praia Grande não era diferente das cidades vizinhas e do resto do mundo. Educadores, estudantes e pessoas interessadas em cultura tinham uma dedicação especial e uma forte dose de entusiasmo quando se tratava de eventos que quebravam a rotina e a monotonia do dia a dia. Uma atividade cultural coletiva era a oportunidade de movimentar as energias físicas e mentais, renovar os relacionamentos, fazer descobertas e ampliar horizontes.

Nesta relação de tarefas e pontos de uma gincana promovida pela Biblioteca Municipal é possível identificar muitas características apontadas dessa época da qual falamos e de como elas contagiavam quase todos os segmentos da sociedade.

Este é um documento comum do cotidiano que refletia a típica e dominante cultura enciclopédica do mundo industrial e analógico, uma época em que pesquisa e a reprodução dos dados era manual, trabalhosa, mas também estimulava a memória e a síntese do conhecimento.

Sobre esse costume de época, o memorialista Claudio Sterque recordou numa rede social a sua experiência de participar de algo tão marcante, há mais de 50 anos:

“Vocês não tem ideia de como é importante esse documento que encontrei ontem nos meus arquivos. 

Essa é lista de tarefas para uma gincana do antigo Colégio Estadual nos anos de 1970. Essas gincanas no então único colégio da cidade, envolvia toda a comunidade e eram sempre esperadas com grande ansiedade. Os livros arrecadados eram para a primeira biblioteca pública da cidade, que ficava nas instalações do colégio”.


         

1972 - Vencedores da 2ª Gincana do Colégio Estadual, dirigem a Prefeitura por um dia.

"Aqui um momento muito legal da minha vida. A gincana movimentava os estudantes que movimentavam a cidade. Lembro que o carro oficial do prefeito (um Ford Landau)foi me buscar em casa, eu ia sentando no banco da da frente e o motorista (o Antônio) não deixou. Ele disse: "Hoje você é o prefeito então senta no banco de trás". 

Esse tipo de evento não deveria ter acabado. Servia como uma aula de civismo. Fazer o quê"?

João Paes, membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande-IHGPG


1972 - Vencedores da 2ª Gincana do Colégio Estadual, dirigem a Prefeitura por um dia.

"Aqui um momento muito legal da minha vida. A gincana movimentava os estudantes que movimentavam a cidade. Lembro que o carro oficial do prefeito (um Ford Landau)foi me buscar em casa, eu ia sentando no banco da da frente e o motorista (o Antônio) não deixou. Ele disse: "Hoje você é o prefeito então senta no banco de trás". Esse tipo de evento não deveria ter acabado. Servia como uma aula de civismo. Fazer o quê"? João Paes, membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande-IHGPG

Acervo : João Paes, 

 


 UMA VISITA SURPREENDENTE

SUELY TOSCHI


 Conversando ..hoje ..com um responsável pela Biblioteca Municipal....lembrei de um episódio de minha vida ..muito interessante...

Suely Toschi: Trabalhava na EE Dr. Reynaldo Kuntz Busch" á época tínhamos que cumprir 44 horas semanais de trabalho.

As 4 horas trabalhávamos das 8:00 ás 12:00 horas

Num sábado qualquer no meio da manhã..entra uma senhora ..muito altiva ..porém muito educada...para eu atender...

Perguntou sobre o Diretor ...sobre as capacidades de cada classe ..em número de alunos...e assim foi...

Eu muito jovem e inexperiente...fui atendendo o melhor que pude...

Até que em determinado momento a sra. me pede o livro de visitas...e eu muito receosa...lhe entrego ..E ai vem a surpresa...

Era a Sra.Dra. Ester de Figueredo Ferraz, nossa digníssima então Ministra da Educação que teria vindo passar o fim de semana na casa de veraneio do então advogado de Jânio Quadros

À época não tínhamos muita informação de fotos etc...apenas sabia quem era a nossa Ministra por nome

Felizmente ..conclui meu trabalho com louvor ...no termo de vista...

Dra.Ester foi durante muito tempo Reitora da Universidade Mackenzie



*

CAPÍTULO X
CRONOLOGIA

Fonte principal, até 1982: Poliantéia Vicentina


Ruínas do Caminho dos Jesuitas (ou de Santo Amaro). Ilustração do verbete São Vicente no cadastro de municípios do IBGE. sd.




1533- A Câmara Municipal de São Vicente autoriza, em 16 de agosto, a construção do Caminho do Rey, ligando os sítios de Praia Grande à Conceição de Itanhaém.

1776-77 – Construído o Forte da Praia do Goes pelo capitão-general D. Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão.

1772-Escritura do Sítio Mongaguá em nome do alferes Inácio José da Silva.

1777- Destacada para São Vicente uma força militar denominada Terço de Auxiliares da Marinha de Santos, com 120 soldados, como parte de uma organização militar da colônia.

1841- Cubatão é anexada a Santos. Promulgada pelo governo provincial a Lei nº17 estabelecendo os limites municipais de Santos.

1849- Nascimento de Cesário Bastos (dr. José Cesário da Silva Bastos), advogado e senador, no Porto do Rey, a 16 de setembro , sendo filho legítimo de Antonio José da Silva Bastos e de d. Maria Plácida da Costa Bastos.

1852- Construído o Farol da Moela, na ilha do mesmo nome, em Praia Grande, frente à Estátua de Iemanjá.

1853- Nasce o pintor Benedito Calixto em Conceição de Itanhaém.

1856- -Registro, em 6 de janeiro, do Sítio Prainha, depois Itaipu, antiga propriedade do Capitão -mor Aguiar.

1866- Começa a funcionar o Caminho do Mar ou Tejuguassu.

1871- Inventário de Francisco Antonio da Silva, proprietário dos sítios Imboaçu, Buêva, Caraú, Samaritá (uma parte) e Guaramá (1/3).

1876- Nascimento da professora Maria Pacheco Nobre, num sítio do canto do Itaipu, em 27 de janeiro, e faleceu aos 49 anos, em 12 de junho de 1925, assistida, nos derradeiros momentos de sua profícua existência, por sua dileta amiga, a sra. Júlia Paranhos, na residência desta, à Rua João Ramalho, esquina da Rua Padre Anchieta, onde atualmente está instalado o Serviço de Profilaxia da Malária.

1880- O correspondente do Diário de Santos publicava notícia de que a vila de São Vicente possuía apenas 7 ruas.

1887- Nascimento em Campinas-SP, em 18 de abril, Fernando Arens, futuro urbanizador de Mongaguá.

1892- Partilha do inventário de Francisco Antônio da Silva.

1894 - República Velha. Governo do Mal. Floriano Peixoto. Durante a Revolta da Armada, o Batalhão Federal de Franco Atiradores, estacionado no litoral, marchou de São Vicente em direção Vale do Ribeira para conter alguns revoltosos partidários da Armada da Marinha de Guerra, em Xirica (Eldorado). Ao passar por Praia Grande, alguns soldados indisciplinados cometeram abusos e violências, causando temor entre os pacatos sitiantes da região, que correram em busca de refúgio nos sítios Mariana e Queirozes. As agressões foram rapidamente denunciadas ao Inspetor de Quarteirão do bairro, Januário da Silva, que alertou o Delegado de Polícia, Capitão Antero Alves de Moura. Este conteve os abusos atuando junto ao comando do batalhão e tranquilizou a população, enviando o Cabo Antônio e quatro praças da delegacia para acalmar e proteger os sitiantes em seus ranchos.


1895- Naufraga em Praia Grande o Maiden City.





O encalhe do Mayden City na praia da Guilhermina.

Em uma noite de tempestades e pouca visibilidade em 1895, o veleiro de casco de madeira Mayden City, a caminho do porto de Santos, se perde e encalha na cidade. O navio de bandeira britânica trazia um grande carregamento de finas porcelanas e peixes defumados, entre salmões, arenques e bacalhau.

O navio nunca mais velejou. Nem os esforços de dezenas de homens e a retirada das mercadorias, fez o Mayden voltar para o mar. Com o tempo a embarcação foi se desfazendo e se transformou num grande criadouro e esconderijo de peixes até o final dos anos 80, quando foi dinamitado pelo Exército, depois de muitos acidentes com banhistas. O local disputado por pescadores, ficou conhecido como o "Casco do Navio".



1898- Nascimento, no dia 21 de março, em Montevideo, Uruguai, de Heitor Sanchez, pioneiro e urbanizador de Praia Grande.

1901- Em 29 de Agosto o nascimento de Antonio de Augusto de Sá Lopes, pioneiro do transporte civil e turístico do litoral sul.

1902- É iniciada a construção do Forte Itaipu, na Barra de São Vicente, na ponta do maciço Japui-Xixová-Itaipu, sudeste da barra.

1903- Instalação da 1ª Bateria da Fortaleza do Itaipu, com um efetivo de homens.

1905 - "Baile na Praia Grande". Nesse ano, J.Marques Pereira edita esse postal onde diz: "Veranistas dançam sobre a areia da praia do Boqueirão ao som de uma viola". Praia Grande era um conhecido "point" da aristocracia santista, vicentina e paulistana. O prefeito de São Vicente morava no Boqueirão.

1906- Elevação de Itanhaém a cidade, pela Lei número 1.038.

1909- Alexander Dixon adquire em hasta pública o sítio Boguassu, atual jardim Guilhermina, onde seria desenvolvido o empreendimento hoteleiro e educacional Nova Escócia.

1910- Idealização e início das obras da Ponte Pênsil.

- Instala-se em Praia Grande, no então Sítio Mongaguá, o pioneiro Fernando Arens.

1911- Desmembramento do Sítio Emboaçu, adquirido pela The Brazilian Construction Companhy Ltada., para a construção do leito da Estrada de Ferro Santos-Juquiá (EF Sorocabana).

-Fernando Arens realiza a sua primeira compra de terras no litoral, contíguas ao Sítio Mongaguá.

1912- Demolida a Capela de Paranapoã, que tinha como padroeiro Santo Inácio e N.S. da Conceição. Chegam a Itanhaém os trilhos da E.F. Santos –Juquiá.

1913-Criada, por Fernando Arens, a Companhia de Melhoramentos em Praia Grande, base da fundação urbana de Mongaguá.

1914- Eclosão da I Guerra Mundial. Inauguração da Ponte Pênsil, principal via de acesso rodoviário entre a ilha de São Vicente e o litoral sul, importante fator de desenvolvimento do bairro de Praia Grande.

-Inaugurada oficialmente a linha férrea ligando Santos, São Vicente e Conceição de Itanhaém. Inauguração oficial da Ponte Pênsil com a presença do presidente da república Rodrigues Alves e do engenheiro Francisco Saturnino de Brito. A ponte serve também com condutor de esgoto de Santos e São Vicente, despejado na ponta do Itaipu. O duto foi desativado, porém está até hoje no local onde foi construído.

1917 - Ano decisivo da I Guerra Mundial, com a saída da Rússia por causa da Revolução Bolchevique; e a entrada dos EUA na Tríplice Entente. Greves operárias em São Paulo.

1918- Inaugurado, em 6 de junho, o Quartel de 2ª Bateria do Forte Itaipu, sob o comando do Capitão Becker. Fim da I Guerra Mundial.

- Instala-se no Boqueirão, em frente à orla e como primeiros moradores do bairro, a família de Antão Alves de Moura, ex-prefeito de São Vicente.

1920- Loteada a Vila Balneária em Praia Grande, aparecem à venda os lotes fantasmas de Vila Beira Mar.

1922- Semana de Arte Moderna em São Paulo, organizada pelo Grupo dos Cinco, que iniciou o movimento numa casa de veraneio em São Vicente.

1924- Heitor Sanchez adquire pela primeira vez uma gleba no Boqueirão, aquisição perdida em função da revolta armada tenentista em São Paulo.

1925- O prefeito João Francisco Bensdorp sanciona, em 26 de janeiro, a Lei Municipal nº 173 dispondo sobre o arruamento da Praia Grande desde o Itaipu até Mongaguá.

- Fundação da Associação de Proprietários de Praia Grande. No mesmo ano essa entidade adquiriu um ônibus, com linha regular de viagens até Itanhaém.

1926- A firma Guinle e Irmãos inaugura na Praia Grande a Vila Guilhermina, tendo discursado, na ocasião, o capitão Luiz Antônio Pimenta, delegado de polícia de São Vicente e o senhor Heitor Sanchez, representante do jornal vicentino “O Progresso”.

-Visita do presidente Washington Luiz à Fortaleza de Itaipu

-Chega a Solemar o pioneiro Júlio Secco de Carvalho, em companhia de sua esposa D. Maria da Costa Carvalho, com quem contraíra matrimônio em Campinas, no dia 15 de Novembro de 1915.

- 1926 . Comemoração da chegada da luz elétrica na cidade, no bairro Guilhermina





À direita na imagem o loteador Heitor Sanchez, fundador dos bairros Jardim Mathilde e Jardim Guilhermina.




1927-Fundação da Companhia Territorial Praia Grande, loteando o Jardim Caçula, Vila Circe, Balneário Flórida e Flórida Mirim.

- Inauguração do Hotel dos Alemães, o primeiro de Praia Grande.

- Inauguração da luz elétrica, no jardim Guilhermina

- A companhia Letecoére ( Air France) estuda a construção de um campo de aviação em Praia Grande.

- Morre em São Paulo o pintor e historiador Benedito Calixto de Jesus.

- Pouso em Praia Grande do avião Jahu, do piloto Ribeiro de Barros.

1929- Crack da Bolsa de Nova York, início da Grande Depressão e da crise cafeeira no Brasil.

1930- Lei municipal nº 218, assinada pelo prefeito José Meireles e pelo presidente da câmara Luis Antonio Pimenta, dá isenção de imposto predial por dez anos como incentivo à construção civil no bairro de Praia Grande.

- Revolução de 1930 leva Getúlio Varga ao poder.

-Pouso no campo da Air-France em Praia Grande, em 19 de maio, do avião do correio aéreo internacional pilotado pela dupla Marmoz e Etiene. Os aviadores são recebidos em festa por um grupo de fãs santistas.

1932- Aviões governistas bombardeiam o Fonte Itaipu durante a revolta constitucionalista.

1933 - Visita do presidente Getúlio Vargas à Fortaleza de Itaipu determina a pavimentação de um trecho da avenida Tupiniquins e da antiga Estrada Militar (atual Mal. Malet).

1936- Aeroclube de Santos, o mais antigo do Brasil, passa ser denominado Aeroclube de Praia Grande.

-Decreto Estadual 9.975 cia o Distrito de Itariri, desmembrado de Itanhaém.

1941 – Tombados pelo IPHAN a ermida e convento de Nossa Senhora de Itanhaém.

- Chegam para residir em Praia Grande o casal Oswaldo Toschi-Suely Sanches Toschi e a primeira filha deles, Suely Sanchez Tosch, ainda pequena.

1942- A pesca de Arrastão é na época a maior atração turística de Praia Grande. Falecimento de Fernando Arens, urbanizador de Mongaguá.

1944- São Vicente perde parte do seu território para o Distrito de Parelheiros.

- Construção dos primeiros edifícios na orla do Boqueirão: o Xixová e Guaramá.

- Nota jornalística na Folha de São Paulo anuncia a inauguração do Restaurante do Jardim Guilhermina, no Boqueirão de Praia Grande.

- Abolido o salvo-conduto exigido dos veículos na travessia da Ponte Pênsil.

1946- Inauguração da Rodovia Anchieta, indicando o aumento crescente do fluxo de veículos entre o planalto paulista e o porto de Santos, bem como a demanda veranista no litoral.

1948- Com a Lei Estadual número 233, Solemar passou a constar como distrito de São Vicente.

- Fundação, em 9 de julho, da Associação Amigos de Praia Grande, sendo seu primeiro presidente Sr. Nestor Ferreira da Rocha.

- Noticiado o primeiro acidente aéreo em terras vicentinas. Cai no mar em Praia Grande o avião prefixo PP-HAI, pilotado por José de Almeida, que foi socorrido por populares e levado para a Santa Casa de Santos.

1949 – O distrito de Solemar conta com serviço de aviação para transportar o pescado e doentes, quando necessário.

- Anuncia-se pela primeira vez um movimento em favor do desmembramento da Praia Grande para emancipá-la como município. A reação contrária na sede é intensa e até hostil.

1950- O primeiro radar marítimo chega ao Brasil para o barco de pesca de José Carlos de Oliveira, de Praia Grande.

- Dom Idílio José Soares, bispo diocesano de Santos, rezava a primeira missa da capela de Santa Mathilde em Praia Grande. Era a primeira extensão da paróquia de São Vicente Mártir, na parte continental.

1952-Instalada a sub-prefeitura de Praia Grande pelo prefeito Charles de Sousa Dantas Forbes, sendo nomeado sub-prefeito o Sr. José Carlos de Oliveira.

1 de julho de 1952 - Inaugurado o Restaurante Lagosta. Por suas mesas passaram os governadores Adhemar de Barros, Lucas Nogueira Garcez, Jânio Quadros, Laudo Natel e Mário Covas.

Também Mazzaropi, Sílvio Caldas e Hebe Camargo. No auge do movimento eram consumidos 500 quilos de frutos do mar por semana. A equipe era composta por 12 funcionários na cozinha e 9 no salão. O cozinheiro Sebastião Tavares de Oliveira anos depois se tornaria vereador por vários mandatos consecutivos. Museu da Cidade.

1953- Abertura do Diretório do Partido Social Progressista, com sede no Boqueirão. Primeira tentativa de emancipação de Praia Grande.

1954-Em Praia Grande existem somente a Av. Mal. Malet e a Avenida da Praia.

- Noticiado pela primeira vez aparecimento de discos voadores (OVNIs) em São Vicente.

-Circe Sanchez Toschi, embora sem definir o fato como um OVNI ou disco voador, relata e suas memórias ter visto , em noite escura, "...em cima da casa de Humberto Verganini, um retângulo, mais ou menos, três por dois metros, emitindo uma luz azul e forte, não difusa, mas fechada, a alguns metros do chão", deixando-a estática e sem uma explicação racional para o fenômeno.

- Anunciado o loteamento da Vila Mar.

- Inauguração, em 27 se maio, dos primeiros edifícios da Cidade Ocian.

-Realização, por Oswaldo Toschi, da primeira Prova Alta de Pedestrianismo de Praia Grande. O tiro de partida foi dado pelo prefeito Charles Dantas Forbes. Os vencedores fora, pela ordem, Altamiro dos Santos, Teide Conto Duarte e Erivaldo B. Moreira, José Calixto e José Pereira Filho.

1955- Realização, em 22 de maio, do primeiro Concurso Jardim, idealizado por Heitor Sanchez. O evento teve a presença deArthur Etzel, diretor de Parques e Jardins de São Paulo; de Gabriel Pereira Filho, diretror do Horto Municipal de São Vicente e do prefeito Charles Dantas Forbes.

1956- Inauguração da Cidade Ocian, pelo engenheiro Roberto Andraus, que também foi prefeito de São Vicente.





- Realização, em 20 de maio, da Corrida de Lambretas na areia da Praia, promovida por Wilson Fitipaldi, pai e avô dos famosos corredores Fórmula 1. A partida deu-se em frente do Restaurante Lagosta.

1957 – Registrado o avistamento de OVNI na Fortaleza de Itaipu por soldados da guarda e também pelo tentente-coronel Adston Pompeu Piza, comandante da unidade.

- Inauguração da Capela de São João Batista em Solemar, em terreno doado pelo casal Maria da Costa Carvalho e Júlio Secco de Carvalho.

1958- Criação da Comarca de São Vicente e do Subsdistrito do Boqueirão, conquista política do vereador Oswaldo Toschi.

1959- Inaguração do Serviço de Guarda Noturna, com sede Boqueirão, sob o comando do Cel. Edivaldo dos Santos.

1960- Posse, em 1º de janeiro, do empresário Roberto Andraus, fundador da Cidade Ocian, como prefeito de São Vicente.

- Orlando Intrieri assume a prefeitura de São Vicente, após a renúncia de Roberto Andraus. Intrieri tinha especial interesse por Praia Grande pois, segundo a memorialista Circe Sanchez Toschi , pretendia transferir a sede administrativa para o então bairro vicentino.

1961- Construção do Ginásio Estadual de Praia Grande.

- Transferência da sub-prefeitura para a Vila Mirim, lendo para aquela área luz elétrica, a instalação de rede de água, aproveitando o manancial do rio Branco. A cidade Ocian já usava o manancial nessa época.

- Inauguração, no Boqueirão, do Clube de Praia São Paulo.

1962- Inauguração do serviço de policiamento na Estação de Rádio Patrulha.

- Última eleição em Praia Grande como bairro de São Vicente.

1963- Emancipação do Distrito de Solemar.

- Em reunião no dia 22 de janeiro, na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, em cima da Padaria Rio Branco, na rua 13 de Maio com XV de Novembro, Circe Sanchez Toschi, quebrando o protocolo, refuta com veemência o discurso acusatório do orador Olavo Horneux de Moura, afirmando que o movimento emancipatório não era uma ação falsa de "latifundiários", como havia dito, e sim do povo de Praia Grande ansiando por melhores condições de vida naquele bairro esquecido por São Vicente.

- Elaboração, em 23 de abril, de uma relatório documentado provando que os distritos de Solemar e Boqueirão reúnem condições para elevação a município.

- Aprovado, em 5 de novembro, o relatório pedindo a elevação a município de Solemar e Boqueirão de Praia Grande.

1964- Mongaguá, em 28 de fevereiro, tem sua área territorial aumentada até a divisa com Praia Grande.

- Também em 28 de fevereiro, é criado o município de Praia Grande, com parte do distrito de São Vicente e a totalidade do distrito de Solemar.

- Inauguração da rodovia Cubatão-Pedro Taques, com a presença do governador Adhemar de Barros.

1966- Fundação do Esporte Clube Oriental.

- Fundação, em 17 de agosto, da Sociedade Santa Rita de Cássia

- Decretada, em 20 de Abril, a intervenção federal em São Vicente, tendo sido nomeado para o cargo o interventor Lincoln Feliciano.

- A Praia Grande, em 27 de maio, é reconhecida como município por decisão do Supremo Tribunal federal. São Vicente recorre.

- Negando, em 27 de outubro, provimento em última instância ao recurso interposto por São Vicente, o STF reconhece a autonomia de Praia Grande como município, desmembrando-a de São Vicente

1967- Emancipação político-administrativa de Praia Grande.







Moradores da Cidade Ocian saudando a emancipação de Praia Grande em 1967.



- O presidente Castelo Branco, em 9 de janeiro, nomeia Nicolau Paal interventor federal em Praia Grande, até a realização das primeiras eleições municipais.

- Instalação, em 19 de janeiro, do município de Praia Grande.

- Visita, em 13 de maio, do governador Roberto Abreu Sodré.

-Fundação, em 5 de junho, do Lions Clube de Praia Grande, tendo como presidente Reynaldo de Barros.

- Cubatão é considerada área de interesse e segurança nacional.

-30 de Maio de 1967 - Reunião da fundação da Ass. Comercial, Industrial e Agrícola de Praia Grande.

1968- Exoneração, em 17 de janeiro, do interventor federal Nicolau Paal.

- Posse do interventor estadual em Praia Grande, Paulo de Souza Sandoval

- Santos elege, em 15 de novembro, pela primeira vez, um prefeito vicentino: Esmeraldo Tarquínio de Campos Filho.

-Realizadas as primeiras eleições municipais em Praia Grande, com a vitória nas urnas de Dorival Loria como prefeito, e vice-prefeito Leopoldo Estácio Vanderlinde.

- Inauguração, em 17 de novembro, da sede da prefeitura municipal.

- Fundação do Clube do Siri, frequentado por jovens do Jardim Guilhermina, sob a presidência de J.L. Portela Camargo.

- Fundação, em 3 de dezembro, do Rotary Clube de Praia Grande, sob a presidência de Nelson Veloso.

1969- Fundação do Grêmio Municipal de Praia Grande.

- O governador Carvalho Pinto doa terras em Praia Grande, que vai da orla à via Padre Manoel da Nóbrega, à Federação dos Trabalhadores do Estado de São Paulo.

- Maria Inês Chaves é eleita em 11 de junho, a primeira Miss Praia Grande.

- Prefeitura adquire o primeiro computador da cidade.

1971- Inauguração, em 20 de de fevereiro, ás 18:30 horas, do Cine Yara, na rua Londrina. Boqueirão. "Empreendimento da Empresa Cinematográfica M. Pagani Ltda. A casa de diversões construída com linhas modernas e mobiliário confortável tem capacidade para 600 pessoas. Na inauguração, que contará com presença de autoridades locais, será oferecido um coquitel" ( A Tribuna, de Santos)

1972- A Comarca de São Vicente e Praia Grande é sede da 50ª Circunscrição Jurídica do Estado de São Paulo, com a organização de varas civil e criminal entre os dois municípios.

1973- Federação faz distribuição equitativa de lotes para os sindicatos de trabalhadores, que passam a construir colônias de férias e de lazer em Praia Grande.

- Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente instala-se juntamente com o Museu Geral da Cidade, no mês de agosto, na Casa do Barão, antiga residência do comerciante de café, Barão Von Priztzelwitz. O imóvel é tombado como patrimônio histórico e pertence à Caixa Econômica Federal. Em novembro registraram-se diversos relatos de avistamento de OVNI sobrevoando São Vicente.

- O prefeito Leopoldo Vanderlinde é agraciado com a medalha “D. Pedro I”, o proclamador.

1973 - Aberta a primeira exposição alusiva a habilidade artesanal do homem amazônico e o índio brasileiro em Praia Grande.

1974- A cidade de São Vicente recebe urna contendo terra onde foram sepultados os primeiros povoadores da cidade de São Paulo.

- Fundação do Circulo de Amigos do Menor Patrulheiro de Praia Grande.

1975 – Criação da Bandeira do município de Praia Grande, com o dístico "Marenostrum".

- Inauguração em São Vicente, em maio, da Casa do Menor Abandonado. Inaugurada a Unidade Educacional Pró-Menor em São Vicente, na Praia de Paranapoã, recebendo adolescentes de cidades da região.

- O presidente Geisel inaugura, em maio, a rodovia dos Imigrantes e vista a baixada Santista.

1976- Fundação em 19 de março da Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande -SP.

-Festejos do 9º aniversário da emancipação.

A Tribuna, edição de 18 de janeiro de 1976. Hemeroteca da BN.

- Caminhão Cultural do Mobral marca presença em 01 de outubro em Praia Grande.

- Avião perdido pousa em Praia Grande após ter sido guiado por um Boing da Varig.

SALVAMENTO NOS CÉUS

Domingo, 01 de agosto de 1976. Um pequeno avião, sem combustível e sem instrumentos de navegação, perdido entre Campinas e São Paulo; um piloto à beira de um acidente fatal. A rota do piloto era Jundiaí, Botucatu, Bauru e retorno a Jundiaí. O piloto Wlamir foi surpreendido por um fenômeno de acúmulo de nuvens e falhas nos instrumento de vôo. Solicita ajuda por rádio para torre de Campinas e foi autorizado a prosseguir a viagem, porém as coisas pioraram, por causa do horário quase noturno -lusco, fusco- e um inesperado deslocamento de vento, confundindo sua rota. A Torre de controle de São Paulo recomenda ao piloto que aguarde ajuda de um radar. O jovem piloto de 18 anos seria auxiliado por uma aeronave que naquele momento voava sobre a cidade de Itanhaém. De repente ele recebe ajuda de um Boing DC3 da Varig , que o conduz na escuridão até o litoral e os pilotos lhe desejam boa sorte. O pequeno avião vai em direção ao mar e finalmente pousa na areia de Praia Grande. Mas não ficou apenas nisso. Seguindo os rigores da legislação érea e de segurança nacional, depois de ser socorrido por populares, o piloto foi conduzido para Base Aérea do Guarujá, onde passou a noite sendo interrogado e dali foi levado para São Paulo sob custódia do Ministério da Aeronáutica. Novos interrogatórios até que tudo fosse esclarecido. Ainda vivíamos na Guerra Fria e sob governo de regime militar. Durante o pouso, na Ocian, o avião teve uma das asas danificadas num esbarrão em uma barraca de praia. A tripulação do Boing seria condecorada com a Medalha Santos Dumond, pelo gesto de solidariedade e salvamento.

O Boing, vindo de Porto Alegre estava com passageiros à bordo, voando sobre o planalto paulista, e que presenciaram toda a operação de recondução do pequeno avião até o litoral. Um procedimento rotineiro para a experiencia dos pilotos da Varig, porém um gesto espantoso e heroico para os leigos que nem imaginam que aquele tipo de socorro era possível.

1977- Fundação da Sociedade Esportiva Canarinho de Praia Grande.

- Formatura da Primeira Turma da E.E. de 1º Grau da Cidade da Criança.

- Praia Grande e São Vicente cogitavam construção de uma ponte sobre o rio Branco, entre o Samaritá e a Vila Tupy.

- O CONDENPHAAT tomba o Porto das Naus- Engenho de Jerônimo Leitão, no Japui, em São Vicente.

- Prefeitura de Praia Grande assina convênio com a COHAB para a construção de conjunto habitacional no “Recanto do Forte”.

- Realização em Praia Grande do XXVI Congresso Estadual de Municípios realizado.

1978 - Mais de 40 artistas plásticos de Praia Grande celebram os 60 anos da Fortaleza Itaipu com exposição coletiva. Foi a Expo Arte 78.

1979- Fundado o Lions Clube de Cidade Ocian.

- Realização do XXIII Congresso Estadual de Municípios.

- O sargento Sebastião Rodrigues Marques realiza , em 17 de outubro, salvamento no mar junto as costeiras da Fortaleza de Itaipu.

1981- Nova iluminação pública do Boqueirão.

- Jornal A Tribuna, de Santos, na edição de 28 de maio, anuncia concurso de Miss Praia Grande.

- Inauguração, em 2 de julho, da Escola Estadual de 1º Grau do Jardim Praia Grande.

- Inauguração do Pronto Socorro Municipal da Vila Antártica.

- Criada, em novembro, a Comarca de Praia Grande.

-Fundação, em dezembro, da Casa de Portugal em Praia Grande.

- Fundação, em 11 de junho, do 15º Grupo Escoteiro Fortaleza de Itaipu, por iniciativa do Rotary Club de Praia Grande. A entidade, filiada a União dos Escoteiros do Brasil, foi declarada de utilidade pública municipal pela Lei Municipal nº 663 de 11 de agosto de 1989.

-Inauguração, em 19 de dezembro, pelo governador Paulo Maluf a pista descendente da Ponte do Mar Pequeno. A imobiliária paulistana Salim Farah Maluf incrementa loteamentos e negócios imobiliários na Vila Tupy e outros bairros de Praia Grande.

- Inauguração da Morada da Planície, cemitério municipal.

- Falecimento, em 11 de julho, de Oswaldo Toschi, vereador representante de Praia Grande na Câmara de São Vicente Vicente, emancipador histórico, cassado pelo regime militar para impedir sua candidatura como primeiro prefeito de Praia Grande , anistiado e reabilitado em seus direitos políticos pela Justiça Federal.

1985 - Falecimento de Heitor Sanchez, um dos fundadores urbanos e emancipadores de Praia Grande.

1993- Criação do Parque Estadual Xixová-Japui.

Localizado em Praia Grande e São Vicente, na Baixada Santista, o Parque Estadual Xixová-Japuí é um fragmento de Mata Atlântica que recebe milhares de visitantes todo ano. Criado em 1993, seus 900 hectares preservam biomas como o ecossistema marinho, costão rochoso, praia arenosa, mata de restinga e mata de encosta. A Trilha do Curtume permite observar características de Mata Atlântica em matriz urbana, além de uma construção de 1914 que curtia couro de gado e chegou a levar o título de melhor couro do mundo. Pode-se observar o Oceano Atlântico e a Praia de Itaquitanduva, mas a visitação precisa ser agendada.

- A Prefeitura da cidade inicia a regularização e organização do comércio ambulante na orla. Muitas dessas barracas estavam abandonadas e geravam mais problemas de higiene e segurança na orla e cidade. Imagem Museu da Cidade.

1993- Assinatura da proposta de criação da Fatec em Praia Grande.

- VENDAVAL. Em 1993 Praia Grande foi sacudida por uma forte tempestade que causou muitos danos, sobretudo na orla, que estava mais exposta aos ventos de alta velocidade e poder de destruição. As imagens são da Globo News-30 ANOS EM UM MINUTO exibidas dia 2 de junho de 2023 e captadas por Almir Douglas Oliveira Marcelino, turismólogo e nosso confrade do IHGPG.

1996- Em 08 de março, instalação com a cessão do antigo paço municipal no Boqueirão para o funcionamento da futura FATEC. Embora a inauguração tenha contado com representantes do Centro Paula Souza e de todas as autoridades municipais, a instalação de fato não ocorreu, o que viria a acontecer efetivamente somente no início desse século com a presença do governador do estado a época, Geraldo Alckmin, que assinou o decreto de criação da faculdade com a oferta inicial do curso de informática com ênfase em gestão de negócios.

1998- Realização do 48º Congresso da Associação Paulista de Municípios.

A profa. Graziella Sterque em palestra para as primeiras damas participantes do 48º Congresso da Associação Paulistas dos Munícipios em 1998 na Praia Grande. A imagem foi obtida por Renato Lapetina Jr. especialmente para o Gazeta de Praia Grande. Acervo Edgar Dall'Acqua.

- Formatura da 1ª Turma da FATEC do curso de Informática e Gestão de negócios. O evento foi conduzido por Silvio Luis dos Anjos, mestre de cerimonia e também formando.

2008 - Fundação, em 11 de setembro, do Palácio das Artes -PDA, núcleo cultural que hoje também abriga o Museu da Cidade.

2010- Criação da Aldeia Indígena e da Escola Estadual Tekoá Mirim.

2018- Comemoração dos 50 Anos da fundação do Rotary Clube de Praia Grande.

- Fundação, em 21 de setembro, da ALAPG- Academia de Letras e Artes de Praia Grande.

Fundadores: Fathyma Jaguanharo Carvalho, Lita Moniz, Sonia Maria Piologo, Layr Peniche de Oliveira, Suely Ribella, Castillo Arboler; cofundadores: Driko Gomez, Augusto Sarvam e Edson Santana Do Carmo. A ALAPG possui 25 cadeiras acadêmicas ocupadas, 6 membros associados;7 membros correspondentes; e1 membro internacional . Foi declarada de Utilidade Pública, pela Lei municipal nº 2081 de 09.02.2022.

2020- Início das obras de modernização da avenida Paris, no Boqueirão, como novo modelo de pavimentação, iluminação e jardins ornamentais. Foi reinaugurada neste mesmo ano. O projeto fez parte de um conjunto de obras de reurbanização e revitalização do Centro Expandido da Estância de Praia Grande, que teve seu inicio em 2019.

2021- Fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande.


28 de junho de 2021. "Que dia proveitoso ! Hoje entraram como membros fundadores do Instituto Histórico Geográfico de Praia Grande, o professor e historiador Dalmo Duque dos Santos, o cineasta Antonio Munõz, a fomentadora cultural Lourdes Marszolek Ampararte, o jovem bacharel Gabriel Resende e a fotógrafa e comerciante Renata Biondo. Em comum todos amam essa cidade e pretendem colaborar com estudos, pesquisas e divulgação da nossa história e da nossa cultura. Essa será a nossa missão"! - Claudio Sterque.

*

 

HISTÓRIA DE PRAIA GRANDE

ORIGENS, EMANCIPAÇÃO E DESENVOLVIMENTO.


CONTEÚDO COLABORATIVO DE ACESSO LIVRE E SEM FINS LUCRATIVOS


*

PESQUISA E ELABORAÇÃO:


DALMO DUQUE DOS SANTOS

(ORGANIZADOR)

COLABORADORES DOCUMENTAIS - ICONOGRAFIA, TEXTOS E MEMÓRIA

ALESSANDRO JOSÉ PADIM FERREIRA

ALMIR DOUGLAS OLIVEIRA MARCELLINO

AUGUSTO VIANA NETO

CLAUDIO STERQUE

DALMO DUQUE DOS SANTOS

EDGAR D'ALL ACQUA

ELSON DIAS STERQUE

GABRIEL LUIZ RESENDE

JOSÉ ALONSO JUNIOR

JOÃO PAES PINTO

LUCY CARVALHO

MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA

MARIA DE LOURDES MARSZOLEK BUENO

RODOLFO RONDON

ROSA DA ROCHA SIMÃO

SILVIO LUIS DOS ANJOS

SUELY SANCHEZ TOSCHI

*

AUTORES DE TEXTOS E DOCUMENTOS CONSULTADOS OU REPRODUZIDOS:


ADELTO GONÇALVES

ANTÔNIO TELEGISKY

CARLOS PIMENTEL MENDES

CIRCE SANCHEZ TOSCHI

EDSON TELLES DE AZEVEDO

GRAZIELA STERQUE

J. MONIZ JR

LENA TORRES

MÁRIO AGUIAR LEITÃO

PAULO MIORIM

ROSANA ALMEIDA LAFRANCA

WALDINEY LA PETINA

*


 FONTES CONSULTADAS:

MUSEU DA CIDADE DE PRAIA GRANDE-PDA

SITE DA PREFEITURA MUNICIPAL DE PRAIA GRANDE

POLIANTEIA VICENTINA, 1982

VULTOS VICENTINOS, 1972

FORTALEZA DE ITAIPU, 1º CENTENÁRIO 1902 -2022

A TRIBUNA E CIDADE DE SANTOS- BIBLIOTECA NACIONAL

REVISTAS FLAMA E A FITA - FUNDAÇÃO ARQUIVO E MEMÓRIA DE SANTOS

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO

JORNAL ELETRÔNICO NOVO MILÊNIO

INFORMATIVO CULTURAL- ACEAM- NOVO MILÊNIO

REVISTA ACRÓPOLE- ACERVO FAU-USP

PRAIA GRANDE ANTES DA EMANCIPAÇÃO

JORNAL VICENTINO

HISTORIADOR PG -FB

SÃO VICENTE NA MEMÓRIA -FB

SÂO VICENTE DE OUTRORA -FB

ARQUIVO DIGITAL DA ALESP

CENTRO DE MEMÓRIA DA EDUCAÇÃO- PORTO APRENDIZ-YOUTUBE

CIDE- CENTRAL DE DADOS ESTATÍSTICOS- SEPLAN-PMPG

PORTAL DA TRANSPARÊNCIA-PMPG






INCURSÃO CULTURAL NA FORTALEZA 


Frontaria clássica da Fortaleza


 A convite do Capitão Alexandre Martins Dutra, historiador e arqueólogo responsável pelo patrimônio histórico da Fortaleza de Itaipu, em Praia Grande, fizemos hoje (26 de fevereiro de 2025) uma visita de cortesia e reconhecimento das atividades de pesquisa e preservação da história dessa importante unidade operacional do Exército Brasileiro. 

Estiveram no encontro. além dos militares citados, a museóloga Suely Toschi, os historiadores Silvio Luis dos Anjos e Dalmo Duque dos Santos, a jornalista Dione Sterque e o memorialista Cláudio Sterque.  

Fomos recebidos pelo Comandante da unidade , Major Antônio Celso Fernandes, que tem uma grande afinidade com a história militar do Brasil e uma atenção especial ao aspecto histórico das unidades militares brasileiras. 

Já o Capitão e historiador Alexandre vem realizando um trabalho de resgate da memória da Fortaleza em todos aspectos, que vão desde biodiversidade de uma área - que corresponde a 2,5 milhões e meio de metros quadrados-  e que convive em harmonia com as atividades operacionais dessa unidade militar. O Capitão Alexandre faz hoje a gestão do Museu da Fortaleza e da preservação arquitetônica dos antigos fortes ali instalados no início do Século XX.  Esses Fortes tinham como função principal a defesa do Porto de Santos. 

A trajetória da Fortaleza de Itaipu se confunde com a história mais antiga da região, que é a cidade de São Vicente e também da emancipação do município de Praia Grande em 1967. 

A Ideia do Comando de Itaipu é estreitar as relações culturais com as cidades da região e, ao mesmo  tempo, preservar a memória desse emblemático equipamento militar do Exército. 

Nossa presença hoje na unidade dá início à colaboração técnica e cidadã para a preservação e divulgação histórica da Fortaleza de Itaipu.

Mapa dos Fortes que compõem a Fortaleza e sua vias de acessso



O Forte Duque de Caxias de Itaipu, conhecido por Fortaleza de Itaipu, localiza-se na Ponta de Itaipu, em Praia Grande, dominando a barra de São Vicente, no litoral do estado de São Paulo.

Tendo o Presidente do Estado de São Paulo, Dr. Bernardino José de Campos Júnior, durante a Revolta da Armada de 1893, constatado pessoalmente a precariedade do sistema defensivo da barra de Santos, constituído pela Fortaleza de Santo Amaro e pelo Forte Augusto, decidiu-se modernizar aquela defesa.

O Forte de Itaipu, projetado em 1896, destinava-se a controlar o movimento de embarcações na barra de São Vicente, acesso ao Porto de Santos. A sua artilharia, seis canhões Krupp 150 mm L/50 foi encomendada da Alemanha em 1901. Os dois anos seguintes foram consumidos na execução das obras de infra-estrutura: estradas, contenção de encostas e pontes de acesso, e um viaduto com vão livre de 20 metros e flecha de seis metros. A partir de 1903, iniciou-se a construção da primeira bateria, e em seguida, entre 1904 e 1906, foram levantados o Quartel, o Paiol, a Casa do Comandante e outras edificações. A partir de 1909, foi iniciada a segunda bateria, de obus (Bateria General Gomes Carneiro) e, no ano seguinte (1910), as obras complementares. As suas obras foram executadas pelo Coronel Ximeno Villeroy (GARRIDO, 1940:135). Em 1918 foram entregues as instalações do "Forte Duque de Caxias" e, no ano seguinte (1919), as do "Forte de Jurubatuba", ambos dotados de canhões franceses Schneider-Canet de 150 mm, com alcance de 9 quilómetros).

Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, a guarnição do forte alinhou-se ao lado dos revolucionários que lutavam contra o governo do então presidente Getúlio Vargas (1930-1945) (GARRIDO, 1940:136). Bombardeado por uma esquadrilha de hidroaviões Savoia-Marchetti S.55 governistas, a guarnição substituiu estrategicamente os canhões Schneider-Canet por réplicas de madeira pintada, embarcando a verdadeira artilharia e munição no "Fantasma da Morte", um trem adaptado pelos revolucionários, utilizado na linha de combate.

Durante a Segunda Guerra Mundial o forte manteve-se em estado de alerta, assegurando a navegação naquele trecho das águas territoriais brasileiras, acesso ao estratégico Porto de Santos. Nesse contexto, foi iniciada a construção da terceira bateria, denominada "Forte General Rego Barros".

Na década de 1950 encontrava-se guarnecido pelo 5º Grupo de Artilharia de Costa, ainda artilhado com os canhões Schneider-Canet de 150 mm (BARRETTO, 1958:267).

A partir de 1 de Abril de 1960, as dependências do forte passaram a ser guarnecidas pelo 6º Grupamento de Artilharia de Costa Motorizado (6º GACosM) tendo a sua artilharia sido substituída por canhões móveis Vickers-Armstrong de 152,4 mm.

BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368 p.
GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
MORI, Victor Hugo; LEMOS, Carlos A. C.; ADLER, Homero F. de. Arquitetura Militar: um panorama histórico a partir do Porto de Santos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2003. 231p.



Vista aérea da praça de canhões do Forte Duque de Caxias na Ponta do Itaipu


Visão externa e interna de base de canhão de longo alcance.








A Fortaleza de Itaipu é um complexo sob jurisdição do Governo Federal, administrado pelo Exército Brasileiro, sede do 2º Grupo de Artilharia Antiaérea (2º GAAAe) – “Grupo José Bonifácio e Fernando de Noronha”, que engloba um sítio histórico onde estão situados os Fortes Duque de Caxias, Jurubatuba e General Rego Barros.
 
Envolvida por exuberante mata atlântica preservada, possui no seu entorno belas praias de ondas moderadas e águas cristalinas que encantam seus visitantes. Neste agradável recanto do município de Praia Grande-SP, militares e civis se reúnem em diferentes momentos, ora para a realização de eventos comemorativos do Exército ou da Pátria, ora para confraternizações visando ao lazer e à prática desportiva.
 
O histórico da fortaleza de Itaipu remete ao ano de 1902 quando foi iniciada sua construção, em decorrência do Aviso nº 5 do Plano de Defesa de Santos, a mando de Manoel Ferraz de Campos Salles - presidente da República. Quando as obras foram iniciadas, a Comissão passou a contar com o auxílio do 24º Batalhão de Infantaria, acampado na Praia Grande, sob o comando do capitão Tude Bastos Neiva Lima.
 
A primeira fortificação, que tinha por finalidade assegurar a defesa da Fortaleza contra um ataque terrestre, foi inaugurada com a designação de Bateria Gomes Carneiro, composta por um Paiol, um Posto de Observação e seteiras de canhão, localizados na curva do cotovelo da estrada que demandava para a Ponta do Itaipu. Em 5 de novembro de 1918 era inaugurada a Segunda Bateria do 5º Distrito da Artilharia de Costa, denominada Forte Duque de Caxias. Em 3 de outubro de 1919 era inaugurado o aquartelamento da Primeira Bateria, vindo a receber seus canhões Schneider em 12 de junho de 1920, passando a ser designado como Forte Jurubatuba, em homenagem à Ponta de Jurubatuba, onde se localizava. No mesmo ano, a fortificação constituída pelas baterias Gomes Carneiro, Jurubatuba e Duque de Caxias recebeu a designação de 3º Grupo de Artilharia de Costa - Fortaleza de Itaipu. Em 24 de maio de 1934 o 3º GAC passou a ser designado como 5º Grupo de Artilharia de Costa. Por ocasião da 2ª Grande Guerra, estudos foram realizados com a finalidade de aperfeiçoar o sistema de defesa existente, que indicaram a necessidade de aumentar o poder de fogo da Fortaleza de Itaipu. Como decorrência teve início a construção da Terceira Bateria, denominada de Forte General Rego Barros. Em 31 de março de 1960, o 5º Grupo de Artilharia de Costa, composto pelas baterias Gomes Carneiro, Jurubatuba e Duque de Caxias, foi extinto.
 
A partir de 1º de abril o 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (6º GACosM), que possuía sua sede em Santos, ocupou as instalações da velha Fortaleza, substituindo os canhões fixos Schneider Canet 150 mm pelos canhões móveis Vickers Armstrong 152.4 mm, ampliando o poder de fogo da defesa do litoral de Santos. Em 1999, os equipamentos foram substituídos pelo sistema de saturação de área Astros II, de origem brasileira, considerado uma cortina de defesa virtual. Em 2004 o 6º GACosM deixou a Fortaleza de Itaipu, sendo transferido para a cidade de Formosa (GO), onde passaria a ser denominado 6º Grupo de Lançadores Múltiplos de Foguetes (6º GLMF), atualmete denominado 6º Grupo de Mísseis e Foguetes (6º GMF).


O 2º GAAAe, atual Organização Militar que ocupa as instalações do antigo 6º GACosM, foi criado em decorrência da ativação da 2ª Zona Militar Aérea, em 1940, na localidade de São Paulo – SP. Teve sua localidade transferida, para defender o arquipélago de Fernando de Noronha durante a 2ª Guerra Mundial (1942-44). Após tal fato, teve seu aquartelamento estabelecido na guarnição de Quitaúna – SP por 60 anos, sendo transferido para a localidade de Praia Grande a partir de 2004, fundindo sua história com a da Fortaleza de Itaipu, que abrigava o antigo 6º GACosM. Está subordinado, na linha de Cmdo, para fins de Segurança Integrada, da GLO e de Ações subsidiárias, em sua área de responsabilidade, ao Comando Militar do Sudeste, por intermédio da 1ª Bda AAAe. Administrativamente está vinculado, ainda, à 2ª Região Militar (São Paulo). Além do elevado nível operacional atingido, a OM tem se destacado nas premiações distribuídas pelo governo do estado de São Paulo na área de Excelência Gerencial.

Fonte: Exército Brasileiro
2º Grupo de Artilharia Antiaérea
Comando de Defesa Antiaérea do Exércit






Placa inaugural do Viaduto Marechal Deodoro construído entre 1905 e 1906.





Cadeia do Forte Duque Caxias

Túnel de comunicação entre uma  das bases de canhões da Fortaleza.



Praça principal de canhões voltada para o canal de acesso ao Porto de Santos. 



Galeria de Comandantes da Fortaleza







Dalmo Duque, Suely Toschi,  Dione Sterque, Claudio Sterque e o Capitão Alexandre. Foto feita por Silvio dos Anjos.

Vista do canal de acesso ao Porto de Santos
























MUSEU DA FORTALEZA



Peças militares do Museu da Fortaleza





































SUMÁRIO INTRODUÇÃO I.  OS PRIMEIROS HABITANTES II.  OS ENGENHOS E OS SÍTIOS III.  OS MILITARES DO ITAIPU IV.  OS  EXTRATIVISTAS E AGRICULTOR...